TRINTA (2012). E o Brasil Conheceu um Gênio!

trinta-2012_cartazPor: Carlos Henry.
trinta_cena-do-filmeO filme de Paulo Machline sobre a trajetória do carnavalesco Joãosinho Trinta poderia ganhar tons de um documentário chato, não fosse a feliz opção do diretor em pinçar o importante episódio da tumultuada estreia solo do artista no Salgueiro quando já havia deixado o corpo de baile do Teatro Municipal para se dedicar ao carnaval. O foco do roteiro é a preparação do inesquecível e premiado enredo “O Rei da França na Ilha da Assombração (In credo em Cruz)” no ano de 1974. Enfrentando todo tipo de percalços e preconceitos, Joãosinho revolucionou o espetáculo das Escolas de Samba, consagrando-se como o mais importante artista da área.

Concentrando-se neste episódio decisivo, o diretor conseguiu satisfazer a curiosidade do espectador, sem se perder em muitas histórias, personagens ou detalhes irrelevantes, dando ênfase ao frenético ritmo dos bastidores da festa, com direito à magia e mistério na participação de Léa Garcia como Nha Zita, humor no ambiente tumultuado do barracão representado pelo personagem Calça Larga (Fabricio Boliveira) e suspense na dose certa na pele do antagonista Tião interpretado pelo sempre visceral Milhem Cortaz.

Matheus-Joaosinho_filmeApesar de não contar a história completa do artista, nem ousar mostrar muito da festa propriamente dita, o que certamente encareceria horrores a produção, Machline traça com competência um perfil abrangente de Trinta, destacando a força criativa que enxergava o desfile como uma verdadeira ópera numa analogia genial que mudou o conceito das Escolas de Samba. Infelizmente, de lá para cá, exageraram a dose na avenida, transformando tudo num exagerado show de efeitos especiais com pouco samba de verdade, sensualidade e brasilidade.

Matheus Nachtergaele compôs o papel principal com maestria assombrosa, sobretudo na difícil cena em que tem uma inesperada e providencial explosão nervosa em torno de um punhado de ajudantes atabalhoados neste filme tão belo e empolgante quanto um desfile de carnaval à moda antiga.

Teatro: Chacrinha, O Musical (2014)

Chacrinha-O-Musical_Teatro-Joao-Caetano_RJ-14nov14Por: Carlos Henry.
Na direção, brilha o nome de Andrucha Waddington que já havia provado o talento em filmes bem feitos como “Casa de Areia” e “Gêmeas”. O roteiro é assinado por outro nome famoso: Pedro Bial, cuja figura esteja impossível de desassociar a um detestável programa de “Reality show” na TV a esta altura, mas que também criou boas obras para o cinema como “Outras Estórias” e “Jorge Mautner, o Filho do Holocausto”. O tema é a vida de Abelardo Barbosa, o mais famoso apresentador de programas de auditório da TV brasileira, mais conhecido como Chacrinha, que também virou sinônimo de anarquia e festa. O projeto foi transformar a vida deste ícone que lançou e promoveu um monte de artistas até os anos 80, num musical – uma boa ideia, visto que o gênero vem atingindo considerável qualidade no cenário nacional. Para arrematar, o papel título coube ao excelente ator Stepan Nercessian, um artista nato de inegável talento.

chacrinha-o-musical_stepan-nercessianOs ingredientes pareciam conduzir a uma receita infalível, mas na hora de finalizar, talvez pelo excesso de alguns ingredientes e falta de outros, o resultado não foi dos melhores. A aridez do nordeste, região que o artista nasceu, não justifica a (longa) primeira parte da peça ter aquele tom monocórdio amparado por cenários estilizados pintados em tintas econômicas. Outro problema é ausência de vozes realmente extraordinárias no time de cantores, a ponto de Stepan, que não é cantor, conseguir se nivelar no meio das canções com o restante do elenco em resultados que oscilam entre o aceitável e o sofrível com direito a alguns acordes desafinados que a orquestra somente correta não conseguiu disfarçar. A falha é nítida num primeiro medley musical que parece não terminar. A coisa piora quando um ou outro artista arrisca um solo. Há muitos momentos desperdiçados como “secos e molhados” que surge como se fosse um único cantor.

