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Porque odiei 2012

2012

Roland Emmerich é um cara engraçado. Surge em Hollywood com o interessante Stargate e insiste em entregar belas porcarias como 10.000 aC. Ele se consolidou como destruidor oficial do mundo, seguido por Michael Bay e seus filmes de qualidade equiparável aos do Emmerich. Pois bem, a primeira aventura do diretor no ramo destruição global que o povão curte assistir foi bem sucedida e Independece Day é um clássico da sua carreira. Eu particularmente só curto as cenas de ação mesmo e olhe lá… A sua segunda aventura ainda no ramo destruição já não foi tão bem sucedida. Godzilla por mais que eu adore de coração, não nego que é um grande equívoco cinematográfico. Só que Independence Day e Godzilla tem um ponto em comum: são divertidos porque não são tão levados a sério.

Pois bem, após o até regular O Patriota, com Mel Gibson em 2000, o alemão puxa saco número 1 dos Estados Unidos retorna com o péssimo O Dia Depois de Amanhã. O filme é cheio de fatores que atrapalham seu andamento, e essas falhas, tão repetidas a exaustão em seus filmes, comprometem toda a obra. Os clichês, o exagero nos efeitos especiais e o dramalhão barato, transformaram O Dia Depois de Amanhã num dos maiores purgantes da história do cinema. Mas foi em 10.000 aC que o diretor provou por A + B que precisa se aposentar.

A raiva que me consome é o fato de seus filmes renderem milhões. Por conta disso, os produtores ávidos por dinheiro, financiam qualquer coisa que ele quiser por no papel.

E com isso, Roland Emmerich e seus US$ 260 milhões trazem para o circuito comercial mais um equívoco, dessa vez com ares mais pretensiosos e de ”mamãe quero ser obra prima”.

Ele tinha a chance de ser feliz em fazer algo realmente bom, inventar uma história e contar algo que realmente convencesse. Só que o filme se perde na própria pretensão e vira uma cadeia de sentimentalismo barato e hipócrita, com cenas de ação que de longe empolgam ou causam algum impacto, e o mais chato: mais uma vez puxa o saco dos americanos, apresentando eles como a raça mais superior do mundo.

Nada de portal que nos leva a outra dimensão, nada de lagarto alterado geneticamente, nada de aquecimento global, nada de nada que ele fez antes. Dessa vez ele concretiza tudo na teoria do povo Maia, que diz que o mundo vai acabar (ou sofrer transformações permanentes – que seja) em 21/12/2012. Lá nos confins da Índia, o Dr. Satnam (interpretado com muito desconforto pelo comediante Jimi Mistry) descobre erupções no sol que tiveram impacto direto no planeta, fazendo o núcleo da terra se agitar e alterar o metabolismo do planeta.

Seu amigo americano Adrian Helmsley (um Chiwetel Ejiofor péssimo) chega para ver os resultados das pesquisas do indiano e leva as más notícias para o governo americano. Nas mãos do seu superior Carl Anheuser (um dos personagens mais horríveis do cinema, e interpretado com uma falta de competência gritante pelo sempre eficiente Oliver Platt), os resultados dessa pesquisa apontam o fim do planeta e obriga as grandes potencias a financiar um projeto megalomaníaco para salvar uma parte da população que será responsável pelo repovoamento do planeta. O presidente dos Estados Unidos, Thomas Wilson (Danny Glover igualmente ruim) leva o plano para as outras potencias e começam a trabalhar no projeto lá na China.

Essa é a parte política da história. Roland quer criar um enredo globalizado, só que ele não consegue mais se livrar de um estigma que ele mesmo criou para si: “eu vejo os americanos como os melhores seres do planeta”. Ele não chega a por o presidente para salvar o mundo como em Independence Day, mas o faz passar por situações bem mais constrangedoras e igualmente improváveis. Um presidente que abre mão de sobreviver para morrer ao lado do seu povo. Junto com ele o Primeiro Ministro da Itália, mas o filme foi tão infeliz em fazer isso que pra mim soou como deboche. Mas tudo bem. Roland não consegue fazer a coisa toda ser convincente e tudo vira uma grande piada.

Depois vem a grande solução: Arcas que levarão os sobreviventes para um lugar seguro para viver. Ok, mas porque cobrar 1 bilhão de Euros? Quantas pessoas no mundo tem a capacidade de pagar tudo isso? Acho que dá pra contar nos dedos. E porque cobrar se tudo vai acabar e não teremos no que gastar? As perguntas vão aparecendo e as falhas no roteiro capengamente mal construído só vão dando mostra da incompetência do diretor.

Mas ainda somos apresentados a personagens caricatos e pálidos, super deslocados na historia e que no final das contas, só estão ali pra fazer o filme render. Jackson Curtis (John Cusack implorando pra convencer) é um escritor sem sorte. Seus livros vendem pouco e sua família o odeia. Sem o amor dos filhos, com direito aquela frase chata e clichê até o talo ”porque você não me chama de pai?…”, ele tenta por a vida nos eixos. Num acampamento com seus rebentos, acaba conhecendo o lunático Charlie (pavorosamente interpretado por Woody Harrelson), que acredita em teorias conspiratórias sobre o fim dos tempos. Intrigado com as loucuras de Charlie, Jackson começa a acreditar no cara depois de ver sua cidade sendo destruída.

Na fuga mais mentirosa da história, ele consegue um mapa que leva até as tais arcas e parte para lá com a família que o odeia e o novo marido de sua ex esposa. E é aqui que se concentra o pior do filme. Enquanto a parte política tenta ser séria a todo custo, é na parte mais “cinema pipocão” que o filme descamba de vez. atolado de clichês que causam vergonha e de cenas improváveis e de um certo mau gosto em sua condução, são os momentos mais desgastantes e ruins de toda a fita.

2012

E como se não bastasse, os furos mais cabulosos se encontram aqui, como por exemplo perto do fim, uma cena em que alguns personagens do filme se separam por portas a prova de água e a parte que na teoria e na prática não inundaria, é a que inunda e a que inundaria, não inunda. Alguém aí disposto a me ajudar com essa questão? Outra boa está no fato de eles atravessarem a cidade num carro e ainda assim sair de avião com o mundo todo acabando atrás deles… Sem contar que, como o mundo está se acabando, ainda tem gente ameaçando pessoas de prisão…

Tecnicamente prometia ser deslumbrante, mas bom, esqueça, isso tudo fica só no Trailer. Os efeitos especiais são até caprichados, marca do diretor, mas a parte de som e fotografia deixam a desejar. A fotografia porque em alguns muitos momentos não se ajusta e fica confusa e o som porque é ruim mesmo e não tem nada em harmonia com nada. A trilha sonora também esperava que servisse de algo mas foi outra decepção, nem quero me prolongar muito.

Já a direção… O Roland é um cara que parece não evoluir, apenas regredir.

