Blade Runner – O Caçador de Andróides (Blade Runner)

Em 84 meu melhor amigo comprou um vídeo K7, chamou-me para escolher uma fita. Pedi Blade Runner. Mas que filme é esse? Assista e verá. Primeiro porque é inclassificável. Drama? Suspense? Science Fiction? Ação? Noir? É tudo e ao mesmo tempo nada. Sacou?

Estamos em uma soturna Los Angeles de 2019, megacidade. Dominada pelos orientais na linguagem e tecnologia, os estratos sociais estão amontoados, de baixo para cima. Chove. Estamos à procura dos replicantes. Andróides rebeldes, criados para missões especiais em colônias interplanetárias. Baseado no “Andróides sonham com carneiros elétricos?” do mesmo autor de “Minority Report” que o Spielberg estragou e o Tom Cruise só maquiou.

Feito um questionário para identificar esses seres superiores no físico e no intelecto humanos. Eles são desprovidos de emoção. Avaliam as reações da pupila com as perguntas. Que habitualmente são coloquiais e depois é inserido um fator diferente. Deckart é o melhor caçador. Homem desiludido. Tem que encontrar 06. Três casais.

Daí em diante o roteiro é incrível. Cada personagem é mais fascinante do que o outro. As mulheres simbolizam arquétipos femininos. A boneca, a lutadora e a dona-de-casa. Daryl Hannah em breve aparição está linda fazendo “palhacinho”, aquele salto para trás da capoeira. A mulher fatal carrega uma cobra no pescoço, quer algo mais fálico? E Sean Young simplesmente maravilhosa com o penteado do século XIX, idêntico a minha bisavó Otávia… Sua interpretação é poética. Ela não sabe que é uma máquina e a cada momento torna-se mais humana… Teria ela prazo de validade, como todos nós?

Adoro a cena da esper-machine. Artefato que decompõe uma foto ao comando vocal. Gira os ângulos, aumenta diminui, foca e imprime. Enorme surpresa quando identifico dois quadros de pintores, Vermeer e Van Eyck. Que show! O caçador, vivido pelo homem-bilheteria Harrison Ford (dos dez filmes mais vistos ele está em seis…) vai matando, eliminando, ou melhor; aposentando um-a-um. Fuzila a esvoaçante dançarina, é ajudado por Rachel –a parceira- em detonar o brutal e vê de encontro com o mais perfeito deles.

Antes de avaliar o desfecho deslumbrante, seria Deckart o último replicante? Seriam suas memórias falsas, implantes daquele policial mexicano, com cara de chinês e olhos verdes? Exemplo mais multirracial que esse, impossível! Os origamis –dobraduras de papel- representariam a vida real, no chão, depois o homem e a missão e por último o sonho? Respectivamente a galinha, o macaco e o unicórnio.

Ouvindo uma trilha sonora de arrepiar e emocionar o mais duro dos homens, Rutger Hauer persegue uivando Deckart. Ele sabe que é o seu canto de cisne. Enquanto o policial tropeça, machuca e se borra todo, o loirão é soberbo. Seu salto é olímpico. E o gesto de salvação e a pomba voando é como lágrima na chuva. Mistura de emoções. Vangelis, o músico grego, ao fundo. Sugiro fazer amor , ouvindo o CD inteiro, com chuva lá fora e vinho dentro.

Quem somos além de nossas memórias e vivências? Humanos, falhos e maravilhosos.

O que há de bom: enredo profundo e atores perfeitos nos papéis, difícil escolher a melhor atuação.
O que há de ruim: existem duas versões, a de 82 do público e a de 90 do diretor, para DVD, são diferentes no final, obrigatório assistir ambas.
O que prestar atenção: se você se encontrasse com o seu criador, o que faria?
A cena do filme: existe algo mais nobre e humano do que salvar a vida do inimigo?
Cotação: filme excelente (@@@@@) imperdível.

Por: COBRA.  Do Blog  ‘C.O.B.R.A.

Blade Runner – O Caçador de Andróides (Blade Runner). 1982. EUA. Direção: Ridley Scott. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, Joel Turkel, M. Emmet Walsh, William Sanderson, Kevin Thompson, Brion James, Joanna Cassady, James Hong. Gênero: Ação, Drama, Romance, Sci-Fi, Thriller.  Duração: 118 minutos. Baseado no livro “Do androids dream of eletric sheep?” de Philip K. Dirk.

Crash – No Limite (Crash)

Por: Eliude A. Santos.
Recentemente ganhei o DVD do filme Crash-No Limite. Esse filme se encaixa numa categoria especial para mim. Eu fui ver Crash no cinema sem grandes expectativas e o filme me surpreendeu… Fiquei impressionado com as histórias e os dilemas dos personagens e com a sensibilidade com que foram abordadas… Fiquei impressionado com o talento de Paul Haggis, roteirista e diretor, em encaixar temas tão nobres num roteiro tão bem amarrado: uma dona de casa e seu marido procurador de Justiça, uma família Persa dona de uma loja, dois detetives, um diretor de televisão e sua mulher, um chaveiro, dois ladrões de automóveis, dois policiais e um casal coreano, todos vivem em Los Angeles e durante um dia e meio entram em colisão uns com os outros das maneiras mais surpreendentes e reais.

