À Procura do Amor (Enough Said. 2013)

a-procura-do-amor_2013_capaPor Pedro H. S. Lubschinski.

a-procura-do-amor_diretora-nicole-holofcener_e-atoresIsso vai soar bobo, mas você partiu meu coração e eu estou velho demais pra essa merda.”

À Procura do Amor é um filme sobre pessoas comuns, como eu, você ou alguma pessoa que conheça. Da mesma forma, as situações vividas por essas pessoas não fogem dessa banalidade: uma adolescente acaba de ser aceita na universidade; marido e mulher vivem o dilema em torno da demissão de uma empregada; e o casal protagonista, divorciados de meia-idade que se conhecem e começam uma relação. Não existe nada de espetacular acontecendo nessa produção de Nicole Holofcener. Por outro lado, por trás de todo esse viés de normalidade, existe algo mágico acontecendo: a vida, ora embalada pela doce música de um riso, ora amargurada por um choro salgado.

Assim, não espere ao longo da narrativa cenas marcantes e frases de efeito. As situações vistas aqui podem até vir a tornarem-se marcadas em sua memória, mas isso será muito mais pela empatia com os personagens do que por alguma abordagem inovadora. Albert (James Gandolfini) e Eva (Julia Louis-Dreyfus) são “gente como a gente”: quando percebem estar se apaixonando mal conseguem esconder o nervosismo ao lado do companheiro, o medo de tropeçar nas palavras que faz hesitar durante a fala e aquela ânsia em finalmente beijar os lábios que estão ao seu lado, finalmente libertando-se de um desejo ainda temeroso de não ser retribuído. Da mesma forma, quando os dois embarcam na primeira transa, muito antes de se preocupar com o prazer daquele ato ou com tornar tudo romantizado e inesquecível: o que preocupa é não deixar o parceiro ver as gordurinhas sobressalentes e arriscar um término pela falta de boa forma. Poderiam ser mais humanos que isso?

a-procura-do-amor_2013_02Os textos a seguir contém spoilers.
Mas me precipito. Antes de falar das figuras que habitam esse À Procura do Amor, vamos às devidas apresentações: Eva é uma massagista que está divorciada há alguns anos e convive com a proximidade da partida da filha para a faculdade. Em uma festa ela conhece o divertido – e não atraente, como diz em um primeiro momento – Albert, que tal qual ela, é divorciado e logo verá a filha viajar para a universidade. Logo eles passam a sair juntos e se interessar um pelo outro, descobrindo-se, finalmente, apaixonados. Porém, logo eles enfrentarão um complicador nessa relação, já que na mesma festa Eva conheceu e se tornou massagista e amiga de Marianne (Catherine Keener), que logo começa a revelar diversos detalhes não-agradáveis sobre o ex-marido – e que logo a protagonista descobre ser Albert.

Nas mãos de Nicole Holofcener, que assina o roteiro e a direção da obra, À Procura do Amor se torna um dos filmes mais agridoces do ano. Rimos com seu casal de protagonistas que tanto valor dá ao riso ao lado da pessoa amada – não são poucos os momentos em que os personagens dizem se sentir bem por rir ao lado do parceiro -, mas também sentimos o gosto amargo que o desgaste das pequenas coisas inflige ao cotidiano daquelas duas figuras. Dito isso, por mais leves e simpáticos – ou exatamente em função disso – que sejam os personagens e situações do longa, não deixamos de sentir o peso que determinadas ações despertam, assim, ver Albert em certo ponto se esforçando para deixar sair as palavras que iniciam esse texto é algo dolorido para os dois personagens principais e para o espectador, que precisa ver aquele sujeito com quem se afeiçoou dizer uma frase que impacta não pela intenção de causar o impacto, mas por revelar um sujeito de prosa simples que faz da própria dor um pequeno lapso de poesia.