Usando os habituais clichês e uma montagem feita apenas pra causar alguma emoção e não atrair o espectador pra dentro do filme, são o que há de mais picareta na produção de um filme. Ainda mais em um que sonha em ser grande. Grande ele até é, putz grilo, que entediante ficar duas horas e meia sem clímax, sem picirica nenhuma que realmente valha o preço do ingresso.

O roteiro, escrito pelo dito cujo em parceria com Harald Kloser é bobo, forçado e que em muitos momentos do filme, subestimam quem assiste. Com muita coisa criada embasada em clichês, uma trama política pra lá de infantil e o surgimento de muitos personagens, cuja saída mais fácil é matá-los simplesmente do nada, o texto de 2012 é uma tremenda porcaria.

Depois o elenco que dispensa comentários. Por mais que esteja repleto de caras conhecidas, nenhum deles desempenha algo que desperte aquela identificação com o público. O carisma dos atores fica apenas nas revistas, porque no filme não tem absolutamente nada de nada disso. Uma pena. Desperdício total de atores ótimos.

Não me admiro ter odiado o filme. Vindo do Emmerich, coisa boa que não é. A premissa seria até interessante. Outros diretores fariam um show, mas Emmerich transformou em outra porcaria sentimentalista. Talvez se o filme não se levasse tanto a sério (como Independence Day ou Godzilla), seria até mais divertido.

Só que o erro maior está em querer ser o que jamais será: um bom filme.

2012

Nota: -1 (é tão ruim que nem merece ganhar um zero!).

2012, 2009

Direção: Roland Emmerich.
Atores: John Cusack , Amanda Peet , Danny Glover , Oliver Platt ,Thandie Newton.
Duração: 158 min
primeira | | última

Neste texto busca-se analisar o filme ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a partir da reflexão do ‘lugar’ da emoção tanto na ciência como na sociedade. Sabendo-se tratar de um tema fundamental para o indivíduo que é obscurecido pela vida social, a emoção passa a ser uma das temáticas mais recorrentes na Arte – como no cinema. Ela (Arte) expõe e desenvolve temas importantes, e inconvenientes, sem a obrigatoriedade de ampliação de questionamento e busca de solução – já que o que é exposto pode ou não ser tomado para si, podendo-se pensar na Arte como importante instrumento dessa significação no mundo.

Porém, especialmente no cinema, é na própria maneira de se apresentar ao espectador que a obra impacta emocionalmente e mostra sua força comunicativa. Em ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a emoção é trabalhada e tratada de maneira refinada. Trata-se basicamente de um filme de amor – romance como convém à classificação do cinema – porém a dificuldade da própria sociedade em absorver um romance homossexual o faz ser classificado como drama – talvez o grande drama esteja na própria constatação desse amor pelo público e na obrigatoriedade em aceitar aquilo que ali é posto.

Essa questão poderia, inclusive, ser alvo de maiores investigações, já que a emoção é construção (ou constitutivo) social e, neste caso, o medo existente em lidar com determinadas emoções pode ser relevante para a compreensão de quais emoções são valorizadas para o homem do nosso tempo.

Este romance expõe a história de amor entre dois típicos cowboys do interior dos Estados Unidos. A tomada inicial do filme nos apresenta uma paisagem erma e desoladora, tamanha a potência natural e a pequenez do homem e de sua ocupação. Todas as imagens causam um grande impacto na ‘subjetividade’ do espectador, atingindo suas necessidades cognitivas (de leitura de imagem) e provocando suas emoções.

As paisagens naturais são recorrentes durante todo o filme, estão presentes como cenário dos momentos românticos ou de conflito do casal central, já que seus encontros são sempre escondidos entre as montanhas de Brokeback. Esse cenário tornasse incrivelmente versátil, o que inicialmente nos provoca uma leitura de solidão total, ao longo do desenvolvimento da história passa a nos provocar emoções variadas como aconchego, paz, esperança, como se fosse o único local no mundo a possibilitar a realização de necessidades fundamentais à existência, onde se pode ser o que é – assim como aos protagonistas.

Após a primeira tomada que nos torna pequenos diante do que está por vir, os protagonistas (Jack e Ennis) se encontram em uma procura por serviço, ambos se olham disfarçadamente, mas não se cumprimentam. Somente na saída, após o empregador (Aguirre) confirmar o trabalho para ambos cuidando de um rebanho de ovelhas em Brokeback Mountain, Jack toma iniciativa e se apresenta a Ennis que, sem muita energia, diz seu nome e retribui o aperto de mão.

Podemos observar já na vestimenta e na postura dos dois cowboys diferenças relevantes, Jack tem uma aparência mais sofisticada, combinando suas roupas e procurando reforçar um estilo de peão de rodeio, cheio de iniciativa e élan se expressa com maior desenvoltura. Ennis é mais simples no seu vestir, humilde e tímido mantém seu olhar sempre baixo e não toma iniciativa.

Pensemos então no corpo como vitrine da identidade, confunde e carrega o sujeito de preconceitos e conceitos de si mesmo. Sendo o corpo e a alma partes indistintas de mesma matéria é no corpo que estarão materializados as emoções do sujeito.

Portanto, as diferenças (entre eles) que aparece ao longo de todo o filme, como características de personalidade influenciarão na sua maneira de lidar com os sentimentos e com as situações apresentadas pela vida. É em Brokeback Mountain, durante a execução do trabalho que os dois passam a se conhecer. Após uma grande emoção de medo e de perda, imposta por um urso, Ennis recusa violentamente os cuidados de Jack, mas passa a falar mais sobre si.

Outro momento marcante é quando resolvem mudar de posto, pois um sempre tinha que passar a noite no alto das montanhas junto às ovelhas enquanto o outro permanecia no pé da montanha cuidando do acampamento e da alimentação, e Ennis passa a noite sozinho. O isolamento faz Ennis tomar uma postura mais falante ao retornar; Jack até exclama que ele nunca havia falado tanto, Ennis responde: “Falei mais agora do que em todo o último ano.”. O carinho, admiração, consideração de um pelo outro já atingira grandes proporções, sempre havendo, de ambas as partes, uma certa ansiedade pelo encontro.

Naquela noite Ennis não volta para o alto da Montanha, apesar do frio insiste em ficar fora da barraca de Jack, este acorda durante a noite e ouve os gemidos de frio do companheiro, o chama para dentro, este vem correndo cai no colchonete e dorme. Jack acorda novamente durante a noite, pega a mão de Ennis e tenta masturbar-se. Ennis se afasta violentamente, Jack tenta fazer carinhos no rosto de Ennis, colando seus rostos e permanecendo assim. Com respirações ofegantes e se contendo em emoção pura, Jack tira sua calça e Ennis o vira de costas, eles transam violentamente, essa cena lembra mais uma luta – a luta interna de Ennis frente a emoção que se escancarava naquela situação.

