Uma Família em Apuros (Parental Guidance. 2012)

uma-familia-em-apuros_2012Como bem diz a máxima: “O que uma geração faz, a seguinte desfaz!“. Filhos criados com total liberdade tendem a criar os próprios com uma rigorosa disciplina. Em “Uma Família em Apuros” temos essa inversão no modo de educar os filhos como pano de fundo. Mas na essência o que o filme aborda é o conflito que ficou com a única filha de um casal liberal. Sentiu a liberdade como ausência de amor. Assim, quando pode voou para bem longe desse ninho. E sem intenção de voltar. Mas eis que o destino resolve juntar todos. E agora tendo também a família dessa filha com genro e netos. Além de uma invisível presença dos outros avós.

Não importando o tempo o conceito a se seguir estaria em equilibrar o meio termo com o desejo de quebrar um ciclo. Pois em qualquer relacionamento saudável não se compra um pacote fechado. Ele é construído no dia a dia. E mais! Ciente de que há individualidades ali. Que em vez de anular cada uma delas é tentar encontrar pontes para harmonizar todo o grupo.

uma-familia-em-apuros_01Assim, de um lado temos a personagem de Marisa Tomei: Alice Simmons. Ela é a tal filha única que entendeu a liberdade com o não estar ligada aos pais. Como também pelo modo de ser deles, sentia vergonha deles. É mais uma inversão de valores: pais modernos x filha careta. Com isso mantém sua nova família afastada do que para ela seria uma má influência. Mais a roda da vida gira e um dia a leva a precisar da presença deles. Ter seus pais tomando conta de seus próprios filhos era viver seu pior pesadelo. De dar urticária. Para ela seria uma volta a um passado sem regras.

uma-familia-em-apuros_02Do outro lado temos os pais de Alice. Personagens de Billy Crystal (Artie Decker) e Bette Midler (Diane Decker). Creiam esse casal deu química! Era algo que me perguntei antes. Embora o peso maior seria a também química entre Billy Cristal e Marisa Tomei por estarem em primeiro plano. Enfim, todos em uníssono! Logo na chegada Diane sente e se ressente que os pais de seu genro Phill (Tom Everett Scott) é que são os avós queridos e sempre presente. Que ela e Artie só foram chamados porque os outros avós também tinham uma viagem. Mas Diane despista e decide aproveitar a chance para então conquistar o amor de seus netos. Só que Artie estava mais era preocupado em conseguir um novo emprego. Fora demitido justamente por imprimir um jeito familiar ao narrar os jogos no estádio local. Os patricinadores queriam alguém mais impessoal, que focasse nos resultados dos produtos anunciados e não dando um ambiente leve para os torcedores. Artie tinha o dom da oratória, mas de uma narração romântica demais para os tempos atuais.

uma-familia-em-apuros_03Por conta de uma promoção Phill teria que viajar e viu nisso uma saída para ele e a esposa terem uma segunda lua de mel. Com isso esses dias longes dos filhos – a adolescente Harper (Bailee Madison), o do meio Turner (Joshua Rush) e o pequeno Barker (Kyle Harrison Breitkopf) -, precisavam de alguém da família mais para supervisionar a casa – automatizada -, e os filhos que já seguiam quase um regime militar. Com também severas restrições alimentares. Principalmente em relação a doces: totalmente proibidos. Já dá para imaginar as cenas! Ótimas, por sinal!

O que coloca mais pimenta nessa reaproximação principalmente entre pai e filha era que Alice adotara uma vida mais racional. Com tudo programado. Sem querer imprevistos batendo à sua porta. Mas eles não apenas acontecem, como costumam vir em séries. Assim, além de pai e filha passarem a vida à limpo, além dos netos se assustarem a princípio com uma vida caótica, além de Diane pela primeira vez fazer certas cobranças a Artie, Alice terá que reavaliar o seu papel de filha/mãe/esposa. Eram amarras demais soltas de repente.

uma-familia-em-apuros_04Uma Família em Apuros” não traz uma história tão incomum, nem no mundo do cinema, nem no real. Há muitos jovens de mentes retrógadas. Há muitos que perdem o sentimento família por focar nas conquistas materiais. O que o filme mostra está em se chegar ao equilíbrio entre esses valores: razão e sentimento, e não versus. Onde terá hora que a balança penderá mais para um, mas sem anular completamente o outro lado. Quais as regras deverão ser quebradas? Quais as que deverão se adequar de tempo em tempo? E o filme conduz toda a trama muito bem. Com o timming certo para cada problema e solução. Prendendo a atenção no desenrolar da história, sem a preocupação de se visualizar o final.

