O Nevoeiro (The Mist)

Stephen King é um produto da sorte, oportunidade e algum talento. Mas definitivamente, não é um escritor exímio apesar das idéias de gênio, geralmente mal desenvolvidas. As páginas de “Carrie” resgatadas do lixo foram parar nas mãos de Brian de Palma. O sucesso do filme catapultou sua carreira, sedimentada quando Kubrick escolheu “O Iluminado” para adaptar. Foi o suficiente para o transformar no “Mestre do terror”.

O acontecimento se passa na cidade do Maine, onde uma terrível tempestade, seguida de uma densa névoa, provoca uma corrida ao pequeno supermercado local para estoque de alimento. Ali, um grupo de pessoas fica confinado enquanto um nevoeiro sobrenatural toma conta das imediações causando pânico e histeria.

O Nevoeiro” já foi filmado antes sem grande estardalhaço. Frank Darabont, desta vez fez muitas alterações na estória original e quase transformou “The Mist” em outro roteiro. Foi um grande acerto.

Mesmo quem não é fã de terror, pode apreciar o completo e profundo panorama psicológico traçado sob a forma de um grupo heterogêneo preso num pequeno espaço, onde se conflitam divergências religiosas, diferenças sociais e de comportamento. Neste clima tenso estilo Big Brother envolvido por uma bruma misteriosa, é que cada ser humano, retornando a um status primitivo, pode vir a revelar um lado assustador. É o que parece acontecer quando caem as regras de civilização e os meios de comunicação e tecnologia que regem uma sociedade. É quando novos e perigosos líderes surgem.

Quem não quiser se preocupar com este pano de fundo cheio de metáforas e alegorias, vai aproveitar cenas de arrepiar num dos filmes mais aterradores já feitos. O elenco liderado por Thomas Jane é afinado, com destaque para Marcia Gay Harden que faz a fanática religiosa. A cena em que ela repele uma criatura medonha acreditando no poder de sua fé, é inesquecível.

No final chocante, fica difícil concluir se os monstros apavorantes de uma dimensão desconhecida seriam mais destruidores que os próprios seres humanos numa situação limite como a guerra.

Por: Carlos Henry.

O Nevoeiro (The Mist). 2007. EUA. Direção e Roteiro: Frank Darabont. Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Alexa Davalos, William Sadler, Laurie Holden, Chris Owen, Nathan Gamble, Andre Braugher. Gênero: Drama, Terror, Sci-Fi. Duração: 126 minutos. Baseado em livro de Stephen King.

Nina

Cinema Nacional Legendado

Nina é nome de mulher e título de um filme nacional saído das páginas de uma novela russa, da obra máxima de Dostoievski – CRIME E CASTIGO. Dizer tratar-se de um nome feminino foi um pleonasmo proposital, já que Nina é a metamorfose da metamorfose da atormentada alma e personalidade do próprio autor, (a alma de Dostoievski é complexa, “como não ser ao mesmo tempo anjo e diabo?” um imenso labirinto) mais a personagem central ou principal dessa obra batizada de Raskolnikov. Autor e personagem fundem-se de tal forma que não se sabe onde começa um e termina o outro.

Uma obra da grandiosidade de Crime e Castigo sendo transformada em um roteiro para filme é maravilhoso; mais maravilhoso ainda é saber que a idéia partiu de um cineasta nacional, um roteiro nacional, o que muito me orgulha e lisonjeia. Raskolnikov foi transformado em Nina, isso me faz lembrar do filme Transamérica, cujo objetivo de vida da protagonista era mudança de sexo. Há muito o que se questionar em relação a isso, principalmente nos tempos atuais que praticamente quase tudo é possível: clonagem, barriga de aluguel, produção independente (basta pesquisar em um banco de sêmen e fazer a escolha), mudança de fenótipo, e por aí vai… (e isso seria assunto para outra história).

Será possível fazer mudança de alma? Alma masculina e feminina são iguais? Há o paradoxo do manto diáfano, da tênue linha que separa ambas. Pólos divergentes. Distintas. E como. Mas voltando ao filme Nina.

Nina / Raskolnikov / Dostoieviski são almas atormentadas. Assisti ao filme e fiquei maravilhada. Há tempos não via um filme tão interessante que me motivasse e que me divertisse. Quem leu essa obra dostoievskiana sabe muito bem do que estou falando. É a mesma história para almas diferentes: alma feminina e alma masculina. O criador de Nina agiu como um cirurgião competente, retirando o excesso, fez uma lipo, colocou silicone onde precisava, botox e uma leve maquiagem.