O modo sensível como são contadas essas colisões pessoais já fica evidente na primeira frase que se ouve no filme: “É o sentido do tato… Numa cidade de verdade você anda, esbarra nas pessoas, elas topam com você. Em Los Angeles, ninguém toca em você. Estamos sempre atrás de metal e vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque que damos esbarrões uns nos outros só para sentirmos alguma coisa“, fala um personagem referindo-se a um acidente de carro que acaba de acontecer.

O tema central de Crash é o preconceito e a maneira como ele se manifesta das mais diferentes formas, mas não é um filme de denúncia. O preconceito é pano de fundo para o filme falar sobre relacionamentos e a teia de relações que existe entre pessoas. E, pelo modo como as histórias são contadas, você começa a desenvolver empatia pelas personagens que supostamente menos mereciam tal sentimento se víssemos somente parte de sua história. Isso nos ajuda a perceber que difícilmente conseguimos enxergar todas as ramificações de uma situação ou de uma personalidade para que nos coloquemos como juízes diante de qualquer fato, mesmo que a pessoa na tribuna esteja sendo julgada por si mesma, afinal o argumento do filme é “Você acha que se conhece? Você não tem a menor idéia!

O filme tem um argumento poético e utiliza-se dessa licença poética para conduzir a narrativa. O efeito da neve em Los Angeles (a exemplo da chuva de sapos em “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson) não foi um erro. O filme é direcionado para americanos que sabem que não neva na Califórnia. Ele fala da frieza (gelo) de relações entre essa massa de americanos (de tantas partes do mundo – e de todo o preconceito que gira por trás dessas relações) e mostra, nesses relacionamentos desses poucos personagens, que todos estamos de certo modo conectados. (mas que a percepção dessa conexão é tão rara quanto seria nevar naquela cidade) Que normalmente sentimos essa ligação somente naquilo que reconhecemos, mas dificilmente reconhecemos quando não percebemos essas ligações.

Com uma trilha sonora encantadora e um elenco talentosíssimo, Crash é um filme que nos faz parar e pensar, uma lição de vida que nos surpreende.

Por: Eliude A. Santos  Blog: Ode ao Ego.

Crash – No Limite (Crash). 2004. EUA. Direção e Roteiro: Paul Haggis. Elenco: Don Cheadle, Jennifer Esposito, Alexis Rhee, Shaun Toub, Marina Sirtis, Ludacris, Larenz Tate, Sandra Bullock, Brendan Fraser, Art Chudabala, Matt Dillon, Loretta Devine, Michael Peña, Ryan Phillippe, Terrence Howard, Thandie Newton, Ashlyn Sanchez, Beverly Todd, William Fichtner. Gênero: Crime, Drama. Duração: 113 minutos.

O Informante (The Insider)

_Imprensa livre!? A imprensa é livre para os seus donos. Você ouve ‘razoável’ e ‘interferência ilícita’. Eu ouço ‘propensa a processos’. Ouço: ‘Parem o segmento. Dispensem o cara. Obedeçam ordens e fodam-se!’ . Ele é testemunha-chave no maior caso de reforma da saúde pública, talvez o maior, mais caro caso de conduta ilegal corporativa na história dos EUA. É ele quem está em apuros. E nós não vamos levá-lo ao ar porque ele está dizendo a verdade!?

O que é ético? Manter um acordo de confidencialidade com uma Empresa por algo nada ético que ela faz? O qual fora demitido por não concordar com tal coisa? Qual decisão tomar? Se também ao revelar poderá por em risco sua própria família porque irão jogar pesado. E o jornalista que lhe dá a chance de revelar no programa jornalístico de maior audiência e credibilidade, está apenas pensando no furo de reportagem? Mais, e quando vê que seus superiores recuaram, pressionados, como fica a sua palavra? Essas são só algumas das reflexões levantadas ao longo do filme. Desse sensacional filme!

Ano 1994. País EUA. No banco dos réus uma das indústrias que mata milhares de pessoas por ano – a Indústria do Tabaco. Mas não será tarefa fácil para dois grandes heróis nessa história real. É, “O Informante” é baseado numa história real, mas precisamente tirando-a de um artigo publicado. Talvez até para dar asas a imaginação em trechos que não tem como provar. Vendo o filme verão o quão influente é esse grupo conhecido como ‘Os Sete Anões‘.

Um desses heróis, é Jeffrey Wigand (Russell Crowe), um cientista conceituado na terceira maior empresa de tabaco dos Estados Unidos. Aliás era, pois fora demitido por não concordar com algo sujo, criminoso, com o uso de uma substância carcinógena no cigarro. Se antes, ao ser contratado, até numa posição de Vice-Presidente, seu currículo profissional fora o fator preponderante, ao tê-lo como possível delator, até seus pequenos deslizes na adolescência receberão uma carga maior numa campanha de difamação, de desmoralização, orquestrada pela Brown & Williamson. E como se isso não bastasse, pelo poder de influência que esse Grupo detém – até porque o vazamento atingirá todos – aplicam-lhe a Lei da Mordaça.