a-procura-do-amor-2013_julia-louis-dreyfus-e-james-gandolfiniConduzido com mão leve por Holofcener, que jamais tenta chamar a atenção para sua câmera, À Procura do Amor valoriza os diálogos e os atores que os encenam, sendo assim, é uma enorme vantagem contar com dois atores em tamanha sintonia como Louis-Dreyfus e Gandolfini. A primeira prova que há lugar para seu talento também na telona – vale lembrar que a atriz é colecionadora de elogios e prêmios pela participação em três seriados de comédia: Seinfeld, The New Adventures of Old Christine e Vice -, equilibrando com precisão comédia e drama em uma personagem que, muito em função do carisma gigantesco da atriz, logo ganha toda a empatia e torcida do espectador. Já Gandolfini, aqui em seu último papel no cinema, já que veio a falecer pouco tempo antes da estreia da produção, oferece um belíssimo canto de cisne em um desempenho brilhante, que pode ser menosprezado por o ator não se entregar a muletas dramáticas em um papel à primeira vista simples. Basta olhar atentamente para perceber o quanto Gandolfini valoriza os pequenos gestos e expressões na pele de Albert, da timidez palpável do sujeito nos primeiros encontros às pequenas pontadas de decepção que tomam seu rosto em diversos momentos, passando pelo excepcional trabalho vocal do ator, que utiliza sua pesada respiração como forma de evidenciar os sentimentos do personagem ao espectador. Uma performance bonita e recheada de carisma, que merecia muito mais reconhecimento ao longo da temporada de premiações – e digo isso sem em momento algum me deixar levar pela morte do ator, já que considero seu trabalho aqui muito superior ao de Bradley Cooper e Barkhad Abdi.

Derrapando por vezes em uma ocasional quebra de ritmo e na falta de desenvolvimento dos personagens coadjuvantes – Marianne parece viver apenas para reclamar do ex-marido; a relação de Chloe (Tavi Gevinson) e a mãe encontra uma resolução abrupta e insatisfatória; o casal de amigos de Eva, Sarah (Toni Collette) e Will (Ben Falcone), acaba jamais ganhando a empatia desejada do espectador -, À Procura do Amor é um filme leve e despretensioso, mas que ao seu término deixa o espectador se sentindo bem e com um gostinho de “quero mais”, ansiando por mais tempo ao lado dos simpáticos protagonistas que acompanhara ao longo dos poucos mais de noventa minutos de projeção.

Por Pedro H. S. Lubschinski.

Conflitos das águas (También la lluvia, 2010)

conflito 1Conflito das águas, ou También la lluvia no original, é um filme espanhol que pode parecer, à primeira vista (ou nos primeiros 20 minutos de filme), uma tentativa mal executada de  discutir a relação passado-presente e as continuidades do processo Histórico. O enredo? No ano 2000, uma equipe de filmagem espanhola vai à cidade de Cochabamba, na Bolívia, para rodar um filme sobre a chegada dos espanhois na América, a dizimação de milhares de nativos e o papel de Bartolomé de Las Casas e Antonio de Montesinos na “defesa” dos indígenas e na denúncia das atrocidades cometidas pelos colonizadores. Durante as filmagens, estoura a Guerra da água, na qual se envolvem a grande maioria dos figurantes contratados e cujo principal líder é Daniel, quechua que interpreta Hatuey, o mártir nativo.

A proposta do filme é audaciosa e bastante difícil de ser realizada de uma maneira interessante, que fuja do clichê e proponha uma reflexão, para além do “espanhois de 1500 eram malvados e os índios muito ingênuos e dóceis”. Mas qual não foi minha (agradável) surpresa ao perceber que um filme que parecia um simples mais-do-mesmo, através do recurso à metalinguagem, se revelou um prato cheio de questões inteligentes e profundas. Algumas delas discutirei a seguir.

Primeiramente, um brinde à tradução do título. Pois é, eu que não compreendo qual a dificuldade dos tradutores em fazer uma tradução literal dos títulos de filme, percebi que, dessa vez, ainda que eu tenha quase certeza que não foi intencional, o título em português acrescenta um elemento interessante. Ora, o conflito é das águas sim: luta no presente pela água, claro; mas também um conflito das águas do oceano. O choque das águas do Atlântico que traduz o próprio choque entre as culturas e os povos. O título original também traz uma questão importante, visto que, ao dizer que a água é chuva, se está afirmando que a água é uma força da natureza e que forças da natureza não podem ser transformadas em mercadoria. Justifica-se e legitima-se assim, o levante popular boliviano.

conflito 2As personagens principais são três: Costa (Luis Tosar), Sebastián (Gael García Bernal), os cineastas; e Daniel (Juan Carlos Aduviri), líder quechua no presente e nativo no passado. É sintomático que a mesma pessoa que lidera os indígenas na Guerra da água interprete Hatuey; dessa forma fica clara a intenção de demonstrar uma continuidade no processo histórico, de exploração e resistência. Daniel é líder, mártir e heroi. Já Costa e Sebastián ora tendem a vilões, ora a herois, sem nunca se tornarem completamente um ou outro. De início, parece que Sebastián será o espanhol bom e Costa o mal; mas ao longo do filme tal impressão se desfaz, na medida em que ambos trazem à tona o dilema entre se compadecer do sofrimento dos seus figurantes e sacrificar o projeto cinematográfico de suas vidas.

