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Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A metáfora do filme (1996) é forte no sentido social e político com o que ocorreu com a antiga Checoslováquia. A invasão russa foi uma das causas da estruturação de políticas de controle social, de possibilidades e impossibilidades do livre arbítrio, e da presença de tropas militares internas no país.

O nome dado no Brasil é Kolya – uma lição de amor. Em nossa opinião é outro tipo de lição que não se escapa ao amor, de fato, mas um outro aspecto da afetividade.
A partir de um estado de direito destroçado, entre a guerra fria, e a tomada de poder por linhas comunistas extremamente mecanizadas, a Checoslovaquia passou por um processo de aculturação do que seria uma irmandade eslava. Os valores culturais, desde a tradição e sua manifestação estavam ameaçados, pode-se dizer que não se podia ser quem se era.

Se por um lado a burocracia é chamada de feminina em sua ordenação gradual para se atingir um resultado, por outro, na burocracia, a utilização desse mecanismo é masculino em sua evidência atroz. A invasão russa traz consigo velhas querelas e preconceito, põe em cheque a união eslava, no sentido de que a linguagem muito próxima se desintegrava em sua manifestação cultural.

Kolya traz consigo o sifnificado de um exército vencedor, o nome representa a conquista. Essa conquista fica implícita no filme e se define pela inocência de uma criança russa que de certa forma quer ser checa, ela deseja resgatar a alegria da expressão da língua eslava e de sua reificação através da cultura.

A história é simples, e passa em 1988, conta que Louka um violoncelista que fora despedido da orquestra por questões polítcas-burocráticas e de poder estando desempregado se obriga a enterrar significativamente os seus mortos. Ele toca em funerais. O desejo de um carro que pudesse facilitar o transporte de seu instrumento e de possibilitar melhores ganhos para a sobrevivência o põe em uma situação de ansiedade.

Solteiro convicto aceita um pacto de se casar com uma mulher refugiada russa para que esta obtenha a cidadania e assim adquirir o dinheiro para a compra de seu objeto de sonho, o carro. Ela de fato consegue esse direito e imediatamente foge com seu namorado para a Alemanha e deixa o filho com a avó para que logo voltar e buscá-lo. A avó morre e os familiares entregam o menino a Louka.

A situação é estranha para aquele que deseja se manter na sua singularidade de artista sem família. No momento que aceita Kolya, ao mesmo tempo reintegra-se à sua origem eslava, e ao mesmo tempo encara a sua situação política, e sua decisão de favorecer uma mulher russa refugiada, e ao mesmo tempo põe e risco a vida de um inocente, e assim necessita se recompor como um homem de responsabilidade universal, isto é livre e capaz.

O filme mostra a marcha da Perestróika, e a desintegração do bloco soviético. A conhecida Revolução de Veludo que processou a redemocratização do país.  Kolya e Louka buscam se entender, aprendendo uma linguagem irmã que se fortalece com a amizade ao mesmo tempo que questões sociopolíticas.

Com a mudança da política interna, Kolya pode retornar à mãe que vive no oeste da Alemanha, eles se despendem na estação de trem como velhos amigos. Louka retorna a seu país e à orquestra.

Kolya une linguagem, cultura, política, direitos num só movimento representado pela inocência da criança. O menino sem pai, na verdade é “sem pátria” que possui a mesma raiz etimológica. Mais que todas as forças Kolia é o exército que conquista a paz, o vencedor.

Curiosidade: Em 1993 a Tchecoslováquia deixou de existir com a dissolução da federação formando a República Checa e a Eslováquia.

O Banheiro do Papa (El Baño del Papa) é um filme baseado em fatos reais. Um drama que narra a vida e a luta diária de um povo sofrido e seus subempregos, vivendo de fazer bicos e transporte ilegal de muambas (pleonasmo proposital) na fronteira entre Brasil e Uruguai; fato centrado em uma família miserável da cidade de Melo, no Uruguai no ano de 1988, época do Papa João Paulo II e sua Odisséia pelo mundo.

O que mais me chamou a atenção nesse roteiro foi a criatividade, algumas ótimas sacadas, e a fotografia belíssima. São pequenas histórias assim banais que me cativam sendo transformadas em obra de arte. A viagem do maior representante da igreja católica pelo mundo tornou-se assunto corriqueiro depois de um determinado tempo; a imprensa no início fazia aquele alarde, cobertura ampla, geral e irrestrita, o foco estava centrado no Vaticano e na próxima parada de Vossa Santidade Karol Wojtyla.
Melo, que faz fronteira com o Brasil, começou a se preparar para esse santo dia. Os meios de comunicação anunciando constantemente a passagem do Papa por lá, contabilizando 50 mil pessoas participando do evento, deixou o povo pra lá de eufórico. A vinda dele é esperada pela população como uma forma de ganhar dinheiro extra. Muitos deles investiram suas economias comprando comida para alimentar a população nesse dia, bandeirinhas, souvenires e outras bugigangas; outros com a mesma idéia, mas sem recursos próprios, recorram a empréstimos a bancos.
Somente uma família teve uma idéia genial: A do Beto e sua esposa Carmen mais a sua filha Silvia. Pensaram em construir um banheiro, para uso exclusivo dos visitantes que por lá passariam, a fim de atender suas necessidades fisiológicas e cobrariam um valor simbólico de $$ 1,00, com direito a papel higiênico e tudo o mais.
Começaram a construir o banheiro no quintal da casa com tudo o que tem direito: porta, paredes de alvenaria, pia e faltava o detalhe principal o vaso sanitário. Carmen, a esposa que não era boba nem nada, tinha lá escondido no colchão suas economias que guardava para a educação de Silvia, sua filha que sonhava ser radialista. A propósito, a chegada do Papa por aquelas paragens seria o momento ideal para a garota mostrar seu talento, que por sinal vivia ensaiando. Já no dia D, da chegada do ilustre visitante é que Beto foi à cidade comprar o trono, porém, com todo o alvoroço, o formigueiro humano que se formava  naquele dia, fez com que ele se atrasasse e não conseguisse voltar para casa com o tão sonhado objeto do desejo nas costas. Num determinado momento, a família estava antenada com um canal de televisão que noticiava o povo se dirigindo ao local da chegada do divino evento, no centro da cidade e, de repente, vê no meio da multidão Beto carregando a privada e deduz que não chegaria a tempo de terminar o banheiro.
Muito trabalho por nada. Os moradores queriam tanto ganhar uns trocados, mas todo esforço de tempo e dinheiro investidos, tantos sacrifícios foram parar na lixeira. E ninguém naquele bendito dia queria fazer xixi.
Aprende-se muito com histórias desse gênero. Sempre tiramos alguma lição de vida. No carnaval 2010 do Rio de Janeiro, por exemplo, jovens moradores vizinhos do Sambódromo, aproveitaram o momento festivo para ganhar dinheiro. Como os banheiros químicos espalhados pela cidade nesse período não estavam dando vazão, duas adolescentes tiveram a idéia de alugar o de suas casas cobrando R$ 1,00 daqueles que precisavam se aliviar. Se deram bem. Chegaram a ganhar R$ 400,00 num dia de carnaval. Isso foi notícia em vários meios de comunicação, e a associaram a outro fato negativo que esse período proporciona, o de fazer as necessidades em lugares públicos. O Brasil está no ranking do ato obsceno com maior representação entre os porcalhões, que fazem xixi na rua. A repressão para os mijões presos no carnaval resultou em prisão e multa. Haja cadeia. E adianta?
Esse povo pagante é, lamentavelmente, a porcentagem mínima dos educados da nação “não faz mais que a obrigação”, já que muitos preferem deixar seus dejetos nas praças, postes, árvores ou ao lado mesmo do banheiro perdendo o seu propósito. Sem falar nos lixos que são largados em qualquer canto, em qualquer lugar.
Será que uma campanha educativa na mídia, ajudaria? Abraço a genialidade do roteiro pelas boas intenções. Por outra ótica, pode ser interpretada como uma crítica aos atos de um povo, questão de ética e cidadania, por mais simples que ela seja. Fazer xixi no lugar certo, por exemplo. A educação que deveria vir de berço não existe há tempos. Sobra mais um desafio para os bancos escolares. Clap! Clap! Clap!
Karenina Rostov

Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A ideologia de Luz Silenciosa participa de uma situação eminentemente moderna para uma organização que se determina na tradição. O contraponto entre ordem estabilizada e modernidade em seu abrupto tempo não determinado, não esperado se acondiciona na paixão.

Novamente se estabelece no relacionamento a condição de se petrificar, isto é, de se manter na ordem. Essa aparência é deslocada quando se percebe que é a troca conservadora por outra, a ação de um passe, de situação estruturada para outra é também tradicional no sentido de reificação do sujeito na perda de uma seguridade vivida na tradicionalidade.

Não ser tradicional, não pertencer a uma ordem não conservadora é uma atitude, por assim dizer estritamente tradicional e conservadora já que a tentativa de uma liberalidade de amor está também presa, petrificada no sentido de paixão, isto é, de uma determinação voluntariosa que se organiza na perda. Quero dizer que a perda de uma referência, de uma posição tal frente à comunidade, no caso Menonita (mas poderia ser outra) se encontra nessa dualidade entre ganhos e perdas, legitimação de um bem paixão pela morte. Que mesmo é isso, no sentido cristão que a representação do amor exacerbado se encaminha, à morte, à transmutação.

O que define por fim, essa condição de perda é, portanto, o despojo do amor, o desencontro que ocasiona a irracionalidade e a organização. Nesse sentido, penso que esta necessidade da perda é uma construção de perdas que, sem retorno se encaminha à entrópica situação do sujeito frente ao meio, uma localização geográfica da morte no território da paixão.

Luz silenciosa não é para mim uma luminosidade ascendente, senão a perda da clarificação do estado de ser. A ética amorosa, com ou sem conservantismo é a lógica da permanência reestruturada e não do corte, da amarra, mas de uma impossibilidade de ascensão cultural do indivíduo, de sua auto-percepção enquanto falho, enquanto criador de oportunidade, e relacionado não ao objeto individual do desejo, mas da transmutação do amor paixão pelo amor. O sentido de amor maior que é perdido para uma criatura que não consegue, portanto, se estabelecer.

A aculturação, ou a inversão de valores, ou o racional e emocional num embate de qualificação. A perda da memória afetiva, interna, e a percepção externa de uma realidade sociocultural, entre tudo, filhos, futuro, posição, conhecimento, atividade produtiva, fatores que são substituídos por uma posição diversa, mas muito comum e conhecida: amor paixão, indefinição às ordens culturais, motivações emocionais, pouca percepção ou um individualismo que é levado por outro que apesar de conhecido é indeterminado, contrariedade ao controle social da cultural estabelecida, entre outros aspectos.

O que se percebe que Luz Silenciosa não trata do direito de amar, mas a ocasião da paixão e a perda sim de um olhar referencial ao estado do sujeito em sua comunidade. Uma posição do indivíduo -vestido de mundo, em sua mundaneidade- que necessita de uma opção de qualidade para si, de um desejo seu e não de uma relação do sujeito frente a seu universo de conhecimento, ou de pertencimento local, ou de sentido comunitário, e mesmo de realização.

A modernidade implanta um sujeito deslocado da cotidianidade da vida relacional num casamento com a fratura do sentido sociocultural. A opção é mais um acontecimento na vida da individualidade frente à ordem familiar e cultural.

Elizabeth Fehr faz o papel da mulher traída por Johan (Cornelio Wall Fehr) menonita (comunidade religiosa que defende o pacifismo radical e rejeitam o progresso) se apaixona por outra mulher. O ator é de fato também um menonita e se espantou em se ver no vídeo. No filme não está em cheque a questão de opção comunitária, mas as esperanças de uma família, de organização apaixonada pela paz ontológica de se realizar bem por reciprocidade. A comunidade onde foi realizado o filme está ao norte do México. Uma comunidade menos radicalizada nos preceitos, mas determinada em prover o sentido comunitário em sua tradição. Apesar de possuírem carros, e outros equipamentos tecnológicos a comunidade de Johan se mantém na direção de sua crença e organização.

O fato de se apaixonar por outra é antes de tudo um acontecimento humano, mas também é um símbolo de que os fatos exteriores invadem a mais estruturada organização tradicional. Por outro lado se faz como uma definição de que havendo o senso de poder, isto é, o sujeito está em posse de algo que o mobiliza, talvez implícito pela concussão tecnológica, pela impregnação da vontade que o faz redentor, o apaixonado. A vontade de poder então é mais uma presença na vida de todos nós como nos diz Nietzsche e a sua relação com o futuro nos torna vagos e independentes, nos faz a caminho sem direção, mas justificados por aquilo que nos permite realizar a paixão e dentro dela a sua alteração com a morte. Morre com a fé o homem, e nasce do homem a fé em sua condução inexorável à morte.

No espaço estruturado finito não é possível o engano, a mentira e não pode haver perda sem a reposição ideológica presente no outro.

A morte da mulher é o resultado da paixão (alguém deve morrer mesmo que de forma simbólica), morre para que a outra se anteponha à ordem, para que continue a estrutura desejada e amada, para que sublime o amor e retorne à tradição.

A quem assiste ao filme percebe que está inclinado a partir que é em última instância um desejo de permanência que é “obliterado” pela partida.