No dia seguinte, Ennis olha ao redor, sai da barraca e monta em seu cavalo, não se dirige a Jack, ninguém saberá o que houve entre eles. Mas, ele viu, ouviu e sentiu, tem a certeza de que nunca mais será o mesmo. O seu julgamento interno e possível julgamento social é maravilhosamente representada por Ang Lee: Ennis sobe até a Montanha e encontra uma ovelha morta, dilacerada, com suas víceras reviradas, é assim que Ennis se sente?

Jack está olhando a paisagem, Ennis chega e senta em sua frente, não se encaram, o único comentário a ser feito: não são “veados”, e o que ocorreu só foi vivido ali e permanecerá ali em Brokeback Mountain.

A partir desse momento os dois se permitem viver o grande amor de suas vidas apenas naquele cenário. Os momentos que seriam os mais valiosos e verdadeiros de sua existência se passam ali, por 20 anos. Ambos constroem famílias, Ennis casa-se com Alma (como planejava antes de encontrar com Jack) uma mulher carinhosa, tímida, ‘caipira’, simples e com sonhos pequenos. Jack casa-se com Lureen, uma mulher forte, poderosa e cheia de iniciativa.

É interessante perceber como esses homens encontram mulheres que representam tão bem a sua própria personalidade, elas são seus alteregos mais perfeitos. Quando aparecem em sua vida cotidiana de homens casados, trabalhadores estão sempre infelizes, sozinhos – mesmo quando cercados de pessoas. Sempre aparecendo em ambientes fechados a solidão dos protagonistas é mais evidente e a pequenez de sua existência se faz mais clara do que na imensidão da montanha.

Desde o início Jack propõe a Ennis uma vida feliz em um rancho na montanha, porém o medo e a repressão social em Ennis são tão fortes que ele não vê esta vida como possível. Tornando a sua vida e a de Jack uma eterna espera por Brokeback Mountain. Os encontros são sempre curtos e inesquecíveis por sua potência.

Acreditando na ideia de que o bom é relativo ao sujeito – já que está ligado ao que é desejado e capaz de aumentar nossa potência de ação –, o único julgamento que caberia à sociedade é o do aproveitamento da potência de ser (ou do ser) e não o julgamento moral baseado em valores menores ligados ao medo do desconhecido e do diferente que atinja o conhecimento religioso vigente. Mas, no filme, é o medo do julgamento social que paralisa Ennis e o impede de ser e fazer feliz, sendo neste caso um mau sentimento, pois diminui a atuação do indivíduo e gera tristeza.

A questão central de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, que serve como questionamento até aos mais conservadores, é a dificuldade em expressar a emoção. Essa é uma questão essencial e, até agora, sem resposta já que a manifestação emocional é uma construção social e, em cada cultura, a possibilidade expressiva é diferente. Parte daqui, então, uma abertura para reflexões independentemente da compreensão e identificação com a história do filme. Ou seja, esta história não se finda com o aparecimento dos créditos finais.

Por: Carol Marola.

Não dá para imaginar, ao certo, onde diabos a crítica internacional foi buscar paralelo com filmes de David Lynch e Michelangelo Antonioni [um longo suspiro] para explicar, justificar, talvez, o filme “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral. A falta de sentido, força, expressão dos atores (com exceção de Marcia Martins que eu suspeito não ser atriz profissional) não tem nada que ver com o cinema onírico do primeiro ou a “incomunicabilidade” do segundo. Mesmo por que estes são rótulos baratos e grosseiros de enquadramento do cinema de ambos. Não perguntem a David Lynch o sentido dos seus filmes, pois não há – mas, diga-se, não há propositalmente! Antonioni recusa essa bobageira de “incomunicabilidade”, só que, assim mesmo, as pessoas (os críticos, na verdade) insistem em tachá-lo. Bem, toda essa bronca é porque a referência aos dois cineastas consta no cartaz do filme, porque um crítico de um jornal americano, eu acho, e que não saca muito de cinema pelo visto, escreveu isso em sua crítica – daí o pessoal de marketing do filme vai e recorta essa frase e coloca ali como um selo de qualidade, sendo que se tivessem lido a crítica de Inácio de Arújo, na Folha, por exemplo, teriam tido mais trabalho, apesar da generosidade do crítico. O filme foi selecionado pelo festival de Toronto (como não me perguntem) e saiu de lá como chegou aqui: sem causar efeito algum na platéia, eu presumo.

Suzana Amaral fez um filme legal em sua carreira: “A hora da estrela” há muito, muito tempo. Adaptação do livro de Clarice Lispector. Macabéa ganhou vida! Os atores sustentam o filme! Era um filme que carecia de atores! Agora, “Hotel Atlântico” não precisava de atores profissionais (no máximo um ou dois) e, pelo visto, tanto Suzana Amaral quanto o crítico não devem ter lá prestado muita atenção aos filmes de Pasolini. Ele não usava atores profissionais em muitas de suas obras. Aliás, muitos diretores italianos apelaram para tal recurso (Visconti e Fellini, se não me falha a memória certamente operaram assim) e é bem provável que o próprio Antonioni aprontou algo do tipo. Repito, eu acho que a única atriz não profissional era a Marcia Martins, no papel de esposa do sacristão, e ela foi justamente a melhor em cena. Enfim, se este filme tem paralelo com algo eu diria que a sua pobre narrativa faz eco (quando ele já está bem fraquinho) a de Wim Weders em “No decurso do tempo”. Um Road Movie que também conta com uma personagem deslocada e errante. E, talvez, tenha algo que ver com o cinema de Sukorov, no que diz respeito ao tempo e andamento, especialmente com o primeiro filme dele, “A voz solitária do homem”, que mostra um homem devassado pela experiência da guerra e paralisado diante da vida que lhe resta viver com sua esposa.

So que a ruindade não tem limites: pois quem pôde ver “O invasor”, de Beto Brant, certamente se lembrará da interpretação ousada de Mariana Ximenes, mas ao vê-la novamente em “Hotel Atlântico” vai ter algo mais próximo e, ainda assim, piorado de sua personagem Clara em “A favorita”. Filme? Nada… novela mesmo e daquelas que fazem com que experimentemos os mesmos sentimentos de uma samambaia ao ouvir Wagner. Nem mesmo em uma cena de sexo do filme em que, diferentemente das propagandas dos Cartões Bradesco (em que você poderia escolher uma “celebridade” para um momento especial; no caso, fazer compras “num elegante shopping com uma das mais belas atrizes do Brasil”: Mariana Ximenes. A propósito, provavelmente deve ter sido o seu melhor papel depois de “O invasor”), a excitação/admiração vinha da escolha do fã por sua “celebridade” preferida. A personagem de Ximenes, Diana, não consegue excitar Alberto (uma personagem que é uma tentativa fracassada de materializar um fracassado), assim como a platéia ou sequer convencê-la de que ela “encarna” uma personagem. Talvez se ela também tivesse apelado a uma promoção do Bradesco ao invés de exibir os seios que não faziam páreo aos da esposa do sacristão não apenas em volume, mas também em tensão erótica, quem sabe não teríamos tido melhores resultados.

