“A História terá de registrar que a maior tragédia deste período de transição social não foram as palavras ácidas e as ações violentas das pessoas más, mas o assombroso silêncio e a indiferença das pessoas boas.” (Martin Luther King. 1929/1968 )
Rever esse filme após um longo tempo, além do prazer, me levou a outros vôos. A lances do passado, como também a alguns bem mais recentes. Por conta da amizade entre os dois tão diferentes personagens: Miss Daisy (Jessica Tandy) e Hoke (Morgan Freeman); falo sobre isso depois. Mas também foco sobre outro aspecto desse filme e que tem a ver com a citação inicial.
A história do filme é contemporânea a Martin Luther King. Logo há o enfoque do preconceito no geral. Porque além da tal diferença entre os dois personagens, um negro e uma branca, há também sobre religiões e até os que a própria sociedade acabam mascarando. São pequenas atitudes, falas, que incorporadas na rotina diária dá a entender a pessoa de que não é preconceituosa. Por vezes é preciso que outra pessoa o leve a notar e o que o faça repensar. Há um outro enfoque também, o de que por razões comerciais, o de que para não apenas não perder clientela, mas também para obter futuros clientes, a pessoa prefira se omitir.
Indo de um extremo ao outro, o filme mesmo contando a história numa data específica, ele infelizmente tornou-se atemporal. Digo que infelizmente porque até o preconceito disfarçado ainda existe. E não me refiro a trocas de certos termos por outros politicamente corretos. Nada encobrirá o fato de se achar superior a outra pessoa.
No filme há passagens que dependendo de quem fala como de quem ouve, poderia passar incólume. De um jeito bem-humorado e sem fincar raízes. Mas por outro lado, há quem as professem sempre, e mais, as liberam numa situação extremadas, cheias de ódio. Sendo esse o lado ruim em perpetuar certos preconceitos. Exemplificando com uma fala do Hoke com o filho de Miss Daisy (Dan Aykroyd) na entrevista para o cargo de motorista para sua mãe: “Gosto de trabalhar pra judeus. Eu sei que tem quem diz que vocês exploram e enganam a gente… mas que ninguém venha dizer isso perto de mim.” Quem tem conhecimento do Holocausto, sabe a extensão disso. Mesmo nos dias de hoje onde há uma gama maior de informações do que na época do filme, pensamentos assim ainda são proferidos e pejorativamente.
Ainda no enfoque do preconceito, e sobre os dois outros lances que citei, o exemplo foi durante uma mesma cena. Mãe e filho comentando sobre a ida a um jantar para Martin Luther King. Ele declinando o convite por temer retaliações a sua Tecelagem. Como também percebendo uma ligeira mudança na mãe por querer ir. Nesse seu repentino interesse por Luther King. Em ouvir o que ele diz, pessoalmente, e na presença de outras pessoas conhecidas. Ela se sente chocada, rebatendo não ser preconceituosa. Mas a postura até então, dava mostras que trazia algo sim. E o que a fez realmente repensar, como também a ter uma nova postura, fora a convivência com o seu motorista.
Agora, entrando no valor de uma amizade. Porque é o mais belo que esse filme traz.
Num fórum sobre filmes que trazem longas amizades; que eu mesma abri após rever o “Nunca Te Vi, Sempre Te Amei” (84 Charing Cross Road), uma colega, Janete, citou esse. Que me fez ficar com vontade de rever. E o fiz. “Conduzindo Miss Daisy” é um líbelo a uma amizade que fica como um divisor de água.
Voltando a ele… Ainda na entrevista, o filho de Miss Daisy o avisa que a sua mãe tem pavio-curto. O prevenindo que irá conviver com uma pessoa muito difícil. Mas para Hoke isso não seria problema. Pelo seu temperamento extrovertido, pelo seu jeito irreverente de ser, isso não seria mesmo nenhum obstáculo. Tanto que com o passar dos dias ele enfim quebrou o gelo, a empáfia dela.
Ele me levou a pensar em mim. Ela, me fez pensar numa amiga de infância que certa vez falou: “Quer me dá o direito de brigar contigo?” Ela tinha um gênio difícil, mas que a mim não intimidava. Nesse lance, eu respondi algo assim: “Dou! Mas pode ser na 2ª feira? Hoje ainda é 6ª feira. Só vamos embora na 2ª. Aqui não tem tv, nem rádio. Com você emburrada, nós vamos fazer o que? Vamos é perder o final de semana.” Ela começou a rir, eu também. E a discussão tinha sido por bobagem; eu atendera um pedido da mãe dela e fora até por ganhar mais tempo para aproveitarmos aqueles dias.
Ele ao conquistar a amizade dessa senhora, me fez pensar em algo que costumo dizer: de que não procuro por amigos na saída de uma linha de montagem. As diferenças de opiniões, de pensamentos também são interessantes. Agora, o que incomoda é quando temos que pisar-em-ovos nesse convívio, quando há intimidação, quando ficamos tolhidos em sermos nós mesmos. Mais até! Quando estampam num outdoor algo do tipo – “Já deveria me conhecer!”, num tom de que ela quem sempre tem razão. Bem, aí é hora de parar e repensar nessa via de mão única.
Esse jeito de pensar, de agir, demonstra sapiência. Ele, em nenhum momento a fez mudar sua postura. O fato de aceitar a soberba dela, não era apenas pela relação empregado e patroa, mas sim porque aquilo era problema dela; e não dele. Ao contestar, quase numa desobediência, o fez por conta de algo fisiológico: queria urinar. Lances assim é que são relevantes. Catequisar não mantém uma amizade verdadeira. Nem muito menos a intolerância. Miss Daisy mudou, e para melhor, porque viu na atitude de Hoke algo como um “Acorda!”, sentiu como um tapa na testa. Aprendeu a dar valor aquela amizade, ao grande e eterno amigo. E eu não segurei as lágrimas, no final e um pouco antes.
Enfim, um filme que vale muita a pena rever, sempre. Ah! Eu procurei no Youtube a música tema, de Hans Zimmer. Nesse Trailler terão um refresco de memória. Dou nota máxima em tudo.
Por: Valéria Miguez.
Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy). 1989. EUA. Direção: Bruce Beresford. Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 99 minutos.