- É para isso servem os cigarros? Um dispositivo para entrega de nicotina. Coloque na boca, acenda e receba sua dose. Manipulam e ajustam a dose de nicotina, não adicionando nicotina artificialmente, mas aumentando o efeito da nicotina com o uso de elementos químicos como amoníaco?
-  O processo é conhecido como reforço do impacto. Mesmo sem aumentar a nicotina, obviamente a manipulam. Esta tecnologia é bastante usada, ciência do amoníaco. Permite que a nicotina seja absorvida mais rapidamente no pulmão, afetando assim o cérebro e o sistema nervoso central.

O outro herói dessa história é Lowell Bergman (Al Pacino), produtor do programa jornalístico “60 Minutos“, da rede americana CBS. Um jornalista que difere dos demais por manter uma postura ética com quem ele coloca na poltrona para ser entrevistado pelo Mike Wallace (Christopher Plummer). Ciente também do vespeiro que iriam cutucar, ele se faz de advogado do diabo com Jeffrey por quase todo o tempo. Ora irônico, ora muito irritado, Lowell quer ganhar essa parada. Agora, o que leva seguir adiante? Sucesso na carreira? A luta será grande. Até Mike desistiu.

Então, você foi trabalhar no ramo do tabaco. Vindo de empresas onde a pesquisa e pensamento criativo são valores essenciais. Vai trabalhar com tabaco, que é uma cultura de vendas: comercializar e vender em grandes quantidades.

O filme é longo, mas prende a atenção o tempo todo. De eu já quase no final querer que não terminasse. Esse com certeza vou querer ver mais vezes.

O elenco está afinadíssimo! A trilha musical dá o tom certo!

Umas considerações finais eu o faço, e apenas baseado no filme, é sobre a atitude da esposa de Jeffrey (Diane Venora). Se ainda fosse pela integridade física das filhas, eu até entenderia. Mas a mim, pareceu que ela queria manter o mesmo padrão de vida.

Filmaço! Não deixem de ver!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Informante (The Insider). 1999. EUA. Direção e Roteiro: Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Colm Feore, Diane Venora, Bruce McGill. Gênero: Biografia, Drama, Thriller. Duração: 160 minutos. Baseado numa história real.

As Duas Faces da Lei (Righteours Kill)

As Duas Faces da Lei: Desnecessário e Desconfortável.

Gosto de pensar que De Niro e Pacino toparam aparecer nesse caldo insosso mais para agradar aos fãs, do que deixar algo para a posteridade. As duas faces da lei não acrescenta nada à filmografia dos astros, não empolga e não resistirá ao tempo.  É desconcertante assistir a uma idéia, alimentada há 30 anos, naufragar em meio a um roteiro pífio e a uma direção morna. O longa vale a pena, apenas pelo que representa.

Em Righteous Kill, David Fisk (Al Pacino) e Thomas Cowan (Robert De Niro) são detetives do Departamento de Polícia de Nova York. Amigos e parceiros há 30 anos, perto da “temida” aposentadoria embarcam na investigação do assassinato de um conhecido cafetão, que os levam a um crime resolvido anos atrás. O criminoso, culpado de assassinato, é morto por uma espécie de serial killer poeta. As coisas começam a complicar com a formação de uma equipe especial de investigação, montada para descobrir a identidade do maníaco, possivelmente um policial.

Responsável pelos açucarados “Tomates Verdes Fritos” (1991) e “Íntimo e Pessoal” (1996), Jon Avnet bem que tentou, mas não conseguiu levar para a telona um thriller empolgante.  Talvez essa tarefa, ingrata, ficasse melhor em mãos mais experientes. O filme não se define entre um thriller psicológico ou um drama policial. A fotografia e a trilha sonora insossa também não colaboram. O roteiro de Russel Gwertiz (O Plano Perfeito) não foi suficientemente trincado para sustentar as atuações de De Niro e Pacino, que nadam, nadam e quase morrem na praia.

É gostoso vê-los em cena, contando suas piadinhas, mostrando seus lados canastrões (sim, infelizmente) e encarnando os típicos estereótipos dos policiais “fodões”. Esporadicamente aparece o furor de Tony Montana (Scarface) ou a raiva incontida de Travis Bickle (Taxi Driver). Se Avnet fez uma coisa realmente digna de aplausos, foi exemplificar, durante toda a projeção, a relação de amizade entre os dois policiais, pontuada por duas cenas lindíssimas no início do filme e outra no derradeiro final. Aliás é bom lembrar que a sequência de “terapia” é uma das melhores do filme – tanto em diálogos como em planos.

Pacino e De Niro colecionam prêmios e indicações aos montes. O primeiro faturou o Oscar por “Perfume de Mulher” (1992), e o segundo venceu duas vezes, por “Touro Indomável” (1980) e “O Poderoso Chefão II” (1974). Lendas vivas do cinema norte americano. A idéia de juntar os astros sempre esteve viva na cabeça de fãs e também da indústria cinematográfica desde Fogo contra Fogo (1995). Porém, condenar ambos a uma película aquém do talento e da história que representam é no mínimo, constrangedor. E eles não precisavam passar por isso.