Bom, se estava aí uma metáfora para o próprio filme eu não sei, mas se a idéia de Suzana Amaral era nos dizer que o cinema brasileiro atual vive uma fase broxante eu a alço imediatamente à condição de genial, mas, sinceramente, não creio que tenha sido o caso.

Um filme aberto, abertíssimo, para infinitas combinações de entendimento é algo aceitável quando isto faz parte de um plano ou até mesmo do acaso, mas não do descaso ou do descontrole criativo. A platéia que, a meu ver, possui determinado grau de exigência, especialmente aquela habituada a ver filmes que não apelam às mesmas receitas de sempre do cinema norte-americano ultra-comercial, saiu cabreira da sala de projeção.

Outra marca patente do filme é a “crise” existencial em que embarca a personagem ao renunciar as imposições sociais. Alberto é abordado por um homem que o reconhece como artista e sempre que usa a palavra artista o faz com deboche e desdém. Sabemos que a função dos artistas foi maculada pela marca da “celebridade” que recai sobre os ombros de muitos: elevando ao estrelado pessoas sem o mínimo talento. Muitos bons atores são mal tratados com filmes ruins, roteiros idiotas, equipe técnica relaxada. Teremos aí, então, outra pérola escondida do filme? Ao menosprezar o artista estamos diante da inveja ou da inutilidade da função? Difícil saber se por trás de algo assim estamos vislumbrando uma nova crítica de Suzana Amaral ou apenas um pretexto para seguir com a narrativa em frente, porque o desenlace subseqüente é desprovido de sentido (o mesmo que fez parecer ao crítico americano estar diante de um filme influenciado por David Lynch).

Alberto, em dado momento do filme, leva um tombo que parece ter sido não planejado. Foi sem querer e ficou registrado, seguiu em frente. Depois, mesmo sujo de lama, se levantou e o filme rodando. Espero que o cinema brasileiro faça o mesmo movimento. Não importa a lama. Eu acho, que neste filme, Suzana Amaral apenas leu mal o texto de João Gilberto Noll, diferentemente do que fez com o texto de Clarice.

Por: Fábio Montarroios.

Hotel Atlântico. 2009. Brasil. Direção e Roteiro: Suzana Amaral. Elenco: Julio Andrade, Mariana Ximenes, João Miguel, Gero Camilo, Helena Ignez, Luiz Guilherme, Andre Frateschi, Lorena Lobato, Marcia Martins, Renato Dobal, Walter Breda, Esther Benevides, Tina Rinaldi, Jiddu Pinheiro e Tiago Pinheiro. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Baseado na obra de mesmo nome de João Gilberto Noll.

FAMA (2009)

Fama_2009_posterA releitura de Kevin Tancharoen daquele musical de sucesso dos anos 80, FAMA, até que surpreende pela qualidade do elenco e da trilha sonora. Kevin usou a mesma receita do filme de Alan Parker: artistas talentosos e desconhecidos, música caprichada e envolvente e alguns espinhos e frustrações na escada do sucesso, tudo razoavelmente bem adaptado para os nossos tempos.

Lá estão os divertidos testes para entrar na escola de artes, o improviso animado no refeitório, o tarado se aproveitando da atriz ingênua, o grande show final e até versões novas de “Out here on my own” (lembra das lágrimas de Irene cantando na festa do Oscar?) e “Fame” (faltou a inesquecível festa nas ruas de Nova Iorque); infelizmente as duas únicas músicas pinçadas do original que também tinha uma trilha muito especial.

Falta, é claro, aquela emoção e sensibilidade que impregna o conhecido estilo do primeiro diretor.

Quem sabe desta vez não surgem verdadeiras estrelas, como era a intenção (frustrada) daquela época?

Naturi Naughton não é Irene Cara, nem Kevin Tancharoen é Alan Parker, mas no fim, dá quase tudo na mesma e uma vontade danada de rever o original. Ô saudade!

Carlos Henry

Fama (Fame). 2009. EUA. Direção: Kevin Tancharoen. Elenco: Kay Panabaker (Jenny Garrison), Naturi Naughton (Denise Dupree), Kherington Payne (Alice Ellerton), Megan Mullally (Ms. Fran Rowan), Bebe Neuwirth (Ms. Kraft), Debbie Allen (Ms. Angela Simms), Asher Book (Marco), Cody Longo (Andy Matthews), +Cast. Gênero: Comédia, Drama,  Família, Musical, Romance. Duração: 106 minutos.

bluebrothers

Comédia cult, que não foi aquelas coisas no cinema. É o primeiro de duas produções.

Elwood (Dan Aykroyd) vai buscar seu irmão Jake (John Belushi) depois que este tem “alta” da cadeia subcondicional. Ambos são mal humorados, mas sempre tem resposta para tudo e raramente tiram seus óculos escuros.

The Blues Brothers_Dan Aykroyd and John BelushiPrecisam recomeçar a vida. Vão procurar o orfanato onde foram criados.
Conseguem reencontrar o orfanato, mas tomam um choque ao descobrir que o local será fechado por causa de uma dívida de US$ 5 mil com a prefeitura, que o orfanato não consegue pagar.
Tentam bolar um golpe com a melhor das intenções de não ter seu lar de ser fechado. Só que não podem. O dinheiro ilícito é pecado, principalmente para quem dirige o orfanato, a freira (Kathleen Freeman).

Jake e Elwood decidem retomar a The Blues Brothers Band, na intenção de realizar um grande show e arrecadar a quantia necessária para pagar a dívida do orfanato. O problema é para remontar a banda eles terão muitos problemas, porque aprontaram todas com tudo e todos no passado – e por isso serão alvo de vingança dos inimigos.

Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers). 1980. EUA.
Direção: John Landis
Elenco: Alem dos atores ja citados, tem Ray Charles, Aretha Franklin, Cab Calloway, James Brown, John Lee Hooker, Chaka Khan…. (precisa mais?)
Gênero: Comédia, Musical. 134 minutos.

JUNO, A Filha de Zeus

Juno_posterJuno MacGuff (Ellen Page) é uma adolescente que engravida de maneira inesperada de seu colega de classe Bleeker (Michael Cera). Com a ajuda de sua melhor amiga, Leah (Olivia Thirlby), e o apoio de seus pais, Juno conhece um casal, Vanessa (Jennifer Garner) e Mark (Jason Bateman), que está disposto a adotar seu filho, que ainda nem nasceu.

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Juno , a filha de Zeus. É assim que a adolescente se apresenta, não?