Sinopse: O núcleo central da trama é formado por Valter (Marat Descartes), Iara (Ana Carbatti) e os dois filhos do casal. Eles moram em um bairro da periferia de São Paulo e seguem a vida normalmente até que chegam novos vizinhos. Valter trabalha durante o dia e estuda à noite. Sua mulher diz que os novos inquilinos não trabalham, que devem ser bandidos. Ninguém sabe exatamente de onde vieram os três rapazes; Iara conta que eles levam mulheres para casa, falam palavras sujas e fazem muito barulho. Os jovens da rua querem ir para a briga, mas Valter quer apenas dormir. Ele não tem uma arma, fica fora o dia inteiro, não vê o que se passa na rua, ouve o que a mulher diz, o que a rua diz, ouve o barulho da música e das risadas dos inquilinos de madrugada. E não consegue dormir. Quem vai morrer? Valter não sabe.

Sérgio Bianchi não é um diretor de trabalhos relaxantes e fáceis. O autor de “Quanto vale ou é por quilo” e “Cronicamente Inviável” prima por uma linguagem dúbia e recheada de situações que denunciam as mazelas da sociedade.

O roteiro de “Os Inquilinos” é alinhavado com uma estrutura aparente singela e comum a vida de muita gente: Numa periferia cercada de perigos, uma família simples é aterrorizada pela chegada de vizinhos de honestidade duvidosa.

Um olhar mais atento vai perceber que o premiado roteiro esconde personagens riquíssimos de identidades dissimuladas e contestáveis. A diversidade oscilante das figuras em cena é valorizada por uma montagem competente com sequencias que mixam realidade com prováveis delírios defendidos por um elenco afiado, incluindo as crianças. A aparente narrativa linear é interrompida por algumas poucas imagens que sugerem e confundem sem explicar dando um tom misterioso e mágico que marcam e dão consistência ao trabalho. A edição digital prejudica o resultado final do som mais alto quando a (ótima) trilha musical é inserida, pecado perdoável neste filme inquietante que mantém a atenção até o estranho desfecho de assombrosa atmosfera cotidiana.

Carlos Henry

Entre Irmãos nos leva a algumas reflexões. Embora trechos dele remete a outros filmes, num todo, ele ganhou uma estória única: a relação entre dois irmãos. Num momento da vida deles. Como canalizaram os ressentimentos guardados com os acontecimentos presente. Mais! Será que o amor constrói, ou destrói a vida de um homem? E o desamor, que consequências futuras trará? Já adiantando que mesmo sendo um bom filme, não me deixou uma vontade de rever.

A relação entre esses dois irmãos – Sam (Tobey Maguire) e Tommy (Jake Gyllenhaal) -, não é transparente. Embora se gostem, não há intimidades, entre eles. Como se vivessem em lugares distantes. Há um tipo de competição entre eles. Inconscientemente. Traçando um paralelo com a realidade… Que como toda relação entre irmãos, essa competição começa na primeira infância. Como também, com o passar dos anos ela se intensifica. Mais! Em vez de acabarem com ela, é alimentada pelos próprios pais. Por conta das comparações entre seus filhos. Será que não entende que cada um é um ser único?

Como se quebra um ciclo vicioso desses? De imediato: seria se dando conta de que tem algo errado consigo próprio, e que não tem como resolver sozinho. Do contrário, poderá chegar num momento que irá explodir. Mais que arcar com as consequências, não deve é transferir para outros, esse seu erro.

O Mito Caim e Abel não se encaixa nessa história. Já que Sam sempre recebeu muito amor do pai, Hank (Sam Shepard). Era tido como o filho exemplar. Se ele fez o que fez, fora levado… talvez por uma superproteção. Sam pelo seu temperamento meio introvertido, pelo peso em ser um bom filho, tenha preferido seguir a carreira militar para sentir-se sobre controle. Nem era porque o pai também fora um militar. Sentia-se muito mais em casa no Quartel, do que em sua própria casa. Mas uma coisa era estar aquartelado, em plena segurança. Outra coisa era estar num campo de batalha. Ai, se vive e como se comete atos desprezíveis.

Guerras! As insanidades, as atrocidades… cometidas e avalisadas por ela. Onde não há códigos de ética, já que atendem aquele que se sente soberano. Ou, as potencias que lucram fomentando as guerras. Por trás delas, uma indústria maior: a bélica. Embora fato real como o com o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, até por não respeitarem a Bandeira da ONU, os Estados Unidos pecaram em invadir o Iraque. Como também em “convencer” até as crianças de seu país, que estavam indo combater o povo mau. A ONU também, nessa Guerra, se preocupava mais com os combustíveis, do que com a população inocente… A estória desse filme, é um desdobramento dessa invasão. No Afeganistão.

“Na guerra, o único heroísmo é sobreviver“. (Samuel Fuller)

Em outras palavras: melhor ser um covarde vivo, do que um herói morto. Agora, é um “vale tudo” mesmo para se manter vivo? Sam mostrou que não estava preparado para esse “poder de matar”. Mas alguém em sã consciência estaria? Mais! Será que faríamos o mesmo que ele? E o que faríamos depois?

Bem, Sam transferiu sua culpa em quem não tinha nada com isso. Por conta disso, é que se eu fosse definir esse filme numa única palavra, ela seria transferência. Mas já dizendo aos da área psico, que aqui eu não sei se teria o mesmo significado do que tem para vocês. Porque esse transferir seria em arrumar um outro pretexto onde culpar alguém por algo, com isso fugindo do seu problema. Não é fuga, mas um descarregar. Sam, por exemplo, não fez aquilo que cobrou do irmão…

Agora ele, seu irmão Tommy. A ovelha desgarrada… Tommy, mais expansivo, ou seria mais explosivo? Um rebelde com causa… Está saindo da prisão, às vésperas de Sam embarcar para o Afeganistão. Como está em condicional, sabe que terá que se comportar. Pagando pelo seu erro. Mas faltava ainda se libertar de outras prisões… Fiquei pensando se alguém mais extrovertido, ou com propensão a ser assim, se levaria mais chances de uma volta por cima.

Sam é dado como morto. Recebeu enterro como Herói de Guerra. Tommy, primeiro se rebela com essa notícia. O amava. Mas sabendo também que ganharia mais um estigma se não se endireita-se de vez. O estigma seria: ‘Por que ele morreu, e não eu?’ Para a Família ele nada valia. Assim, resolve ajudar a cunhada, Grace (Natalie Portman) cuidar das suas sobrinhas: Isabelle (Bailee Madison) e Maggie (Taylor Geare). Carismático, Tommy acaba conquistando as três. Por tabela, uma aproximação do pai.

Ao voltar para a casa… com um pesado fardo… Sam percebe que sua casa ganhou vida com a sua “morte”. Que sua Família estava feliz com o novo Tommy. Mas quem de fato mudara? Sam ou Tommy? Mesmo tendo vivido num inferno, Sam teria o direito de descarregar naqueles que o amavam tanto? Quem mostrou-se mais apto a resolver a questão? Tommy, ao longo da vida, viu, viveu, as mazelas do ser humano. Sam e Hank, só viram, viveram esse lado sombrio da humanidade, nas Guerras.

