O Evangelho Segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo. 1964)

o-evangelho-segundo-sao-mateus_1964Por Lidiana Batista.
Dirigido pelo italiano Pier Paolo Pasolini (Salò ou 120 Dias de Sodoma), a obra retrata fielmente a vida de Jesus Cristo segundo o Evangelho de São Mateus. Desde o seu nascimento, os milagres, suas pregações até sua morte e ressurreição.

Este filme me surpreendeu em vários aspectos. Primeiro porque para quem não conhece o diretor italiano Pasolini, atrevo-me a dizer que ele foi um gênio incompreendido não só na sua época como também nos dias atuais.

pier-paolo-pasolini_1964Pasolini era assumidamente homossexual, ateu e comunista. Todos os seus filmes são uma crítica à política italiana e à igreja católica que influenciava diretamente na política da época. Em Salò, sua última obra e talvez a mais criticada, Pasolini utilizou um conto do Marquês de Sade e transformou em uma grande denúncia não só contra o fascismo, mas contra todos os regimes ditatoriais. Infelizmente foi assassinado de forma brutal e a causa ainda é desconhecida, embora no filme Nerolio que retrata os últimos dias de vida do diretor, mostra que ele foi espancado até a morte por um garoto de programa, mas existe a hipótese de ter sido uma emboscada política.

Amado e odiado, Pasolini quando lançou O Evangelho Segundo São Mateus, muitos não entenderam já que ele era ateu. O que queria Pasolini com um filme que mostrava a vida de Jesus Cristo? Eu mesma fiquei surpresa. Se estamos falando de um diretor tão polêmico, esperava algo tão incompreendido quanto “A Última Tentação de Cristo” de Martin Scorsese.

o-evangelho-segundo-sao-mateus_1964_02No entanto, Pasolini fez uma obra belíssima, filmada em preto e branco com uma trilha sonora irretocável. O Jesus Cristo deste italiano não é como os dos americanos e europeus (representado sempre na figura de um homem loiro e com olhos azuis, como se no oriente-médio fosse fácil encontrar alguém com tais características). Pasolini escolheu um ator amador ( ele gostava de trabalhar com amadores), alto, moreno, com sobrancelhas grossas para fazer o papel de Jesus. Já saiu do estereótipo de vários filmes sobre a vida de Cristo que foram lançados nesta época.

Mas enfim, o que levou um ateu filmar a vida de Cristo? Modismo? Não. Depois de muito pensar, cheguei à conclusão que não foi por modismo e muito menos por fé, mas por política. Pasolini sendo comunista admirava a figura de Jesus Cristo que era um reacionário, lutava contra o sistema opressor, estava sempre à favor dos mais humildes e indefesos e não seria esta uma das premissas do comunismo?

Não estou querendo dizer com isto caro leitor que Jesus era comunista, mas talvez era para Pasolini, ou talvez Pasolini acreditava na existência de Cristo e admirava o trabalho e a coragem que ele teve, ironicamente morrendo por questões políticas.

Filmado em algumas terras áridas da Itália a fotografia é bela, olhares que expressam dor, alegria, a música que toca a alma. Pasolini conseguiu transformar a vida de Cristo em poesia. É uma obra imperdível de um dos maiores cineastas de todos os tempos e que ainda conta com a participação de sua mãe, Sussana Pasolini no personagem de Maria já com idade mais avançada.

Série: Under the Dome (2013/)

Under-the-Dome_seriePor Rafael Munhos.