O filme bem que poderia se chamar: Obrigada, por não abortar! (fazendo alusão ao outro filme desse diretor)

Não estava animada para assistir a esse filme – JUNO – pois fazia uma idéia preconceituosa achando tratar-se de mais um daqueles filmes estilo sessão da tarde, para “aborrescentes” ver. Confesso que me enganei redondamente. O filme não é lá uma obra-prima cinematográfica, mas tem um valor humanístico imenso. Logo pela sinopse constata-se isso:

Uma garota de dezesseis anos é pega de surpresa com uma gravidez não planejada, e toma uma decisão incomum e ligeiramente bizarra de doar a criança.

Discordo do termo “bizarro” empregado para definir a decisão tomada pela protagonista.

No início da trama, mostra a garota fazendo uma longa caminhada bebendo um galão de suco, até chegar a um mercado a fim de comprar um kit de exame de gravidez o qual a mesma faz pela terceira vez. Certamente algo a preocupa. Certamente ela sabe o que fez e a sua preocupação tem fundamento.

É um filme que nas entrelinhas, há uma mensagem expressiva e tão importante para os tempos modernos.

Traçando um parâmetro entre o filme e os dias atuais, muitas lições de vida podemos tirar, e concluir que a arte imita a vida e vice-versa. Gravidez na adolescência. Ou melhor, gravidez em qualquer idade, principalmente se ela não foi planejada ou se ela for indesejada.
Houve um tempo em que o aborto, ainda considerado ilegal, era a melhor decisão ou solução a ser tomada para uma gravidez indesejável.
O genial desse filme é a idéia de se salvar uma vida. E pasmem! É uma menina de dezesseis anos que pensou nessa solução. Geralmente nessa fase da vida, o jovem não tem maturidade suficiente para tomar decisões como essa. Sem falsos moralismos, ela tomou a decisão certa e com o apoio da família, do namorado e dos amigos.Sem falsos moralismos também quando se trata de doar um ser, uma vida nos questionamentos infindáveis do tipo: “e onde fica o amor materno?” “doar um filho?” , “doar um ser que você gerou?” Etc…

Ao se pensar em todos os problemas já existentes no mundo, fico feliz em saber que esse – o de se salvar uma vida – seriam dois de muitos problemas resolvidos. Não matar (o aborto é uma forma de assassinato), e salvar (salvar uma família que deseja ter um filho e não poder, salvar uma vida que não pediu para ser gerada, não pediu para nascer). Está ficando complicado, não?

É um filme para levar a sociedade a muitas reflexões em torno da situação levantada. É um filme que dá margem a muitos questionamentos: familiares, relação sexual sem proteção – dando margem a doenças sexualmente transmissíveis, adoção, aborto, separação etc.

Realmente é um filme digno de muitas premiações.

Por: Karenina Rostov.  Blog Letras Revisitadas.

Bastardos Inglórios

Em 1992 ele surge adaptando uma linguagem cinematográfica em Hollywood. Em 1994 ele desenvolve essa linguagem e conquista o mundo definitivamente.
Em 2003 ele coloca essa linguagem no gosto de todos.

Em 2009 ele transforma essa linguagem e cria seu próprio jeito de fazer cinema!

bastardos

Quentin Tarantino, um rato de locadora que cresceu cercado das melhores influencias, explodiu no cinema e desde então tornou-se um dos mais influentes cineastas do mundo. Seu jeito de contar uma história transcende a originalidade, e mesmo passeando sobre seus próprios filmes (com referencias que vão desde as letras dos créditos a músicas) e fazendo referencias a outros tantos, ele tem um talento todo especial de fazer seus filmes serem os mais originais possíveis.

Agora ele sai do universo dos gângsteres, do crime organizado, das lutas e espadas orientais e das danças animadas, pra contar a história de ”bastardos inglórios”, título que não apenas se refere ao grupo de soldados americanos e judeus que tocam o terror na França dominada pelos nazistas. Mas sim, de todos os envolvidos em um plano mirabolante para matar Hitler.

Começam nos créditos iniciais sua molecagem, séria molecagem. Reparem nas letras dos créditos: umas lembram Kill Bill, outras lembram Pulp Fiction. Depois entra a rasgada e maravilhosa trilha do (G)Ennio Morricone, mais uma vez lembrando Kill Bill. E ao longo de toda a fita, ligações com seus filmes anteriores é o que não falta. Criativo? Sim. Original? Sim. Coisa de Gênio? Sim!

Uma garota, Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) foge da morte certa e do tiro do Coronel Hans Landa (o excelente Christoph Waltz) e desaparece. Essa mesma menina, Shosanna Dreyfuss, tem a chance de vingar a morte de seus familiares, quando os nazistas alugam seu cinema para a estréia de um filme de Joseph Goebbels (Sylvester Groth) – famoso por ser influente na propaganda do partido nazista – cerca de 4 anos depois.

Do outro lado, o Tenente Aldo Raine (Brad Pitt incrível e hilário – lembrando o personagem de sotaque engraçado de Snatch – Porcos e Diamantes) recruta 8 corajosos soldados americanos judeus que passam a ter uma dívida com ele: 100 escalpos nazistas cada um. O objetivo é claro: espalhar o terror no coração dos nazistas, “…fazê-los vomitar de si mesmos…”, como o próprio Aldo Raine diz no momento do recrutamento. Junto com ele, além dos americanos, há um alemão que matou vários oficiais da Gestapo e o terror dos prisioneiros, Sargento Donny Donowitz (Eli Roth bem a vontade), conhecido por matar seus prisioneiros usando com gosto um taco de baseball.

Aldo Raine e seus ”Bastardos”, como passam a ser conhecidos, descobrem após o fiasco de uma missão de espionagem da Inglaterra (com direito a um oficial interpretado por um irreconhecível Mike Myers) onde a atriz espiã Bridget von Hammersmark (a ótima Diane Krueger) está envolvida, que Hitler e todo o alto comando nazista estarão na estréia de um filme, em um cinema, onde poderão definir a guerra do jeito deles: …”matando nazistas!”

aldo raine

O plano entra em ação e os momentos finais do filme são de um bom gosto delicioso. Tarantino não brinca em serviço e nos brinda com um show de imagens que embelezam seu filme até os créditos subirem. Violência estilizada, um tiroteio de manter os olhos abertos, fogo pra todo lado, e um fim surpreendente para mais da metade dos personagens, incluindo Hitler e seus comandados.

Pouco mais de duas horas e meia que passam voando. Tarantino definitivamente não faz feio em nenhum momento do filme. Uma coisa que ele faz bem é manter diálogos longos sem torná-los maçante demais para o espectador. Sempre arranja um jeito de inserir uma surpresa nova, uma frase que te revela muita coisa, uma frase que te arranca risada, uma frase que te faz ver o filme por outro ângulo. Essa capacidade aliada a ótimas interpretações, cria um clima denso e ritmado, onde até o diálogo mais longo (e não são poucos), conseguem passar voando e deixando saudade.