Sobre os atores… O homem-aranha cresceu! Brincadeirinha! É que ainda está vivo na memória esse personagem de Tobey Maguire. Ele até que atuou direitinho nesse aqui. Mas queria o seu Sam mais arrebatador. De fazer dele um quase vilão, quando fez o que fez. Jake Gyllenhaal sim, esse quase rouba o filme. Só não fez, porque a trama do filme se destaca mais. É uma estória “patrocinada” pela cultura de guerrear com a desculpa de combater o mal. Como a não enxergar que, diante de um desafio, quais valores sobressairão. Em relação aos outros atores, uns, também atuaram direitinho.

Como falei no início, é um bom filme. Vale ser visto mais pela estória desses dois irmãos. A Trilha Sonora está ótima! Mas o filme por um todo não me deixou saudades.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre Irmãos (Brothers). 2009. EUA. Direção: Jim Sheridan. +Cast. Gênero: Drama, Guerra, Thriller. Duração: 105 minutos.

P.s(17/03/10): Faltou contar que o ciclo dessa Família iria continuar. Na cena do aniversário da caçula, a filha mais velha mostrou-se ser igual ao pai. Para sua felicidade pessoal, não se intimidaria em mentir, humilhar, magoar, ferir… quem quer que fosse.

Um Homem Sério

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Um legítimo filme dos irmãos Coen, não há forma melhor de definir. E se tratando de um legítimo filme dos irmãos Coen, torna-se um excelente filme. E quando chega a esse ponto, a linha tênue que separam excelentes filmes de obras primas é quebrada, e os caras conseguem mais uma vez. Assistir a Um Homem Sério é assistir a algo que vamos levar pra frente. Não é apenas um filme de duas horas cativante e levemente divertido, é na verdade uma grande lição sobre a vida.

Autoral até o talo, em certos aspectos experimental – refinando o jeito dos irmãos de filmar – e absurdamente sincero na hora de narrar um pouco do que é a conturbada vida de uma pessoa. Uma coisa admirável no trabalho dos dois está no fato de que melhoram a cada filme, trazem mais bons gosto a seus enredos e sem a menor pretensão ou ganância, contam histórias tão próximas de nós que deixam seus filmes tão humanos e tão sublimes, que as vezes é inexplicável a sensação que vem depois de ver um filme deles.

Descartando O Amor Custa Caro e Matadores de Velhinha, que são algo mais passatempo da carreira deles, todos os outros vem com algo que os interliga: as questões humanas. Sempre com idéias e um estudo que se aprofunda cada vez mais, desde o humor nosense de O Grande Lebowski até o uso da compaixão para falar de violência no mais sério Onde Os Fracos Não Tem Vez, o que fizeram em seus filmes foi por a prova o ser humano, testando suas limitações, seu comportamento e o seu psicológico. Chegam ao ápice com Um Homem Sério.

O ano é 1967 e o sistemático professor de física Larry Gopnick (Michael Stuhlbarg – ótimo) e ele vem tentando ser um bom homem.

Ele vive numa comunidade Judaica, cumprindo a risca os ensinamentos da religião e aparentemente vivendo sua vida sem perturbar ninguém. O problema é que na verdade ele limpou a sujeira e jogou debaixo do tapete, e essa sujeira acumulou.

Sua esposa, Judith (Sári Lennick) cansada dos problemas conjugais, encontra consolo nos braços de Sy Ableman (Fred Melamed) e decide deixá-lo; o irmão Arthur (Richard Kind) não teve tanta sorte na vida e está na casa de Larry como agregado e dando mais dor de cabeça que um filho birrento; o filho Danny (Aaron Wolff) é viciado em maconha e as rebeldias da adolescência estão refletindo na sua vida e pra completar, a filha rouba dinheiro da sua carteira para uma futura cirurgia plástica no nariz.

Não bastassem os problemas dentro de casa, no emprego, cartas anônimas ameaçam seu futuro na Universidade onde leciona, há um problema de suborno com um aluno Sul Coreano, uma dívida que ele não contraiu e que vem lhe dando dor de cabeça. Juntando as pressões do trabalho, com os problemas em casa, Larry começa a passar por uma fase turbulenta. Uma pessoa normal pegaria uma arma e atiraria na própria cabeça, mas Larry é um homem sério, e busca ajuda de três rabinos, que tentarão lhe aconselhar o melhor caminho a seguir e se ver livre de seus problemas.

E tudo o que os Coen gostam de tratar em seus filmes está aqui. Da fabulosa introdução ao desfecho maravilhoso, eles constroem uma cadeia de situações que levam a uma tragédia, e quando isso tudo termina e tudo volta a normalizar, a vida vem com novas surpresas e assim, colocando à prova os personagens mais uma vez.

Entram aí questões que envolvem a razão e a fé, não como coisas distintas, mas elas de alguma forma passam a andar juntas. Por exemplo, a cena que o irmão de Larry, Arthur, lamenta o azar que teve e põe a culpa em Deus, mesmo ciente de que quem constrói a vida não é Deus, mas sim cada um, ou as saídas encontradas por Larry para se ver livre dos problemas, seja espiando a vizinha gostosa, ou dividindo um cigarro de maconha com a mesma vizinha gostosa.

E eles vão desenvolvendo cada um, dando mais espaço para Larry e seu filho Danny, mostrando eles como a equação e o produto dela. Tudo na vida de Larry se baseia em física e matemática; tudo na vida de Danny é a própria física e a própria matemática. Os outros, mesmo que tratados como secundários, não perdem espaço e suas relações são de suma importância para o acontecerá quando chegar ao fim do espiral formado por essas frustrações.

Cada rabino significa um passo dado por Larry até que ele chegue à solução que precisa. E até ele chegar a essa solução, passará por provações que vão mostrar quão sério ele é, mesmo rodeado de tanta coisa chata. E no fim de tudo, o que temos é a mostra de que os problemas encarados e a forma como são encarados, definem o que você realmente é, se é covarde, se é normal, se é sério. O filme chega nessa conclusão e admiramos o que Larry faz como redenção para ele mesmo. Mesmo que seu desfecho não seja dos mais esperados, admiramo-lo como um grande homem.

Lindamente fotografado e com uma recriação belíssima dos anos 60, o filme é um charme só. A edição dos Coen (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes) é ágil e engrandece o trabalho deles na direção. E que trabalho soberbo.

Cada situação matematicamente planejada, dando um toque de humor, melancolia, tristeza e esperança. Eles levam a sério o papo de que a vida é uma grande comédia, e ainda que sempre acabássemos nos pondo no lugar de suas personagens (os Coen conseguem como ninguém fazer isso), estamos sempre rindo do óbvio, do que acontece debaixo de nossos narizes.