Apesar do corte abrupto no espaço de tempo entre um programa de rádio mequetrefe de começo de carreira até uma sofisticada aparição na televisão, o segundo ato abre já num cenário exuberante do famoso programa de auditório anunciando melhores momentos e animando a plateia. O visual é colorido e detalhado reproduzindo o clima de bagunça do cassino e da discoteca do bufão Chacrinha. Infelizmente, os problemas básicos da produção evidentes no primeiro ato começam a deteriorar os bons efeitos do início do segundo, fechando num nível que pouco consegue ultrapassar três estrelas.

Chacrinha-O-Musical_Chacretes_Teatro-Joao-Caetano_RJ-14nov14Para quem estava na plateia em estreia aberta ao público, uma grata surpresa numa cena que não voltará a acontecer em outras apresentações: Sob o olhar de Pedro Bial, a chacrete (Como eram chamadas as dançarinas do apresentador) mais famosa do programa, Rita Cadillac, que estava assistindo a peça, é chamada ao tablado junto com Russo, um histriônico assistente de palco que trabalhou o tempo todo com Abelardo. Stepan, incorporado no personagem, simulou brincadeiras típicas da época levando Rita às lágrimas e aos risos quando pediu que a voluptuosa artista dançasse sensualmente a “pantera” diante de um Russo emocionado.

Chacrinha morreu em 1988 e certamente nunca será esquecido. Embora até agora não tivesse acontecido uma obra que homenageasse o velho guerreiro em sua plenitude, ainda há tempo. É como ele mesmo dizia: O programa só acaba quando termina.

Carlos Henry

A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli. 2014)

A Ilha dos Milharais-2014_00Por: Eduardo Carvalho.
A cada primavera, em uma área da antiga União Soviética, fortes chuvas carregam terra fértil do Cáucaso aos rios da região entre a Geórgia e a separatista Abecásia. Formam-se ilhotas no rio Enguri, usadas pelos habitantes do local para o plantio, quando procuram se precaver da escassez provocada pelo próximo inverno.

Indicado pela Geórgia à pré-lista do Oscar de 2015, exibido durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “A Ilha dos Milharais” foi sendo descoberto pelos espectadores, ganhando menção honrosa ao final do evento. A estória do velho que cultiva milho com a ajuda da neta, nessa terra de parcos metros quadrados, é contada com poucas falas. Aqui, tem-se a impressão que o filme guarda semelhanças com o belo “As Quatro Voltas”, mas não. A proposta radical da narrativa do filme de Michelangelo Frammartino propõe uma reflexão sobre vida e morte; em “A Ilha dos Milharais”, não haverá apenas uma representação dos ciclos de criação e destruição. A quietude presta-se a outros propósitos.

A Ilha dos Milharais-2014_01Explorando basicamente o mesmo cenário o tempo todo, a fotografia é um elemento essencial, em conjunto com a narrativa lenta, para que o tempo de cultivo do milharal seja perceptível; mudam apenas luzes e cores, mas não o local da ação. A câmera aberta coloca o público em contato com os protagonistas inseridos na paisagem, e fechando o foco, exibe os sentimentos expressos em seus rostos, para que possamos ler ali as marcas do sofrimento. No entanto, ocorre ouro crescimento, tão rápido quanto o da plantação; de criança, a menina passa a mulher. Ao chamar a atenção de alguns homens às margens do rio, e na breve relação com um visitante inesperado, ela começa a perder a inocência infantil, descobrindo outras realidades.

E é em uma dessas realidades que entra o espectador brasileiro, sem conhecer a história dessa região. Aqui, o filme de George Ovashvili, também co-roteirista, ganha mais sentido, ao expandir seu contexto histórico. Velho e menina estão em uma terra de ninguém – terra de ninguém por duas vezes – conforme indica um dos poucos e certeiros diálogos entre ambos. Todo o silêncio e a comunicação através de gestos e olhares estão plenamente justificados, não só como opção de narrativa fílmica; dentro da perspectiva geopolítica daquele lugar, só quem detém o poder pode expressar-se com alguma liberdade. Mas isso ocorre somente ali?