Sensível! Com boa dose de humor! Com ótimas atuações do elenco! Bom demais ver Billy Crystal e Bette Midler atuando porque ambos fazem parte da minha memória cinéfila! Assim como também em darem chance a Marisa Tomei mostrar que ela é mais que um rosto bonito em cena! Great!

Gostei! E de querer rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Uma Família em Apuros (Parental Guidance. 2012). EUA. Direção: Andy Fickman. Elenco: Billy Crystal, Bette Midler, Marisa Tomei, Tom Everett Scott, Rhoda Griffis, Dwayne Boyd, Madison Lintz, Gedde Watanabe, Karan Kendrick. Gênero: Comédia. Duração: 104 minutos.

Até que a Sorte nos Separe (2012)

ate-que-a-sorte-nos-separeMais que uma Comédia o filme traz um drama tão comum em muitos lares reais: o do orçamento familiar dando às cartas. Gastar em excesso? Manter um controle rígido dos gastos? Quantos são os que realmente ficam dentro dos limites dos próprios rendimentos? Em “Até que a $orte nos Separe” há eu diria que duas polaridades como exemplos clássicos. A Família do protagonista que vivem esbanjando, gastando em excesso sem a menor preocupação, como se a renda viesse de um poço sem fundo. Já a Família do antagonista vive estritamente dentro do orçamento, contando até as moedinhas desde o iniciar do mês.

Enquanto o dinheiro corria solto, tudo era felicidade para a primeira família. No passado viviam na maior dureza; o que ganhavam mal cobria os gastos com o essencial. Quando então ganham um grande prêmio de loteria. Fazendo então uma promessa: de que nada mais faltaria no novo lar. Assim o casal Tino (Leandro Hassum) e Jane (Danielle Winits) saem da pobreza jovens ainda, com uma filha pequena, e mergulham de cabeça no mundo da riqueza. Onde o céu é o limite, ou nem o é já que o dinheiro compra até o sonho de se sentir no espaço. Compraram o que a infância sonhou…

Ate-que-a-Sorte-nos-SepareMas eis que chega o dia em que o sonho termina. Tino se vê não apenas sem dinheiro, como também que está endividado. Por conta da esposa estar com uma gestação de risco decide não contar a ela, além de ter que ir cortando os gastos. Pior! Voltar a contar cada tostão. Para ajudá-lo nessa empreitada o gerente do Banco (Julio Braga) escolhe seu melhor economista, Amauri (Kiko Mascarenhas). O chefe da Família que vivia sob um rígido planejamento econômico. Que por coincidência moram num prédio vizinho a mansão de Tino. E que sem se dar conta, ele e a esposa invejavam a vida de Tino e Jane. Apimentando a consciência dos adultos, onde ambas as Famílias não chegam a ser Capuletos & Montecchios, tem os filhos adolescentes: Teté (Julia Dalavia) e Juninho (Henry Fiuka). Eles formarão um casal que de certa forma trarão tino, sensatez a guerra instalada.

ate-que-a-sorte-nos-separe_02Tino no fundo tem bom coração. Se no passado de dureza como professor de academia tinha que ralar, ao ficar rico comprou uma para si e seus dois amigos: Nelsinho (Marcelo Saback) e Rickson (Carlos Bonow). Embora um deles ache deplorável ter a presença dele na academia por ter engordado muito, o outro tentará ajudá-lo com as  divídas. Se a compra da academia foi quase um ir as forras em passar de empregado a patrão, a compra de um outro estabelecimento uniu duas paixões: barzinho e o Botafogo. Onde um dia imperou um grande craque da bola: Adelson (Ailton Graça). Esse, ao retribuir a ajuda do amigo, se verá tendo que fazer algo nunca antes pensado. Ou teria sido descobrindo um novo talento em si?

O filme teve como inspiração o livro ‘Casais Inteligentes Enriquecem Juntos‘, de Gustavo Cerbasi. Não li o livro. Mas o mote do filme se baseia no casal, na cumplicidade que deveriam ter até nas questões financeiras. Pois se há discordâncias, e acumuladas, a cobrança no futuro poderá não ter mais volta. Bom quando ainda encontram um caminho para solucionar a crise, e não se chegar a separação de fato e de direito.

