Relatos Selvagens (Relatos Salvajes. 2014)

relatos-selvagens_cartazUm momento de fúria pode poupar décadas no divã do analista. Mas extravasar sem pensar aquela raiva contida pelas regras da civilidade pode causar sérias conseqüências.

relatos-selvagens-2014Neste caso, na hora de botar para quebrar, melhor assistir antes o excelente e divertido filme argentino de Damián Szifron: Relatos Salvages que reúne seis historinhas sobre as reações humanas em situações limite. O prólogo, um dos melhores dos últimos tempos já anuncia um filme extraordinário, quando um grupo de pessoas percebe que estão no mesmo voo com algo em comum: Todos conhecem um tal Pasternak em situações tão diversas quanto desagradáveis. Outro curta hilário versa sobre os efeitos de um veneno de rato já vencido no organismo de uma criatura não grata. Não falta um Road movie quando dois sujeitos de pavio curto se digladiam com seus carros no meio do nada. Ricardo Darin surge no episódio cujo entrave é a burocracia exagerada tão conhecida também no nosso país repleto de filas, guichês e funcionários mal treinados e arrogantes. Há uma sequência inteligente, mas que destoa das demais por ser um tantinho arrastada, sobre um pai rico que quer livrar o filho da cadeia a qualquer custo. Nada que comprometa o filme que fecha brilhantemente com uma festa de casamento que tinha tudo para ser perfeita, não fosse a infeliz decisão do noivo de convidar uma de suas amantes parra o evento.

Curiosamente, o filme preenche (sem nenhum dano) em parte essa lacuna animalesca e instintiva que a maioria dos seres vivos têm quando pressionados ou feridos.

Carlos Henry

Deixe Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In. 2008)

letrightonein_finalPor Renato Santos.
Estou surpreso com a quantidade de pessoas (principalmente adolescentes) que estão achando que este é um filme romântico, um filme que versa sobre uma estória de amor adolescente! Acordem, este brilhante filme não é um romance que tem vampiros no roteiro! É uma estória fantástica que aborda de forma simbólica, e não por isto menos precisa e verdadeira, a gênese de uma mente psicopata.

O velho assassino representa o futuro do Oskar. Reparem como os dois manipulam a mesma faquinha, com os mesmos gestos. O velho é Oskar e Oskar é o velho. A “menina vampira” representa o mal absoluto. O mal que seduz e conquista o frágil e massacrado Oskar. O mal que o redime, objeto de culto e paixão. A “menina” que aliás não é uma menina. Ela diz isto repetidas vezes, mas ele não que ouvir. Na cena em que “ela” troca de roupa isto fica claro, pois ela não possui vagina, e sim uma cicatriz no lugar do antigo pênis – sim, a “vampira” é um menino castrado, feminilizado (isto está colocado de forma explícita no livro, mas no filme a cena é muito rápida e fica difícil de entender). Ou seja, “ela” é o “alter-ego” dele. A cena em que ele “a” aceita é fantástica. A cena em que comete o primeiro assassinato (ao entregar o vizinho no banheiro). A cena final em que ele conversa com “ela” no trem, em morse, é uma obra-prima. A conjunção de absolutos que caracteriza a mente dos psicopatas: amor x maldade. Se você quer entender como funciona a mente de um psicopata veja este filme.

Um último comentário: o título em português mais uma vez decepciona: “Deixa ela entrar”. O título original, que em português seria algo como “Deixa o que está certo entrar”, é uma provocação, mas traz o significado do filme (na ótica do psicopata).

Nota da Administração do Blog: O Renato Santos havia deixado o texto acima (em fev-2009) como comentário num outro texto desse mesmo filme. Mas como a resenha foi deletada à pedido do autor (em dez-2014), em respeito ao Renato posto o texto dele aqui, pois teria sido também deletado juntamente com o outro.

Drop Dead Diva. (Série). E o “Patinho Feio” Aprende o Quanto Pode ser Belo!

drod-dead-diva_cartazSem querer fazer aqui um patrulhamento em relação ao peso corporal das pessoas, mas quando mais de um terço da população dos Estados Unidos se encontram “acima do peso” o esperado seria ver muito mais personagens e artistas “gordinhos” protagonizando bons Filmes. Como também por conta não apenas do politicamente correto, mas também do quanto de bullying essas pessoas padecem no mundo real… eu fico meio sem saber como descrever… Enfim, gordinhos, acima do peso… É mais do que justo que mais e mais Filmes e Séries deem espaços a eles atores e personagens com histórias mostrando que mesmo com alguns percalços eles levam uma vida como todo mundo. Por isso e muito mais “Drop Dead Diva” merece ser vista!