Durante as férias forçadas do Programa do Jô, a Globo resolveu investir em séries aparentemente conhecidas pelo grande público para tapar buraco nas madrugadas. Depois de uma bem sucedida terceira temporada de Revenge, fora da grade, a emissora decidiu colocar no ar uma das séries mais complexas que assisti: Under The Dome.

under-the-dome_01Stephen King tem trabalhos magníficos no cinema e na TV, mas pode-se dizer que chupou limão quando criou o roteiro desta série. Considerada como ficção-científica, Under The Dome tem uma temática bastante interessante, mas é complicada demais do início ao fim. O enredo gira em torno da pacata Chester´s Mill, que vira de cabeça para baixo quando uma redoma invisível cobre a cidade do resto do planeta. A partir daí só restam as perguntas. De onde surgiu a redoma? Como os moradores vão reagir a prisão? Quem está por trás disso? Os questionamentos são bem vindos, o problema é a falta de resposta durante os treze episódios da série tornando a trama totalmente confusa.

Além das complicadas histórias, grande parte das atuações são razoáveis. A começar pelo galã Barbie (Mike Vogel), o forasteiro chega para arrasar o coração da jornalista Julia (Rachelle Lafreve), mas mesmo seguindo a linha bom moço, tem caráter duvidoso e esconde alguns segredos. Apesar de boa aparência, a atuação de Vogel é precária como de um ator que está sempre nervoso em cena. Já Nathalie Martinez, a policial Linda, não consegue passar segurança e impor respeito com sua irritante voz rouca a uma formiga, quem dirá para uma cidade tumultuada. Já o vilão da história coube para Dean Norris. O intérprete do todo poderoso Big Jim não é das piores, mas suas caretas o deixam mais para comediante do Zorra Total.

Under the Dome_02Calma pessoal, Under The Dome leva crédito em algumas questões. Se o elenco adulto deixa a desejar, os jovens são bem mais convincentes. Alexander Roch faz do seu problemático Júnior um dos personagens mais interessantes da trama. Apaixonado pela bela Angie (Britt Robertson), o filho de Big Jim apresenta uma extrema psicopatia que deixa qualquer um doido. Qualquer semelhança é mera coincidência com Laerte da novela Em Família. Se Junior é obsessivo, Joe (Colin Ford) e Norrie (Mackenzie Lintz) foram um casal juvenil aparentemente estável e bonito. A aproximação é em torno de uma força oculta, a qual só será revelada nos capítulos mais adiante.

Embora complexa, Under The Dome merece ser assistida. Os grandes mistérios em torno da redoma conseguem nos fazer cada vez mais fiel ao suspense, deixando qualquer grande falha para trás, além disso os efeitos especiais são excepcionalmente bem construídas. Só para constar, a segunda temporada já estreou nos EUA.

Por Rafael Munhos.

Curiosidade: No Brasil a série é exibida em duas emissoras, e em cada uma recebeu um título diferente. Na Rede Globo é exibida com o título Under the Dome – Prisão Invisível, já na TNT o título da série é O Domo.

Curta: LILA (2014). Reencontrando o Colorido da Vida…

Lila irá ajudá-lo a reencontrar o colorido da vida

Lila irá ajudá-lo a reencontrar o colorido da vida

Por Luz de Luma.

A vida está borocoxó?
Podia ser melhor!

Lila é um personagem de um curta-metragem lírico e poético que completa uma espécie de trilogia que começou em 2008 com “Um conto de amor em Stop Motion” (uma jovem sonha com o que ela acabou desenhado no papel) e, em 2011 com “A sombra de azul” (um jovem descobre sua inspiração no voo das borboletas). Todos os três filmes estão cheios de sentimentos de esperança e otimismo, e retratam um mundo no qual a vida e a fantasia se tornam apenas um. Lila é uma conclusão fascinante para uma trilogia temática, mesmo involuntária, que sugere que pode haver um pouco de Lila em todos nós.

Lila Visualizando laços sutis de amor...

Lila Visualizando laços sutis de amor…

A música é uma composição exclusiva do talentoso Sandy Lavallart e o filme é do inquieto escritor, diretor, ilustrador e animador Carlos Lascano. No papel de Lila, está a atriz Alma Garcia que se presta muito bem ao personagem que sonha, imagina e com a sua delicada arte de desenhar, tenta mudar o que vê e deixa tudo mais colorido e amoroso.