Com fortes doses de humor, o filme contou e bem o drama de ambas as Famílias! Gostei!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Até que a Sorte nos Separe. 2012. Brasil. Diretor: Roberto Santucci. Elenco: Leandro Hassum, Danielle Winitz, Ailton Graça, Kiko Mascarenhas, Rita Elmôr, Henry Fiuka, Maurício Sherman, Carlos Bonow, Julia Dalavia, Julio Braga, Marcelo Saback, Vitor Maia. Gênero: Comédia. Duração: 104 minutos. Classificação: 12 anos. Os atores Marcos Pitombo e Luana de Nigro vivem o casal Tito-Jane quando jovens. Inspirado no livro ‘Casais Inteligentes Enriquecem Juntos’, de Gustavo Cerbasi, pelos roteiristas Paulo Cursino e Angelica Lopes.

Jantar com Amigos (Dinner with Friends. 2001)

jantar com amigos_2001jantar-com-amigos_00Qual seria o tempero certo que sustenta uma relação a dois? Que ingrediente desandaria uma bela relação de amizade? A receita do bolo tem que ser a mesma para os relacionamentos também dos amigos? Essas são apenas algumas reflexões para digerir nesse “Jantar com Amigos“. Onde algum ingrediente fez desandar o prato principal.

Um filme que começa meio despretensioso ao falar sobre a intimidade de quatro amigos. Partindo de um casal principal Gabe: (Dennis Quaid) e Karen (Andie McDowell). Que resolveram dar uma força para que dois amigos se conhecessem num final de semana em sua casa de praia. Karen convida sua amiga Beth (Toni Collette), e Gabe convida seu amigo Tom (Greg Kinnear). Boa comida, um ambiente paradisíaco, a felicidade radiante de Gabe e Karen, acabam seduzindo e levando Tom e Beth a também formarem um novo casal. Esse passado feliz fica registrado numa fotografia com os quatro num pôr do sol. Mas o dia-a-dia dos casais são flagrantes que nem sempre são para ser evelados. São nada objetos decorativos. Há segredos a serem mantidos até para não comprometer a receita tão perfeita que seguiam ao pé da letra.

jantar-com-amigos_01O filme então avança no tempo. Gable e Karen para comemorar mais um sucesso – um livro sobre gastronomia italiana -, esperam o casal de amigos para um jantar. Não apenas da nome ao filme, como nesse jantar serão revelados detalhes mais íntimos de cada um também por postura individual.

Beth vem com os filhos, já que Tom tinha um compromisso. Caia uma chuva torrencial. A felicidade dos anfitriões era tanta que nem notaram que Beth não estava a vontade. Algo a incomodava muito. Talvez o casal tenha notado, mas por acharem uma tendência corriqueira dela resolveram ignorar. O que sem perceberem acabou pesando o clima. Como consequência o mal estar caiu na relação: pais e filhos.

Pois é! Num jantar onde o desejo era uma conversa entre adultos, tendo filhos há de se pesar antes num entretendimento para elas. Até em dar as crianças um pouco de atenção. Para que sintam que fazem parte da famíia. Para que sintam que essa outra opção é mais agradável do que a conversa de “gente grande”. Por aí! Só que Gabe achou que bastava mandá-los todos para o quarto do filho, achando que lá teriam bastante coisas para se distraírem. Mas o que escolheram fazer exigia a presença do pai. Aí rolou o climão: do Gable com o filho dizendo que esse sabia como fazer; e de Karen com Gable dizendo a ele que levaria menos tempo indo lá no quarto do que ficar de longe gritando com o filho. Por fim Gable cedeu.

E aí, aproveitando esse momento a sós entre as duas amigas, Beth desabou. Desabafou todo o drama que vinha passando com o marido. Quando Gable voltou a sala de jantar, Karen já tinha a sua opinião formada e em favor da amiga. Mas Gable tentou ser imparcial, pelo menos até ouvir a versão do amigo. O que acabou gerando uma discussão entre o casal. Talvez tenha sido a primeira por conta de opiniões individuais, e que por sua vez entravam em conflito com a do casal. Beth vai embora. Sendo a vez de Tom chegar, contando a sua versão. Aumentando a discussão entre Karen e Gable.

jantar-com-amigos_02A princípio, aquele jantar rendeu mergulhos em si mesmo individualmente, mas também na relação a dois. Ainda mais! Em como ficaria a amizade deles. Dois deles mudaram, ou melhor, tiveram a coragem de seguir por outro caminho. Dois até que ficaram tentados, mas pesaram os prós e os contras. O que perderiam não compensava. Puro comodismo? Pela estabilidade conquistada que perderiam? Os quatro sabem que mudaram. Os que não admitiram encontraram paliativos para seguir como se nada tivesse mudado.