Foi por acaso que eu comecei a acompanhar essa Série, numa de zapear pela grade de canais… E foi justamente por ver uma protagonista interpretada por uma atriz “gordinha” e o que seria melhor ainda sendo a personagem uma advogada. (Um tema que gosto muito: os bastidores de um Tribunal.). Além claro do sugestivo título! Algo como: o espírito de uma louca baixou em mim… A Série até traz o tema da reencarnação, mas ai como “uma segunda chance“. O que também seria o motivo da profissão escolhida para essa personagens. A Série já seguia em temporadas adiantadas, que por sorte o canal Lifetime em paralelo passou a reprisar desde a primeira temporada. Pois mesmo tendo um resumo dessa reencarnação antes de cada episódio – em quem se apoderou do corpo de quem -, além de também ser um tema interessante e meio surreal, dentro dessa realidade algumas perguntas me viam acompanhando já pelo meio “Drop Dead Diva“. Assim, fui montando aos pouco o quebra cabeça dessa nova Diva/Advogada.

drop-dead-diva_deb-e-janeA história de “Drop Dead Diva” une dois esteriótipos tão propagandeados pela indústria cinematográfica: a “gordinha” com a “loura burra”. E faz mesmo uso disso até para tentar quebrar outros mais. Um deles seria em relação a indústria da moda que ainda segue com o padrão de que ser magro que é belo. Numa de que se a pessoa fora desses padrões não pode se vestir com elegância, dentro da “moda”. Nessa história a personagem da “loura burra” tentava ser uma modelo famosa, mas já sentido o peso de um outro padrão: o da idade. Pois nessa indústria… Ter mais de vinte anos de as chances diminuíam. Agora, ela volta ao mundo dos vivos no corpo de uma “gordinha” que já está com quarenta anos de idade. São duas coisas a mais para lidar. De cara dá, ou melhor, se dá um banho de loja, dos pés a cabeça, se sentindo mais “atraente” aos olhos de todos. Até provocando certas invejas à princípio em quem se situava dentro dos padrões de beleza convencional. Toda essa “maquiagem” externa é passado com humor, sensibilidade e em certos momentos até com certa ironia para quebrar certas convenções. Um “Bravo!” a mais para essa Série! Até porque certos paradigmas merecem mesmo ser quebrados, pois se para muitos possam até parecer cômicos, no fundo são bem cruéis. O que também acena para que a Indústria da Moda repense o seu establishment.

drod-dead-diva_jane_antes-e-depoisAgora, embora eu possa ter dado um caráter mais pesado, a Drop Dead Diva mostra de um jeito leve a vida de uma advogada que por conta de um acidente do destino “trocou” de mente. Pois quem ganhou uma segunda chance de vida foi a modelo. Essa por sua vez, se não ganhou o corpo de antes, se deslumbrou com a inteligência que até então não tinha. Até porque com ela veio saber que se pode ter sucesso vindo além da aparência física. O que nos leva a pensar no passado de nerd da advogada, de anos dedicado ao estudo até por conta de sentir discriminada socialmente… Mas meio que como compensação…ela amou o carro conversível “herdado”. Até por conta disso, pelo seu jeito extrovertido de ser, faz com que o “patinho feio” além de ir aprendendo que já é um “belo cisne”, que use e abuse dos prazeres que o dinheiro possa comprar. Sem querer trazer um spoiler, mas já trazendo… Essa lição em será também aproveitada pelo então “patinho feio” num dos episódios… O que devo confessar que em igual situação, eu também teria feito a mesma escolha.

Em “Drop Dead Diva” a advogada Jane Bingum é interpretada pela atriz Brooke Elliot. Até então desconhecida para mim. Agora, fico na torcida para que paralelo a esse personagem deem a ela outros personagens em Filmes, mas sem ser muito caricatos como estão dando a atriz Melissa McCarthy. Que nem estou me referindo ao da Série “Mike & Moly” que aborda o romance e a vida em família entre dois personagens “de peso”: merecedor também de aplausos. Enfim, personagens não apenas caricatos: onde o peso maior seja o do próprio corpo. A menos que tal e qual as histórias como nessas duas Séries numa de derrubar preconceitos. Já a modelo que reencarnou no corpo de Jane, a Deb Dobkins (interpretada por Brooke D’Orsay), visualmente só aparece em alguns episódios até porque ela era namorada de um advogado, Grayson Kent (Jackson Hurst). O que estreita mais a relação entre ambas. Mais ainda por conta de acontecimentos na temporada atual (2014)…