Uma história bonita, com ar naif em que a menina lembra Amélie: “não pode resignar-se a aceitar a realidade tão plana como ela percebe” (Carlos Lascano). Metáfora visual estendida sobre como as pessoas podem ajudar os outros através de pequenos atos de bondade. Existem apenas dois olhares sobre a vida e fazemos a escolha, a cada dia, sobre como respondemos aos desafios, vitórias e tudo mais. Podemos optar por permitir decepções para que apodreçam e sejam classificadas como injustas, portanto, abrimos mão do controle, ou então, encontramos aceitação e inspiração através desses desafios.

Lila-2014_Curta_02Pense em quando rotulamos algo na nossa vida como “injusto”. Isso é uma ladeira escorregadia e leva a desculpas e contorna o poder que todos nós temos sobre as nossas próprias vidas. Resiliência e audácia – é o que o desafio deve nos dar.

Mas o que um vídeo docinho tem a ver com desafio? Oras, pense em um comportamento contrário ao de Lila e que muitos possuem. Pense em um simples olhar que procura por defeitos… A vida pode lhe dar socos e você pretende dar socos de volta? É gastar energia com nada. Te convido a embarcar numa viagem mais feliz!

Dormi e sonhei que a vida era alegria. Acordei e vi que a vida era serviço. Eu agi e eis que o serviço era alegria.” (Rabindranath Tagore)

O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel. 2014)

O Grande Hotel Budapeste-2014_personagensÀ primeira vista, O Grande Hotel Budapeste parece ser uma divertida comédia para todas as idades, mas seu humor e muitas das temáticas tratadas vão além dos 18 anos. O filme gira em torno das aventuras de Gustave H. (Ralph Fiennes), lendário concierge (algo entre recepcionista e gerente geral) do magnífico Hotel Budapeste, e seu fiel lobby boy Zero (Tony Revolori), que é o narrador “raiz” da história. E a narrativa é justamente um dos muitos pontos de destaque dessa obra. Dentre outras coisas, o filme é uma homenagem a arte de se contar uma história, o que é revelado nas várias camadas de narrativa que ela possui: nos dias atuais, uma garota lê um texto de um renomado escritor, no qual ele relata uma história que lhe foi contada em 1968 por um velho senhor em um velho hotel; tal história tem início em 1932, no auge do sucesso do Grande Hotel Budapeste. Sendo assim, a realidade em tela é uma versão de uma versão de uma história (ou seria uma interpretação de uma interpretação?), o que lhe dá a licença poética necessária para essa exuberante obra.

O Grande Hotel Budapeste-2014_01Mas para falar desse filme e justificar os adjetivos utilizados no parágrafo anterior, vamos, por enquanto, nos concentrar em seu protagonista. Gustave H. é o que podemos chamar de um nobre, ingênuo e adorável cafajeste. Apesar de sua sensibilidade e jeito afetado (o que lhe rende algumas ofensas homofóbicas ao longo da película), ele gere com punho de ferro todo o staff do hotel, exigindo perfeição em cada detalhe. Sua fiel clientela de mulheres “ricas, velhas, inseguras, vaidosas, superficiais, loiras e carentes” é mantida graças à sua amabilidade e ao intenso relacionamento sexual que ele mantém com todas elas.

A propósito, ela é pura dinamite na cama.”
Ela tem 84 anos…”
Já fiquei com mais velhas.”

É sua fina educação e mesmo sua cômica pedância (ele insiste em recitar pomposos poemas mesmo nas situações mais triviais ou inapropriadas) que oferecem um contraponto às principais ameaças à sua grandiosa realidade: guerra e ganância. A aventura começa quando uma de suas mais fiéis clientes é assassinada e seus gananciosos herdeiros armam para que ele seja acusado do assassinato. Paralelamente, o fictício país no qual a história se passa está sendo invadido por fascistas estrangeiros. Esse simbolismo é um tanto óbvio: essa situação representa a invasão da Áustria pelo regime nazista, evento que seria o estopim da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, isso não é o suficiente para abalar sua civilidade.