O terceiro longa de Ovashvili une elementos tão díspares como beleza e política com precisão, conseguindo ainda extrair um par de grandes atuações dos protagonistas. O ator turco Ilyas Salman, com mais de 40 filmes no currículo, transmite toda uma esperança cansada nos gestos e expressões, sem necessitar de palavras. E a estreante Mariam Buturishvili mostra medo e vulnerabilidade na menina, diante das transformações hormonais que ocorrem dentro de si e ao seu redor.

Nessa sociedade contemporânea marcada por caos e excesso, descobrir “A Ilha dos Milharais” é mais do que um presente. É um convite para pensarmos sobre nossas reais necessidades de comunicação, sobre a inevitável passagem do tempo e seus ciclos. E, acima de tudo, nos mostra que nada é permanente na vida. Nem mesmo a terra sob nossos pés.

O Duplo (The Double. 2013)

o-duplo-2013_cartazPor Francisco Bandeira
(O texto contém spoiler..)
Richard Ayoade_CineastaQuem quer vivenciar um pesadelo surreal de outra pessoa? Ninguém, certo? Para Richard Ayoade não. O cineasta convida o espectador a presenciar o embate da identidade física x identidade mental, mostrando que as pessoas podem ser completamente diferentes, mesmo sendo tão semelhantes. Pegando emprestado a ideia do escritor Fyodor Dostoyevsky, na qual um funcionário fica cara a cara com ser um idiota, arrogante e manipulativo, mas que se parece bastante com ele, uma espécie de cópia, um duplo que está inserido no título da obra.

A trama gira em torno de Simon (Jesse Eisenberg), um homem bastante retraído que, quando chega em seu local de trabalho, descobre que um homem semelhante a ele, James (Eisenberg novamente), usurpou seu cargo pouco importante na empresa. Sempre humilhado pelas pessoas, o neurótico Simon agora precisa lidar com um sósia que é tudo que ele não é: confiante, charmoso, arrogante, divertido e bem sucedido. E quando James consegue tudo que ele almejou: Promoções, respeito e amor de Hannah (Mia Wasikowska), ele tem que tomar uma trágica decisão.

Logo de cara, percebemos que Ayoade e o roteirista Avi Korine trabalham seu filme em cima de um problema universal: a instabilidade de identidade pessoal. Tendo um estilo cômico bem semelhante ao do Monte Phyton, mostrando uma distopia ao melhor estilo de Brazil, do diretor Terry Gilliam e com um tom de filme noir visto em filmes de David Lynch, Ayoade ainda consegue usar de forma inteligente os travelings a lá Martin Scorsese (uma boa lição para O. Russell), o voyeurismo visto em filmes de Hitchcock (Janela Indiscreta) e Brian De Palma (Dublê de Corpo) e inserindo de forma bastante interessante (e econômica) o slow motion, tendo como grande mérito manter seu estilo próprio, apesar das inúmeras referências notadas em seu filme.

o-duplo-2013_01O grande problema do protagonista é realmente sua crise existencial. Simon é um cara que entra no trabalho como visitante, seu chefe, o Sr. Papadopoulos, o chama de novato (ele já trabalha lá a mais de 7 anos). O porteiro nunca é amigável com quem não conhece e nem mesmo o elevador parece reconhecê-lo. E quando seu contraponto surge, o filme ganha um ritmo impressionante, sendo inserido um humor pra lá de inteligente (ninguém nota a semelhança entre os dois) e um tom melancólico através da inocência do protagonista e em como seu sósia usa disso para manipulá-lo e, posteriormente, humilhá-lo de maneira impiedosa.

A diferença mais notória entre os dois é na percepção da igualdade entre eles. Reparem no desconforto e curiosidade de Simon ao ver seu sósia e em como James usa dessa semelhança e da bondade do outro para tirar proveito próprio (ele chega a achar engraçado usar disso para manipular Simon), tornando-se amigo daquela figura tímida e sem graça, oferecendo aconselhamento romântico e promoções no trabalho, até que o mesmo entrega de mão beijada tudo isso à James (ele faz um teste no trabalho para o sujeito, pede para o mesmo conquistar a sua garota pois não consegue fazer isso), vendo a chance de infiltrar-se em seu meio para se tornar bem sucedido cair em seu “colo”.