O contraponto entre ambas, Jane e Debb, que é a tônica da história: a união de duas personalidades distintas até fisicamente num único corpo. Debb deu a Jane beleza, vaidade, leveza, elegância, sedução… Jane deu a Debb inteligência, talento, compromisso, seriedade… E ambas aprendendo que melhor mesmo é não perder tempo em vida!

drod-dead-diva_elencoDrop Dead Diva também traz tramas paralelas, não apenas os personagens das causas que advogam, mas sobretudo dos que por lá trabalham. Onde o destaque maior vai para a assistente de Jane, a “investigadora” Teri Lee, vivida pela atriz Margaret Cho. Teri tem seus momentos revenge pelos bullying de outrora de carona com a nova personalidade de Jane. Sendo que a ajuda com a “nova roupagem” veio mesmo com a antiga amiga de Debb, que por contingência do destino, se torna também grande amiga da nova Jane. Falo da Stacy Barret, vivida pela atriz April Bowlby. Stacy ainda vive o sonho de ser uma atriz famosa, mas mesmo sem perceber muito sabe que o tempo também está passando por ela. Com isso, um outro sonho toma ponto em sua vida: o de ser mãe. Onde na busca por um pai ideal para seu filho… Termina por abalar a nova/velha amizade com Jane. Tudo por conta do escolhido: Owen French (Lex Medlin). Pois ambos, Stacy e Owen, não contaram com o fato de se apaixonar um pelo o outro. E Owen seria como uma “Jane de calça comprida“: também gordinho, também se viu cobrado pela sociedade… Enfim, Owen sem querer mais desperdiçar o tempo na terra, resolve se entregar a espontaneidade e vitalidade de Stacy. Em meio a tantos romances… ainda há a presença dos anjos da guarda de Jane meio que a policiando para que Dedd encarne de vez Jane. O destaque vai para Fred (Ben Feldman), o mais atrapalhado. Além desses, vale também a menção de mais dois personagens: Kim (Kate Levering) e Parker (Josh Stamberg): ambos também advogados.

Enfim, Drop Dead Diva é de ver e rever! Com personagens atuando em uníssonos: há química entre eles. A Trilha Sonora também como um coadjuvante de peso! Em destaque os sonhos de Jane onde se vê como uma grande Diva da Música. Onde solta a bela voz aliado a nova postura ousada, que faz até pegar o microfone nos karaokês em idas a bares algo também inusitado para ela. Aplausos também para o criador da Série Josh Berman! Berman quis mesmo com essa Série tentar quebrar os paradigmas de beleza de manequim 38 e com menos de 28 anos de idade. Bravo! E na torcida para que Drop Dead Diva emplaque novas Temporadas, pois pelo o que eu li, a atual que já está terminando veio mesmo por pedidos de fãs! Com isso, segue aqui mais uma fã querendo mais continuações! A Série merece ter vida longa!
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Férias Frustradas de Verão (Adventureland. 2009)

ferias-frustradas-de-verao_2009Por Francisco Bandeira.
ferias-frustradas-de-verao_2009_01Adolescentes e suas inúmeras páginas em branco esperando para serem preenchidas durante o tempo. Tudo tão confuso, isentos de responsabilidades, em uma época tão intrigante e verdadeira. Amizades e paixões que vem e vão, restando-nos histórias para contar num futuro não muito distante. Aprendizado de vida que nos torna, teoricamente, mais sábios e maduros. Tempo de descobertas, inseguranças, intensidade, mudanças (físicas e emocionais) e companheirismo, onde compartilhamos com alguém nossas fraquezas, pensamentos, risadas, lágrimas e arrependimentos. Onde nos abrimos e demonstramos o que sentimos de verdade, sem medo de sermos felizes.

Em “Férias Frustradas de Verão” não é diferente. Aqui, conta-se a história de James Brennan (Jesse Eisenberg), que recentemente acabou os estudos e está se preparando para curtir a vida. Mas, devido a problemas financeiros de sua família, o jovem tem que arrumar um emprego que se quiser ir para uma boa faculdade como almeja. Depois de tentativas frustradas para conseguir uma ocupação, ele acaba indo trabalhar em Adventureland, um parque de diversões aparentemente chato, onde logo faz boas amizades e se apaixona pela bela Em (Kristen Stewart), vendo que nem tudo é tão ruim quanto parece.

ferias-frustradas-de-verao_2009_00O elenco está afiado, tendo a dupla central formada por Jesse Eisenberg e Kristen Stewart. A química entre os dois é genuína, sendo extremamente sensível, ao mesmo tempo em que notamos a sinceridade no casal e nos divertimos também com sua relação. Stewart traz uma vulnerabilidade incrível e uma inocência maravilhosa a sua EM, enquanto Eisenberg lembra muito o tipo de personagem dado a Michael Cera, o que mostra que sua escalação para o projeto realmente inteligente, tornando seu James uma figura muito carismática.