Embora não fique tão clara quanto a associação entre Daniel e Hatuey, Costa e Sebastián são como Las Casas e Montesinos. Não é que não se revoltem com a situação que se dá diante de seus olhos, mas há muito em jogo para ser perdido. Como está na capa do DVD: “Muitos querem mudar o mundo… Poucos querem mudar a si próprios.” A grande cena do filme a ser rodado é aquela em que 13 indígenas são queimados vivos para servirem de exemplo para os outros nativos. Montesinos tenta a todo custo dissuadir os espanhois e impedir tal barbaridade, mas ao ser ameaçado de prisão, assiste ao massacre calado. Essa não vilanização ou heroicização dos dois cineastas é uma das sacadas mais inteligentes do filme: nessa história, não há espaço para herois brancos, seja no passado, seja no presente. Nem Costa nem Las Casas, nem Sebastián nem Montesinos são herois. Heroi é Hatuey, os herois dessa história são indígenas.

conflito 3Essa grande cena para o filme a ser rodado é também a grande cena do filme a que se assiste. Nela a relação passado-presente se revela mais clara e chocante. Daniel havia sido preso durante uma manifestação, então Costa e Sebastián vão à delegacia para soltá-lo, visto que sem ele o filme estaria perdido. Combinam com o chefe de polícia (a contragosto de Sebastián) que após a filmagem, ele seria preso novamente. Assim, ao som da palavra “corta”, uma viatura encosta e arrasta Daniel, indumentado como nativo, para o camburão. Os demais quechuas, figurantes da cena e, portanto, também trajados e pintados como indígenas, correm para cima da viatura, tombam-na e libertam Daniel, que foge.  Costa e Sebastián assistem a tudo paralisados, intervindo apenas quando os policiais apontam armas para os quechuas.

Ao estar no centro do conflito, Sebastián diz: “Isso parece um sonho. Inacreditável! Inacreditável!” De repente, o diretor se dá conta de que vivia naquele momento o que tentava filmar aos trancos e barrancos. Naquela hora, passado e presente se encontram como saídos da máquina do tempo (só faltam os raios de De volta pro futuro) e toda a continuidade do processo se desnuda. A mesma exploração, a mesma violência, a mesma humilhação. Ontem pelo ouro, hoje pela água. Ontem os espanhois, hoje uma multinacional. Sempre estrangeiros exploradores. E aí, então, se percebe que, de fato, o processo é contínuo. Afinal de contas, a grande diferença entre ouro e água para os indígenas é que sem esta última não se vive, sem o primeiro sim.

conflito 4O filme de Costa e Sebastián fica inacabado. Assim como o processo histórico. Não tem um final, nem triste nem feliz. A História não acabou. Assim como a exploração, a resistência também está viva; e com a saída da multinacional e a vitória da luta popular, talvez ela esteja pronta a escrever um novo fim para o capítulo do presente. Um fim diferente do capítulo do passado.

Assista aqui ao trailer de Conflito das águas.

Malévola (Maleficent. 2014).

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Malévola – A Amargura do Feminino

De forma geral, o filme trata da iniciação feminina frustrada da protagonista. Débutant, em francês, quer dizer iniciante, e corresponde à tradicional festa de comemoração de quinze anos de uma jovem. Em países europeus, essa festa, uma espécie de rito de iniciação, caracterizava o momento em que a adolescente era, pela primeira vez, apresentada como mulher à sociedade, e onde possíveis pretendentes também compareciam. Apesar do filme referir-se à idade de 16 anos, o conto original da Bela Adormecida indica a idade de 15 anos, que é a do Début.

A iniciação feminina e o baile de debutante.

A iniciação feminina e o baile de debutante.