A parte técnica do longa também merece elogios. Da fotografia escura, relembrando o climão de filme noir empregado em ‘Veludo Azul’, ressaltando a sensação de desconforto do protagonista e na obscuridade da cidade (parecendo a Nova York de Scorsese em ‘Depois de Horas’, mas aqui, não existe dia), passando pelo fantástico designer de som, onde constantemente Simon escuta barulhos que sugerem sons de metrôs, sirenes e tremores de terra. E a trilha sonora, abastecida com um bom pop japonês dos anos 60 e um desempenho incrível de Danny e os Islanders, que dão um aspecto meio “extraterrestre”, servindo para reforçar o sentido de deslocamento do personagem central.

o-duplo-2013_02As atuações são formidáveis, desde a composição inteligente e cuidadosa de Wallace Shawn como o Sr. Papadopoulos, chefe de Simon até a ironia de Noah Taylor na pele do conformado Harris. Mas são Eisenberg e Wasikowska que impressionam. O primeiro entrega talvez sua melhor performance, na pele de Simon/James. Enquanto empresta um caráter introspectivo à Simon, desde seu modo de falar até trejeitos interessantes (reparem nas mãos do sujeito quando fica nervoso, seu modo de olhar para as pessoas) até a autoconfiança e sinismo de seu James, tornando-o um ser quase desprezível, se não fosse pelo ar de brincalhão do mesmo. Já a segunda, demonstra uma presença cênica inteligente, tornando-se magnética, usufruindo de sua personagem enigmática para trabalhar seu alcance dramático (e realmente surpreende nos momentos finais), ainda usando a seu favor sua tão criticada inexpressividade.

A direção de Ayoade se mostra bastante inventiva, se beneficiando da montagem brilhante do filme (e que merece realmente aplausos), reverenciando seus “mestres” sem soar um mero copiador, filmando algumas cenas de ângulos interessantes e colocando a câmera na mão nos momentos certos.

O resultado da ascensão de James e do declínio de Simon é assustador, causando uma enorme estranheza, que culmina em um clímax bastante impactante e reflexivo, que resulta em ótimos questionamentos e um crime bastante bizarro (se é que pode chamá-lo de crime). Simon era um homem que queria ser lembrado, não passar despercebido, como um fantasma, pois sem isso ele sequer poderia dizer que viveu um dia. Sua decisão inicial não o torna melhor ou pior do que ninguém, mas apenas decifra tudo o que ele queria ser: ÚNICO!

Avaliação: 08.

Boyhood: Da Infância à Juventude (2014)

boyhood_2014_posterPor Luz de Luma.
A banalidade da vida é tediosa para aqueles que estão fora dela.

boyhood_2014_personagensDoze anos se passaram em marcha lenta desde que Yellow tocava. O mundo continuava a girar e canções, filmes, videogames e livros serviam de referência para aqueles dias.

Boyhood“, o filme que levou 12 anos para ser feito.  Vale conferir o trailer e imaginar o que se passa na vida de um garoto dos 5 aos 18 anos. Mason (Ellar Coltrane), cresce na tela diante de nossos olhos. Foram usados os mesmos atores em todos os anos de filmagem; eles se encontravam alguns dias por ano entre 2002 e 2013. Ethan Hawke e Patricia Arquette interpretam os pais, Lorelei Linklater, a irmã de Mason em torno do qual gira o filme.

Escrito e dirigido por Richard Linklater, da trilogia: “Antes do amanhecer”, “Antes do pôr-do-sol” e “Antes da meia-noite”, é um filme ambicioso e diferente de qualquer outro já feito. É ao mesmo tempo uma cápsula nostálgica do tempo do passado recente e uma ode ao crescimento e parentalidade. É impossível não assistir Mason e sua família, sem pensar em nossa própria jornada.

