Pelo Malo (2013)

pelo-malo_2013_cartazNossa magnífica poetisa e atriz Elisa Lucinda não gosta do termo “cabelo ruim”, porque afinal, como ela bem diz: ele, o pobre cabelo, nunca fez mal a ninguém. Mas no caso do nome traduzido desse surpreendente filme de Mariana Rondon, o título – Pelo Malo – não poderia ser mais adequado. Sob a ingênua pretensão do menino Junior (excelente escolha do ator-mirim Samuel Lange) de ter suas madeixas alisadas simplesmente para aparecer bem na foto da escolinha, a diretora desenvolve um poderoso drama familiar que transborda com habilidade para o terreno político-social.

Pelo Malo Mariana RondonAmparada por um elenco sensível o suficiente para trabalhar num roteiro cheio de nuances, Mariana orquestra com precisão os conflitos e pechas naturais de Marta (Samantha Castillo), uma mãe que luta sozinha para criar os filhos numa favela vertical em Caracas. Ignorante, protetora e instintiva, ela teme pela masculinidade do filhinho que simplesmente quer ter cabelos lisos para ficar parecido com um cantor. O menino tem como cúmplice de suas aspirações a avó que o treina e veste, bem como uma amiguinha espirituosa que almeja ganhar um concurso de beleza apesar do perfil pouco indicado. No incompreendido universo infantil, a única saída para a dolorosa miséria seria a fuga desesperada para uma utópica fama instantânea através de imagens retocadas grosseiramente pelo fotógrafo do lugar.

Tudo se passa numa Venezuela que agoniza junto com o Presidente Hugo Chávez, mas bem que “Pelo Malo” poderia perfeitamente se encaixar no Brasil, não somente por uma conhecidíssima canção eternizada por Wilson Simonal que permeia a trama, mas também pelos graves problemas de desequilíbrio social que os países têm em comum.
Por Carlos Henry.

Seus Cem Anos Fizeram Companhia a Solidão de Muitos! Valeu Gabo!

gabriel-garcia-marquez_cem-anos-de-solidaoSe o exercício da leitura é num momento de solidão, de quem escreve precisa antes estar em meio as vozes do mundo para buscar a inspiração. E então, talvez, um recolhimento para encontrar o tom certo da história. Gabriel García Márquez partiu para o mundo, mas foi numa volta às raízes que vislumbrou que tinha em sua bagagem uma grande história. Nessas tiradas em que o destino presenteia alguém, sua mãe lhe chama para vender a casa dos avós com quem passara a infância. E entre memórias da família e lendas populares do interior da Colômbia, nasce “Cem Anos de Solidão“.

Cem anos de solidão” se passa na fictícia aldeia de Macondo e acompanha ao longo de gerações a saga da família Buendía. Obra prima literária da segunda metade do século XX é um livro que dispensa apresentação e que deveria ser lido principalmente pelos latinos americanos.

Eu li Cem anos de solidão há muito tempo atrás. Com isso traçar uma análise de toda a história ficariam muitas lacunas. O mais certo seria reler o livro e que até o faria com prazer, mas com o falecimento de Gabriel García Márquez não teria tempo hábil para então prestar um tributo a esse grande escritor. Deixando essa singela homenagem a quem não chegou aos cem anos de idade, mas que por certo suas histórias nos levaram a viver tanto quanto.

Assim, contando algo que ocorreu-me tão logo terminei de ler Cem anos de solidão”, deixando como sugestão para quem for ler ou mesmo reler o livro. Pegue uma folha em branco e um lápis. Vá montando uma árvore genealógica à medida que for avançando na leitura. Comece pelo personagem principal José Arcadio Buendía; o casamento com Úrsula Iguarán; os nascimentos de filhos e netos; marcando também as mortes… Pois a trama é muito rica em personagens e histórias até particulares. Com esse diagrama em paralelo parece que fazemos a mesma trajetória ao mesmo tempo e com isso sem perder nada. E foi assim que quando eu reli e chorei no final. Quando se sente no âmago a solidão desses cem anos.

Difícil não era inventar histórias. Difícil era fazer um norte americano, um europeu acreditar na realidade de qualquer país da América Latina.” (Gabriel García Márquez)

O Escritor se vai (1927/2014), a Obra permanece!
Aplausos a Gabriel García Márquez!
Vai em Paz!.

The Spectacular Now (2013). Um Estudo das Imprevisibilidades que Nos Cerca.

the-spectacular-now_2013_filmePor Francisco Bandeira. (O texto contém spoiler.)

