
Criado pelo médico Sir Arthur Conan Doyle, protagonizando Um Estudo em Vermelho, publicado em 1887, na revista Beeton’s Christmas Annual, o detetive eficaz e sempre certeiro Sherlock Holmes, não demorou muito a ganhar o mundo, e se tornar uma figura ilustre da cultura mundial. Ilustres diretores levaram suas histórias ao cinema (Billy Wilder, Buster Keaton, entre outros), peças de teatro, programas de TV, inúmeros personagens criados como caricatura dele, dentre várias outras coisas.
E um personagem tão rico, e tão presente na cultura mundial, precisava ser reinventado, tal como James Bond o foi em 007 Cassino Royale. Mesmo o objetivo não sendo explicitamente apresentar o personagem para a geração coca cola, mas sim arrecadar muito em cima dele, foram para a solução mais simples possível: torná-lo pop fazendo essa geração se identificar com os heróis de hoje. E o que vemos na versão 2009 high-tech do detetive, funciona, mas deixa uma sensação de “hum, faltou alguma coisa…”.
Primeiro porque ele passa de um personagem clássico, para algo mais excêntrico. A arrogância continua, mas com um tom mais humorado. Ele ainda é orgulhoso e falastrão, mas muito mais sem a classe que tinha nos livros. Agora dá porrada, corre, leva porrada, enfrenta gente perigosa e ainda brinca com magia negra. Tudo perdoado. Levei pro lado liberdade poética da coisa. Diferente das mudanças drásticas de Crepúsculo por exemplo, que destrói todo um mito, o novo Sherlock faz de tudo e consegue o manter, mas quem conhece bem as histórias dele, sabe bem que não é o mesmo Sherlock dos livros.
As correrias, os socos, as artimanhas, os gracejos e mesmo atropelando com gosto os elementos considerados obrigatórios para uma trama Shelockiana (como por exemplo esquecer da célebre frase “Elementar, meu caro Watson”), o filme é tão carismático, tão simpático e tão divertido, que nos envolvemos com tudo o que é mostrado e, pelo menos no meu caso (fã assíduo dos livros), deixei passar e aceitei numa boa aquela mudança toda. Mas não deixo de reconhecer que faltou um muito pra ser um filme melhor.
E sem muitas delongas, o filme já mostra uma ação de Sherlock e Watson. Ele continua dedutivo e com uma destreza de tudo que chega a assustar. A princípio não dá de associar aquele brucutu violento com uma personalidade tão inteligente, mas o filme segue. Eles ajudam a Scotland Yard a evitar que o Lord Blackwood consume mais um assassinato, o que seria o 5°, em um ritual de magia negra. O Lord é preso e condenado à morte. Justiça feita, hora de as conseqüências começarem a aparecer.
Testemunhado pelo coveiro saindo de seu próprio túmulo, diga-se de passagem, feito de material pesado e indestrutível, o Lord ressuscita e volta ao mundo dos vivos para terminar com seus trambiques catimboseiros e volta a matar, dessa vez para tornar-se líder da seita que segue e assim de alguma forma ter o poder. Mas não contava com a astúcia de Sherlock, que enfrentará problemas e mais problemas, até solucionar este caso aparentemente insolúvel, pelo fato de ter magia e misticismos envolvidos.
A briga é boa? Claro. E esse filme abre bem o ano como um pipocão descompromissado, leve e muito divertido. O humor com timing preciso, a ação que entra na hora certa e não é simplesmente produto de nada, e claro, ver o detetive em ação, mesmo que não do jeito que o consagrou, foi bem legal.
O mito não foi desconstruído, e sim, apresentado de uma maneira mais diferente. Ele vira uma união entre James Bond com Indiana Jones e toques de Jason Bourne. Muito legal ver o personagem usando a lógica antes de fazer alguma coisa. Até mesmo seus erros aparentes, ganham uma explicação racional.
A aparição de uma feminina à aventura poderia até comprometer no início, mas ela é bastante relevante na trama, e em nenhum momento, faz a história se perder. E Watson, o mais diferente do filme, ele rouba a cena e ganha um espaço a mais no filme. Os elementos que fazem parte da cultura do detetive, como a rua e a numeração de sua casa (os lendários Baker Street 221B), o seu conhecimento de engenharia, química, física e o olhar de águia para o menor detalhe, que segundo ele é o principal, continua lá, e só tendem a ajudar na trama, mesmo alguns soando forçado.
E é aí que mora a maior enroscada do filme. A preocupação em reinventar o personagem foi tamanha, que esqueceram de cuidar do texto. Em muitos momentos, fica deveras confuso, e algumas saídas para o que propõe são um tanto infantis e outras, terminam sem explicação. Um detalhe esquecido, caros roteiristas (5 por sinal – o que quase sempre não é um bom negócio). Mas o que tem ainda dá pra entreter, e o objetivo do filme é justamente esse, entreter.
A direção de Guy Ritchie me surpreendeu. Fiquei meio receoso quando soube que ele dirigiria.