Mas há tanto que se falar dessa obra. Nomes de personagens das obras dostoievskianas são geralmente forjados; Ralkolnikov, por exemplo, vem do verbo rachar, dividir. Daí é só concluir a razão dessa escolha de palavra.

Retomando o que queria dizer sobre o filme NINA – personagem femininA, inteligente e sensível, porém solitária e abandonada à própria sorte da cidade grande, destino incerto, retrata a condição humana das pessoas e seus conflitos existenciais. Ela nada tem de valor material, vive de pequenos bicos e favores. Ela pouco tem de valor imaterial: a sensibilidade poética e artística, porém não a usa adequadamente. Nina (o filme) é ousado e sensível, num estilo meio sombrio, meio gótico, consegue desenvolver-se despertando o interesse das pessoas que o assistem (Mexeu comigo).

Nina, meio pretensioso, meio envolvente, fazendo suas escolhas, desempregada, prostituir-se ou não para sobreviver? Ou os caminhos da vida ou da morte, pelo livre-arbítrio (matar ou morrer de inanição?) Há tanto o que se questionar…Coincidência ou não predestinado a ser desconstruído por todo roteirista que se preze, por ser tão significativo.

Tenta levar o expectador à beira da loucura, insana e obediente, claro, transportando-nos aos eus mais profundos. Nina tem seu valor – qual foi o seu crime? E qual será o seu castigo? A sua caridade e boa ação, em dinheiro roubado, dinheiro doado, a velha história de ladrão que rouba ladrão (na cena caliente de paixão em que rouba do cego, inversão de valores, e doa à prostituta que por sua vez paga a viagem de taxi) Que viagem!

Nina (Guta Stresser) a garota sensível que via-se envolvida com seus desenhos em seu quarto, revelando um pouco de sua alma, é aquela que mata a bruxa, envolvida nos fantasmas do seu inconsciente, assim como Raskolnikov, um ser imortal pelo sopro de seu criador, envolvida no crime, vive angustiado pelo seu pecado ou pelos conflitos existenciais… assim é Nina-Raskolnikov, e punido será tendo como prisioneiro suas lembranças e a lâmina que fere… enfim… libertar-se, quem sabe…

Esse filme, com certeza, superou todas as expectativas. As cenas muito bem ilustradas com imagem metafóricas dos pintores de paredes (Selton Mello e Lázaro Ramos) que trabalhavam no apartamento ao lado onde Nina morava de aluguel, com a proprietária dona Eulália (Myriam Muniz) contrastando com as pinturas e desenhos de Nina. O diretor desse longa é Heitor Dhalia, que eu não conhecia, e a partir de então considero-o talentosíssimo. Adorei o filme!

O cinema nacional está a cada dia mais maravilhoso. Há nesse filme a figura constante da antítese: fome material x fome espiritual; vida e morte, miséria x riqueza; matéria x alma; bem e mal; juventude e velhice.

Uma vitória e tanto para o cinema brasileiro também no que se refere às interpretações e aos excelentes atores. Tudo no filme é envolvente, inclusive na escolha de cenário que dá aquele aspecto de antiguidade, de coisa velha e cheiro de mofo. Aliás, é um filme genial. Sinto um grande orgulho do cinema brasileiro. Nota 10! Há muito filme nacional interessante, mas esse além de interessante é genial. E se esse é o primeiro longa do diretor Heitor Dhalia, já começo a imaginar os seguintes…

E se você está se perguntando o porquê do título “Cinema Nacional Legendado”, assista ao filme e descubra entre os desenhos feitos nas paredes por Nina, que há palavras em russo não traduzidas, uma por exemplo, é a palavra “Saída”.

Talvez seja uma forma de nos apontar um caminho, uma saída, uma escolha para nossa própria condição humana, nossa própria vida. Existe saída????

P.S.: Esse filme NINA participou do Festival de Cinema de Moscou e acabou ganhando um prêmio de crítica.

Por: Karenina Rostov. Blog Letras Revisitadas.

Nina. 2004. Brasil. Direção e Roteiro: Heitor Dhalia. Elenco: Guta Stresser, Renata Sorrah, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Myrian Muniz, Selton Mello. Gênero: Drama. Duração: 85 minutos. Censura: 16 anos.