E acho que isso que torna seus filmes tão envolventes e fascinantes, ainda que esse se arraste em alguns momentos, os Coen brincam com a vida, parodiando ela e ao mesmo tempo nos fazendo enxergar que é assim que as coisas são. Cada personagem riquíssimo, o texto sempre inteligente e com as sutilizas características de seu trabalho e como tudo no filme é trabalhado só torna ainda mais prazeroso a assistida do filme. Eles conseguem fazer com que tudo em cena contribua para que cada uma delas seja única. Enquanto me emociono com um irmão abraçando o outro numa despedida, dou risada do filho chapado em pleno Barmitsva e é assim o filme todo.

Aqui os Coen chegam com tudo, mostrando que o prêmio que levaram por Onde Os Fracos Não Tem Vez só os tornou ainda melhores nessa grande arte que é fazer cinema. Um Homem Sério é um grande estudo do que é viver e como a vida, mesmo pregando suas peças, pode ser vivida. Sem dúvida, um dos melhores do ano, um dos melhores da dupla, um dos melhores da década.

Excelente.

Nota: 9,6

A Serious Man, França, Reino Unio, EUA (2009)

Direção: Joel Coen , Ethan Coen.
Atores: Michael Stuhlbarg , Richard Kind , Fred Melamed , Sari Lennick , Aaron Wolff.
Duração: 106 min.

O Fim da Escuridão

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Thomas Craven é um policial veterano, conhecedor de truques e que se define como homem perigoso quando porta uma arma. É também um bom pai, que tem uma filha mestre em engenharia nuclear pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e que vem passar uns dias com o pai. Lá chegando, começa a sentir os sintomas ruins de algum problema grave e na porta de casa é assassinada.

Enquanto todos da polícia e mídia pensam que o atentado era na verdade para atingir Thomas, o policial parte em busca dos verdadeiros culpados e descobre uma rede de chantagem, corrupção e segredos de segurança que podem comprometer todo o sistema político do país. Entra na jogada um misterioso grupo de contenção (com o pretexto de defender a segurança nacional) na pessoa do misterioso Capitão Jedburgh (a cena é impagável), que entra na jogada para calar quem sabe demais.

Só que assim como Thomas, Jedburgh tem seus motivos para lutar por justiça, e ambos (um por vingança, o outro por redenção) buscam o fim da sua escuridão particular. O caminho que cada um percorre, é contado nesse filmaço, que marca o retorno do lendário Mel Gibson atrás das câmeras. Trata-se de um suspense policial bastante eficiente e inteligente, com subtramas interessantes e com um enredo que, por mais que seja batido em alguns momentos, consegue ser renovado com bons momentos e diálogos ácidos.

Desde 2003, quando atuou no delicioso Crimes de um Detetive, Mel Gibson apareceu na direção de dois filmes que fizeram bastante sucesso e foram um tanto controversos pelo conteúdo. Causou polêmica com A Paixão de Cristo e fez uma (mesmo que muito violenta) aventura bastante divertida na língua Maia Apocalypto. Em O Fim da Escuridão ele vem no papel que de certa forma o consagrou, o de policial.

Mas nada do motorizado Mad Max nem do impagável Martin Riggs de Máquina Mortífera. Aqui ele é um homem que age principalmente pela razão, sem se deixar levar pela emoção.

Ele começa querendo vingança (o que seria muito mais óbvio), mas a partir do momento que se depara com todas as implicações e perseguições políticas, descobre que é hora de lutar por um bem maior. Vendo assim até parece patético, mas o desenvolvimento dado ao seu personagem no filme é um estudo tão aprofundado que vale a assistida. Diferente de outros filmes, ele não sai por aí matando adoidado, nem perseguindo nem nada. Seu personagem torna-se rico em detalhes e torna-se tão fascinante que torcemos por ele até o fim. Não é qualquer um que faz com que o filme envolva tanto a platéia.

Creio que muitos vão esperando um movimentado filme de ação, mas não é bem assim. O filme tem um enredo louvável e bem fundamentado, sem contar o tratamento todo especial em nos fazer enxergar e compartilhar das dores e desafios daquele homem. E Mel Gibson arrasa. Seus olhos azuis são o espelho de sentimentos desconfortantes, e isso é o que mais chama atenção, pois acabamos criando uma simpatia e uma fé grande nas atitudes dele. O mesmo acontece com Jedburgh, mas como personagem secundário, não é tão trabalhado quanto o de Mel Gibson. Entretanto, perto do fim é impossível não elogiar e nem torcer pelo que ele faz.

E o homem por trás da direção, Martin Campbell (que dirigiu a popular e premiada – 6 BAFTA – minissérie “Edge of Darkness” (1985)) não aparece com as cenas de ação de tirar o fôlego de seus outros trabalhos, como A Máscara do Zorro ou o recente 007 Cassino Royale. Ele cria momentos de uma melancolia tão sincera que emociona sem soar piegas ou gratuito. Dirigindo muito bem e comandando o filme de maneira competente, ele garante cenas interessantes, que mesmo apelando para a fé e o espiritismo – que chega a forçar algumas cenas – não deixam o ritmo cair.

Um exemplo interessante para isso, é quando a filha do Thomas leva o tiro e ele lamenta, chorando e rezando, um dos momentos mais lindos e tocantes do filme. Só que em momento nenhum, ele apela para a emoção como ferramenta para envolver quem assiste, o que faz o filme subir mais ainda no conceito. Ele soube medir muito bem emoção e ação e trouxe um equilíbrio interessante ao filme. Nada é exagerado, nada é gratuito, tudo é racional, tudo é o mais verdadeiro possível.

Só que claro, não poderia desperdiçar os dotes justiceiros do Mel Gibson tão bem aproveitada em outros filmes, e com muita classe, cria momentos que chega a causar uma certa nostalgia, como uma cena que ele enfrenta um carro descarregando uma arma no seu condutor e depois desviando, sem a menor piedade, como fazia antigamente, ou quando entra no carro do vilão e o faz se borrar de medo. Vendo isso, tive a convicção de que Mel Gibson voltou, e tão bom quanto antes.

E o filme não precisava de grandes perseguições e tiroteios sem noção para ser bom. Tudo o que precisava (uma boa história) ele soube usar e analisando pelo conjunto de tudo, não deve em nada. Se apelasse para ação descerebrada, seria um filme bem aquém da capacidade do Gibson, e Martin Campbell não nos brindaria com algo diferente do que ele está acostumado a fazer. Mesmo com os produtores (o mesmo de Os Infiltrados)pedindo mais cenas de ação, o filme não seria um desperdício.

