
Roland Emmerich é um cara engraçado. Surge em Hollywood com o interessante Stargate e insiste em entregar belas porcarias como 10.000 aC. Ele se consolidou como destruidor oficial do mundo, seguido por Michael Bay e seus filmes de qualidade equiparável aos do Emmerich. Pois bem, a primeira aventura do diretor no ramo destruição global que o povão curte assistir foi bem sucedida e Independece Day é um clássico da sua carreira. Eu particularmente só curto as cenas de ação mesmo e olhe lá… A sua segunda aventura ainda no ramo destruição já não foi tão bem sucedida. Godzilla por mais que eu adore de coração, não nego que é um grande equívoco cinematográfico. Só que Independence Day e Godzilla tem um ponto em comum: são divertidos porque não são tão levados a sério.
Pois bem, após o até regular O Patriota, com Mel Gibson em 2000, o alemão puxa saco número 1 dos Estados Unidos retorna com o péssimo O Dia Depois de Amanhã. O filme é cheio de fatores que atrapalham seu andamento, e essas falhas, tão repetidas a exaustão em seus filmes, comprometem toda a obra. Os clichês, o exagero nos efeitos especiais e o dramalhão barato, transformaram O Dia Depois de Amanhã num dos maiores purgantes da história do cinema. Mas foi em 10.000 aC que o diretor provou por A + B que precisa se aposentar.
A raiva que me consome é o fato de seus filmes renderem milhões. Por conta disso, os produtores ávidos por dinheiro, financiam qualquer coisa que ele quiser por no papel.
E com isso, Roland Emmerich e seus US$ 260 milhões trazem para o circuito comercial mais um equívoco, dessa vez com ares mais pretensiosos e de ”mamãe quero ser obra prima”.
Ele tinha a chance de ser feliz em fazer algo realmente bom, inventar uma história e contar algo que realmente convencesse. Só que o filme se perde na própria pretensão e vira uma cadeia de sentimentalismo barato e hipócrita, com cenas de ação que de longe empolgam ou causam algum impacto, e o mais chato: mais uma vez puxa o saco dos americanos, apresentando eles como a raça mais superior do mundo.
Nada de portal que nos leva a outra dimensão, nada de lagarto alterado geneticamente, nada de aquecimento global, nada de nada que ele fez antes. Dessa vez ele concretiza tudo na teoria do povo Maia, que diz que o mundo vai acabar (ou sofrer transformações permanentes – que seja) em 21/12/2012. Lá nos confins da Índia, o Dr. Satnam (interpretado com muito desconforto pelo comediante Jimi Mistry) descobre erupções no sol que tiveram impacto direto no planeta, fazendo o núcleo da terra se agitar e alterar o metabolismo do planeta.
Seu amigo americano Adrian Helmsley (um Chiwetel Ejiofor péssimo) chega para ver os resultados das pesquisas do indiano e leva as más notícias para o governo americano. Nas mãos do seu superior Carl Anheuser (um dos personagens mais horríveis do cinema, e interpretado com uma falta de competência gritante pelo sempre eficiente Oliver Platt), os resultados dessa pesquisa apontam o fim do planeta e obriga as grandes potencias a financiar um projeto megalomaníaco para salvar uma parte da população que será responsável pelo repovoamento do planeta. O presidente dos Estados Unidos, Thomas Wilson (Danny Glover igualmente ruim) leva o plano para as outras potencias e começam a trabalhar no projeto lá na China.
Essa é a parte política da história. Roland quer criar um enredo globalizado, só que ele não consegue mais se livrar de um estigma que ele mesmo criou para si: “eu vejo os americanos como os melhores seres do planeta”. Ele não chega a por o presidente para salvar o mundo como em Independence Day, mas o faz passar por situações bem mais constrangedoras e igualmente improváveis. Um presidente que abre mão de sobreviver para morrer ao lado do seu povo. Junto com ele o Primeiro Ministro da Itália, mas o filme foi tão infeliz em fazer isso que pra mim soou como deboche. Mas tudo bem. Roland não consegue fazer a coisa toda ser convincente e tudo vira uma grande piada.