A violência presente não é banal, tampouco está ali por estar. Outro ponto importante de se destacar nos filmes do cara é justamente o cuidado de dar uma justificativa racional à violência mostrada. E com muito bom gosto, claro. São bem filmadas, sem soarem gratuitas, e com aquele toque Tarantino de humor negro, bem evidente no final do filme.

Quanto aos personagens, outra coisa que Tarantino é craque: desenvolver seus personagens. Por mais que tenha muitos personagens, ele dá a cada um a chance de aparecer e fazer o que tem que fazer. Sem tirar nem por, podemos dizer que todos são peças chave/fundamentais na trama. Ninguém é mais estrela do que ninguém e cada um desempenha sua função da melhor maneira possível. Imaginem uma máquina onde todos os seus componentes trabalham na mesma sintonia? Isso é Bastardos Inglórios.

E por falar nos personagens, todos estão perfeitos.Christoph Waltz rouba a cena e arrasa em toda vez que aparece.

hans landa

Poliglota e frio, ele é um misto de ameaça com uma graça angelical impecável, e na hora de patinar sobre esses sentimentos, ele se sai muito bem. Pode valer uma merecidissíma indicação ao OSCAR ano que vem. Brad Pitt só me fez ter certeza de que minha teoria é certa: quando ele não interpreta um galã, ele arrasa! E aqui não é diferente, com um sotaque pra lá de engraçado, uma cicatriz cabulosa no pescoço e um jeitão durão impagável, ele interpreta um dos melhores personagens do filme. Aldo Raine é o cara!

Diane Krueger me surpreendeu e ganhou uma presença mágica no filme. Por mais que seja uma aparição curta, ela consegue deixar sua marca e a importância de sua personagem. O mesmo vem com Eli Roth que pra mim, tem mais talento na frente das câmeras do que atrás. Com 15 kg a mais, suas aparições rendem bons momentos no filme, principalmente nas cenas finais, com aquele olhar insano de matador de nazistas que é perfeito.

Com a sempre provocativa montagem irregular, marca de seus filmes, ele constrói a trama de maneira não linear. As historias dos personagens são contadas de maneira aleatória e depois vão se encontrando em momentos chave do filme, até atingir o clímax dentro do cinema. A fotografia é linda, a direção de arte idem, mas o que mais me deixou feliz foi a trilha sonora… Mais uma vez!

Tarantino sabe o que usar para criar o clima de seus filmes. Aqui ele usa e abusa do Morricone e suas lendárias músicas de filmes faroestes.

Há até David Bowie rendendo uma das minhas cenas preferidas do filme todo, com a vingativa Shosanna Dreyfuss preparando-se para o momento mais importante da sua vida: o acerto final com os nazistas. Sem contar que tudo parece ter sido construído já pensando em cada música. É incrível como cena e música se encaixam perfeitamente, e pra mim, quando um diretor consegue isso, ele está sendo antológico a cada minuto do filme.

Responsável pelo roteiro e pela direção, Tarantino não brinca em serviço e entrega um de seus melhores trabalhos, top 3 com certeza. Mas ele vai além de um filme de guerra. Ele na verdade presta uma homenagem ao cinema. Com todas as citações possíveis de clássicos que vão dos americanos aos franceses, ele inclui nos diálogos comentários e debates deliciosos sobre cinema, diretores, atores e tudo mais. Sem contar que ele usa a linguagem que o deixou famoso pra criar uma linguagem própria.

Seu roteiro não tem a prentenção de apontar mocinhos nem vilões, todos são anti-heróis que lutam pelo que querem. Isso é interessante num gênero que se preocupa em fazer aparecer vilão e mocinho e defender sempre o lado de um. Aqui acontece o contrário, todos mudam, ninguém vale nada e isso deixa o filme intenso e cheio de surpresas. Ao acertar nisso, o clímax criado ao longo do filme é o que há de melhor. Depois vem o humor impagável que toma grande parte dos diálogos bem construídos, sendo o melhor deles, Hans Landa descobrindo os intrusos bastardos se passando por italianos no cinema.

hitler

Dirigido com muita maestria, Tarantino cria um dos melhores filmes do ano, e um dos mais espetaculares filmes de guerra já feito. Além de fazer uma declaração de amor ao cinema e inventar momentos antológicos protagonizados por seus personagens peculiares e em alguns pontos diferentes. Bastardos Inglórios, acredito eu, é um novo clássico do cinema. E se você tem dúvida do talento cinematográfico do Quentin Tarantino, assista o filme e reveja seus conceitos.

Nota: 10

Inglourious Basterds, 2009

Direção: Quentin Tarantino.
Atores: Brad Pitt , Mélanie Laurent , Eli Roth , Christoph Waltz , Michael Fassbender, Diane Krueger.
Duração: 02 hs 33 min