Vocês são o primeiro esquadrão da morte oficial ao qual nós fomos formalmente apresentados. Como estão?

E sua civilidade é um dos principais pontos do filme, apesar de que em alguns momentos até ele duvide da relevância de suas cordiais atitudes diante de uma realidade brutal e selvagem.

Veja, ainda existem fracos vislumbres de civilidade restantes nesse bárbaro matadouro que já foi conhecido como humanidade. De fato, é isso que provemos em nosso modesto, humilde e insignificante… ah, dane-se.”

O Grande Hotel Budapeste-2014_02Sua ingenuidade quase infantil está no fato de achar que essa civilidade é o suficiente para aplacar a barbaridade do mundo que de repente o cerca; e que mesmo o mais rabugento dos seres humanos precisa apenas ser amado. Ela também se revela em sua prontidão em ajudar qualquer um que precise, mesmo que sejam perigosos criminosos que desejam fugir da prisão na qual ele também foi jogado. Em todas suas relações, seja com os criminosos, seja com Zero, seja com suas clientes, fica clara a sua vocação em ser um fiel servente e fazer o máximo possível para ajudá-los, ainda que em todas elas ele também desfrute de inúmeras vantagens. Além de ingênuo, Gustave também parece ser amoral.

Tal personagem é mais fácil de ser escrita/imaginada do que interpretada, e é aí que entra toda a experiência de Ralph Fiennes, que a interpreta de forma tão magnífica que não conseguimos imaginar nenhum outro ator em sua pele. A elegância, a afetação, a pedância, as raras e contidas explosões de fúria: tudo isso é perfeitamente equilibrado pelo ator, que se destaca e está aqui em uma de suas melhores interpretações. Esse destaque tem ainda mais relevância quando levamos em conta o elenco absurdamente estelar desse filme, que conta com muitas participações e personagens menores interpretadas por nomes como Tilda Swinton, Adrien Brody, Harvey Keitel, Jude Law, Jeff Goldblum, Williem Dafoe, Tom Wilkinson, Edward Norton, Mathieu Amalric, Saoirse Ronan, Bill Murray, Owen Wilson, dentre outros (se você não conhece algum dos nomes, certamente reconhecerá todos os rostos). Outro que não desaparece em meio à essa fantástica constelação é Tony Revolori, interprete de Zero. Eu poderia falar um pouco mais sobre essa interessante personagem e seu empolgante caso de amor, mas o texto já está longo o suficiente.

Além do humor negro nas passagens citadas acima, o filme também é divertidamente impiedoso com as personagens secundárias, e algumas delas terão mortes violentas, sangrentas e com alguns requintes de crueldade. Isso aumenta o nível de tensão e contrasta ainda mais com o pitoresco e vibrante colorido dos cenários e do figurino; além de contrastar com o tom leve da narrativa.

Então é isso: uma divertida, estimulante e amoral aventura para aqueles que acham graça em piadas de dedos sendo decepados e gatos sendo atirados da janela de edifícios.

Por Marcos Vieira.
★★★★☆

À Procura do Amor (Enough Said. 2013)

a-procura-do-amor_2013_capaPor Pedro H. S. Lubschinski.

a-procura-do-amor_diretora-nicole-holofcener_e-atoresIsso vai soar bobo, mas você partiu meu coração e eu estou velho demais pra essa merda.”