Pode parecer que compliquei, mas Gable e Karen parecem que seguem uma receita que não há lugar para mudanças. São o casal feliz por compartilharem tudo entre eles. Tudo tem o lugar, a medida exata. E o que fazem no final não assusta de todo porque há pessoas assim. A felicidade deles tem que ser a do topo, e para que todos a admirem. Não aceitando quem por não mais seguir a mesma receita conseguiu atingir a tão sonhada felicidade, e com isso sentindo-se jovens novamente, como no dia daquela foto. Acontece que para o casal perfeito que já se encaminhavam para uma futura velhice feliz ao seu modo, essa velha amizade poderia ser não mais bem-vinda.

Como falei antes o filme não se compromete muito a princípio, talvez por querer evitar comparações com “Closer“, por exemplo. Afinal mostrar as aventuras e desventuras de dois casais amigos não parece ser complicado. Bastaria trazer algo incomum em histórias tão comuns. E “Jantar com Amigos” trouxe esse diferencial. Que os quatro atores souberam mostram muito bem. Principalmente pelo olhar. Mérito também da Direção.

Gostei!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Jantar com Amigos (Dinner with Friends. 2001). EUA. Direção: Norman Jewison. Gênero: Drama, Romance. Duração: 94 minutos. Baseado em peça teatral de Donald Margulies, que também assina o Roteiro.

Tubarão (Jaws. 1975)

tubarão-1975_capaFoi-se o tempo em que o cinema produzia obras memoráveis com o poder de arrastar filas quilométricas aos cinemas e ser o assunto principal da cidade a ponto de causar comoção e pânico em multidões e até afastá-las das praias por conta de um roteiro engenhoso. A década de 70 produziu um punhado dessas pérolas e “Tubarão” foi com “O exorcista” um exemplo dos mais significativos. A começar pelo maravilhoso cartaz icônico pintado à mão baseado numa exposição do Museu de História Natural de Nova Iorque, que é reconhecido de longe até hoje.

Steven-Spielberg_Tubarao-1975Steven Spielberg ainda era um jovem desconhecido, inexperiente e ousado quando topou dirigir a aterrorizante novela de Peter Benchley “JAWS”, um projeto dificílimo de ser levado às telas, especialmente numa época ainda sem os efeitos digitais mirabolantes que hoje tornam tudo possível. Foi preciso construir um complexo tubarão mecânico para dar vida ao roteiro sobre um monstro que aterrorizou o balneário fictício de Amity. Problemas técnicos sérios fizeram com que o gigantesco peixe teimasse em não funcionar na maior parte do tempo.

Provavelmente essa dificuldade principal foi o maior trunfo do diretor, que sabiamente decidiu mudar o esquema inicial, optando por mostrar o bicho pouquíssimas vezes revelando-o completamente somente na parte final. Isso criou um suspense indescritível, exemplificado na antológica sequência de abertura, quando acontece o primeiro ataque mortal à noite. A fórmula mágica acabou sendo utilizada à exaustão a partir do sucesso de “JAWS” em toda sorte de filmes de terror sobre monstros aquáticos.

tubarao-1975_Roy-ScheiderNo entanto, “Tubarão” permanece impactante até hoje, se assistido com o olhar de quase quatro décadas atrás, quando a tecnologia cinematográfica ainda engatinhava e os recursos eram basicamente mecânicos e artesanais. Na verdade esse é o grande charme da obra, amparada por uma equipe extraordinária, onde se destaca o elenco talentoso, a direção criativa e vigorosa, a montagem exata e perfeita de Verna Fields, e claro, a música tribal de John Williams, até hoje associada àquele peixe predador. Um clássico.

Por Carlos Henry.

O Último Elvis (El Último Elvis. 2012)

o-ultimo-elvis_2012_posterArmando Bo estreia na direção num filme de qualidade veterana. Trafega num clima de melancolia e reflexão através do personagem Carlos Gutiérrez (John McInerny) que passa sua vida a limpo após um acidente com a mulher e filha Lisa Marie (Margarita Lopez). Sua obsessão extrema é o mito Elvis Presley, de onde extrai sua razão de existência e sustento, pois trabalha como cover do cantor em clubes e bares de pouca categoria.

o-ultimo-elvis_2012_01Curiosíssimo, o paralelo político que o filme sugere com o desencanto, a desesperança e a confusão social e individual provocados pelo panorama atual da Argentina devastada pelo governo de Cristina Kirchner. O resultado da crise aparece nos clones decadentes de Barbra Streisand, John Lennon, Kiss, Madonna e claro, o próprio Elvis representado pelo excelente ator John Mclnerny, numa composição acertada e emocionante, sobretudo quando interpreta com paixão, vários dos sucessos do lendário cantor como “Suspicious Mind” e “You’re Always on my Mind”.

