A Gangue (Plemya. 2014)

A Gangue_2014Por: Eduardo Carvalho
O cinema é uma arte que mistura vários elementos e linguagens. Texto, som, luz, cenografia, movimentos de câmera guiam o espectador para que ele assimile e desfrute um filme. O que dizer, então, quando um dos elementos fundamentais à compreensão está ausente?

Vencedor da Semana de Crítica em Cannes 2014, o ucraniano “A Gangue” traz uma proposta inusitada, talvez inédita nesses pouco mais de cem anos de cinema. Conta a estória de um rapaz que chega a um internato para adolescentes, e após sua iniciação, logo é admitido na gangue do título, um grupo de jovens estudantes que se impõem pela força sobre os demais e exploram a prostituição de suas colegas. A questão é que o filme é narrado e interpretado em linguagem de sinais, sem uma única linha de texto verbalizado, sem legendas, sem os conhecidos quadros explicativos dos filmes mudos. Sem música. Apenas a captação do som ambiente. Nada mais.

a-gangue_2014A sinopse indica uma obra com índices de agressividade e promessas de polêmica. E, logo após o primeiro longo plano da festa, é o que o filme entrega ao público. O protagonista chega ao local timidamente, e embora tente resistir, vai sendo enredado em um crescendo de tensão e violência, a ponto de ele próprio tornar-se extremamente violento. Até mesmo a relação afetiva que ele cria, pela própria natureza do envolvimento, torna-se parte decisiva de toda a brutalidade, contribuindo para o desfecho.

Com toda a força da estória em si, e o realismo incômodo de algumas sequencias, a ousadia da proposta narrativa é o que se sobressai. Para o público em geral, que não domina a linguagem de sinais, todo o desenvolvimento da trama é plenamente compreensível na sua totalidade. Isso é facilitado pela quantidade de planos-sequência, tanto estáticos quanto móveis, e os detalhes da comunicação entre os personagens em suas discussões tornam-se irrelevantes. Somada à da fala, a ausência de música – os sons presentes são passos, portas batendo, urros de dor – torna o espectador mais atento ao que se desenrola na tela; a vida real pode ter falas ou não, mas certamente não tem trilha sonora. A ausência de um melhor delineamento moral, com possíveis ambiguidades de cada personagem, o que poderia dar maior profundidade ao filme, abre espaço a uma brutalidade urgencial de determinados planos, inserida naturalmente em um filme com este conceito, que, mais uma vez, reforça a noção de que a produção de países europeus em crise, como a Ucrânia, reflete o momento pelo qual as pessoas estão passando. Nesse sentido, o filme segue obras como os recentes “Instinto Materno”, da Romênia, e o grego – e também polêmico – “Miss Violence”.

Se o primeiro longa do diretor Myroslav Slaboshpytskly passa ao largo de outras obras que se valem da ausência do texto falado, como o belo “Blancanieves”, e principalmente o reflexivo “As Quatro Voltas”, “A Gangue” é uma obra que aposta na utilização dos demais sentidos de percepção do espectador, ampliando as possibilidades da linguagem cinematográfica.

A Gangue (Plemya. 2014). Ucrânia. Direção e Roteiro: Miroslav Slaboshpitsky. Elenco: Grigoriy Fesenko, Yana Novikova, Rosa Babiy. Gênero: Crime, Drama. Duração: 130 minutos.

Winter Sleep (Kis uykusu. 2014)

Winter Sleep 01Por: Eduardo Carvalho.
No meio da Capadócia, um ex-ator de teatro é proprietário de um hotel, além de dono de metade das casas do vilarejo. Enquanto exerce seu poder, entre conflitos com os inquilinos, com a irmã e a jovem esposa, Aydin escreve artigos para sua coluna em um jornal local, e prepara uma grande obra sobre a história do teatro turco.

Winter Sleep 02A sinopse de “Winter Sleep” não diz muita coisa. No entanto, as próximas 3h16m de projeção, iniciadas com um zoom que adentra a cabeça do protagonista, irão mostrar o que se passa com esse homem. Sujeito arrogante em sua pretensa intelectualidade, esta o torna, em sua própria ótica, superior aos demais à sua volta. Assim, Aydin julga ter o direito de desprezar e espezinhar os outros, com os quais, aliás, mal se relaciona diretamente; é com os fãs de sua coluna, que reverenciam a ele e a seus textos, que ele encontra combustível para sua prepotência. Em uma das longas conversas que trava com sua irmã Necla, onde ela aponta a insignificância do alcance do jornal local, ele diz algo como: “Eu sei que o palácio é pequeno. Mas, ainda assim, por que não ser rei ali?”. Nos embates com Necla e a esposa Nihal, Aydin poderia ter algum lampejo de consciência. Mas não; quando confrontado, ele demonstra claramente sua vileza e mesquinhez, deixando cair o verniz de bondade. Ao tentar tirar de Nihal a única coisa que a mulher pode realizar fora de sua órbita, ele tenta convencê-la – ou a si mesmo – de sua preocupação com o bem-estar da esposa. Inutilmente.