À Procura do Amor é um filme sobre pessoas comuns, como eu, você ou alguma pessoa que conheça. Da mesma forma, as situações vividas por essas pessoas não fogem dessa banalidade: uma adolescente acaba de ser aceita na universidade; marido e mulher vivem o dilema em torno da demissão de uma empregada; e o casal protagonista, divorciados de meia-idade que se conhecem e começam uma relação. Não existe nada de espetacular acontecendo nessa produção de Nicole Holofcener. Por outro lado, por trás de todo esse viés de normalidade, existe algo mágico acontecendo: a vida, ora embalada pela doce música de um riso, ora amargurada por um choro salgado.

Assim, não espere ao longo da narrativa cenas marcantes e frases de efeito. As situações vistas aqui podem até vir a tornarem-se marcadas em sua memória, mas isso será muito mais pela empatia com os personagens do que por alguma abordagem inovadora. Albert (James Gandolfini) e Eva (Julia Louis-Dreyfus) são “gente como a gente”: quando percebem estar se apaixonando mal conseguem esconder o nervosismo ao lado do companheiro, o medo de tropeçar nas palavras que faz hesitar durante a fala e aquela ânsia em finalmente beijar os lábios que estão ao seu lado, finalmente libertando-se de um desejo ainda temeroso de não ser retribuído. Da mesma forma, quando os dois embarcam na primeira transa, muito antes de se preocupar com o prazer daquele ato ou com tornar tudo romantizado e inesquecível: o que preocupa é não deixar o parceiro ver as gordurinhas sobressalentes e arriscar um término pela falta de boa forma. Poderiam ser mais humanos que isso?

a-procura-do-amor_2013_02Os textos a seguir contém spoilers.
Mas me precipito. Antes de falar das figuras que habitam esse À Procura do Amor, vamos às devidas apresentações: Eva é uma massagista que está divorciada há alguns anos e convive com a proximidade da partida da filha para a faculdade. Em uma festa ela conhece o divertido – e não atraente, como diz em um primeiro momento – Albert, que tal qual ela, é divorciado e logo verá a filha viajar para a universidade. Logo eles passam a sair juntos e se interessar um pelo outro, descobrindo-se, finalmente, apaixonados. Porém, logo eles enfrentarão um complicador nessa relação, já que na mesma festa Eva conheceu e se tornou massagista e amiga de Marianne (Catherine Keener), que logo começa a revelar diversos detalhes não-agradáveis sobre o ex-marido – e que logo a protagonista descobre ser Albert.

Nas mãos de Nicole Holofcener, que assina o roteiro e a direção da obra, À Procura do Amor se torna um dos filmes mais agridoces do ano. Rimos com seu casal de protagonistas que tanto valor dá ao riso ao lado da pessoa amada – não são poucos os momentos em que os personagens dizem se sentir bem por rir ao lado do parceiro -, mas também sentimos o gosto amargo que o desgaste das pequenas coisas inflige ao cotidiano daquelas duas figuras. Dito isso, por mais leves e simpáticos – ou exatamente em função disso – que sejam os personagens e situações do longa, não deixamos de sentir o peso que determinadas ações despertam, assim, ver Albert em certo ponto se esforçando para deixar sair as palavras que iniciam esse texto é algo dolorido para os dois personagens principais e para o espectador, que precisa ver aquele sujeito com quem se afeiçoou dizer uma frase que impacta não pela intenção de causar o impacto, mas por revelar um sujeito de prosa simples que faz da própria dor um pequeno lapso de poesia.