A Balada do Soldado_posterO termo balada durante a Idade Média era usado para descrever um tipo de poema lírico de origem coreográfica, inicialmente cantado e mais tarde destinado apenas à declamação. A partir do século XIV, poema de forma fixa, composto por três estrofes seguida de uma meia estrofe de encerramento. Desde o final do século XVIII, pequeno poema narrativo, composto por estrofe que relatam, quase sempre de uma maneira fantástica uma tradição histórica ou uma lenda. Na Alemanha Bürger, Goethe, Schiller e Uhiand foram os mestres do gênero, enquanto na Itália, L. Carer, G. Prati, Carducci a empregaram para abordar temas patrióticos. Explicação básica para que se possa entender a narrativa do filme A Balada do Soldado, e uma vaga lembrança de uma obra musical em movimento. São dois pra lá, dois pra cá.
A Balada do Soldado é um filme soviético dirigido pelo diretor ucraniano Grigori Chukhraj, com qualidades narrativas líricas e dramáticas, suavemente remetendo ao poema denominado balada, contando feitos patrióticos. Alyosha um jovem soldado que é recrutado para combater no front durante a Segunda Guerra Mundial. Seu parceiro morre, e sendo caçado por quatro tanques nazistas, consegue destruir dois na mais pura sorte. Ele recebe uma condecoração, mas a troca por uma semana de licença para visitar sua mãe e consertar seu telhado. Só que o caminho de volta é longo e, sem um meio de transporte definido, ele vai de comboio em comboio, vendo as diversas facetas da sociedade e as mazelas da guerra.
Alyosha é um herói de nosso tempo. Capaz de representar simbolicamente toda e qualquer sociedade mundial, através de seus atos de bravura, patriotismo e todos os seus outros feitos são notáveis representando através de coragem, generosidade e solidariedade.
O filme começa e termina com o retrato da “mãe coragem” despedindo-se, com lágrimas, do destemido filho que tanto ama e se orgulha.
Quem gosta de despedida? Ela certamente que não, já que lhe lembra algo familiar, ou melhor, que o seu esposo também fora à guerra e não retornou.
A valentia de Alyosha é infinita. Sozinho no campo de batalha enfrenta tanques, armas, inimigos; contudo, tem seu reconhecimento merecido pelo seu Superior que o condecora pelo seu feito heróico. E o jovem soldado o enfrenta com palavras destemidas pedindo-lhe que trocasse o prêmio por uns dias para ir visitar a sua mãe e poder consertar o telhado de sua casa. Era o seu dia de sorte! Claro que conseguiu uns sete dias: quatro para ir e voltar e três para ficar na companhia dela. E a balada do jovem soldado pacifista apenas se inicia.
Pacifista sim, pelo seu gesto de bondade em primeiro lugar. Perdeu o trem porque ficou tomando conta da bagagem de alguém que foi telefonar. Consolar a pessoa dispensada da guerra porque se tornou um inútil e já não tem mais serventia; talvez achasse que perdeu a dignidade e temia a  rejeição da própria família. Encorajá-lo não foi tarefa difícil para o generoso soldado. Atitudes nobres e sinceras encerram cada ponto de virada da narrativa.
Há males que vêm para o bem. Perdeu-se tempo precioso durante toda a viagem de ida por justas causas.
Perdas e ganhos. O bravo soldado encontrou o Amor. Durante a sua viagem encontrou Shura, uma linda jovem que, por receio do ainda desconhecido, lhe mentiu que estava viajando para se encontrar com o noivo. A viagem parecia não ter fim. Tantos acontecimentos inesperados vão somando na aventura agora do casal que aos poucos começa a se entender.
O soldado Alyosha prometeu visitar a esposa de um amigo e levar um presente. Em uma das paradas do comboio, não deixa de cumprir a tal missão. Conhece a mulher do colega numa hora, digamos, imprópria, pegando-a em um momento que não esperava receber visitas, principalmente vindo da parte do marido que estava na guerra, ela, pois, estava em outra visita íntima. Mesa feita, cama desfeita…
Interessante a atitude do bravo, destemido e solidário herói nessa situação que se vê pego numa saia justa. O que deve ser pior em tempos de guerra? Talvez o crime maior ainda seja a traição. Trair a confiança de alguém ainda é a pior forma de matar. Armas em punho para se defender ou se morrer é justo. Pior que a dor física deve ser mesmo a espiritual. O soldado já sabia disso.
O adultério e a infidelidade são atos (in)questionáveis e / ou  (im)perdoáveis?
Pela atitude do jovem soldado conclui-se que é um crime que ele não perdoaria. Ele chega a entregar o presente do colega à esposa. Mas já na rua, decide voltar para a casa dela e pegar de volta. A mulher entende esse ato e pede-lhe que não comente o fato com o marido. Alyosha acaba dando esse presente para outra pessoa parente de alguém que está na guerra. Às vezes é necessário mentir.
Shura e Alyosha se despedem. Cada um segue o seu caminho.
E quando ele chega na aldeia para encontrar a sua querida mãe, já é hora de voltar. Ela tem intuição e certeza que seria a última vez que veria seu amado filho. O dever o chama. Ele tem consciência de sua responsabilidade de que no momento é consertar muitos outros telhados em piores estados para salvar a pátria do desabamento.

Um filme  que cumpriu muito bem o seu papel.
Karenina Rostov

Direção: Grigori Chukhraj

Roteiro: Grigori Chukhrai, Valentin Ezhov
Gênero: Drama/Guerra/Romance
Origem: União Soviética
Duração: 89 minutos
Tipo: Longa-metragem
Tipo: Longa-metragem / P&B

Elenco:
Vladimir Ivashov
V. Markova
Yevgeni Teterin
Aleksandr Kuznetsov
Elza Lezhdey
Yevgeni Urbansky
Nikolai Kryuchkov
Nikolai Kryuchkov
Antonina Maksimova
Zhanna Prokhorenko
Vladimir Pokrovsky

Sinopse

Em plena Segunda Guerra, um soldado, depois de ter destruído heroicamente dois tanques inimigos, consegue uma licença para retornar à sua terra para reencontrar a mãe. Mas a viagem, basicamente de trem, passando por várias aventuras, inclui o encontro com uma jovem por quem se apaixona.

coco_before_chanel_posterEu fiquei encantada em conhecer a trajetória de vida dessa mulher: Coco Chanel. E que pelo título, o filme nos mostra até o seu estrelato: Coco antes de Chanel. Fama. Celebridade… Algo que tantos buscam. Mas poucos são os que conseguem ficar no topo, e por méritos próprios. Porque a esses, lhes sobram talento. E um pouco de perseverança.

O filme inicia com duas meninas deixadas à porta de um Colégio de Freiras, pelo próprio pai. As janelas desse internato mais que uma prisão, pareciam pequenos caixões… Elas são as irmãs Chanel: Gabrielle, a Coco, e sua irmã Adrienne. Sentem-se desoladas pelo abandono total do pai. A mãe falecera.

Se por um lado pesou essa ausência paterna… por outro, algo que faz parte dos ensinamentos de um colégio desses – prendas do lar -, sem querer despertaria seu talento nato. Com as aulas de Corte e Costura, lhe daria uma base. E o tempo, iria ajudar a lapidar essa jóia rara.

Ambas, já adultas, foram trabalhar num Cabaré. Consertavam as roupas das coristas. Por querer serem atrizes, conseguiram apresentar um número musical. Cantando uma canção infantil, de uma menina procurando pelo seu cãozinho, de nome Coco. Gabrielle (Audrey Tautou) apesar de uma voz melodiosa, não tinha a exuberância da irmã. Algo que era quase imprescindível naquele ambiente: de despertar a tesão dos homens. E pelo seu temperamento de não se calar, não era nada querida pelo dono do Cabaré.

Se de um lado, fantasiava o seu passado, por outro, sabia que ali, não lhe daria futuro. Mas só tomou uma decisão em sair dali, quando viu que sua carreira de atriz seria fantasiosa também.

Mas uma vez o destino, por linhas tortas, a impulsionava para chegar onde chegou. Muito embora, no momento, lhe parecesse meio cruel. Sua irmã decidira largar tudo, e ir morar com um nobre. Por não ter berço, Adrienne (Marie Gillain) não seria reconhecida pela família dele. Mas não se importavam, ela e ele, de viverem à margem da nobreza.

Coco ainda tenta uma carreira solo. Mas aos olhos dos homens, não era sexy. Então resolve ir procurar um nobre, Étienne (Benoît Poelvoorde), o único que até se encantara por ela. Ele aceita que fique em sua mansão hotel. Desde que não aparecesse quando estivesse com convidados.

coco-chanel-e-o-traje-de-montariaAté que num dia, ao vê-los saindo galopando pelos prados, resolve ir atrás. Mas antes, pega uma peças de roupas de Étienne, e dar um ar feminino ao traje. O que a faz cair nas graças da convidada principal. Uma famosa atriz de teatro, Emilienne (Emmanuelle Devos). O que seria um ultraje, deu início ao uso de calças compridas para as mulheres. Muito mais prático para certas ocasiões.