No entanto, o processo de tornar-se mulher, para Malévola, foi frustrado: seus sonhos, expressos na sua vitalidade e na exuberância do reino dos Moors, dão lugar a uma profunda depressão, que torna tudo escuro e pesado. Essa fase negra de Malévola corresponde aos cem anos de sono que ela impõe a Aurora, que personifica, para a fada má, o despertar de sua consciência feminina, mesmo que sem a participação de seu contraponto masculino, que antes era figurado por Stephan.

Os chifres de Malévola possivelmente fazem referência ao aspecto masculino da fada, que não só é potencial, mas que chega a confrontar figuras masculinas exteriores, na forma do rei humano e de Stephan, que representam um lado masculino extremo, exacerbado, sem nenhum equilíbrio compensatório.

malevola e aurora

Malévola se envolve de novo com seu lado criança.

Algo que me chamou muito a atenção foi o fato de o pai de Aurora mandar a filha para longe de si com a finalidade de protegê-la. Parece ser uma atitude típica de homens que, querendo proteger o aspecto feminino, associado à figura da esposa e da filha, acaba isolando-o e isentando-o de qualquer relacionamento. É o que se observa em homens que, principalmente nos séculos passados, mantiveram relacionamentos sexuais com prostitutas, deixando a esposa para interações mais “puras” ou “santificadas”. Nota-se que Stephan, além da crueldade de vender o coração de uma mulher, isolou-se da filha e da esposa, a quem não atenta nem na hora da morte. Ele parece se preocupar inteiramente com a disputa de poder com Malévola, o que denuncia um forte complexo materno negativo. O homem projeta a mãe supercontroladora em todas as mulheres e procura dominá-las ou isolá-las. A fada má constitui sua própria alma (representada também pela esposa e pela filha), a quem impõe a clausura de uma grande cerca de espinhos. Nesse aspecto, a leitura do conto do ponto de vista da psicologia masculina é totalmente válida.

Entretanto, o contato de Malévola com seu lado criança (Aurora), sepultado pela presunção e pela ambição do novo rei, acaba por descongelar seu coração endurecido. Se esta não pôde despertar seu lado feminino pelo amor a outro homem, devido à decepção, ela se redimirá tornando-se mãe. Aurora é como se fosse mesmo filha da fada e do rei, ainda que por adoção. Uma filha que herda a maldição da mãe, mas que prenuncia seu despertar. O filme parece retratar um fato muito comum hoje em dia: quantas mulheres não acabam se iniciando na vida adulta tornando-se primeiramente mães solteiras, devido à frustração de um amor, ou por não conseguir confiar em um, pela falta de um modelo masculino. Observe-se que nem Malévola, nem o rei Stephan, quando meninos, tinham pais vivos.

As três Fadas Madrinhas e Aurora.

As três Fadas Madrinhas e Aurora.

O único relacionamento que a fada tem com o masculino é através do corvo Diaval. Esta interação não evolui para algo mais profundo, mas pelo menos o faz até o ponto de ele ganhar certa autonomia, quando insiste para que a fada prepare o príncipe para que beije Aurora e a desafia a transformá-lo em verme ou pombo, pois não mais se importa. Por outro lado, é típica a superficialidade das personalidades das fadas madrinhas, boazinhas, santinhas, mas totalmente inexperientes, sem nenhum dote para a lida diária do lar, ao contrário de Malévola, que praticamente cria Aurora. O mesmo desenvolvimento ocorre com Nina, personagem do filme “Cisne Negro”, que precisa conscientizar seu lado sombrio para representar com brilhantismo a peça do mesmo nome. Isso denuncia um aspecto importante para o desenvolvimento da personalidade: ninguém se torna grande da noite para o dia, ou por simples magia. As maiores personalidades sofreram muito e foram forjadas no embate interno de qualidades e defeitos, de aspectos luminosos e tenebrosos. Parafraseando Jung, as grandes alturas só são atingidas a custa da mesma proporção de enraizamento em lugares mais profundos no solo.

Malévola, inicialmente, se identifica com seu lado sombrio, pois rejeita a sua identidade de moça bela e boa, a qual foi vilmente desprezada por Stephan. Mas percebe a necessidade de relativizar também sua sombra, e assim passa a ter disponíveis os dois modos de ser: a boa e a má, para usar de acordo com as circunstâncias, sem se identificar inteiramente com uma ou com a outra.