No mais, o filme conta com um bom time de apoio: Carla Gugino (Sin City e O Gângster); John Leguizamo (Romeu + Julieta -1996); o irregular Donnie Wahlberg (O Sexto Sentido) e Brian Dennehy (Rambo I – 1992). E é só. Uma pena!

Por: Débora Mello Do Blog: Poltronna B.

As Duas Faces da Lei (Righteours Kill). 2008. EUA. Direção: Jon Avnet. Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, John Leguizamo, Donnie Wahlberg, Carla Gugino, 50 Cent, Brian Dennehy, Frank Jhn Hughes, Shirley Brener, Adrian Martinez, Trilby Glover, Antonino Paone. Gênero: Crime, Drama, Suspense, Thriller. Duração: 101 minutos.

Edison – Poder e Corrupção (Edison)

A realidade é uma merda. A primeira coisa que se faz, quando ela nos alcança é nos perguntar onde estamos. Nós fazemos nossas coisas, vocês fazem a sua. Mas lembrem-se é um mundo sujo. E, sem nós seria bem mais sujo.

Esse, não é um filme para descobrir quem mata quem. Pois de cara já sabemos quem são eles. Assim, acompanhamos para saber porque matam. No mundo real com um número crescente na violência urbana nas grandes cidades, quando ficamos sabendo de uma onde a criminalidade diminuiu drasticamente fica uma esperança de que há uma saída para as demais. Algo como o Tolerância Zero em Nova Iorque. Agora, ao ver que o que pode ter acontecido foi como nesse filme, “Edison – Poder e Corrupção“, fica uma dúvida se fecharíamos os olhos para essa limpeza no submundo; e assim, tal qual eles fizeram. O lance é que, com o desenrolar da história, esse mar de tranqüilidade favoreceu mesmo foram as faixas mais elevadas da pirâmide social. A base dessa pirâmide ficou desassistida, e por não terem dinheiro para pagar o tal Sistema, ou, como na história do filme, não terem como pagar para mantê-lo operante. Sendo assim, tem algo errado nessa diminuição da violência nas ruas.

O filme começa com a reflexão de um jovem policial, Deed (LL Cool), e termina com outra de um jovem jornalista, Pollack (Justin Timberlake). Os dois que farão a diferença num mar de corrupção na cidade de Edson. Mas não apenas será fácil, como terão que ter ajuda. E virá do melhor investigador da cidade, Wallace (Kevin Spacey). Esse, gostaria de desmascarar toda essa rede de corrupção que tem como ‘profissionais da faxina’ o grupamento anti-drogas FRAT (Força Tática de Defesa e Ataque). O outro será Moses (Morgan Freeman). Que impõe a Pollack algumas barreiras, mas mais para testá-lo se quer mesmo levar adiante a reportagem contando a sujeirada dos integrantes da FRAT. Que será um grande furo de reportagem, mas que ele pode acabar é furado de balas.

Deed, por estar querendo constituir família, o qual é proibido casar aos integrantes da FRAT, começa a vê-la com outros olhos. Tem que ter um que de psicopata para fazer o que o seu companheiro, Frances (Dylan McDermont) faz, por exemplo. Mas ele não quer ser um delator. Então precisa achar um jeito de sair daquela teia de corrupção sem se sentir culpado.

A justiça é muito parecida com o jornalismo. Às vezes, as perguntas mais importantes são as que resolvemos não fazer.

Os fins justificando os meios? É, o filme leva a várias reflexões. Mesmo que na balança pese um ‘Basta a violência!’. Às vezes, o preço é muito alto. Como também alguém poderá sair ferido nessa. Agora, que o meu grito mais forte é um ‘NÃO A CORRUPÇÃO!‘, disso eu não abro mão

Eu gostei! Para ver e rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Edison – Poder e Corrupção (Edson). 2005. EUA. Direção e Roteiro: David J. Burke. Elenco: Morgan Freeman, Kevin Spacey, Justin Timberlake, LL Cool J, Dylan McDermott, John Heard, Cary Elwes, Roselyn Sanchez, Damien Wayans, Garfield Wilson, Piper Perabo. Gênero: Crime, Drama, Policial, Thriller. Duração: 97 minutos.

No Vale das Sombras (In the Valley of Elah)

Programados para matar.

Guerra após guerra, será sempre assim, em mais que dar aos jovens licença para matar, os fazem não mais raciocinar? Programando-os para matar, mas sem nem se preocuparem em desprogramá-los. O Vietnã não serviu de lição? E mais, permitindo até que se topem por drogas e bebidas para que aceitem a insensatez da guerra. Dos que lucram com as guerras.

Ainda há uma maneira de contar a história da invasão dos Estados Unidos ao Iraque e suas conseqüências.