A obra alcança o grau de genialidade em seu epílogo na mansão onde viveu o verdadeiro Elvis em Graceland – Memphis, Tenessee. É lá que Carlos procura um sentido derradeiro para sua triste trajetória baseada num ícone.

Por Carlos Henry.

O Último Elvis (El Último Elvis. 2012). Argentina. Diretor: Armando Bo. Elenco: John McInerny, Griselda Siciliani, Margarita Lopez, Rocío Rodríguez Presedo, Corina Romero. Gênero: Drama. Duração: 91 minutos. Classificação: 10 anos.

Qual é o Nome do Bebê? (Le Prénom. 2012)

Qual-e-o-Nome-do-Bebe_2012Uma divertidíssima Comédia Dramática Francesa que me fez lembrar das Italianas justamente pelo pano de fundo da trama: uma casual reunião em família. Eu citei que também é um Drama? Não, não é! Só se focar com um olhar politicamente correto. É porque nesse jantar muita roupa suja será lavada. Não vai ficar pedra sobre pedra. Assim, abstraiam esse pensamento para aproveitar a diversão com esse barraco em família. Até porque se as pessoas envolvidas pesarem como algo catártico irão remover muita tralha inútil da mente. Ou, como bem disse a anfitriã: “Uma noite onde ninguém tem que pedir perdão a ninguém!” E ligue o fuck you!

Todos irão se tocar que estavam seguindo a máxima de um peso para duas medidas. O que me fez lembrar do filme de Polanski, “Deus da Carnificina“. Até o cenário com a lareira de fundo numa alusão de que tinha lenha alimentando essa fogueira. Tinha muita coisa engasgada pronta para eclodir. Onde o tempero desse jantar começou a desgringolar já na cozinha. Embora sentisse prazer em preparar todo o jantar, Elisabeth (Valérie Benguigui) já estava adentrando numa terceira jornada de trabalho naquele dia. Que além dos cuidados da casa, tinha o ser professora primária. Nem ajuda do marido, Pierre (Charles Berling), obteve para esse jantar.

Com isso os primeiros convidados quando chegam a pegam ainda terminando o jantar. O primeiro a chegar foi Claude (Guillaume de Tonquedec), um amigo de infância da família de Elizabeth. Amigo e confidente dela. Claude comparece sozinho, e até pelo seu modo de ser será posto na fogueira. Cordato e muito gentil, acabará explodindo uma bomba no colo dela e do irmão desta, o Vincent (Patrick Bruel).

Vicent causa uma certa inveja nos demais, pois mesmo não tendo nem levado os estudos a sério, foi o que se deu bem financeiramente. Levava uma vida meio de playboy quarentão até conhecer Anna (Judith El Zein), uma empresária bem sucedida. Após um ano de casados decidem ter um filho. Anna será a última a chegar, quando a discórdia parecia estar apagando, mas na realidade estava em banho-maria.

Para todos quem começou mesmo a discórdia foi Vicent. Que para ele fora uma simples brincadeira com o cunhado. Mas o que quis mesmo foi atazanar a erudição do Pierre. Conscientemente sabia que o outro iria fazer toda uma preleção com o suposto nome que Vincent escolheu para o filho. Anna estava grávida de cinco meses, e nesse dia por uma ultrassonografia ficaram sabendo o sexo do bebê.

Qual-e-o-Nome-do-Bebe_01Pois é! Um nome como pivô. Pensar que um simples prenome fez aflorar: ressentimentos, cobranças, inveja, desânimo, omissões, falsidades, preconceitos, conceitos, segredos… E no que prometia ser um feliz jantar entre eles. Mas que resultou numa apimentada reunião. Mostrando que nem todas as verdades devem ser ditas. A sociedade, ou mesmo na intimidade de um lar a sinceridade não é de toda bem-vinda. De aparências construídas muitos assim preferem viver; se ver.

A bem da verdade o tempo nos coloca como platéia, sem julgar ninguém. Nem mesmo o esteriótipo que o outro tão bem encarna, já que o faz até por força da própria sociedade. As pressões do dia-a-dia o leva a agir assim, meio que ligando o automático. Mal percebendo que acabou se perdendo da sua própria essência ao não assumí-la, nem na intimidade. Ou que não soube canalizar essa sua essência para ser o que é sem se importar com o que os outros pensam de si. E se o outro quer viver, ou não ver que vive esse tormento, isso é um problema dele.