Phillip_e_Aurora_MalevolaO final do filme é trágico para Stephan. O embate com uma pessoa que alcança maior integridade e maturidade só pode finalizar com a vitória desta, ainda mais quando chega ao ponto de recuperar as próprias asas, antes presas do antigo captor. Quando a rigidez pessoal alcança um nível extremo, só a morte pode compensar esse tipo de existência, que, aliás, equivale em vários aspectos às qualidades daquela. Aurora une então os reinos humano e sobrenatural, consciente e inconsciente. E ainda aponta para um promissor relacionamento com o aspecto masculino, representado pelo príncipe Philip.

(Leia mais a respeito: “A Bela Adormecida – a iniciação ao feminino“; e “A origem do Eu“)

Por Charles Alberto Resende.

A Imigrante (The Immigrant. 2013)

A-Imigrante-2013_posterPor Francisco Bandeira.
O Diretor James Gray volta a falar de família, fé e amor neste seu novo longa. Usando seu modo aparentemente “fora de moda” de contar histórias, o cineasta se mostra preocupado com os detalhes, impondo um ritmo deliberado, mantendo seu foco na polonesa Ewa Cybulski (Marion Cotillard), uma polonesa infeliz recém-chegada nos EUA, que aprende logo de cara como é difícil alcançar o tão desejado sonho americano. É um trabalho muito inteligente e maduro, onde Gray consegue extrair certo otimismo de algo tão frio e melancólico como “A Imigrante”.

a-imigrante-2013_02O cineasta construiu sua carreira em Nova York, explorando o submundo do crime contemporâneo, em filmes como “Fuga Para Odessa” (Little Odessa), seu primeiro longa-metragem. E logo se torna uma surpresa ele voltar no tempo (cerca de 90 anos) para realizar seu novo projeto. Mantendo-se contido nos paralelos de seu filme para modernos feudos políticos da América (controle de fronteiras, política de imigração), Gray sempre está mais interessado nas pessoas do que em mensagens, indo atrás de algo muito mais íntimo.

O filme conta a história de uma imigrante, Ewa Cybulski (Marion Cotillard), que tenta embarcar nos EUA juntamente com sua irmã, Magda (Angela Sarafyan), que está doente e precisa ficar em quarentena por seis meses em Ellis Island. Ao receber ajuda de Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), a mulher é levada a uma vida de burlesco, vaudeville e prostituição. Ao conhecer o deslumbrante Orlando (Jeremy Renner), Ewa ver uma nova esperança de encontrar sua irmã e ir à busca de uma vida melhor na América.

a-imigrante-2013_03Um dos pontos fortes da obra é sem dúvida o domínio da mise-en-scène de Gray, sua enorme segurança na condução de seus filmes, na composição dos planos, no posicionamento de sua câmera e a facilidade com que ele faz a transição de uma cena para outra. Os trajes e cenários, juntamente da belíssima fotografia de Darius Khondji, são extremamente ricos e marcantes, lembrando filmes como “Era Uma Vez na América” e “Sindicato de Ladrões”, qualidades que o colocam na tradição do classicismo de Hollywood.

O diretor também volta a construir um triângulo amoroso tão complexo e profundo quanto em seu trabalho anterior, “Amantes” (Two Lovers). Aqui, representado por Bruno, um homem que promete ajudar Ewa, mas logo mostra sua verdadeira faceta, impondo seu poder sobre ela, incitando-a a se prostituir como forma de ganhar dinheiro para liberar sua irmã, que está prestes a ser deportada. Desesperada, a moça sucumbe à vida mundana, o que realmente abala um pouco a sua fé. Desacreditada, a moça ver uma nova esperança com a chegada de Orlando (Jeremy Renner), um mágico repleto de carisma, alegria em viver e primo de Bruno. Encantado com Ewa, o gentil rapaz logo se comove com a situação dela e resolve ajudá-la a fugir de lá, mas seu primo não tem o menor interesse de deixar isso acontecer, o que se deve a “maldição” de ter se apaixonado por aquela bela mulher.