Outro ponto favorável do filme é a excelente trilha sonora, que também passou por um probleminha. John Corigliano teria feito uma trilha sonora, mas foi descartada porque queria algo melhor para atenuar a tensão e as cenas de ação do filme. No lugar dele foi escalado Howard Shore (a pedido do produtor de Os Infiltrados Grahan King, onde Howard havia trabalhado também), e o resultado foi fabuloso. A trilha é muito boa, atenuado as cenas de ação, tornado Thomas Craven é um herói, mas um herói mais humano. As cenas mais dramáticas são embaladas por acordes belos e que deixam as cenas com uma emoção mais sincera.

Tecnicamente é bem feito, tem uma fotografia diferente, onde tudo começa com um to mais escuro e ao longo da fita, vai ficando mais claro. O grande parceiro de Martin Campbell, Phil Meheux acerta bem na sua fotografia. Martin Campbell brincou muito com a luz nesse filme e a jogada é bem válida, criando uma conexão interessante com o título – mesmo a tradução sendo o contrário da original.

O roteiro se perde em alguns momentos, na hora de resolver seus próprios subtramas, dando algumas soluções fáceis e previsíveis, o que de certa forma é sentido também na direção, que contém certas falhas narrativas, só que elas pouco incomodam.

A dupla Willian Monahan (vencedor do OSCAR por Os Infiltrados e talentoso para criar momentos tensos) e Andrew Bovell, deixaram a desejar apenas nisso. Mas acertaram em diálogos que soam politizados sem querer ser (o filme não tem pretensão nehuma, que fique bem claro). Usando a indústria nuclear como pano de fundo, citando desde energia a armamentos (problemas vivenciado nos dias de hoje), eles abusam de possibilidades criativas para contar a sua história.

E pra fechar, porque não um elenco afiado?

Começo com Mel Gibson, equilibrado e atuando de forma convincente, ele não perdeu a forma, quem ver o filme pode até se incomodar com a aparência mais velha do ator, mas só vê-lo em ação e dirá “Mel Gibson voltou!”, e voltou mesmo. Tem também Ray Winstone, personificando o misterioso Jedburgh. Antes, quem interpretaria Jedburgh seria Robert De Niro, chegou a ser contratado e rodar algumas cenas, mas logo se desligou do projeto por conflitos criativos. No lugar dele entrou Ray Winstone, que mesmo não tendo a atuação mais estupenda da sua carreira, é muito competente e atua direitinho. Os outros coadjuvantes são bem colocados, também atuam direitinho, sem exageros nem nada. Destaque para Damien Young, que vive um senador bem falso. Pra mim, ele foi o melhor coadjuvante do filme.

Bem dirigido, com elenco afiado e um enredo bonzão, criativo e inteligente, O Fim da Escuridão é um presente para fãs de suspenses policiais, fãs do Mel Gibson e fãs de bons filmes. No fim de tudo, é algo que justifica seus meios, possui um fim lindo (sim, o final é lindo mesmo!) e que dá fim a escuridão de seus protagonistas. Tudo redondo e bem encaixado, um filmaço.

Eu recomendo.

Nota: 8,5

End of Darkeness, Reino Unido/EUA (2009)

Direão: Martin Campbell.
Atores: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Caterina Scorsone, Shawn Roberts.
Duração: 111 minutos.

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“Quem quer ser um milionário?”

Você certamente ouviu muito isso quando Silvio Santos apresentava seu famigerado “Show do Milhão”. Claro, como todos sabem, os enlatados comerciais que nos fazem engolir, nada mais são que adaptações dos programas de sucesso do exterior. Sua influência é tamanha que atrai mais e mais telespectadores. Mas o que dizer de um cara, de 18 anos, de origem pobre (melhor, paupérrima), sem a mínima perspectiva de um dia crescer na vida.

Um rapaz sem estudo, sem futuro, sem nada. Ele vem, responde uma série de perguntas, é subestimado pela sua origem, e leva o grande prêmio, fica rico e surpreende o mundo. Essa é a história de Slumdog Millionaire, prefiro chamar assim, odiei a tradução em português “Quem quer ser um Milionário”. O título em inglês, se traduzido ao pé da letra seria algo como “Favelado milionário”, título que em minha opinião é o mais convincente.

Essa é a nova história contada por Danny Boyle, um dos meus diretores inglês preferido. Aqui ele conta a história do jovem Jamal, uma criança que desde cedo aprendeu a se virar. Junto com o irmão, vive no lugar mais pobre da pobre Índia, catam lixo para comer, correndo atrás de viver no céu, no meio do inferno. Após a perseguição religiosa, que é constante em muitos países da Ásia, ele perde a mãe, e fica a mercê da sorte, junto com o irmão mais velho, e uma coleguinha que ele decide ajudar (na boa, pobre tem coração, isso é fato!).E aos poucos a câmera nervosa de Boyle trilha a história de Jamal, até ele chegar à TV e conquistar seu prêmio.

O filme vai intercalando passado e presente, não de maneira clichê, do tipo que vemos em filmes que usam disso para atenuar ação. Aqui é diferente. Mostra 3 Jamal, um pequeno, um maiorzinho e o jovem. A cada pergunta do programa ele revive a infância, relembrando tudo. Ele mais grandinho é como se privilegiasse mais a história de seu irmão, Salim, e da menina, Latika. Ele jovem une tudo isso e cria o clímax do final.

A direção segura do competente Boyle dá um ritmo incessante ao filme. No começo, uma caçada nas entranhas da Índia, onde ficamos chocados com o descaso daquele pobre país, fica evidente a preocupação em mostrar a índia que realmente existe, não a índia que a novela das Oito idealizava. Ele nos conduz, no meio da podridão, a uma esperança que ainda existe no personagem, mesmo com ele comendo o pão que o diabo amassou com gosto.

O mais legal, é quando vai mostrando ele respondendo as perguntas, e entra um flash, e o que é mostrado no flash tem ligação direta com as respostas que ele tem que dar. Só que coitado, acaba vítima da suspeita, e é torturado por dois policiais que querem obrigar ele a confessar que está trapaceando. E vamos acompanhando tudo, ao longo do filme torcendo cada vez mais por Jamal. A emoção que Boyle cria é incrível, e mostra porque ele é tão cultuado mundo afora.

A parte técnica do filme é quase perfeita. A fotografia é linda, feia, borrada, suja, linda. Ela entrega uma veracidade desgraçada ao filme, em alguns momentos lembra Cidade de Deus. A trilha é incrível, ela lateja em nossa cabeça, ela cria o clima do filme, ela é parte do sucesso. Estou sem palavras, é só ouvindo pra entender.

A edição primorosa é um atrativo que vale a pena ser citado, cortes rápidos, idas e vindas, tudo aliado ao bom gosto das cenas, criando imagens que chocam (a morte da mãe…) e que encantam (eles ainda criança, na chuva…), que nos deixam fascinados (todos os enquadramentos possíveis de uma Índia bonita…), que nos deixam com pena (as crianças do Manoon…). Um estudo sobre os enormes problemas da Índia, mostrada de maneira verdadeira, sem esconder.