Então, é isso! Roteiro, Direção, Elenco… tudo mais fazem de “Qual é o Nome do Bebê?” um filme redondinho sem nada a retocar. Nem a longa duração tira a atenção. Nem por querer chegar ao desfecho, mas sim em acompanhar todos os segredos que os personagens vão revelando ao longo dele. Um filme que tão logo acabou me deu vontade de rever. Porque há muitas falas. Daí, revendo se pode acompanhar melhor perfomances e cenário. Até mesmo os locais mostrados logo no início do filme. De uma Paris bem sinistra por mostrar que aquelas belas fachadas escondem muita sujeira.

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Qual é o Nome do Bebê? (Le Prénom. 2012). França.
Diretor: Alexandre de la Patellière, Matthieu Delaporte.
Gênero: Comédia.
Duração: 110 minutos.

A Caça (Jagten. 2012)

a-caca_2012_posterDepois da joia rara “Festa de Família”presenteada aos cinéfilos no final do século passado pelo cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, o diretor retorna com uma nova obra-prima poderosa e arrebatadora, após uma escorregadela perdoável em Hollywood.

Em “A Caça”, Thomas volta a falar de um tema tabu: A pedofilia, que neste caso ultrapassa as paredes do castelo no tumultuado jantar familiar do filme que o consagrou e invade uma pequena comunidade, atingindo em cheio um professor de jardim de infância (Mads Mikkelsen), aparentemente vítima da imaginação de uma menina, a pequena Klara, uma de suas alunas e filha do melhor amigo. O mal-entendido cria um sentimento de revolta e ódio na população, interrompendo a rotina do lugar.

a-caca_2012_01O mundo masculino ligado por forte amizade e pela caça abre e fecha um roteiro habilmente desenvolvido e orquestrado numa tensão crescente e cercada de dúvidas e insinuações que conduzem a um desfecho aberto e necessário, pois as discussões sobre o tema não acabam e acompanham o espectador por um longo tempo. Mas o que assombra é a qualidade do elenco, sobretudo os atores mirins: Lasse Fogelstrøm no papel de Marcus, o filho sofrido e amoroso e Annika Wedderkopp na difícil e precisa atuação de Klara, uma menina perturbada e confusa por conta do que sente pelo professor e vê precocemente através do irmão mais velho.

Sem o rigor do “dogma 95” (movimento criado por Thomas e Lars Von Triers que se baseia no cinema mais puro e sem artifícios), mas lançando mão dos seus melhores preceitos, o diretor, conseguiu desta forma, um apuro técnico invejável sem os exageros da máquina cinematográfica. Afinal, uma bela fotografia, montagem eficaz, alguma música e uma câmera mais estável não fazem mal a ninguém. Sem falar que desta vez, o seu nome pôde ser creditado. Ele merece.

A Caça (Jagten. 2012). Dinamarca.
Diretor: Thomas Vinterberg.
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm.
Gênero: Drama.
Duração: 115 minutos.
Classificação: 14 anos

Amor (Amour. 2012)

Amor_2012Na cerimônia religiosa há o: “E até que a morte os separe!“. Para quem assistir o filme “Amor“, e estando dentro de uma união sólida, por certo irá se fazer algumas reflexões ao longo dessa história. Uma delas seria, ou melhor, no íntimo desejaria que sua união durasse tanto assim. E também plena de amor. É algo de se admirar um casal de idosos ainda enamorados!

Mas o Diretor Michael Haneke em “Amor” não traz apenas uma radiografia da velhice batendo na porta do casal Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva). Pois aqui já adentra uma longevidade não apenas com as limitações impostas pela idade, mas também as complicações geradas por alguma doença. Levando a história a abordar temas ligados a isso. É a Medicina também sendo questionada por avaliações, ou mesmo erros médicos agravando as lesões em vez de melhorar. Ou mesmo esperando dela a cura de todos os males. Mais do que “Agora Inêz é morta!“, é o que fazer com isso?

Amor-2012_Isabelle-HuppertHaneke também põe o dedo na ferida no que concerne aos membros mais íntimos da família: os filhos. Em “Amor” teríamos o peso caindo numa filha única, caso ela mesmo se importasse em ajudar o pai em cuidar da própria mãe. Quem faz a filha, a Eva, é a sempre ótima Isabelle Huppert. Quando o marido de Eva lança um olhar para ela após Georges contar o que fará dali em diante, ela mostra que filha ela é. Mais! Na cena final também onde mostrou que foi bom deixado o pai sozinho.

Não há pressa em contar essa história. Até por mostrar toda a dificuldade diante as limitações impostas pela doença de um, e a velhice do outro. Onde um parece ainda entender o quanto está sendo pesado ao outro. E se parece querer espantar os próprios pensamentos pois nele estaria um “Até quando?”. Nessas horas, é música clássica- paixão antiga de ambos -, que o embala.