Já deixo avisado a todos que não se trata de um simples filmes sobre os adolescentes de hoje! Encare ‘The Spectacular Now‘ como um estudo de personagem cada dia mais presente em nossa sociedade: um jovem adolescente, com muitas perguntas jogadas ao vento, sem a mínima noção de como respondê-las, sofrendo pressão de amigos (as), namorada, da família, e na escola, com seus professores que, ao contrário do que a imaturidade nos faz pensar, querem realmente extrair o nosso melhor e nos preparar para as imprevisibilidades do inevitável futuro que nos cerca.

Dito isso, somos apresentados à Sutter Keely (Miles Teller), um jovem popular da escola que, após terminar o namoro com Cassidy (Brie Larson), sai para a noitada em busca de aventura, regada com muita bebida. Ao amanhecer, deitado no gramado, o jovem conhece a encantadora Aimee Finecky (Shailene Woodley), uma jovem estudiosa e apaixonada por ficção científica. A partir daí, os dois começam um inusitado relacionamento, passando a refletirem duramente sobre seus papéis na vida dos outros e na deles mesmos.

miles-teller_the-spectacular-now-2013Já no começo do longa-metragem, nos são jogadas uma enxurrada de questões sobre vida, amadurecimento e futuro. E o protagonista tenta de início, tenta responder tudo de uma só vez, nos mostrando sua vida até o momento. Numa sequência extremamente bem montada, somos jogados à rotina do adolescente, até o surgimento de forma fantástica do título: The Spectacular NOW. Apenas com isso, o diretor já nos mostra muito do personagem principal: um jovem que só pensa no agora, sem ligar para as consequências do amanhã, tratando o futuro como algo ameaçador à sua “plena felicidade”.

O grande mérito do filme é nunca subestimar nossa inteligência, revelando de maneira sutil alguns fatos sobre o personagem principal. Por exemplo, em determinada conversa com sua mãe, logo descobrimos que seus pais são separados e, ao ser comparado com o pai, Sutter tem uma reação negativa. Mas, logo à frente, descobriremos que o protagonista não ver seu pai a um longo tempo e não entende o motivo de sua mãe evitar esse encontro, sempre dando um tom de vilão ao homem no qual o jovem tem boas lembranças de sua infância. Ou seu alcoolismo, tratado de maneira irreverente por Ponsoldt (virando especialista no assunto) como uma brincadeira adolescente, sem sequer notarmos tal vício, passando quase despercebido, assim como seus problemas pessoais.

O elenco, extremamente promissor, conta com ótimas participações de Brie Larson (talvez uma das melhores atrizes dessa nova geração) como Cassidy, a ex-namorada confusa, em busca de garantir seu futuro e Mary Elizabeth Winstead, como a irmã bem resolvida do jovem, que mesmo com pouco tempo em cena, concebe um desempenho impressionante, digna de aplausos por seu alcance dramático. Já os veteranos Kyle Chandler e Jennifer Jason Leigh pontuam com correção seus trabalhos como os pais do protagonista. Mas é inegável que o longa-metragem encontra na dupla principal seu maior trunfo.

Milles Teller entrega uma das melhores atuações do ano, na pele de um jovem cheio de problemas, seja em casa (ausência do pai em sua formação), na escola (um aluno totalmente desinteressado em terminar os estudos) ou na vida amorosa (foi chutado por uma menina que ele gostou de verdade e ainda tenta manter laços com ela). O ator oferece um leque de nuances, que vai do garoto extrovertido ao debochado, passando pelo melancólico até o apaixonado, soando sempre convincente. Beneficiado por diálogos brilhantes, Sutter se transforma no perfeito representante de sua geração: egoísta, desinteressado, que procura ajudar os outros para preencher seu vazio existencial, sempre buscando, de forma inconsciente, uma retribuição involuntária, sendo o possível motivo para seguir em frente.

spectacular-now_filmeA grata surpresa fica por conta de Shailene Woodley, que vive Aimee Finecky com imensa simpatia e ternura, encarando tudo com um honesto sorriso em seu lindo rosto, totalmente desprovido de vaidade, mostrando a jovem como figura devota a mãe (entrega jornal, faz as compras, cuida do irmão menor, estuda) e que pensa até em abdicar de seus sonhos (ir para uma boa faculdade, morar em uma grande cidade), pois não pode deixá-la sozinha! Aqui, a jovem simboliza a esperança nessa nova geração, onde acreditamos na pureza de seu amor por Sutter e em sua doce inocência, e quando nos damos conta, já estamos encantados com sua personagem, torcendo sempre pelo seu melhor.