a-procura-do-amor-2013_julia-louis-dreyfus-e-james-gandolfiniConduzido com mão leve por Holofcener, que jamais tenta chamar a atenção para sua câmera, À Procura do Amor valoriza os diálogos e os atores que os encenam, sendo assim, é uma enorme vantagem contar com dois atores em tamanha sintonia como Louis-Dreyfus e Gandolfini. A primeira prova que há lugar para seu talento também na telona – vale lembrar que a atriz é colecionadora de elogios e prêmios pela participação em três seriados de comédia: Seinfeld, The New Adventures of Old Christine e Vice -, equilibrando com precisão comédia e drama em uma personagem que, muito em função do carisma gigantesco da atriz, logo ganha toda a empatia e torcida do espectador. Já Gandolfini, aqui em seu último papel no cinema, já que veio a falecer pouco tempo antes da estreia da produção, oferece um belíssimo canto de cisne em um desempenho brilhante, que pode ser menosprezado por o ator não se entregar a muletas dramáticas em um papel à primeira vista simples. Basta olhar atentamente para perceber o quanto Gandolfini valoriza os pequenos gestos e expressões na pele de Albert, da timidez palpável do sujeito nos primeiros encontros às pequenas pontadas de decepção que tomam seu rosto em diversos momentos, passando pelo excepcional trabalho vocal do ator, que utiliza sua pesada respiração como forma de evidenciar os sentimentos do personagem ao espectador. Uma performance bonita e recheada de carisma, que merecia muito mais reconhecimento ao longo da temporada de premiações – e digo isso sem em momento algum me deixar levar pela morte do ator, já que considero seu trabalho aqui muito superior ao de Bradley Cooper e Barkhad Abdi.

Derrapando por vezes em uma ocasional quebra de ritmo e na falta de desenvolvimento dos personagens coadjuvantes – Marianne parece viver apenas para reclamar do ex-marido; a relação de Chloe (Tavi Gevinson) e a mãe encontra uma resolução abrupta e insatisfatória; o casal de amigos de Eva, Sarah (Toni Collette) e Will (Ben Falcone), acaba jamais ganhando a empatia desejada do espectador -, À Procura do Amor é um filme leve e despretensioso, mas que ao seu término deixa o espectador se sentindo bem e com um gostinho de “quero mais”, ansiando por mais tempo ao lado dos simpáticos protagonistas que acompanhara ao longo dos poucos mais de noventa minutos de projeção.

Por Pedro H. S. Lubschinski.

Conflitos das águas (También la lluvia, 2010)

conflito 1Conflito das águas, ou También la lluvia no original, é um filme espanhol que pode parecer, à primeira vista (ou nos primeiros 20 minutos de filme), uma tentativa mal executada de  discutir a relação passado-presente e as continuidades do processo Histórico. O enredo? No ano 2000, uma equipe de filmagem espanhola vai à cidade de Cochabamba, na Bolívia, para rodar um filme sobre a chegada dos espanhois na América, a dizimação de milhares de nativos e o papel de Bartolomé de Las Casas e Antonio de Montesinos na “defesa” dos indígenas e na denúncia das atrocidades cometidas pelos colonizadores. Durante as filmagens, estoura a Guerra da água, na qual se envolvem a grande maioria dos figurantes contratados e cujo principal líder é Daniel, quechua que interpreta Hatuey, o mártir nativo.

A proposta do filme é audaciosa e bastante difícil de ser realizada de uma maneira interessante, que fuja do clichê e proponha uma reflexão, para além do “espanhois de 1500 eram malvados e os índios muito ingênuos e dóceis”. Mas qual não foi minha (agradável) surpresa ao perceber que um filme que parecia um simples mais-do-mesmo, através do recurso à metalinguagem, se revelou um prato cheio de questões inteligentes e profundas. Algumas delas discutirei a seguir.

Primeiramente, um brinde à tradução do título. Pois é, eu que não compreendo qual a dificuldade dos tradutores em fazer uma tradução literal dos títulos de filme, percebi que, dessa vez, ainda que eu tenha quase certeza que não foi intencional, o título em português acrescenta um elemento interessante. Ora, o conflito é das águas sim: luta no presente pela água, claro; mas também um conflito das águas do oceano. O choque das águas do Atlântico que traduz o próprio choque entre as culturas e os povos. O título original também traz uma questão importante, visto que, ao dizer que a água é chuva, se está afirmando que a água é uma força da natureza e que forças da natureza não podem ser transformadas em mercadoria. Justifica-se e legitima-se assim, o levante popular boliviano.

