A Bela da Tarde (Belle de Jour. 1967)

Uma parte de mim é permanente / Outra parte se sabe de repente / Uma parte de mim é só vertigem / Outra parte linguagem / Traduzir uma parte na outra parte…

Após tantos anos rever esse filme ficou com sabor de primeira vez. E me peguei a pensar em como motivar a turma mais jovem que ainda não assistiu e tão acostumado a outro tipo de ritmo. Pela história em si até pode ser que uma versão mais atual dariam mais velocidade. Até porque não seria mais a Séverine de Catherine Deneuve. Bela e elegante! Cujo personagem imortalizou-se na imaginação de homens, como também de mulheres de uma geração. Quem sabe de duas.

O lance maior seria que atualmente as “escapulidas” não têm mais o mesmo peso. Embora em fóruns tenho visto jovens com idéias tão retrógradas, tão preconceituosas, que veriam nisso um pecado. Não que eu concorde também, pois para mim quem tem esse tesão todo por sexo, por orgias sexuais… deveria romper com o casamento. Ir à luta. O que quero dizer é o porque dessa personagem cair no gosto popular e dos eruditos também. Creio que o mérito maior é da atriz. Irradiando charme!

Esmiuçando o filme, mas tentando não revelar tudo. Com pouco tempo de casada Séverine sentia-se mais que entediada, sentia a falta de sexo. Não tinha o menor tesão pelo marido (Jean Sorel). Embora a tratesse com carinho, ele não a satisfazia. Não tinha o gosto de algo proibido. De algo pecaminoso. Não se sabe ao certo se era fruto da sua imaginação ou não, mas por lembranças rápidas ela nos mostra que passou por abusos sexuais, pequenas carícias por um homem adulto. Seu pai? Pode ser. Se não houve de fato, pode ser para tentar dar a si própria uma justificativa para o fogo atual. Um fogo que só tomaria uma outra proporção ao saber uma história de uma conhecida do Clube de Tênis. E é pelo amigo (Michel Piccoli) do marido que conta da Casa da Madama Anais (Geniviève Page).

Séverine então passa as suas tardes transando com vários homens. Ganhando a alcunha de Belle de Jour. (Revendo o filme agora, não deu para não pensar na música do Alceu Valença.) Para ela quanto mais rudes eram mais prazer sentia. Seu humor com o marido melhorava a cada dia. Ele completava um lado seu: o de ter um marido bonito. Pois é! Temos aqui uma inversão de papéis que nesse caso ainda é algo atual: o de marido objeto em vez da mulher. O que não deixa de ter graça perante aos machistas.

Voltando ao marido. Ele nota a mudança dela. Achando que ia tudo bem no casamento lhe fala de terem filhos. Acontece que ser mãe não estava nas fantasias dela. Nem nos planos. Ocasionando novos desconfortos entre o casal.

Tudo caminhava a contento até que um jovem (Pierre Clémenti) se apaixona por ela. Tornando-se obsessivo. Para ela, ele era só mais um homem que a fazia sentir enormes prazeres na cama. Talvez por sentir que estava perdendo o companheiro de tráfico seu comparsa a segue descobrindo sua verdadeira identidade. Mas antes disso, o amigo de seu marido a flagra num dos quartos da casa da Madama Anais. O que a faz pensar em parar por um tempo. É porque desistir de fato ela não quer. O jovem vai a sua casa e faz chantagem. Ela consegue ganhar um tempo.

Louco de amor por ela o jovem resolve a seu jeito dar uma solução. Acontece que o resultado foi pior para o lado dele. Para Séverine veio como uma punição. Peso na consciência. Faltava o tiro de misericórdia. Que veio pelo tal amigo do marido. Alguém que sentia muita inveja do casal.

E no final… não, o certo seria: e o final… pois é, o final poderão alguns ficar sem entender. Para mim o amigo do marido lhe fez foi um grande favor. Tirando-lhe um peso. Dando a ela a chance de voltar a vida dupla; e sem mais barreiras. Livre, leve e solta.

Não darei nota máxima porque senti falta de música. No meu imaginário Paris também tem músicas belas e românticas. Como também quero passar um bom tempo até voltar a assistir. Para sentir o mesmo clima.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Bela da Tarde (Belle de Jour). 1967. França. Direção e Roteiro: Luis Buñuel. Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geniviève Page, Pierre Clémenti. Gênero: Drama. Duração: 100 minutos. Baseado num livro de Joseph Kessel.