O elenco é espetacular. Sem muitas caras conhecidas, a galera arrasa. Primeiramente os que interpretam o trio principal (Jamal, Salim, Latika). Aquelas crianças estão incrivelmente ótimas. Suas atuações soam naturais, convencem e valem à pena. Os jovens roubam a cena. O que interpreta Jamal é o melhor deles, cara de sonso, mas muito esperto, de coração nobre, mesmo sendo tão pobre.

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Seu irmão, Salim, também convence bem, ele acaba lembrando os personagens de filmes brasileiros sobre a favela. Sua interpretação é tão verdadeira, tão convincente que arrepia. A que faz Latika, a mais fraquinha, porém ainda assim tão boa quanto, não é daquelas personagens que só tão ali pra preencher lingüiça, é como se sem ela não haveria aquela irmandade, ela é o 3° mosqueteiro, como sugere Jamal na linda cena da chuva.

Mas o grande ponto forte do filme, fica com a bela homenagem à Bollywood. Enredo bem redondo e enxuto, com seus clássicos usuais clichês (menino pobre ficando rico, amor da sua vida, conflitos com o irmão malvado e por aí vai) e sem contar a dança logo no final do filme, que é uma das marcas mais famosas desse cinema. Há ainda espaço para recortes e citações ao cinema e aos atores famosos por lá.

Juntando a isso todos os outros que ao longo da história aparecem, Slumdog Millionaire é um filme que vai além do entretenimento. Aliado a tudo de ruim mostrado na tela, ainda abre espaço para a reflexão sobre o 3° mundo que ainda existe, sobre a infância roubada nos países pobres, sobre a escravidão da TV e de seus Realities Shows que conquistam mais e mais adeptos. Os bastidores, a inveja, o submundo, tudo retratado sem subestimação de nossa inteligência, tudo mostrado como realmente é.
Indicado a 10 OSCAR e vencedor de 8, Slumdog Milionaire é uma mais que deliciosa surpresa. Um filmaço!

Nota: 10 (mais que merecido!)

Slumdog Millionaire, EUA/Reino Unido (2008)

Direção: Danny Boyle.
Atores: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Rajedranath Zutshi.
Duração: 120 min.

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Ilha do Medo (Shutter Island. 2010) não é um tipo de filme que eu tenho interesse em assistir. Por exemplo, se fosse dirigido por M. Night Shyamalan, eu jamais iria ao cinema (esperaria para ver o filme quando saísse em DVD). Entretando, assinado por Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, tive que ir ao cinema logo na estréia aqui, nos Estados Unidos.

Sabia que o enredo tinha como pano de fundo a tal ilha do título, que funciona como uma instituição mental. Logo na primeira cena, DiCaprio está lavando o rosto, e já dá uma noção que o clima do filme vai ser pesado. De repente, nota-se que ele está indo para tal nebulosa ilha, a qual me fez lembrar Alcatraz e logo me veio a mente: “Um estranho no Ninho.” Quando o “ferryboard” vai chegando no local ao som altíssimo da musica “Fog Tropes”- pensei que barco iria afundar a lá Titanic.

Na verdade, “Ilha do Medo” é um filme muito intenso, com algumas imagens muito preocupante, inclusive crianças afogadas, campos de concentração nazistas, pilhas de corpos, sangue, corredores escuros e bizarros da prisão, pesadelos e alucinações. Contém ainda forte, mas não generalizada, linguagem chula, e tabagismo. Com algumas surpresas e reviravoltas, nos lembra que as coisas podem se transformar drasticamente a qualquer momento.

Scorsese ainda adiciona personagens assustadores. DiCaprio, em outro excelente desempenho (e de vez, perdeu a cara de bebê, e parece um homem!), tenta resolver o caso do desaparecimento de um dos prisioneiros (paciente!) como é enfatizado pelo o médico chefe do hospital interpretado por Kingsley, enquanto é perseguido por seus próprios demônios horripilantes. O personagem tem momentos difíceis, mas DiCaprio habilmente carrega todas as dores nas costas. O resto do elenco também é muito bom, incluindo: Kingsley e Max von Sydow (a voz mais intensa do cinema mundial!), Ruffalo como o parceiro de compreensão suspeita, que concorda com tudo que o personagem de DiCaprio diz, e repete: “boss” a todo instante; Michelle Williams como a esposa maníaco-depressiva (em algumas cenas, não aguentei o olhar de “peixe morto”, que ela usou) e em breve, mas memorável aparições de Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Hayley e Ted Levine.

Martin Scorsese mexe com o cérebro do espectador – em todos os níveis. Ele não trata de resolver um mistério como em alguns instante, pensei que “Ilha do Medo” fosse um primo-irmão de “O Sexto Sentido” ou “ Os Outros.” Apenas no final, notei que o filme é mais sobre a resolução da loucura, mas também não é como “Um estranho no Ninho” (fazendo uma crítica sobre os maltratos dos pacientes nos hospitais psiquiátricos!). O horror do filme intriga sem enganos, sem sobressaltos, sustos, e tece uma leitura sobre o assombro da insanidade. Os ângulos que Scorsese ilustra o filme são maravilhosamente impactantes, que vão se encaixando nos detalhes no decorrer da narração. Cada quadro é bem articulado pela surpreendente fotografia de Robert Richardson e a edição sempre perfeita de Thelma Schoonmaker.

Quando saí da sala de cinema, fui perguntado por meu amigo: “o que achou do filme?” Tive que parar e pensar no que iria dizer, pois ainda estava na minha mente a pergunta feita por Teddy Daniels (Dicaprio), no final do filme, algo como: “É melhor para se viver e ser um monstro, ou morrer como um homem bom?.” Eu, em vez de responder sobre o que tinha achado do filme, repeti a pergunta do personagem de DiCaprio para o meu amigo. Ele disse: “esse filme é uma loucura, e pode ter certeza que vai ser um fracasso!.” Ele, norte americano, já foi logo justificando que o povo daqui (Estados Unidos) não vai apreciar um filme como “Ilha do Medo.” Apreciando ou não, o filme toca em feridas (acho que eles não vão nem prestar atenção), tais como as sugestões de vários medicamentos experimentais, e anti- depressivos. Um exemplo simples, pode ser visto nas escolas públicas do país, onde alunos, (já tão jovens, vivem na base de anti-depressivos). O transtorno bipolar aqui já é algo tão comum quanto ser de credo ou raça diferente. Ainda, não sei dizer o quanto gostei da “Ilha do Medo.” O filme me fez refletir em tantas coisas, principalmente pelo fato como as drogas (legais!) tem tomado conta do dia-a-dia das pessoas daqui.