a-imigrante-2013_01O elenco escolhido por James Gray também é maravilhoso: Joaquin Phoenix mostra o motivo de ser considerado um dos melhores interpretes de sua geração, fazendo de seu Bruno a figura mais trágica da obra. Se uma hora pensamos que ele é um homem realmente frio, sem escrúpulos e que só quer tirar benefício de qualquer situação, logo vemos no olhar do ator e nas atitudes elaboradas pelo roteiro, que seus sentimentos por Ewa são realmente verdadeiros e nunca questionamos isso. Jeremy Renner transforma seu Orlando no símbolo de esperança daquele lugar. Desde sua primeira cena, aonde o mágico chega trazendo um pouco alegria ao local (neste caso, a fotografia com cores fortes torna-se fundamental), de seu olhar simples e otimista, sempre com um sorriso no rosto, seu personagem chega devolvendo à Ewa sua fé que estava abalada, demonstrando a moça que há uma saída e que ele pode ser a solução para seus problemas. Seus confrontos com Bruno mostram isso à mulher que cada vez mais ver a possibilidade de buscar sua irmã e ir atrás de seus sonhos. Mas o grande destaque do elenco é mesmo a bela Marion Cotillard, num desempenho simplesmente magistral.

Escapando das armadilhas e exageros do gênero, a atriz entrega uma atuação fascinante, desde o seu olhar devastado até o leque de nuances que sua personagem exige, especialmente quando o filme se transforma em um estudo de personagem extremamente complexo e tocante. A intensidade do filme vem através de um olhar mais atencioso do cineasta sobre Ewa, de sua inocência inicial até o desenvolvimento de uma figura mais dura, na mudança de seu olhar (antes espantado com aquele “novo mundo” até tornar-se frio diante de sua desilusão), quando a mesma vai aprendendo o que é necessário para sobreviver na terra de falsas oportunidades.

a-imigrante-2013_04Outro ponto alto da produção, os diálogos são perfeitos, nos fazendo entender a gama de sentimentos dos personagens: em alguns momentos estão repletos de melancolia, em outros são esperançosos ou cortantes (em determinado momento, Ewa diz a Bruno: ‘Eu amo dinheiro, mas eu não te amo… Eu não me amo!‘). O melodrama está na indignação moral de Cotillard, na sua culpa católica (a cena do confessionário é memorável, fazendo lembrar um pouco de Maria Falconetti em “A Paixão de Joana d’Arc”) e no seu próprio sacrifício por sua irmã. É nela que o peso é todo jogado: na vergonha da família (ao se tornar prostituta e ser rejeitada por seus próprios parentes) e na personificação de discórdia (sendo apontada como responsável pelas desavenças entre Bruno e Orlando).

Os trechos a seguir contém spoiler.

Após muitas discussões, brigas que resultam em tragédia, resultando em uma conveniente “união”, pela ânsia de sobreviver, em busca de algo melhor na vida. E após uma fuga da polícia, onde o personagem de Phoenix funciona quase como um anti-herói (o sujeito é espancado e tem seu dinheiro extorquido pelos homens da lei), onde culmina numa cena poderosa de seu embate, onde acaba caindo na afeição de Ewa. E, ao abrir mão da mulher que ama por querer que ela tenha uma vida melhor, Bruno mostra que encontrou a redenção justamente em sua maior maldição.

E o belíssimo plano final orquestrado por Gray serve para nos lembrar da enorme ambiguidade de sua obra: Ewa e sua irmã estão no barco, naquela paisagem fria, porém em um caminho iluminado com destino à terra de sonhos e esperanças, enquanto Bruno vai caminhando por um lugar dourado (simbolizando a chama que se acendeu em seu coração), aonde vai desaparecendo aos poucos na escuridão, pois ali vagava apenas um homem perdido em sua própria desolação.

Por Francisco Bandeira.

Os esquecidos (Los olvidados, 1950)

los-olvidados-posterEste é, sem dúvida, um dos grandes filmes de Luis Buñuel. Pela sutileza realista e cruel com que representa a exclusão social, pela clareza com que mostra a violência crua à qual estão submetidas as populações periféricas das grandes metrópoles e por tocar no ponto central que gera essa violência. A recorrência da temática social na obra do cineasta espanhol é grande, sendo tema de importantes referências de seu trabalho, como é o caso de O discreto charme da burguesia (Le charme discret de la bourgeoise, 1972). Mas em Os esquecidos o que mais me impressionou foi a construção fílmica das situações.