Se ele mantivesse o estilo rápido de seus filmes mais consagrados, como Snatch – Porcos e Diamantes ou Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, com idas e vindas durante todo o filme, cortes rápidos, diálogos rápidos e toda a influencia tarantinesca que apresenta, poderia ir longe demais e fazer de sua versão de Sherlock Holmes não ser tão boa. Ele deixou as pretensões de lado e seguiu à risca a mesma fórmula dos filmes de aventura como os do Spielberg e conseguiu se manter bem durante todo o filme.
Utilizando o recurso de flash-back na hora certa, mesmo que mantendo aquela edição de filme de terror revelador, ele soube nos fazer enxergar a maioria desses detalhes sem precisar do auxilio da tal volta. Acho que o que ele queria, era que tentássemos junto com o detetive, desvendar os mistérios, então, voltava e nos fazia ver se estávamos andando no caminho correto. Alguns chamariam isso de previsibilidade do roteiro, que até ocorre em determinados momentos, mas se você assiste o filme com um certo cuidado, consegue interagir com a trama, e ficar atento ao menor detalhe. Isso faz de Sherlock Holmes um filme divertido.
Ele também brincou com o slow-motion e fez uma coisa até caprichada, diferente de Zack Snider, que usou e abusou e colocou a perder boas premissas como 300 e Wathmen – O Filme. O efeito ficou bonito e detalhou de maneira curiosa e até diferente, algumas cenas. Ele também mostrou talento para lidar com cenas mais recheadas de efeitos especiais (a cena do navio que o diga) e arrasou em vários outros momentos.
Conseguiu nos deixar tensos em outras cenas e conseguiu graças a seus truques, roubar um humor involuntário da platéia. Ponto pro Guy.
Mas o que seria dele sem a equipe que trabalhou junto?
Começo pela direção de arte. Impecável. Recriaram a Londres da Revolução Industrial com um detalhismo lindo. Fumaça (mesmo que de CGI em muitos momentos), lama, sujeira, navios a vapor, prédios, construções, tudo o que nos fizer lembrar aquele progresso revolucionário. As casas, repare no quarto do Sherlock, rico em tudo o que for mirabolante imaginar. A direção de arte é um dos pontos forte do filme, perfeita. Os figurinos bem colocados e pertinentes a cada personagem. Por exemplo, o Lord Blackwood por ser o vilão, só aparece com roupas que o fazem parecer o vilão mais cruel/feio do mundo; Watson vem com roupas mais recatadas e que lhe dão um charme mais característico; Irene Adler, a personagem feminina da trama, aparece com roupas mais provocantes, dando o ar de ladra cachorra que ela tem.
E para Sherlock, vem o melhor. Descuidado, relaxado, mal vestido. Mas mal vestido com estilo. Gola pra cima, vestido da forma mais extravagante possível, chamando atenção onde quer que vá. A caracterização dele é bem diferente daquele sobretudo que ele vestia, com aquele chapéu diferente. O cachimbo ta lá, mas é a única coisa que sobreviveu de sua imagem original, no meio de tanta mudança. E ainda assim ele consegue se manter fascinante!
E para torná-lo realmente fascinante, deviam chamar alguém que o tornasse. Qual o melhor nome? Robert Downey Jr.. Depois de ver o filme, não consegui imaginar outro no lugar dele, sua atuação, creio eu, é o maior responsável pela reinvenção do personagem, sem fazê-lo perder o jeitão dos livros.
É canalha, é esperto, é cínico e acima de tudo, muito inteligente e esperto, sem contar a química forte que tem com os coadjuvantes. E Downey Jr. prova que mereceu o Globo de Ouro (e rendeu o melhor discurso da noite).
O elenco coadjuvante também ajuda, Jude Law fazendo um Watson excelente, divertido e genuinamente Watson, só que aparecendo um pouco mais. Assim como o Sherlock ele salta, bate, corre e ajuda a resolver os mistérios. Irene Adler poderia ser o maior ponto fraco do filme, mas Rachel McAdams deu o ar de sua graça e fez a sua personagem ganhar o espaço que precisava pra se destacar no filme. E Mark Strong, parceiro de Guy Ritchie em outros dois filmes (Revolver e Rock’n’Rolla – A Grande Roubada) também fez sua parte, personificando um vilão mais ator do que cruel. E se deu bem.
E finalmente Hans Zimmer me convenceu de que é criativo quando quer. Depois de manter o mesmo estilo metalizado que fez o seu nome, em Sherlock Holmes ele não exagera e cria boas músicas (a música tem do personagem é bem grudenta), atenuando bem as cenas de ação e dando um toque todo especial para a aventura. Uma melhora considerável, já que as trilhas de seus filmes anteriores eram mais do mesmo, recortes de outras músicas que havia feito. Reconquistou meu respeito.
E a grandiosidade do filme, sem precisar (e nem querendo) ser pretensioso, só somam, e fazem de Sherlock Holmes um divertido filme blockbuster acima da média. Infelizmente mal recebido pelos fãs puritanos do detetive, o filme vale cada minuto das duas horas que tem. Sentar, relaxar e se divertir.
Nota: 8,0
Sherlock Holmes, Austrália/EUA/Inglaterra (2009)
Direção: Guy Ritchie.
Atores: Robert Downey Jr. , Jude Law , Rachel McAdams, Mark Strong , Kelly Reilly.
Duração: 128 min