Depois vem a grande solução: Arcas que levarão os sobreviventes para um lugar seguro para viver. Ok, mas porque cobrar 1 bilhão de Euros? Quantas pessoas no mundo tem a capacidade de pagar tudo isso? Acho que dá pra contar nos dedos. E porque cobrar se tudo vai acabar e não teremos no que gastar? As perguntas vão aparecendo e as falhas no roteiro capengamente mal construído só vão dando mostra da incompetência do diretor.
Mas ainda somos apresentados a personagens caricatos e pálidos, super deslocados na historia e que no final das contas, só estão ali pra fazer o filme render. Jackson Curtis (John Cusack implorando pra convencer) é um escritor sem sorte. Seus livros vendem pouco e sua família o odeia. Sem o amor dos filhos, com direito aquela frase chata e clichê até o talo ”porque você não me chama de pai?…”, ele tenta por a vida nos eixos. Num acampamento com seus rebentos, acaba conhecendo o lunático Charlie (pavorosamente interpretado por Woody Harrelson), que acredita em teorias conspiratórias sobre o fim dos tempos. Intrigado com as loucuras de Charlie, Jackson começa a acreditar no cara depois de ver sua cidade sendo destruída.
Na fuga mais mentirosa da história, ele consegue um mapa que leva até as tais arcas e parte para lá com a família que o odeia e o novo marido de sua ex esposa. E é aqui que se concentra o pior do filme. Enquanto a parte política tenta ser séria a todo custo, é na parte mais “cinema pipocão” que o filme descamba de vez. atolado de clichês que causam vergonha e de cenas improváveis e de um certo mau gosto em sua condução, são os momentos mais desgastantes e ruins de toda a fita.

E como se não bastasse, os furos mais cabulosos se encontram aqui, como por exemplo perto do fim, uma cena em que alguns personagens do filme se separam por portas a prova de água e a parte que na teoria e na prática não inundaria, é a que inunda e a que inundaria, não inunda. Alguém aí disposto a me ajudar com essa questão? Outra boa está no fato de eles atravessarem a cidade num carro e ainda assim sair de avião com o mundo todo acabando atrás deles… Sem contar que, como o mundo está se acabando, ainda tem gente ameaçando pessoas de prisão…
Tecnicamente prometia ser deslumbrante, mas bom, esqueça, isso tudo fica só no Trailer. Os efeitos especiais são até caprichados, marca do diretor, mas a parte de som e fotografia deixam a desejar. A fotografia porque em alguns muitos momentos não se ajusta e fica confusa e o som porque é ruim mesmo e não tem nada em harmonia com nada. A trilha sonora também esperava que servisse de algo mas foi outra decepção, nem quero me prolongar muito.
Já a direção… O Roland é um cara que parece não evoluir, apenas regredir.
Usando os habituais clichês e uma montagem feita apenas pra causar alguma emoção e não atrair o espectador pra dentro do filme, são o que há de mais picareta na produção de um filme. Ainda mais em um que sonha em ser grande. Grande ele até é, putz grilo, que entediante ficar duas horas e meia sem clímax, sem picirica nenhuma que realmente valha o preço do ingresso.
O roteiro, escrito pelo dito cujo em parceria com Harald Kloser é bobo, forçado e que em muitos momentos do filme, subestimam quem assiste. Com muita coisa criada embasada em clichês, uma trama política pra lá de infantil e o surgimento de muitos personagens, cuja saída mais fácil é matá-los simplesmente do nada, o texto de 2012 é uma tremenda porcaria.
Depois o elenco que dispensa comentários. Por mais que esteja repleto de caras conhecidas, nenhum deles desempenha algo que desperte aquela identificação com o público. O carisma dos atores fica apenas nas revistas, porque no filme não tem absolutamente nada de nada disso. Uma pena. Desperdício total de atores ótimos.
Não me admiro ter odiado o filme. Vindo do Emmerich, coisa boa que não é. A premissa seria até interessante. Outros diretores fariam um show, mas Emmerich transformou em outra porcaria sentimentalista. Talvez se o filme não se levasse tanto a sério (como Independence Day ou Godzilla), seria até mais divertido.
Só que o erro maior está em querer ser o que jamais será: um bom filme.

Nota: -1 (é tão ruim que nem merece ganhar um zero!).
2012, 2009
Direção: Roland Emmerich.
Atores: John Cusack , Amanda Peet , Danny Glover , Oliver Platt ,Thandie Newton.
Duração: 158 min
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