Quando recebi o convite para assistir “Boyhood“, aceitei rapidinho por ser fã do trabalho de Linklater. Eu realmente gostei da trilogia de “Antes do Amanhecer” que também contou com a participação de Ethan Hawke. Mas não foi amor à primeira vista. Quando assisti achei monótono e com muito blá-blá-blá, até que entendi toda a tônica de uma história baseada em fatos reais. Ficou mais interessante. Foi como fechar um livro e começar a lembrar cada vez mais das partes e perceber que é um filme em que as mensagens (diálogos) são mais importantes que a história em si.

boyhood_richard-linklaterInfelizmente Amy Lehrhaupt morreu um ano antes do primeiro filme ser lançado; foi ela a mulher que passou uma noite com Richard Linklater em 1989 e o inspirou a escrever: “Da meia-noite a seis da manhã (…) andando por aí, flertando, fazendo coisas que você nunca faria agora“. O encontro, por acaso, foi dentro de uma loja de brinquedos e antes de se despedirem, seguiu-se a conversa:
Ele: “Vou fazer um filme sobre isso.”
Ela: “Como assim, isso? Do que você está falando?
ELe: “Apenas isso. Este sentimento. Essa coisa que está acontecendo entre nós“.

E minhas expectativas foram atendidas, em ambos os casos e estou admirada com a ambição e paciência para produzi-los. Ainda mais porque “Boyhood” não é enigmático, apesar de acompanhar o envelhecimento dos personagens envolvidos, mas não é o foco central e a história se move de forma natural, não há tensão artificial e dramas inventados para manipular o público. Realmente capta o sentimento do que é ser jovem para muitas pessoas. Mas nem todas, é claro. Nem mesmo para todos os meninos. Qual é a minha queixa sobre o filme: O título é horrível.

boyhood_a-familiaAs escolhas dos pais e as interferências que essas escolhas causam no futuro dos filhos. Escolhas feitas em busca da sobrevivência, exigindo resistência e força. E vidas são moldadas pelas escolhas ou pela falta de opções? Os pais podem sair de casa, mudar de cidade e carregar os filhos como se eles fossem ocos e sem apego, que não sentirão saudades, que na infância muita coisa será esquecida e que muito se perderá na memória.

A questão é que a memória é feita de uma forma para não apenas termos lembranças, mas dela tirarmos base para que acontecimentos futuros entrem no roll das boas memórias, ou não. Freud afirmou que “sofremos de reminiscências que se curam lembrando”, na pior das hipóteses, são as reminiscências também a causa de todos os males.

boyhoodO Aparelho psíquico interage e reflete no corpo, pois também é um órgão. Ele precisa se alimentar de ações e pensamentos saudáveis. Lembrando um fato, ampliamos a ideia da reconstrução histórica, repetindo e recolocando no presente aquilo que não teve lugar psíquico em seu próprio tempo. Lembrar é colocar na consciência do ego, que evolui o fato e esse passa a significar.

Quando o assunto é o padrão humano, ele não tem que responder por todos os outros. Não é como preencher um formulário em que se verifica a escrita sempre na mesma “caixa” (espaço) de resposta.

É sucesso, virou meme!! “Cathood” (ou “Boyhood – Cute Kitten Version”), Manboyhood, Potterhood (Harry Potter), Apehood (Planeta dos macacos)…

Boyhood: Da Infância à Juventude (2014). EUA. Direção e Roteiro: Richard Linklater. Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, +Cast. Gênero: Drama, Família. Duração: 165 minutos.

P.s: Segue o link do texto original: http://luzdeluma.blogspot.com.br/2014/08/a-banalidade-da-vida-e-tediosa-para.html

A História da Eternidade (2014)

A-Historia-da-Eternidade_cartazPor: Eduardo Carvalho.
Algumas vezes, nos primeiros minutos de projeção de um filme, você sente que está presenciando o início de uma obra-prima. Pode ser apenas sua percepção. Pode ser que seja uma obra-prima.