No terceiro ato, o roteiro nos brinda com cenas memoráveis, destacando-se a conversas altamente reveladoras entre o jovem e seu professor e posteriormente com seu chefe, onde sem sutilezas, o adolescente se abre sem medo, rendendo momentos de verdadeiro impacto! A película ainda dá espaço para um belo simbolismo: quando tudo parece estar indo ladeira abaixo, onde Sutter se afunda de vez na bebida, o diretor foca no carro do protagonista, voltando para casa, mostrando o pneu caminhando sobre a linha, mostrando de forma absolutamente perfeita a situação que vive o rapaz. Um verdadeiro achado no cenário adolescente atual. Assim como seu desfecho, simplesmente corajoso, mostrando o total comprometimento de Ponsoldt em retratar de forma honesta esse período nada fácil, mas muito prazeroso em nossas vidas.

Melancólico, trágico e até poético, “The Spectacular Now” pode não ser um grande exercício cinematográfico, mas é, sem sombra de dúvidas, um filme essencial para sua geração, pois mostra algo que poucos jovens compreendem atualmente: o agora é realmente espetacular, mas nunca podemos descartar a hipótese de nos surpreendermos com as incertezas da vida, afinal, quem sabe o que pode acontecer? Final feliz ou não, nunca saberemos responder determinadas perguntas se deixarmos as oportunidades passarem diante de nossos olhos sem fazermos parte delas, pois VIVER O MOMENTO pode se transformar numa experiência interminável e devastadora, ao percebermos que já é tarde demais para se construir o futuro.

Avaliação: 8,5.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Hoje eu quero Voltar Sozinho_2014À primeira vista, o cartaz pode parecer um caça-níquel “teen” amparado no sucesso do excelente e premiado curta-metragem quase homônimo que foi tanto sucesso faz algum tempo com o mesmo diretor (Daniel Ribeiro) e trio de jovens atores (Tess Amorim, Guilherme lobo e Fabio Audi).

Hoje eu quero voltar sozinho- pré estreia 04abr14 Odeon - os atores Tess Amorim Guilherme lobo e Fabio Audi.

Hoje eu quero voltar sozinho – Pré estreia em 04 abr 14 no Odeon – os atores Tess Amorim Guilherme lobo e Fabio Audi.

Mas ao longo do filme, fica claro que o curta “Eu não quero voltar sozinho” merecia o desenvolvimento que sofreu para encorpar e transformar-se em um longa-metragem amadurecido e extremamente confiante em todos os aspectos, o que justifica o título resoluto.

Sem pieguice ou excessos, “Hoje eu quero voltar sozinho” se baseia na fórmula original de seu notável embrião, quando expõe os medos, decepções e incertezas de um adolescente cego diante dos sentimentos novos que a vida lhe apresenta de forma leve e natural, mas recheado de emoção, euforia  e reviravoltas próprias da juventude. O humor do filme é muito especial e preciso, pontuando e ajudando a digerir as angústias de uma deficiência física e de uma sexualidade complexa reunidas no personagem de Leonardo (Guilherme Lobo). Destaca-se também uma apurada trilha sonora que flerta com o melhor do popular e do clássico incluindo uma bela peça de Schubert que já foi sabiamente usada no Cult “Fome de Viver” de Tony Scott.

hoje-eu-quero-voltar-sozinhoPara preencher os quase 100 minutos, a figura protetora dos pais e da avó (A veterana Selma Egrei, estrela dos filmes de Walter Hugo Khouri) foi acrescentada ao jovem triângulo original (Leo, Giovana e Gabriel), bem como um curioso grupo de “bullying” na escola que acaba por contribuir para um desfecho positivo e espirituoso à trama engenhosamente roteirizada, dirigida e interpretada. Cabe lembrar que se trata de uma equipe relativamente novata, mas genuinamente talentosa.

Carlos Henry

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014). Brasil. Direção e Roteiro: Daniel Ribeiro. Elenco: Ghilherme Lobo (Leonardo), Fábio Audi (Gabriel), Tess Amorim (Giovana), Selma Egrei (Maria), Eucir de Souza (Carlos), Isabela Guasco (Karina), Júlio Machado (Professor), Victor Filgueiras (Guilherme), Naruna Costa (Professora), Lúcia Romano (Laura). Gênero: Drama, Romance. Duração: 95 minutos. Continuidade do curta-metragem ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’.