Paul Haggis já expusera as mazelas do preconceito aos imigrantes ‘não-branquinhos’ em solo estadunidense, com o filme “Crash – No Limite“. Com esse “No Vale das Sombras“, o preconceito vem em dose exagerada, e pior, onde vêem na tortura, no assassinato com requinte de crueldade, algo normal. A ponto de não entender o choque de alguns diante de suas atrocidades.

Agora, e a família, os pais, não sabem no que eles irão se tornar? Não ouvem nem um apelo choroso para o livrarem de um inferno?

Transformando-os em assassinos cruéis realmente estariam honrando as cores da bandeira? Ou não seriam apenas peças descartáveis de um grupo seleto?

Entrando no filme… Hank (Tommy Lee Jones) não entende o porque do filho ter chegado do Iraque e nem dera um sinal. Se quando esteve por lá, sempre se comunicavam. Ao ligar para o Quartel, descobre que ele está desaparecido. E que será punido caso não volte a Base. Ciente do quanto o filho é cumpridor do dever, dos horários, ele pressente que algo pode ter acontecido.

Sendo um militar aposentado, resolve ir para lá e investigar o sumiço do filho. Impede a esposa (Susan Sarandon) de acompanhá-lo, dizendo que o filho pode estar com mulheres, farreando, e por conta disso não iria querer ver a mãe indo procurá-lo. Algo bem machista, e não será o único.

Bem, o filme é calcado nesse pai, que até incentivou os dois filhos a seguirem a carreira militar. Perdeu o mais velho, e se vê agora diante da iminente perda do caçula. Sendo assim, o papel dessa mãe, foi pequeno para uma atriz do porte da Susan Sarandon. Mas suas poucas aparições foram eloqüentes. Uma mulher como tantas dona-de-casa, submissa ao marido. Que sabia que os filhos também não teriam vida própria. Que eles também eram submissos ao pai.

No Quartel pede para ver o quarto do filho, é acompanhado por alguns companheiros do filhos. No quarto, sem que ninguém veja, pega a câmera digital do filho. Pois ele sempre lhe mandava fotos por email. Descobre também que há vários trechos de filmagens que o filho fez enquanto esteve na guerra. Mas por estarem meio danificados, um técnico diz que enviará aos poucos, conforme for limpando.

O que esses vídeos mostram, todos nós já tomamos conhecimento pelas reportagens no mundo real. Só para ressaltar o filme é inspirado numa história real. Mesmo assim, a mim chocou. Ainda mais com o que vamos sabendo do que se passa ali dentro e fora do quartel. Pela selvageria com que tratam um outro ser humano. Dizer que eles não têm respeito, seria um elogio.

Como Hank não recebe nenhuma ajuda da Base, resolve ir a Polícia. Na sala, enquanto aguarda, presencia uns tiras fazendo chacota, e de uma companheira de trabalho deles. Tipicamente machista. Ela é a Detetive Emily (Charlize Theron). Eles encaminham para ela as queixas que julgam mais banais. Numa de desqualificar seu apuro nas investigações. Hank a pega quase à beira de um ataque de nervos, o que a faz não explicar bem a uma jovem que veio reclamar do marido. Ele, um soldado, afogou o cachorro na frente do filho. Emily não tem noção ainda, de que esses jovens voltaram sem serem desprogramados.

Hank conta o seu caso. Ela lhe diz que não tem como investigar, que é por conta dos militares. Algumas horas depois, um corpo é achado. Fora esquartejado e queimado. Ela avisa Hank. Na cena do crime, Hank, com muito mais experiência, da a ela informações que tanto os tiras, como os militares não perceberam. Pistas, que fazem com que ela comece a impor respeito a seu trabalho.

Há um câncer no mundo que precisa ser tratado antes que dizime os habitantes do planeta. Quem seria o Davi para enfrentar esse Golias?

O filme começa mansinho, a tensão vai aparecendo aos poucos. Na meia hora final, confesso que fiquei estarrecida. Ainda mais sabendo que traz uma história real. Não liguem o reloginho para saber quem matou, se liguem no todo. Com os vídeos que Hank assiste ao longo dessa sua jornada, as outras peças desse quebra-cabeça vai sendo completo. Eu gostei muito! Esse entrou para a minha lista de que vale a pena rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

No Vale das Sombras (In the Valley of Elah). 2007. EUA. Direção e Roteiro: Paul Haggis. Elenco: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Jason Patric, Susan Sarandon, James Franco, Barry Corbin, Josh Brolin, Frances Fisher. Gênero: Drama, Crime, Guerra. Duração: 124 minutos.


Ensaio Sobre a Cegueira: Análise

Acabo de sair do cinema. Me encontro em estado de êxtase contemplativo. Estou pasmo, feliz e um tanto quanto emocionado. Um dos meus maiores temores já não tem razão de ser, pois Fernando Meirelles conseguiu a façanha inédita de adaptar com maestria a obra maior de José Saramago. Creio que as palavras que melhor descrevem o meu estado neste momento são estas duas: orgasmo mental.