A-Historia-da-Eternidade_2014Um ponto de partida banal: três estórias de amor que acontecem em um vilarejo do sertão. Porém, o desejo que transborda dali terá consequências profundas sobre os seus habitantes. “A História da Eternidade” tem nessa simplicidade do enredo um de seus grandes trunfos. A partir disso, o diretor e roteirista Camilo Cavalcante desenvolve um roteiro com uma poética sem igual, cuja narrativa flui como as ondas do mar que Alfonsina (Débora Ingrid) tanto quer conhecer. A jovem, prestes a completar 15 anos, é uma das três mulheres, protagonistas de suas estórias, sendo as demais Querência (Marcélia Cartaxo), na faixa de seus 40 anos de idade, e Das Dores (Zezita Matos), uma avó viúva e sozinha. Há ainda o pai controlador de Alfonsina, Nataniel (Claudio Jaborandy), seu irmão artista Joãozinho (Irandhir Santos), o sanfoneiro cego Aderaldo (Leonardo França), e o neto de Das Dores, Geraldo (Maxwell Nascimento).

Três estórias de amor intenso, que, no entanto, podem fracassar. Pois, como um pêndulo, cada vida que se pauta pelo desejo encontra sua contrapartida no outro extremo. Morte, vida, morte. Não é nada menos do que isso que se vê na tela, desde a bela e dolorosa sequência de abertura. Ainda que longe da forma grega clássica, o desenrolar de cada relação dá sinais do que poderá acontecer. A semente de cada paixão traz em si sua própria força trágica.

A-Historia-da-Eternidade_2014_01A serviço da poética com que as estórias são narradas, a fotografia de Beto Martins é fundamental. Seu trabalho explora tanto o brilho seco do árido nordestino quanto o chiaroscuro no interior de cada casa. Nas tomadas exteriores, como o plano-sequência que abre o filme, os personagens são vistos como parte integrante da paisagem, reféns de um destino contra o qual não conseguem lutar; ali ficarão. E no trabalho de luz e sombra nos interiores, são revelados todos os prazeres e todas as dores, em cada rosto, em cada detalhe dos corpos. A união da câmera, estática por minutos, junto à fotografia, causa a sensação de vermos telas renascentistas ambientadas no sertão.

Mesmo que a poesia aqui presente seja extraída de outras fontes, a beleza de “A História da Eternidade” pode ser comparada a outra obra com a mesma beleza: “Lavoura Arcaica”. Embora a adaptação do texto de Raduan Nassar seja, em si, a essência da tragédia desde o inicio anunciada, no mais está tudo aqui: a intensidade contida de uma estória de amor fadada à tristeza, em razão do tabu; a fotografia atuando em uníssono com a narrativa, emprestando-lhe parte do lirismo; um conjunto de atuações onde todo o elenco está extraordinário. Falar de Irandhir Santos já se tornou lugar comum. O ator reforça a cada papel seu posto como um dos grandes de sua geração. Aos trinta e seis anos de idade, presente em cinco produções em 2014, é um assombro em cena. Durante as sessões do filme na 38ª Mostra Internacional de Cinema, um dos comentários acerca de sua atuação era da obrigatoriedade de que ele passe a ter, de agora em diante, um número musical em cada filme em que atue. Mas não só ele. A Querência de Marcélia Cartaxo tem expressões que não necessitam de palavras, deixando o luto pela insistência de uma sanfona. Claudio Jaborandy é um pai sertanejo apegado à dureza da sua terra, que não admite os sonhos da filha, pois ele mesmo deixou de sonhar. Zezita Matos sintetiza em Das Dores – assim como Querência, um nome não escolhido ao acaso – os conflitos de todos os sentimentos estampados na tela. E a menina Débora Ingrid, com sua Alfonsina, levou merecidamente o prêmio de atriz no Festival de Paulínia de 2014. Dividido, curiosamente, com Marcélia e Zezita. A produção levou ainda os prêmios de filme do ano e ator, para Irandhir.

camilo-cavalcanti_diretorAo perder, ainda que sem ser incoerente, parte dessa poética na terceira parte, especialmente com relação ao destino de um dos personagens – segundo Camilo Cavalcante, o roteiro original previa outro desfecho para Geraldo e Das Dores –, as últimas cenas, focando as três protagonistas como vértices de um só triângulo, e fechando em Alfonsina com seus olhos fechados, são de uma beleza sem igual.

Se, nos primeiros minutos de projeção, você sentia estar presenciando o início de uma obra-prima, poderia ser apenas sua percepção. Ao final, poderá considerar que “A História da Eternidade” seja uma obra-prima.