O elenco secundário não fica de fora, trazendo Ryan Reynolds em um de seus melhores desempenhos, num personagem trágico construído brilhantemente pelo Diretor Greg Mottola. Outra que chama atenção é Margarita Levieva que interpreta a enigmática Lisa P., uma garota provocante, sensual, extrovertida, descolada e puritana. As cenas de dança da moça são bastante envolventes, assim como seu jeito cativante. E ainda tem espaço para Bill Harder e Kristen Wiig brilharem como Bobby e Paulette, o casal hilário que toma conta do parque e trata seus clientes e funcionários da forma mais engraçada e excêntrica possível. Matt Bush como Frigo e Martin Starr como Joel também cumprem bem seus papéis.

E a trilha sonora é extremamente perfeita, tornando-se um personagem a mais no filme. Temos Lou Reed, David Bowie, The Cure, além de clássicos que marcaram época como “Rock Me Amadeus”, do Falco. Ainda são concebidos momentos inspirados com uso da trilha musical no filme, onde destaco dois em especial: a apresentação de Lisa P. ao som de “Tops”, dos Rolling Stones, já se torna emblemática desde a aproximação de câmera feita por Mottola ao rosto de James, até o corte preciso para a bela Levieva ir preenchendo a tela com enorme charme e desenvoltura. O outro acontece numa bela noite, enquanto vemos os fogos da comemoração de Quatro de Julho ao som de “Don’t Dream It’s Over”, do Crowded House, tornando-se simplesmente inesquecível.

greg-mottola_cineastaO grande trunfo do cineasta é mostrar que essa fase da vida é para ser aproveitada sem medo de arriscar, pois a vida é uma só. Devemos aproveitar esse momento da forma mais intensa possível, sem tempo de arrependimentos. É tempo de idas e vindas, de perguntas e respostas, de amar e odiar, de ser prender ao imprevisível e se libertar do inevitável, quebrar estereótipos e renovar as esperanças de uma geração que parece cada vez mais derrotada.

São dos acasos da vida que tiramos aprendizados, conhecimentos, experiências de vida. São das aventuras que construímos grandes amizades, paixões e momentos que se tornarão inesquecíveis lembranças, pois uma das grandes vantagens de ser adolescente é poder aproveitar a vida ao máximo com preocupações mínimas, poucas responsabilidades e muito tempo para diversão. “Adventureland” é um grito de liberdade para a juventude e um sopro de nostalgia para os que já fizeram a transição da adolescência para a vida adulta, e lembram-se dessa bela fase com um sorriso estampado no rosto.

Por Francisco Bandeira. Avaliação: 8.5

TRINTA (2012). E o Brasil Conheceu um Gênio!

trinta-2012_cartazPor: Carlos Henry.
trinta_cena-do-filmeO filme de Paulo Machline sobre a trajetória do carnavalesco Joãosinho Trinta poderia ganhar tons de um documentário chato, não fosse a feliz opção do diretor em pinçar o importante episódio da tumultuada estreia solo do artista no Salgueiro quando já havia deixado o corpo de baile do Teatro Municipal para se dedicar ao carnaval. O foco do roteiro é a preparação do inesquecível e premiado enredo “O Rei da França na Ilha da Assombração (In credo em Cruz)” no ano de 1974. Enfrentando todo tipo de percalços e preconceitos, Joãosinho revolucionou o espetáculo das Escolas de Samba, consagrando-se como o mais importante artista da área.

Concentrando-se neste episódio decisivo, o diretor conseguiu satisfazer a curiosidade do espectador, sem se perder em muitas histórias, personagens ou detalhes irrelevantes, dando ênfase ao frenético ritmo dos bastidores da festa, com direito à magia e mistério na participação de Léa Garcia como Nha Zita, humor no ambiente tumultuado do barracão representado pelo personagem Calça Larga (Fabricio Boliveira) e suspense na dose certa na pele do antagonista Tião interpretado pelo sempre visceral Milhem Cortaz.