Curiosidade: O título original do filme seria ‘Todas as Coisas Mais Simples’, mas não daria a ligação necessária para o curta-metragem ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’ lançado em 2010 pelo o mesmo diretor. Então chegaram a um consenso levando em conta os conflitos do personagem Leonardo originando o atual nome do filme.

Instinto Materno (2013). Jogos de Poder e Submissão

instinto-materno_2013O título em inglês desse longa romeno, “Child’s Pose”, em tradução literal, significa “posição infantil” ou “posição fetal”. Na ioga, trata-se de uma posição em que a pessoa, sentada sobre os tornozelos, projeta-se com os braços esticados para a frente, até tocar o chão, em uma atitude de aparente submissão.

Pois submissão parece ser o tema central do filme de Calin Peter Netzer. Após atropelar e matar um garoto que atravessava uma rodovia, Barbu (Bogdan Dumitrache) é preso em flagrante. O incidente torna-se a chance de ouro para que sua mãe, Cornelia (Luminita Gheorghiu) tente, a todo custo, uma reaproximação com o filho. Controladora e autoritária, frequentadora das altas rodas sociais de novos-ricos, Cornelia inicia uma empreitada de telefonemas e contatos com autoridades para livrar o filho da investigação policial e do devido processo. Com isso, acredita que trará o filho de volta a seu convívio.

Tomar a frente do caso é a atitude esperada dessa mãe que quer superar a “síndrome do ninho vazio”, pois dedicou a vida ao único filho. Homem na faixa de seus trinta anos, vivendo com uma mulher que não é o modelo de nora desejada por sua mãe, Barbu rejeita o modo de vida de Cornelia, e luta em manter-se fiel a princípios éticos. De início, uma estória que aponta a falta de limites do amor materno que sufoca a ponto de anular o objeto amado, Child’s Pose amplia sua visão da questão familiar para outro ponto: as relações de poder das classes dominantes sobre as dominadas. Ao interferir no andamento do inquérito junto à polícia, tentar o suborno de uma testemunha e um acordo com a família da vítima, Cornelia sintetiza o pensamento – e as ações subsequentes – de uma parcela privilegiada da sociedade romena, certamente formada após a queda da ditadura de Ceausescu em 1989, onde todos os meios são válidos para burlar a lei e manter seus pares a salvo da punição. Assim como em outras partes do mundo, o público e o privado confundem-se, realidade que aqui conhecemos muito bem.

Vencedor do Urso de Ouro e do Prêmio da Crítica em Berlim em 2013, o filme traz uma interpretação brilhante de Luminita Gheorghiu. Aos 64 anos, sua Cornelia não dá tréguas a qualquer fragilidade mostrada pelos outros personagens – Barbu, seu marido Domnul, a nora Carmen –, sem abrir mão de sua própria sensibilidade. No entanto, mesmo tal sensibilidade, que lhe permitiria compreender o luto da família do menino morto, está permeada pelo egoísmo, pois ela própria apenas sente algo semelhante ao perder o controle sobre a vida do filho. E esse amor que a todos consome, ao final, será a mola propulsora de todas as suas atitudes.

Child’s Pose é notável não só por mostrar a luta incansável dessa mãe devoradora, mas também por denunciar as relações sociais que tantos acreditam ocorrer apenas em nosso país. Mas que são mais comuns do que imaginamos.

Por Eduardo Carvalho

Instinto Materno (Pozitia Copilului. 2013). Romênia. Direção: Calin Peter Netzer. Roteiro: Razvan Radulescu e Calin Peter Netzer. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 112 minutos.

Ninfomaníaca Volume 1 e 2. Um Estudo Sobre a Compulsão Humana

ninfomaniaca-2013_01Se você está indo ver Ninfomaníaca por causa das cenas de sexo, meu amigo, você está sendo lesado. Embora tenha um conteúdo pornográfico (fácil entre os mais explícitos já lançados num cinema comercial), Ninfomaníaca é um drama que tem uma história para contar. Se ela é relevante ou não, aí a coisa é bem relativa.

O diretor/roteirista você já deve ter ouvido falar – o tal do Lars Von Trier, o mesmo carrasco que dirigiu o polêmico Anticristo (2009) e o mais recente Melancolia (2011). Tendo isso em mente, da para entender tamanha ousadia.