Nenhum personagem é vilão, pois as atitudes individuais são mostradas como resultado da situação social a que estão submetidos. Assim, o jovem Jaibo, líder da gangue de meninos, egoísta e ensimesmado, nos é apresentado como um delinquente, mas sutilmente Buñuel nos faz ver que ele é produzido por um sistema que não visa nem educar nem prover as necessidades básicas das populações pobres, mas reproduzir e reiterar a violência física, simbólica e psicológica em reformatórios.

Da mesma forma, a mãe de Pedro não é compreendida como um desalmada que não liga para o filho mais velho, lhe nega comida, entrega-o à escola agrária e ainda se envolve com Jaibo (que a essa altura já roubou uma faca do patrão do seu filho, pelo qual deixou Pedro levar a responsabilidade). Mas sim, ela é mais uma vítima do sistema excludente e machista, que a obrigou a casar-se aos 14 anos com um homem que a abandonou com os filhos, por quem tem que trabalhar várias horas por dia, sem conseguir lhes dar afeto, apenas o mínimo do mínimo para que não morram de fome.

Pedro quer constantemente “tomar jeito” e trabalhar, já que não consegue estudar, mas as condições de vida o impedem de fazê-lo. Mesmo quando recebe a confiança do diretor da escola agrária, Jaibo aparece para fazê-lo fugir, levando-o para a morte. A violência que permeia todas as relações desenroladas no filmes faz com que possamos entender que ela não é fruto dos indivíduos em si, mas sim, uma imposição de uma força maior que os oprime a todos com constância e firmeza. Assim, as cenas do ataque dos meninos ao cego ou ao aleijado são incômodas na medida em que representam o processo autofágico que (des)ordena a vida e o cotidiano das populações marginalizadas (tanto porque estarem à margem quanto por serem mantidas à margem).

10418155_697084740340223_4893991445148083285_nA qualidade do filme só aumenta quando percebemos, contudo, que não há uma naturalização do recurso à violência como algo inerente à pobreza, através tanto do personagem de Julian, quanto pela origem da grande violência ser sutil e constantemente  apresentada como vindo de cima. Quem sugere um possível agente de transformação é justamente o diretor da escola agrária para onde Pedro é enviado: trancar a miséria em vez das crianças!

Os esquecidos no IMDB.

BERNARDES (2013)

Sergio-Bernades_documentarioNum momento de caos urbano na cidade do Rio de Janeiro, a lembrança da obra e projetos do arquiteto Sergio Bernardes soa providencial. Com a memória resgatada por parentes próximos e estudiosos, a imagem injustamente esquecida do profissional se materializa com ares de gênio bom vivant com ideias tão quiméricas quanto oportunas como bairros verticais, um porto canal ligando as baías, além de uma intrincada ligação do Brasil através dos rios. Ele acreditava que o Rio do futuro tinha posição estratégica global em todos os sentidos, mas infelizmente, seus delírios não saíram do papel.

Seu temperamento inquieto e inconsequente o impulsionava a seguir em frente, sem medir os estragos, como quando abandona a esposa no dia de aniversário de casamento de 25 anos para uma viagem repentina, ou no momento em que fecha as portas do estúdio de trabalho por conta dos excessos em planos sem conclusão.

Sergio-Bernades_documentario_02Em início de carreira nos anos 50, foi rico e famoso como seus contemporâneos Oscar Niemeyer e Lucio Costa, mas caiu no esquecimento a partir de suas ligações com o regime militar. Seu legado inclui obras como o pavilhão de São Cristóvão, O Hotel Tambaú em João Pessoa e a premiada casa da urbanista Lota Macedo, um primor de arquitetura integrada à natureza em Petrópolis.

Apesar de Thiago Bernardes, neto de Sergio, notoriamente não ser a pessoa mais adequada para conduzir as entrevistas, a sua devoção à figura do avô confere um tom respeitoso ao documentário disfarçando qualquer eventual deslize. Nada que tire o brilho, humor (as expressões e reações incrédulas dos alunos e ouvintes do arquiteto são impagáveis.) e sarcasmo sempre presentes que se encaixam com perfeição à personalidade espirituosa, imprevisível e divertida do homenageado. Neste caminho, a decisão da direção de Paulo de Barros e Gustavo Gama Rodrigues em incluir o fabuloso caso do ladrão que invade a residência de Bernardes em alguma época, contada por diferentes ângulos, não poderia ser mais feliz para compor um desfecho perfeito num filme sobre alguém cujo trabalho merecia ser revisitado.

Carlos Henry