Agora, há também um outro tema que Haneke traz à mesa de discussão. Só que ao contrar será um grande spoiler. Confesso que fiquei na dúvida se seguiria ou não, mas por ser um assunto que volta e meia aparece nas manchetes jornalísticas, eu resolvi trazê-lo também. Sendo assim, se ainda não viu o filme pare a leitura, pois daqui para frente haverá spoiler.

Então, em “Amor” nos leva também a pelo menos refletir sobre a eutanásia. Não como a julgar o personagem que meio que clamou por ela, mas mais se também pediria, numa igual situação. E talvez se faria o que o outro fez. São os fins justificando os meios? Há realmente a hora que todos os obstáculos tornam-se o gatilho do tiro de misericórdia? O cansaço foi vencido? E outras reflexões mais. Mas uma certeza nos fica, a de que apesar de todos os pesares, o amor entre Georges e Anne não morreu.

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
(Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes)

Amor” é um filme belíssimo! Embora longo, nos mantém atentos a todo o drama do casal. É triste! Até pelo nó na garganta que fica após o fime por entender e aceitar o que foi feito. Talvez seja o nosso lado racional em respeito ao desse casal. Rever? Não sei. Mas com toda a certeza vale muito a pena ver! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Amor (Amour. 2012). Áustria. Direção e Roteiro: Michael Haneke. Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Gênero: Drama, Romance. Duração: 127 minutos.

Killer Joe – Matador de Aluguel (2011)

Killer-Joe-Matador-de-Aluguel_2011Diante de uma dívida atroz, um jovem traficante de drogas propõe à família decadente, desajustada e desunida que a própria mãe seja morta para ganhar e repartir o dinheiro do seguro em nome da irmã Dottie, que apesar de levemente perturbada, destaca-se dos demais pela delicadeza e sensibilidade. O matador de aluguel e detetive da polícia Joe é chamado nesse ambiente cruel para fazer o trabalho sujo e depara-se com uma situação nova e inesperada.

Faz muito tempo que William Friedkin não faz coisa que preste. Depois de pérolas e clássicos como “O Exorcista” “Operação França” e “Parceiros da Noite”, o diretor desandou a carreira com atrocidades do quilate de “Jade” e “Possuídos”. Curiosamente, o mesmo Tracy Letts que escreveu esta última bobagem citada (Bugs) é também o autor da peça e do roteiro que originou Killer Joe.

No mesmo caminho, William também começa a acertar a mão neste século, com esta adaptação muito bem sucedida que nos remete aos filmes sanguinolentos de vingança dos anos 80 ou mesmo aos atuais exageros Tarantinescos. Na verdade, Joe Killer é bem mais do que isso, com um roteiro ágil, interessante, apurado, sem buracos e, melhor de tudo, fácil de acompanhar. Para desenvolver a estória, William optou por uma direção seca e sem novidades com ênfase aos ótimos personagens defendidos por um elenco afiado, onde todos se destacam, especialmente a doce Juno (Dottie) Temple e o atlético e frio Matthew (Joe) McConaughey, exibindo os talentos e os corpos para deleite da plateia. Gina Gershon também fica peladinha e brilha como Sharla, a madrasta sem escrúpulos. Emile Hirsch é Chris, o pequeno delinquente e Thomas Haden Church interpreta Ansel, o patriarca que completa uma linhagem apodrecida e desmoronada.

A trama engenhosa corre fluente em meio a muitas cenas de ultra violência com toques de humor nigérrimo, nudez sem pudores e sexo pesado que inclui uma inacreditável e desconcertante felação à base de frango frito da KFC.

Se a ousadia da produção como um todo é o ponto alto do filme, o desfecho aberto pode frustrar um pouco parte da audiência, ávida por um justo e completo acerto de contas. Ainda assim, “Killer Joe – Matador de Aluguel“é um filmaço e merece ser visto.

O Voo (2012). Anjo ou Demônio no Comando Daquele Avião?

o-voo_2012O Diretor Robert Zemeckis sem dúvida nenhuma merece o crédito maior em “O Voo“. Muitos aplausos por me deixar quase em suspense ao longo do filme. Eu digo “quase” porque não poderia ficar indiferente ao drama maior dessa história: o alcoolismo e o vício por drogas como a cocaína. Primeiro que quando se conhece pessoas que sofrem dessa doença, arrastando para esse vendaval familiares e amigos, fica difícil não oralizar algumas interjeições. Depois, por levar sem pressa esse “day after” na vida desse que apesar de todos os pesares conseguiu salvar dezenas de vidas inocentes. Também porque não deu para segurar as lágrimas no finalzinho.