Além da clara qualidade do texto, que fez alguns lembrarem de Tchekov, o trabalho de Nuri Bilge Ceylan tem um elenco afiadíssimo e um trabalho de fotografia à altura. Haluk Bilginer faz seu protagonista longe do overacting típico de Hollywood, com extrema contenção e sutileza nos gestos e sinais que desmascaram o personagem, como o risinho de escárnio. Melisa Sözen tem grandes momentos com o protagonista e com o professor, com a intensidade própria da ingenuidade de sua Nihal. Os planos mais fechados e escurecidos contribuem para a densidade da obra, em um ótimo trabalho em conjunto com o texto.

Winter Sleep 03Um protagonista como Aydin ou a duração do filme seriam fatores para dificultar a aceitação de “Winter Sleep”. Mas Ceylan não fez concessões. O tempo provou que estava certo; levou a Palma de Ouro de 2014. É o reconhecimento mais do que justo desse extenso painel sobre a predileção pelo intelecto ante o contato humano e as relações de afeto, retratando esse homem que escolheu a solidão decorrente de sua triste vaidade.

p.s: Visto na 38ª Mostra Internacional de Cinema. Ainda sem data para entrar no circuito comercial..

RELATOS SELVAGENS (2014). Rindo da Própria Desgraça!

relatos-selvagens-2014_cartazPor Eduardo Carvalho.
A vida contemporânea pode deixar a todos com os nervos à flor da pele. Problemas financeiros, emocionais, uma crise no casamento. O descaso do serviço público com o cidadão. Um xingamento aqui e ali, no meio do trânsito das grandes cidades.

Em cima de situações cotidianas, que a princípio poderiam ocorrer com qualquer um, Damián Szifron escreveu e dirigiu as seis estórias que compõem “Relatos Selvagens”. Estrondoso sucesso na Argentina, exagerando cada situação a ponto de deixá-la à beira do inverossímil, o filme faz rir de pequenas tragédias do dia-a-dia que tomam proporções absurdas, por conta da reação explosiva de cada protagonista. E o faz de forma engraçadíssima.

relatos-selvagens-2014_01O prólogo, que se apresenta como um encontro casual num avião, revela-se um maquiavélico plano de vingança do verdadeiro protagonista – que não aparece, mas apenas citado –, um músico erudito fracassado. Em seguida, uma garçonete hesita em executar sua vingança contra o responsável pela morte de seu pai, numa lanchonete largada à beira de uma estrada. O terceiro episódio é um bizarro embate digno de “Encurralado”, de Steven Spielberg, onde um simples xingamento na estrada leva a um duelo entre os motoristas de um Audi último tipo e de um sedã caindo aos pedaços, ao som de um hit romântico dos anos 80. O episódio com Ricardo Darin mostra mais um homem comum, de temperamento explosivo, que se vê às voltas com a burocracia do trânsito, perdendo a paciência e a razão, ao utilizar suas habilidades para se vingar do sistema – o personagem é perito em implosões. O penúltimo episódio, o único com final verdadeiramente trágico e não menos irônico, mostra uma família abastada tentando livrar o filho, que atropelou uma grávida, das garras da justiça, com um jogo de corrupção. Por fim, a última estória mostra uma festa de casamento explodindo de ressentimentos, violência, sexo e sangue, todos misturados no bolo dos noivos.

A simples sinopse de cada estória não é o bastante para revelar o tom mordaz e hilariante que Szifron imprimiu à obra como um todo. O único elemento que liga as estórias é a barbárie, e é o elo que basta. Cada protagonista teve seu ataque de nervos almodovariano – não por acaso, o diretor espanhol e seu irmão produzem o filme –, perdendo absolutamente o controle de suas ações, pois sente que perdeu o controle de sua vida. De modo planejado ou passional, cada um deles expressa o rancor de vítima que é de uma sociedade em crise, econômica e de valores, onde o menor fator pode transformar-se na gota d’água que irá gerar uma discussão, uma briga, um homicídio.

A montanha russa de emoções com que Damián Szifron lança os espectadores de “Relatos Selvagens” une o nonsense do Monty Python à brutalidade de Quentin Tarantino para retratar, de forma terrivelmente engraçada, os absurdos de que o homem do século XXI é capaz em um dia absolutamente normal.

