Sideways – Entre Umas e Outras

Por vezes, é preciso dar um tempo para uma revisão. Como num carro. Rever conceitos. Limpar. E sobretudo, retirar cargas desnecessária; os pesos inúteis. O bom quando é algo consciente. Mas mesmo que não o seja, se durante, ou após um período desses sentir que de fato algo mudou em si, também será vantajoso.

Nesse filme, a tal revisão terá um peso maior para Miles (Paul Giammatti). Mas que a princípio só o vê como um presente ao grande, e talvez único amigo, Jack (Thomas Haden Church): uma despedida de solteiro. Partem para uma pequena viagem. Pelos vinhedos do Vale Santa Ynes, na Califórnia. Para apreciadores de vinhos, sem muito conhecimento no assunto, o filme traz uma aula – da plantação ao produto engarrafado.

Um pouco dos dois: Miles é um escritor à procura de que editem seus livros. Jack, um ator que não “acontece” mais. Com personalidades opostas. Que sem cair em esteriótipos, cada um com seus altos e baixos. E como comentei no início, ambos cientes que já passavam do tempo da quilometragem…

Esses dias longe de casa para Miles também servem para ocupar a mente à espera de mais uma resposta de uma Editora. Já para Jack, poder aproveitar seus últimos dias de solteiro. Mas essa proximidade, e com um combustível a mais… ambos irão expor seus lados frágeis. Em cenas lindíssimas! Outras engraçadas, sem serem ridículas. Diálogos simples, mas precisos. E silêncios cheios de significados.

O amigo era o que ele queria ser. Um alter-ego do Miles.

Jack é uma pessoa extrovertida, sem as encucações do Miles. Esse, para mim, invejava isso no amigo, mas não num sentido negativo e sim como uma admiração. Pois o amigo tirava proveito de tudo. Até que, na cena onde Miles vai buscar a carteira que Jack esqueceu. Adivinhem onde? …hehe! Primeiro, ele vê que Jack não é tão super-homem assim; que ele também comete erros. Depois, ao decidir ir apanhá-la, sente nesse desafio algo novo nascer. Em realizando, mais que ajudar o amigo, ele gostou do feito. Algo inédito para ele. Foi como se ele quebrasse uma das suas correntes. Uma prisão/peso a menos. Até na história do seu livro havia uma monotonia. Tudo previsível e isso ele não sabia como quebrar. Nesses cinco dias, Miles inconscientemente buscou como se libertar. E não apenas da timidez.

Num abraço do amigo, deitados na cama, não há nenhuma conotação sexual. Até porque Jack é desencanado. Mas Miles não o é. Talvez o calor que sentiu nesse abraço foi por ter preenchido e muito a sua carência afetiva. Mas por conta da sua timidez, ele sentiu vergonha de ter sentido prazer nesse instante. Eu amei essa cena! Precisa ser muito cuca-fresca para fazer o que o Jack fez. E eu conheço muitos homens que não fariam isso na vida real.

Os problemas de Miles já vinham desde a infância. Dá para perceber isso, quando vão fazer uma visita a mãe do Miles. Nesse encontro Jack sem querer monopolizou a atenção dela. E por conta de que? Por uma participação dele na TV. Ela valorizava e muito essa projeção; a fama. Para ela, Miles era um joão-ninguém. Talvez, até por conta desse menosprezo da parte dela, ele fez o que fez lá, como um castigo à ela. Sei lá, posso ter viajado agora.

Eu poetisei o título original, o vi como uma saída por um tempo da estrada principal. Seguindo por um caminho lateral ao encontro do seu eu.

A separação do casamento ainda não curado. O livro que não consegue publicar. O fato de não mais conseguir transar; até para um simples beijo lhe vem um bloqueio. Ele usa o vinho como uma válvula de escape. O álcool é uma fuga; o “ópio” de alguém que não segura a barra de que algo sai, saiu fora de seus planos. E claro que desestrutura família, carreira; a coisa vai como uma bola de neve. Claro que alguém preso a vícios fica marcado pelas outras pessoas. Eu vejo o alcoolismo como uma conseqüência, não a causa dos seus problemas. Por sentir muito o peso das cobranças, por fazer muitas comparações.

Enfim, ele faz um mergulho em si mesmo nessa viagem. E sai renovado. Nem se importando com a “saída” que o Jack arrumou para o nariz quebrado pela namorada que arrumou nesses dias. Em como a explicação seria aceita pela noiva. Miles estava tão desencanado, que o fazer parte daquela encenação, foi tranqüilo. Aquilo era problema deles. Sua mente, sua vida, estava de volta a estrada principal. Livre, leve e solto para seguir em frente. E foi o que ele fez.

Eu amei! Um filme que vale a pena ver e rever. Nota: 10.

Por: Valéria Miguez.

Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways). 2004. EUA. Direção e Roteiro: Alexander Payne. Elenco: Paul Giammatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 123 minutos. Classificação: 16 anos. Baseado em Livro de Rex Pickett.

5 comentários em “Sideways – Entre Umas e Outras

  1. Tenho encontrado dicas bem legais aqui no seu blog, embora não tenha tanto tempo para ver filmes e confesso que prefiro seriados. Sinceramente, televisão me faz dormir.
    Por isso sempre levo um livro junto comigo (rs). Quando começo a sentir sono, desvio o foco.
    Gosto de filmes que são adaptados a partir de best sellers ou de livros pouco conhecidos. Já vi alguns e embora sempre fique um pouco decepcionada, confesso que sigo assistindo.
    Abraços meus e uma excelente quinta-feira…

  2. Oi Lunna!

    Eu não li o livro. Embora o filme me motivou. Ele mostra, ele traz o universo masculino com tanto respeito. Que eu continuo com uma queixa: a de que para eles ainda há muito mais filmes. Ainda são poucos os que abordam o universo feminino com igual sensibilidade.

    Um bom início de final de semana pra ti!

    Beijo grande,

  3. Oi Nita!

    Cansar?? Nada. E nem teria tempo para um cansar dele. Até porque ele ainda nem completou três meses desde que o deixei exclusivo para essa minha paixão: Cinema

    Quanto a falar de outros temas, eu faço isso no Harém. Por lá, eu amo trocar impressões com todos. Ele não deixa de ser um outro Blog meu. Agora, com um diferencial – também o é, um Blog de todos. Um dos pontos positivos do Orkut.

    Beijo grande,

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