Quem já assistiu alguma obra do diretor sabe que o cara gosta de começar seus filmes com estilo, fugindo das formuladas aberturas convencionais. Logo na primeira cena suas excentricidades ficam evidentes; uma demorada tela preta nos faz questionar se há algum problema na projeção; ela permanece por intermináveis 80 segundos – até tomarmos um susto com a pesadíssima trilha “Führe Mich” da banda alemã Rammstein enquanto vemos a distância, uma mulher jogada as traças no chão de um beco escuro.

ninfomaniaca-2013_02Assim somos introduzidos a protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg), que após ser acolhida pelo culto Seligman (Stellan Skarsgård), começa a contar sobre sua vida, da sua infância até o momento presente. E nos mínimos detalhes, sem o menor pudor, mergulhamos em sua jornada de confissões; desde sua descoberta sexual aos 9 anos à sua ruína, aos trinta e poucos. Relatos de uma busca desenfreada por sexo que começa como uma curiosidade, passa a ser uma diversão e mais tarde, a razão de todos os seus problemas.

ninfomaniaca-201_03Joe conta sua história como se culpasse a ela mesma por todas as desgraças que aconteceram, enquanto Seligman a escuta e tenta, de forma a amenizar a situação, justificar suas atitudes relacionando com uma série de curiosidades históricas e naturais. Comparações curiosas, mas que beiram ao ridículo as vezes – o que me levou a questionar se neste segmento do filme, o esquisitão do Von Trier não estaria apenas tirando sarro da nossa cara através das palavras de Seligman; atribuíndo justificativas tão complicadas e filosóficas em atos tão simples de se compreender. O cara tira muita onda – em dado momento, ele mesmo se “auto-referencia” com uma cena envolvendo um bebê na janela; igualzinha aquela vista na abertura do filme Anticristo. Ou do momento em que, passado três anos, a gatíssima Stacy Martin de vinte e poucos é bruscamente substituída por Charlotte Gainsbourg de quarenta e poucos, enquanto Shia LaBeouf continua o mesmo, só substituído momentos depois… vai entender.

Por um bom tempo ao longo do filme eu fiquei na dúvida. Joe da relatos atrás de relatos sobre sua incansável busca atrás do prazer e de novas experiências, somando isso às cenas explícitas de sexo e principalmente aos closes nas genitais (pensa num cara que gosta de filmar genitais), fiquei me questionando o sentido de tudo aquilo que estava vendo. Imaginando no pior dos cenários uma explicação tão esfarrapada quanto aquela dada pelo diretor para o filme Anticristo.

Até que o personagem Seligman, lá pro finalzinho da segunda metade, surge com uma justificativa simples porém muito eficiente: a velha questão do machismo. Oras, de fato… se Joe fosse um homem, não seria tão condenada por conta de sua perversão tanto pelos personagens, quanto pela plateia que assiste do outro lado da tela. Embora isso levante várias questões sobre a posição do homem e da mulher na sociedade, foi uma justificativa plausível e um jeito de se interpretar o filme. As cenas de sexo explícito… bom, isso é só estética mesmo. Dependerá de você julgá-las necessárias ou não.

ninfomaniaca-2013_04Aí estava tudo OK. Apesar de ser um material um tanto quanto forçado, o filme tocava num ponto que, de alguma forma, ofuscava o peso de suas imagens. Estava pronto pra sair do cinema com uma visão melhorada desse diretor; até que sua necessidade de chocar acaba falando mais alto do que a de encerrar de forma digna uma história. E então vem aquele final, onde o dito cujo não perde a chance de esfregar mais uma vez na nossa cara sua visão pessimista sobre o ser humano. Eu até entendo, somos as piores pragas que já pisaram nessa terra! Mas faltou a Von Trier, o bom senso de terminar um filme que já não é lá tão decente, de forma digna.

Não poderia encerrar esse texto sem falar das atuações. Embora este não seja um ponto notável no filme – é válido reconhecer a performance e, principalmente, a coragem dos atores sobretudo de Gainsbourg, por se permitir sacrificar sua imagem deixando os mais leigos acreditando que ela estava realmente fazendo sexo oral nos caras. E de sua “versão mais jovem” Stacy Martin, que em seu primeiro longa, fez mais cenas de sexo e nudez do que qualquer veterana no cinema. E claro, por transmitir de maneira natural toda a melancolia, compulsão e solidão da personagem. Um belo trabalho da dupla.

Nymphomaniac Volume 1 e 2. 2013.
Drama/Erótico – EUA – 241 min. Censura: 18 Anos
Direção e Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Jamie Bell, Mia Goth