José Saramago, em minha franca opinião, é o melhor escritor de literatura de todos os tempos. Me desculpem Dostoiévski, Tolstói, Hemingway, Kafka, Dante, Herman Hesse, Fernando Pessoa – também amo todos estes – mas Saramago, além de sua excepcional criatividade, tem uma maneira singular de contar histórias: ele sabe escolher as palavras certas e como encaixá-las no texto, graças a sabedoria popular adquirida durante toda uma vida levada com simplicidade. Sua narrativa é um espetáculo a parte e não posso simplesmente tentar explicar a sensação de ler um texto de Saramago justamente porque as palavras me limitam a fazer justiça à sua obra.

Li o livro Ensaio Sobre a Cegueira em Junho de 2001. Poucos dias se passaram entre o início e o fim, pois a história era tão instigante que não conseguia chegar à um ponto que me bastasse. Acabei por ficar tão envolvido com toda a magia do livro que não queria saber de mais nada, a não ser apreciar lentamente e com delicadeza página-por-página daquela história que nunca saiu de minha mente. Se tivesse que escolher apenas um livro para ler durante toda a minha vida, não hesitaria em escolher o Ensaio Sobre a Cegueira como principal candidato.

Este não é o único livro que li de Saramago. Ao contrário, faltam apenas alguns para que eu tome conhecimento de toda sua obra, porém o Ensaio chega a ser tão bom que ofusca outras histórias. Conforme estes meus comentários, vocês devem imaginar que eu sou uma espécie de fanático pelo autor português, então imaginem a minha preocupação e angústia ao saber que a melhor história de todos os tempos seria filmada?

A primeira coisa que veio em minha mente foi: como? Como uma obra considerada por mim e por muitos como intransponível para as telas poderia ser filmada? Coisa boa é que não poderia surgir de tamanha ousadia. Desta forma, será que os realizadores do filme não iriam assassinar o livro dourado escrito em nosso tempo? Como ficariam os diálogos ácidos de Saramago? Como eles poderiam ser traduzidos em imagens?

Não irei assistir! Pronto! Seria persistente em meu ponto-de-vista e valeria de minha teimosia para bater o pé e não ceder. Porém um vídeo no YouTube, me fez mudar de idéia.

Nele, temos Saramago, ao lado de Meirelles, em lágrimas dizendo que a emoção que estava sentindo era a mesma de quando ele havia terminado de escrever o livro. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça! O próprio autor dera o seu parecer, e de forma tão intensa que não havia como a adaptação ter ficado ruim. Enfim, fiquei ainda mais confuso e curioso. De certo, somente a decisão que iria, a qualquer custo, assistir a película no cinema.

Enfim, minha mente era um turbilhão de pensamentos. Eis que chega o grande dia. Quando entro no cinema entro também numa batalha contra todos os pré-conceitos formulados anteriormente. Tenho medo do resultado final. Desejo, com antecedência, que o filme seja ruim, pois então estaria vingado de todos os diretores que insistem em dizimar um autor consagrado ao tentar prostituir uma bela história nos cinemas hollywoodianos.

Deveria ter me recordado que do outro lado não estava qualquer diretor. Estava um que não insulta a mente do telespectador e que respeita a sua inteligência. O brasileiro Fernando Meirelles já provou que é um dos maiores nomes do cinema internacional. Em algumas entrevistas, ele disse que já foi convidado para dirigir grandes blockbusters, mas este não é o seu foco, mas sim fazer filmes tocantes. Foi assim anteriormente com “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”. Obviamente ele trataria com carinho o maior clássico de Saramago. Ele não entraria num projeto que considerasse inviável apenas para ganhar projeção. Meirelles, ao aceitar o desafio, teve coragem superior aos espartanos na batalha contra os persas. Era o seu nome e sua carreira que estava em jogo. E ele superou todas as minhas expectativas.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontece, então não leia o conteúdo abaixo.

O que aconteceria se as pessoas passassem, de súbito, a perder a visão – e não uma cegueira escura, mas branca, como uma luz cintilante e intensa? Este é o tema explorado por Saramago em seu livro de 1995. Por trás de uma idéia simples surge um leque tão grande de possibilidades que Saramago consegue explorar o que há de mais selvagem e humano nos homens e colocar-lhes em frente à um espelho: hora refletimos bestialidade, hora fragilidade.

Um homem, em meio ao trânsito, fica cego. Logo, outros vão ficando. Passa-se algumas semanas, e a proporção de cegos aumenta de forma que o governo e as forças armadas se vêem forçados a tomar medidas drásticas e colocar os infectados pela “maldição branca” em quarentena numa espécie de alojamento, de modo que acredita-se que o vírus seja contagioso. No começo apenas um casal fica encarcerado, mas em pouco tempo surgem dezenas e dezenas de pessoas, a maioria sem saber o que realmente está acontecendo. Quem está dentro desta prisão improvisada não tem contato algum com o mundo exterior.

Dentro desta situação, temos uma mulher que enxerga, que resolveu entrar em quarentena para ajudar o marido em sua cegueira. Porém ninguém, a não ser o próprio marido, sabe de sua condição. Logo, grupos irão se dividir, e eles entrarão em conflito por necessidades básicas. Depois são apenas os demônios presentes em cada ser que irão orientar o seu caminho, de modo que eles chegam a se tornar figuras selvagens de uma selva sem lei.