conflito 2As personagens principais são três: Costa (Luis Tosar), Sebastián (Gael García Bernal), os cineastas; e Daniel (Juan Carlos Aduviri), líder quechua no presente e nativo no passado. É sintomático que a mesma pessoa que lidera os indígenas na Guerra da água interprete Hatuey; dessa forma fica clara a intenção de demonstrar uma continuidade no processo histórico, de exploração e resistência. Daniel é líder, mártir e heroi. Já Costa e Sebastián ora tendem a vilões, ora a herois, sem nunca se tornarem completamente um ou outro. De início, parece que Sebastián será o espanhol bom e Costa o mal; mas ao longo do filme tal impressão se desfaz, na medida em que ambos trazem à tona o dilema entre se compadecer do sofrimento dos seus figurantes e sacrificar o projeto cinematográfico de suas vidas.

Embora não fique tão clara quanto a associação entre Daniel e Hatuey, Costa e Sebastián são como Las Casas e Montesinos. Não é que não se revoltem com a situação que se dá diante de seus olhos, mas há muito em jogo para ser perdido. Como está na capa do DVD: “Muitos querem mudar o mundo… Poucos querem mudar a si próprios.” A grande cena do filme a ser rodado é aquela em que 13 indígenas são queimados vivos para servirem de exemplo para os outros nativos. Montesinos tenta a todo custo dissuadir os espanhois e impedir tal barbaridade, mas ao ser ameaçado de prisão, assiste ao massacre calado. Essa não vilanização ou heroicização dos dois cineastas é uma das sacadas mais inteligentes do filme: nessa história, não há espaço para herois brancos, seja no passado, seja no presente. Nem Costa nem Las Casas, nem Sebastián nem Montesinos são herois. Heroi é Hatuey, os herois dessa história são indígenas.

conflito 3Essa grande cena para o filme a ser rodado é também a grande cena do filme a que se assiste. Nela a relação passado-presente se revela mais clara e chocante. Daniel havia sido preso durante uma manifestação, então Costa e Sebastián vão à delegacia para soltá-lo, visto que sem ele o filme estaria perdido. Combinam com o chefe de polícia (a contragosto de Sebastián) que após a filmagem, ele seria preso novamente. Assim, ao som da palavra “corta”, uma viatura encosta e arrasta Daniel, indumentado como nativo, para o camburão. Os demais quechuas, figurantes da cena e, portanto, também trajados e pintados como indígenas, correm para cima da viatura, tombam-na e libertam Daniel, que foge.  Costa e Sebastián assistem a tudo paralisados, intervindo apenas quando os policiais apontam armas para os quechuas.

Ao estar no centro do conflito, Sebastián diz: “Isso parece um sonho. Inacreditável! Inacreditável!” De repente, o diretor se dá conta de que vivia naquele momento o que tentava filmar aos trancos e barrancos. Naquela hora, passado e presente se encontram como saídos da máquina do tempo (só faltam os raios de De volta pro futuro) e toda a continuidade do processo se desnuda. A mesma exploração, a mesma violência, a mesma humilhação. Ontem pelo ouro, hoje pela água. Ontem os espanhois, hoje uma multinacional. Sempre estrangeiros exploradores. E aí, então, se percebe que, de fato, o processo é contínuo. Afinal de contas, a grande diferença entre ouro e água para os indígenas é que sem esta última não se vive, sem o primeiro sim.

conflito 4O filme de Costa e Sebastián fica inacabado. Assim como o processo histórico. Não tem um final, nem triste nem feliz. A História não acabou. Assim como a exploração, a resistência também está viva; e com a saída da multinacional e a vitória da luta popular, talvez ela esteja pronta a escrever um novo fim para o capítulo do presente. Um fim diferente do capítulo do passado.

Assista aqui ao trailer de Conflito das águas.