Quando ainda em dupla com a irmã, Coco a libera dos espartilhos. Para ela, era uma tortura desnecessária. O que viria a ser a libertação de vez, um pouca mais tarde, já com o seu primeiro desfile. Algo que também não gostava, era todas as plumas, pedrarias, adornos mil que as mulheres usavam. Para ela, a elegância estava em retirar aquilo tudo. Menos coisas, e não mais. E de fato é isso!

Mas dois fatos contribuíram para a sua virada. Um deles, por não poder acompanhar Étienne até a Tribuna de Honra no Jóquei Clube. Coco prometeu a si próprio que um dia seria convidada para estar junto com a nata da sociedade parisiense. O outro, fora uma estocada no seu coração. Serie preterida por uma rica e nobre herdeira. Seu primeiro e grande amor, Arthur ‘Boy’ (Alessandro Nivola), preferiu um casamento de conveniência.

coco_avant_chanel_photoMesmo assim, ele resolve investir no seu talento. Já tivera provas dele. E até do seu olhar clínico, em transformar uma peça do vestuário masculino num feminino, e cheio de charme.

Não sei se foi ela quem de fato lançou o pretinho básico tão salvador da pátria para nós. Agora, a cena onde escolhe o tecido, e então o usa, num salão… É deslumbrante! Amei!

coco-avant-chanelSe fora pelo patrocínio de Arthur que a impulsionou, foi Emilienne quem lhe abriu os olhos para o seu talento. Coco tinha lhe feito um chapéu que caiu no gosto das mulheres. Mas ela foi além de ser uma simples chapeleira. Criava todo o traje, dos pés à cabeça, literalmente. E esse Ateliê a lançou de vez num novo mercado que surgia: o Mundo da Moda da Alta Costura.

Como eu falei no início, amei essa biografia. O filme é muito bom. Mas é para um público mais seletivo.

Agora, a Audrey Tautou, a mim, não arrebatou essa personagem. Em marcar a sua presença. Pois ao término do filme, fiquei pensando se uma outra atriz me levaria às lágrimas naquele final. Em dizer BRAVO!, completamente emocionada. Eu digo sim – BRAVO! -, mas a pessoa de Coco Chanel. Uma personalidade deslumbrante. Que ousou se libertar das convenções da época, e em alto estilo. Quanto à Tautou, o meu – BRAVO! -, ainda o é para a sua Amélie Poulain.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Coco antes de Chanel (Coco avant Chanel). 2009. França. Direção e Roteiro: Anne Fontaine. +Cast. Gênero: Biografia, Drama, Romance. Duração: 105 minutos. Baseado no livro de Edmonde Charles-Roux.

A Orfã

O cinema de terror já nos brindou com muita coisa boa. Obras Primas do cinema estão dentro desse gênero que tanto admiro e gosto. Mas de uns tempos pra cá, sem aquele tesão delicioso de conquistar fãs e sim encher cinema, os filmes de terror deram uma decaída monstruosa em qualidade. Vez ou outra aparece algo interessante e que realmente vale a pena, só que também, em proporção geométrica, me aparece ofensas que dão até raiva, ao invés de medo.

Jaume Collet-Serra deixa qualquer um duvidoso ao ver seus filmes. Ele primeiro aparece com A Casa de Cera que dispensa comentários. Mas conseguiu se redimir (ao menos comigo) com o divertido e eficiente Gol! 2. Com A Orfã, ele conseguiu ser bem mediano, mas nada que salvasse o filme do completo desastre.

Enquanto ele amadurece como diretor, a sua insistência em usar métodos medíocres e picaretas para conseguir a atenção do espectador compromete esse ponto quase positivo. Ainda bem que ele soube fazer uma ou outra coisa boa quando o assunto é drama (rendendo uma cena muito tocante no filme quando a mãe conta uma história para a filha que é deficiente auditiva), e é nas cenas mais dramáticas que o filme consegue mostrar certa qualidade.

Kate (a ótima Vera Farmiga) é uma mulher cheia de problemas. Ex dependente de álcool e que havia perdido uma filha de forma traumática, ela está se reerguendo aos poucos. Mesmo que pesadelos de sua ultima gravidez ainda aterrorizem sua vida. Casada com John (o péssimo Peter Sarsgaard), um designer pai coruja, e mãe de 2 filhos (Max, a filha deficiente e Daniel, o filho), ela sente que precisa doar o amor que daria para a filha que não nasceu, e depois de muito pensar, aposta na delicada decisão de adotar uma filha.

No orfanato conhecem a doce e amável Esther (Isabelle Fuhrman – que tem futuro no cinema), que em pouco tempo conquista a confiança de todos na família, mas aos poucos começa a cultivar a inveja e a desconfiança em todos, mas não contra ela, mas sim, uns contra os outros. Kate começa a perceber que Esther não é nenhuma santa, mas as suas tentativas de provar isso e tentar reparar o erro culmina na morte de pessoas, e a amável garota que conheceu no orfanato se mostra o diabo em pessoa.

orfã 1

Mas aí vem o melhor: a menina não é nenhum espírito ruim, não está possessa pelo tinhoso, não é nada disso que poderíamos esperar de um filme medíocre, mas sim algo até diferente, surpreso e acreditem inteligente. Só que ainda assim soa fantasioso, mas tudo culpa da produção do filme.

O clima de tensão é bom, mas cansa. As atuações são ruins, tirando Vera Farmiga, que segura as pontas e convence na maioria de suas cenas, exceto no fim, quando sua personagem ganha uma certa limitação e precisa virar uma super heroína, desvendando todo o mistério em menos de 5 minutos.

A pequena Isabelle Fuhrman também consegue se destacar. Ela também convence e tenho até a audácia de compará-la ao garoto Harvey Stephens que em 1976 fez minha espinha congelar com seu sorriso em A Profecia. Ela tem uma atuação tão convincente que fez toda a explicação de seu passado ser até plausível.
A parte técnica é esforçada.

O melhor foi o pesadelo que abre o filme, transformando a sala de parto no pior lugar do mundo.

Só que a adição de sustos pré fabricados, aquele efeito de “pessoa chegando perto” e todos os clichês possíveis que estão no manual “Como Fazer um Filme de Terror Ruim Nos Dias de Hoje” estão lá. O diretor tenta ser bom, mas a sua insistência nisso compromete o filme.

Em resumo, com todos os defeitos (que não são poucos), o filme tem para cada acerto, 2 erros. Contabilize isso em duas horas de duração e tenha a sua resposta.

Tinha tudo pra ser um bom filme, mas consegue ser mais um esquecível!

orfã 2

Nota: 2,0

Orphan, 2009
Direção: Jaume Collet-Serra.
Atores: Vera Farmiga , Peter Sarsgaard , Isabelle Fuhrman , CCH Pounder , Jimmy Bennett.
Duração: 02 hs 03 min

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