A primeira coisa a observar é o caráter existencialista da história: inesperadamente somos devastados com uma epidemia de cegueira. Em nenhum momento sabemos como ou porquê. Sendo os homens seres que entendem que são controladores de todas as situações, ao se deparar com tamanho absurdo entram em crise de identidade. Nestas situações extremas, a figura do homem real, sem influências e sem moderações, costuma aparecer de forma intensa e irracional. O homem tem a necessidade de explicar o início e o fim de todas as coisas, logo quando se depara com algo inexplicável, uma dor muito intensa toma conta de si, de modo que ele beira a falta de sanidade e passar a cometer atos inexplicáveis.

Ainda nesta linha existencialista, temos a figura de uma mulher que enxerga num universo de pessoas que só vêem branco a sua frente. No inicio ela acha que é questão de tempo até ficar cega, como todos os outros, porém logo ela entende que não irá perder a visão. Então porque ela? Como ela pode ser imune à algo que atinge a todos? São perguntas que não temos respostas em nenhum momento. O certo é que ela está sozinha. E a aparente vantagem que ela leva em relação ao resto se converge em sofrimento ao vislumbrar o que há de mais bárbaro nos atos dos homens. Como dizem no popular, as vezes é preferível não vermos do que vermos tantas coisas ruins. Esta é uma verdade.

O segundo ponto a ser observado é que a epidemia é de cegueira. Num mundo onde imagem é tudo, não acredito que Samarago inseriu a deficiência coletiva de forma desproposital. Ao contrário, ao retirar a visão das pessoas, o autor removeu toda a referência disponível para seres subordinados a apenas aquilo que vêem. Ele desnudou o homem e o colocou na frente do espelho para mostrar quem realmente é: o homem sem referência de imagens é um homem desesperado, pacato e covarde, que não se entende e não entende o que está ao seu redor. Imagens funcionam como signos de fé. Logo, acredito naquilo que eu vejo, pois o que eu vejo é evidência daquilo que realmente é. Porém com este raciocínio podemos concluir que quando não vemos não entendemos, logo, deixamos de existir.

O terceiro ponto inicial que gostaria de mencionar é a cegueira branca. No escuro, temos a tendência de ficarmos relaxados. Já no claro, ficamos mais agitados. O dia é para viver e a noite para dormir. Agora imagine que quando você fechasse os olhos, ao invés da escuridão, enxergasse um branco ofuscante como se tivesse olhando para o próprio sol? Como você iria conseguir dormir? Nesta linha, Saramago frisa que o homem começa, vagarosamente, uma jornada rumo a loucura. Sendo assim, cada dia que passa, mais próximos estamos de um colapso generalizado.

Somente com estes três pontos podemos apreciar a obra com um olhar mais crítico e contemplativo. Creio que Meirelles entendeu a sacada e se preocupou mais em trabalhar a trama e estes conceitos do que transpor os diálogos e a narrativa de Saramago no livro. E foi por isto que a adaptação foi estupenda. Justamente porque o filme não inibe o prazer de ler o livro mesmo após ter assistido o filme ou vice-versa.

A direção do filme é soberba e exemplar. É sombria, como deveria ser, e transita os nossos sentimentos entre o desespero e o alívio, a indignação e a resignação. A história não foi criada para ser bonita – ainda que seja – mas para dar um tapa em nossa cara e dizer: “Aí esta você! Acorde antes que seja tarde!”. Meirelles trabalha com o branco e o negro de forma mágica: tons desfocados são inseridos no canto da tela e ao fundo, as vezes temos sobreposições de imagens e efeitos fantasmas, quando então ele decide dilatar a pupila da câmera. Então somos arremessados num mar de leite, a tela fica branca, os diálogos são construídos sob a perspectiva das personagens e quase nos tornamos um deles.

Algumas cenas são perturbadoras e deixarão cicatrizes por anos em minha mente. Servirá para lembrar que para situações extremas podemos esperar atitudes extremas, ainda que sem justificativas. É o desencontro do homem. A fuga que ele necessita para acobertar suas atrocidades sem sentimento de culpa. No fim, jogamos a dignidade numa lata de lixo e o que nos sobra é este nada que representa o ser humano no contexto universal. Não um nada no sentido mais vazio, mas um nada quando comparado que ele não é a única força que rege o mundo e que a própria vida tem as suas regras que desconhecemos, sendo que todos estão sujeitos a sofrerem as conseqüências dela.

Na busca pela sobrevivência acabamos por nos encontrar novamente e vemos uma outra face no espelho. Ficamos envergonhados de certos atos ao fazer uma genealogia de nossa vida. É tempo de recomeçar e aceitar as coisas como elas são. Esta é a única maneira de recuperar a nossa dignidade e extrair alguma bonificação que a vida possa nos dar: aprendendo a conviver consigo mesmo, assim como entendendo suas limitações.