Muitos elementos fortes são ilustrados por Scorsese ou pelo roteiro de Laeta Kalogridis. Por tanto, esse filme é não uma diversão para um final de semana! Não me importo em repetir que esse não é tipo de filme que gosto de ver. A primeira hora é tão perturbadora como qualquer filme de terror que evito assistir. No final, me senti perdido sem saber o porquê. Então ontem a noite, fui rever o filme querendo realmente saber se Teddy Daniels (DiCaprio) é vítima de uma conspiração elaborada, é esquizofrenico ou ele está apenas enganando os médicos e ao mesmo tempo, nos enganando. A loucura perturbadora illustrada neste filme me deixou a sensação, que ela é sim, contagiosa!.

Ah, tenho que admitir que a trilha sonora do filme é espetacular !. Não é um trabalho orIginal, mas Robbie Robertson selecionou um material extraordinário para o filme. No fim, temos a voz da Dinah Washington cantando “This Bitter Earth” “entrelaçada” com a linda música de Max Richter “On The Nature Of Daylight,” em que ela canta algo como:

…que bom é o amor
que ninguém partilha…
Senhor, esta terra amarga
Sim, ela pode ser tão fria
Hoje você é jovem
Em breve você é velho
Como minha vida fosse como um pó…

Sensacional! Eu amo os roteiros de Nancy Meyers! Seus diálogos são tão reais. Contando as vicissitudes, as alegrias, as tristezas, as surpresas… tão rotineiras em nossas vidas. E sendo ela a detentora da estória, sua Direção flui melhor.

Mesmo o título explicando bem, eu diria que é Realmente Complicado. Viver? Não! Os relacionamentos. Mesmo que cheguemos num ponto que parece já estar tudo estabilizado, o inesperado se faz presente. Com isso, lá vamos nós desatar um novo novelo. Agora se ele vem com o sabor de comida requentada… será preciso achar um ingrediente novo para realçar, ou até para enganar o nosso paladar.

Tendemos a complicar mais, onde nem teria porque. Mas insistir para que? Ou por que? O melhor seria virar a página e seguir em frente. Mas tem ocasiões, lances… que até que vale a pena insistir um pouco mais. Numa de: ainda dá um bom caldo. Ou mesmo, por esperar que isso aconteça.

Simplesmente Complicado‘ até poderia atrair somente um público bem mais adulto. Mas por eu ver tantos jovens com mentes bem retrógradas, que os convido a assistirem também. Assim, quem sabe já vão deixando de complicar seus relacionamentos. E até para que vejam que três jovens do filme também complicaram a vida dos pais. Conto já, o que fizeram. Só um, o futuro genro – Harley (John Krasinski), que não. Além do que ele é ótimo!

Antes, quero falar dos atores que formam o triângulo amoroso.

Meryl Streep está glamourosa. É de fato uma Grande Diva do Cinema. Nesse filme, enquanto deu química com Alec Baldwim, com o Steve Martin não decolou. A mim, ele parecia intimidado com a presença dela. Fiquei pensando se um outro ator teria esquentado mais a estória deles. Não que fez feio, mas eu ficava querendo que chegasse logo outra cena dela com o Alec. E Martin já conseguiu química contracenando com a Goldie Hawn, Daryl Hannah, Queen Latifah. E creio que nem é pela Meryl. Pois recentemente conseguiu química com Stanley Tucci. Enfim, não gostei da escolha de Steve Martin para esse filme.

Agora sim, entrando na trama do filme…

Meryl faz Jane. Mãe de três filhos – Luke (Hunter Parrish), Gaby (Zoe Kazan), Lauren (Caitlin Fitzgerald). Dona de uma Confeitaria (Padaria). Que enfim, conseguiu manter um bom relacionamento com seu ex marido, Jake (Alec Baldwin). Encontra-se com amigas – Joanne (Mary Kay Place), Trish (Rita Wilson), Diane (Alexandra Wentworth), Sally (Nora Dunn) -, de vez em quando, para, entre degustações de suas receitas, conversarem sobre a vida.

Jake, casado com uma mulher mais jovem, no auge da sua carreira profissional, já pensando num – desfrutar a vida sem mais correrias… se vê envolvido com um enteado pequeno, e a atual esposa querendo um filho com ele. Que pelo jeito, está querendo mais um ‘Lar Doce Lar’… Filhos criados… Uma mulher boa de cama e fogão… e já resolvida por um todo. Onde mais encontraria tudo isso? Com a atual? Ou com a ex?

Então, Jane e Jake, após dez anos de divórcio, começam a ter um caso. E ai começa a complicação. Não deveria. Mas

Para Jane, estava um gosto nada desejado de vingança. É, mesmo não sendo ético, era como se estivesse vingando daquela que roubara seu marido. Que mandasse às favas, as convenções sociais. No auge da sua independência, tinha mais que curtir esse caso amoroso. E saber se conseguiriam reacender a velha chama dessa paixão antiga. Jake estava achando que redescobrira o quanto a amara. Será mesmo que estava novamente apaixonado pela ex esposa?

Ambos, aproveitam para discutirem a relação de outrora.

Paralelo a isso, Jane conhece o arquiteto que conseguiu colocar no papel a tão sonhada ampliação da sua casa. Ele é Adam (Steve Martin). Ainda sofrendo com um divórcio recente. Mas que se encanta por Jane. Complicando a relação por não querer ser mais um na cama. Querendo exclusividade. Ora! Será que não via que deveria curtir mais a vida nova: voltar a ser solteiro.

Bem, nem todo mundo teme a solidão. E chega a uma certa altura da vida… que é melhor cueca pelo chão, de vez em quando, do que na gaveta, permanentemente.

Estaria Jane dividida entre dois amores? Ou pensando em ter um homem novamente em casa?

Mas não fica apenas nisso. Pois mesmo estando já crescidos e morando fora do lar, seus filhos não gostaram dessa novidade: seus pais tendo um caso. Queriam o que? Ver a mãe entre preparando quitutes e cuidando da horta? Achavam que ela estava velha para os romances? Ai, a mãezona se sente insegura. Agrada ou não os filhos?

Em a quem ou o que Jane ouviria… Seu coração? Seu corpo? Sua mente?…

Num Top Ten de Comédia Romântica, ‘Simplesmente Complicado’ já garantiu um lugar. O filme é excelente! Eu ri muito. E a cena do baseado é quase um convite a experimentar. Ah! A Trilha Sonora é nota mil! Sem esquecer que o lugar onde a Jane mora, é paradisíaco: Santa Bárbara.

Por fim… Não compliquem, pessoal! Pois a vida é curta!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Simplesmente Complicado (It’s Complicated). 2009. EUA. Direção e Roteiro: Nancy Meyers. +Cast. Gênero: Comédia Romântica. Duração: 118 minutos.

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