Matheus-Joaosinho_filmeApesar de não contar a história completa do artista, nem ousar mostrar muito da festa propriamente dita, o que certamente encareceria horrores a produção, Machline traça com competência um perfil abrangente de Trinta, destacando a força criativa que enxergava o desfile como uma verdadeira ópera numa analogia genial que mudou o conceito das Escolas de Samba. Infelizmente, de lá para cá, exageraram a dose na avenida, transformando tudo num exagerado show de efeitos especiais com pouco samba de verdade, sensualidade e brasilidade.

Matheus Nachtergaele compôs o papel principal com maestria assombrosa, sobretudo na difícil cena em que tem uma inesperada e providencial explosão nervosa em torno de um punhado de ajudantes atabalhoados neste filme tão belo e empolgante quanto um desfile de carnaval à moda antiga.

Teatro: Chacrinha, O Musical (2014)

Chacrinha-O-Musical_Teatro-Joao-Caetano_RJ-14nov14Por: Carlos Henry.
Na direção, brilha o nome de Andrucha Waddington que já havia provado o talento em filmes bem feitos como “Casa de Areia” e “Gêmeas”. O roteiro é assinado por outro nome famoso: Pedro Bial, cuja figura esteja impossível de desassociar a um detestável programa de “Reality show” na TV a esta altura, mas que também criou boas obras para o cinema como “Outras Estórias” e “Jorge Mautner, o Filho do Holocausto”. O tema é a vida de Abelardo Barbosa, o mais famoso apresentador de programas de auditório da TV brasileira, mais conhecido como Chacrinha, que também virou sinônimo de anarquia e festa. O projeto foi transformar a vida deste ícone que lançou e promoveu um monte de artistas até os anos 80, num musical – uma boa ideia, visto que o gênero vem atingindo considerável qualidade no cenário nacional. Para arrematar, o papel título coube ao excelente ator Stepan Nercessian, um artista nato de inegável talento.

chacrinha-o-musical_stepan-nercessianOs ingredientes pareciam conduzir a uma receita infalível, mas na hora de finalizar, talvez pelo excesso de alguns ingredientes e falta de outros, o resultado não foi dos melhores. A aridez do nordeste, região que o artista nasceu, não justifica a (longa) primeira parte da peça ter aquele tom monocórdio amparado por cenários estilizados pintados em tintas econômicas. Outro problema é ausência de vozes realmente extraordinárias no time de cantores, a ponto de Stepan, que não é cantor, conseguir se nivelar no meio das canções com o restante do elenco em resultados que oscilam entre o aceitável e o sofrível com direito a alguns acordes desafinados que a orquestra somente correta não conseguiu disfarçar. A falha é nítida num primeiro medley musical que parece não terminar. A coisa piora quando um ou outro artista arrisca um solo. Há muitos momentos desperdiçados como “secos e molhados” que surge como se fosse um único cantor.

Apesar do corte abrupto no espaço de tempo entre um programa de rádio mequetrefe de começo de carreira até uma sofisticada aparição na televisão, o segundo ato abre já num cenário exuberante do famoso programa de auditório anunciando melhores momentos e animando a plateia. O visual é colorido e detalhado reproduzindo o clima de bagunça do cassino e da discoteca do bufão Chacrinha. Infelizmente, os problemas básicos da produção evidentes no primeiro ato começam a deteriorar os bons efeitos do início do segundo, fechando num nível que pouco consegue ultrapassar três estrelas.

Chacrinha-O-Musical_Chacretes_Teatro-Joao-Caetano_RJ-14nov14Para quem estava na plateia em estreia aberta ao público, uma grata surpresa numa cena que não voltará a acontecer em outras apresentações: Sob o olhar de Pedro Bial, a chacrete (Como eram chamadas as dançarinas do apresentador) mais famosa do programa, Rita Cadillac, que estava assistindo a peça, é chamada ao tablado junto com Russo, um histriônico assistente de palco que trabalhou o tempo todo com Abelardo. Stepan, incorporado no personagem, simulou brincadeiras típicas da época levando Rita às lágrimas e aos risos quando pediu que a voluptuosa artista dançasse sensualmente a “pantera” diante de um Russo emocionado.

Chacrinha morreu em 1988 e certamente nunca será esquecido. Embora até agora não tivesse acontecido uma obra que homenageasse o velho guerreiro em sua plenitude, ainda há tempo. É como ele mesmo dizia: O programa só acaba quando termina.

Carlos Henry