Agora, a turma de elenco vem logo atrás nesse merecimento: performances excelentes. A destacar: Denzel Washington, Don Cheadle, Kelly Reilly, John Goodman e Bruce Greenwood. Tirando a personagem feminina, os demais orbitando no problema do personagem do Denzel. Sendo que, enquanto dois deles iriam tentar atenuar, ou até tentar inocentar, o terceiro era o que alimentava o problema do protagonista. Mas também estava em jogo o emprego de muita gente. Pois é! Não tinha apenas álcool e cocaína como vilões dessa história. Tinha também uma companhia com aviões que já deveriam ter virado sucata e um dono querendo se livrar desse elefante branco. Colocando mais lenha nessa fogueira.

O comandante Whip Whitaker (Denzel Washington) mesmo ciente que ainda teria um voo para fazer passa a noite bebendo e cheirando. Que para piorar usa a droga para acordar de vez. Ciente que é muito bom no que faz, faz uma loucura para tirar a aeronave do meio de uma tempestade, com isso forçando ainda mais a máquina. Num voo longo, bate a sede por uma bebida, o cansaço e o sono. Daí não pesou também a falta de experiência do co-piloto. Existem fatalidades. Assim como há também propabilidades de algo que começou errado, terminará errado. Mas existe também aqueles que funcionam bem sob forte pressão. E foi o que Whip fez tornando-se um herói, a princípio.

Mas um acidente dessa monta atrai investigações de todos os lados. Entrando em cena o responsável pelo sindicato Charlie (Bruce Greenwood), amigo de longa data de Whip. Ciente de que uma condenação para Whip atrairia uma avalanche de pedido por indenizações, contrata um grande advogado, Hugh (Don Cheadle). Esse, mesmo sendo bom no que faz sabe que terá um outro desafio: o de conseguir levar um Whip limpo perante a personagem de Melissa Leo, um osso duro de roer. Numa de “os fins justificando os meios”, Charlie e Hugh farão algo inimaginável até então.

Ainda no hospital Whip conhece Nicole (Kelly Reilly), que também por um “milagre” não perde a vida, mas em uma overdose. Nasce uma empatia entre os dois. Ele a convida para morarem juntos. A princípio, ela recebe como uma dádiva: ter onde morar. Mas para alguém que quer sair do vício, termina sendo um inferno. Ela não tem forças para nem para resistir, nem para ajudá-lo a sair dessa. Até porque Whip tem fornecedor “à domicílio”, o Harling, personagem do sempre ótimo John Goodman. Que abstraindo o que Harling representa, sua performance me levou a rir.

A pessoa mais fascinante que eu jamais conheci.”

Não sei se pode-se definir como regra geral que os que mais fazem loucuras exercem um fascínio maior aos demais. Se o carisma em parte vem pela ousadia. Mas que diante de uma tragédia onde o vício esteve como coadjuvante o que dizer, por exempplo, pelo “tapinha” que aspirou para deixá-lo ligadão? Claro que assustou vendo-o fazer isso e ciente do que estaria para acontecer. Mas se é algo não raro fora da ficção, fica a pergunta do porque fazem isso. Duas pessoas podem vivenciar as mesmas pressões, mas uma não procura amparo no vício.

Outro ponto alto de “O Voo” é que embora a história mostre que muitos acreditarão que fora um milagre, ou até que mesmo por linhas tortas foi obra de Deus colocar aquele competente piloto salvando a vida de muitas pessoas, Zemeckis mantém-se imparcial ao mostrar os fatos. Com isso crédulos e céticos terão as respostas que queriam. Como por exemplo o co-piloto e a comissária de bordo que ajudaram Whip a pousar aquele avião e evitando uma tragédia muito maior. Onde ambos terão que passar por mais um desafio: no que dirão em seus depoimentos. Se irão contra seus próprios princípios, morais, éticos, ou se apoiarão na fé, e com isso vendo-o como um enviado de Deus naquele momento? Mas para os que não veem Whip como um Anjo da Guarda, verão que nele talento para pilotar fazia dele o número um.

E quanto a Whip? A quão tanto mais ele iria descer na tentativa de salvar a carreira? Qual seria a provação que o levaria a sair da vida do vício? Até porque precisaria de fato de um milagre para voltar a pilotar um avião comercial. De herói a vilão estava bem próximo. Mas ele mesmo que foi o vilão do seu talento. É muito triste quando o vício arruina a vida de uma pessoa. Whip tinha um preço à pagar! Um preço alto.

Para finalizar, além do Roteiro, Fotografia, a Trilha Sonora também fazem de “O Voo” um filme de querer rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).