Panorama do Festival do Rio 2014 – parte V – Documentário: Peter de Rome: Vovô do Pornô Gay (2014)

peter-de-romePeter de Rome: Vovô do Pornô Gay” é mais um documentário fraco da mostra. Dirigido por Ethan Reid, a verborreia convida o espectador ao sono mais profundo para acordar somente nas poucas e válidas cenas de sexo explícito.

Na década de 60/70, o cineasta inglês Peter de Rome corajosamente realizou dezenas de filmes pornográficos gays quando a homossexualidade ainda era crime. Os filmes, sem grande qualidade técnica, possuíam notável valor criativo a ponto de chamarem a atenção do artista Andy Warhol e serem restaurados e catalogados pelo British Film Institute.

As sequências com homens negros, a visita ao estúdio do célebre realizador de filmes gay Kristen (Carnaval in Rio) Bjorn e os detalhes inacreditáveis das filmagens de sexo real (underground) dentro de um vagão de metrô lotado merecem destaque.

Infelizmente, o clima hedonista que reina nas cenas de sexo e nas locações em Fire Island é prejudicado com longas entrevistas de pouco conteúdo, o que não leva a recomendar o filme.

Por: Carlos Henry.

Panorama do Festival do Rio 2014 – parte IV – Filme: BOYHOOD (2014).

boyhood_2014_posterBoyhood” de Richard Linklater parte de uma ideia muito atraente. Contratar e filmar um mesmo ator desde a tenra infância até o começo da idade adulta, sendo ele o personagem central da história. O problema é que durante mais de uma década, pouca coisa interessante acontece na vida do menino Mason vivido pelo ator Ellar Coltrane que justifique um roteiro para ser levado às telas.

boyhood_2014_personagensE assim, assistimos durante intermináveis horas os processos típicos do amadurecimento natural de Mason, enfrentando a separação dos pais, os padrastos violentos, amizades, brigas com a irmã Samantha (A atriz Lorelei Linklater, filha do diretor, revela-se particularmente brilhante nos diálogos iniciais da fase infantil para tornar-se insossa como a maior parte do filme nos últimos estágios.) e finalmente sua iniciação sexual, sempre com aquele mesmo irritante ar blasé. É relativamente divertido observar o ator que no início era uma bela criança enfeando gradativamente ao adolescer para melhorar um tantinho no final.

Vale ressaltar a atriz que vive a mãe, Patricia Arquette defendendo o melhor personagem da história com vários momentos emocionantes por conta do seu dedo ruim para homens e também sofrendo mudanças físicas visíveis ao longo da obra, engordando significativamente no decorrer da trajetória.

Recheado de cenas banais de família e cotidiano para encher linguiça, o filme até que tem um desfecho bacana com um inspirado diálogo de aproximação romântica juvenil, mas que em seu todo é um pálido retrato da geração apática do início do século XXI.

Por Carlos Henry.

Panorama do Festival do Rio 2014 – parte III – Filme: Annabelle (2014).

annabelle-2014Annabelle” é realmente um filme de terror eficiente a maior parte do tempo. Ainda que com eventuais deslizes e problemas de ritmo, John Leonetti consegue imprimir um clima de tensão e medo constante com base na história da medonha boneca iniciada no ótimo “Invocação do Mal” (The Conjuring).

A trama é ambientada nos anos 60 e portanto é impossível não lembrar do clássico “Bebê de Rosemary” por conta da personagem central vivida pela bela e expressiva Annabelle Wallis, (Pura coincidência com o nome da boneca possuída pelo cão que existe de fato e está guardada num museu da dupla de ocultistas Ed e Lorraine Warren) e as nuances de comportamento que sugerem uma possível histeria ou imaginação e reação exagerada para a causa dos horrendos acontecimentos, pondo o espectador em intrigante dúvida.

Um casal prestes a ter um bebê decide comprar uma boneca pavorosa de colecionadores para “enfeitar” o quarto da criança.

Numa noite, recebem a visita de um grupo de fanáticos religiosos, provavelmente liderados por Charles Manson e uma mulher acaba morta com a tal boneca nos braços. A partir daí, já recuperados do terrível ataque, começam a perceber fenômenos relacionados com o estranho brinquedo. Concluem que a boneca está possuída por um demônio que quer a alma do pequeno rebento.

Cheio de sustos e imagens habilmente ocultas na escuridão, o filme cumpre o papel que se propõe assombrando o espectador até os gritos.

Por: Carlos Henry.