Belíssimo! Belíssimo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO  Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Ensaio sobre a Cegueira (Blindness). 2008. Brasil. Direção: Fernando Meirelles. Elenco: Julianne Moore, Danny Glover, Alice Braga, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Don McKellar, Maury Chaykin, Martha Burns. Gênero: Drama, Suspense. Duração: 124 minutos. Censura: 16 anos. Adaptação do livro de José Saramago.

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens)

Então quando você sentir que acabou a esperança, Olhe dentro de você e seja forte. E você finalmente verá a verdade, Que há um herói em você.

Somente o passado era previsível aos olhos dessa mãe. Nele, a crueldade de uma guerra religiosa e étnica, já lhe tirara quase toda a sua família. Ficara apenas ela e um único filho. Restara-lhe agora um dilema: mantê-lo junto a si, mas sem saber até quando, ou perdê-lo para o mundo, mas dando a ele a chance de ser alguém na vida. O momento dessa tomada de decisão se aproximava. A Operação Moisés era a oportunidade de dar um futuro digno ao seu filho, ainda um menino. Não seria fácil, pois precisaria de ajuda.

Um resumo do que foi a Operação Moisés. Um fato histórico acontecido em 1984. Onde uma equipe do Mossad resgata judeus etíopes de um acampamento de refugiados no Sudão. Levando-os para Tel Aviv, Israel.

Agora, voltando a batalha invisível que então levaria seu filho para longe de si. Ele teria que se passar por judeu. Como convencê-lo a ir sem ela. E quem a ajudaria.

A essa mãe tão castigada pela vida, uma outra mãe que há poucas horas perdera seu filho, numa linguagem muda, dá a ela a certeza de que dali para frente seria com ela. Assim, o menino ganha um novo nome: Schlomo. E ele, de coração partido segue em frente para cumprir um pedido/ordem de sua mãe: “Vá, viva e se transforme“.

Uma pausa para voltar a falar da Operação Moisés. É que no início do filme, me peguei a pensar se atualmente outras nações também não faria o mesmo. Por ter sido um feito digno de aplausos. Mas com mais um pouco do filme, vi que nem mesmo Israel voltaria a fazê-lo. Como também ficou uma dúvida do porque fizeram. Até por terem se cercado de todo um aparato para receber esse povo. Muros, soldados… Parecia que estavam numa prisão. Com muito mais regalias, é claro. Mas ainda detidos para uma investigação mais detalhada se eram de fato judeus.

Schlomo perde ai, essa sua segunda mãe. Mas o destino ainda conspirava a seu favor. Lhe dando uma terceira e então definitiva mãe. Por sorte, ele fora adotado por uma família agnóstica, e de esquerda. Mas achando que ele de fato era judeu, o colocam para estudar o Torá.

Scholmo mesmo diante de tanta fartura em alimentos, recusa-se a comer, ficando apenas nos líquidos. Falando em líquidos, a cena do seu primeiro banho de chuveiro, arrepia. E quando ele conta o porque o traumatiza tanto, é de sentir raiva da estupidez, da selvageria dos homens num campo de batalha e com inocentes.

Voltando a essa terceira mãe, ela é incansável, tanto na educação, como em tentar cicatrizar as feridas desse coraçãozinho. Precisam ver o que ela faz para que Scholmo decida se alimentar. Entre broncas e carinhos, ela o faz seu filho, de fato e de direito. E lutando para que o respeitem como um deles. Mais que o preconceito religioso, a cor da pele será uma batalha que ambos irão enfrentar dali para frente.

Além dessas mães, uma outra mulher entrou na sua vida na fase da adolescência, e seguiu junto com ele. Ela teve que romper outras barreiras, teve que romper laços sagrados para ficar ao lado dele. Por ter quem não aceitava a relação de uma branca com um negro.

Em sua trajetória de vida, dois homens contribuíram e muito em sua formação. Diria que foram seus dois Mentores. Um, um patriarca de sua terra natal, que tal como ele, estava em exílio. Eram ambos dois sobreviventes. O outro, o avô da família que o adotou. Ambos ensinaram os verdadeiros valores, as verdadeiras bagagens que se deve levar ao longo da vida. A cena de uma sabatina final na leitura do Torá, é emocionante.

Não querendo comprar guerras, até por imposição do pai adotivo, que o queria lutando, ele vai estudar medicina em Paris. Ao se formar, acaba embarcando numa guerra que não era dele. E nela, por se vê impedindo de atender alguém, e por ambos os lados numa guerra estúpida, se descuida, e termina sendo ferido. Volta para a casa, e casa.

Acabou? Não, tem muito mais ainda. Eu apenas pincelei o que seria esse filme. Nele, a trajetória de um menino até a fase adulta. É um filme longo. Poderia ter sido mais enxuto? Sim, mas mesmo assim não cansa, e nem tira a atenção. O final do filme, arrepia! Agora, embora eu tenha gostado, revê-lo, talvez num remake mais curto.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens). 2005. França. Direção e Roteiro: Radu Mihaileanu. Elenco: Yaël Abecassis, Roschdy Zem, Moshe Abebe, Sirak M. Sabahat, Roni Hadar. Gênero: Drama. Duração: 140 minutos.

Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept)

Baseado no romance de estréia de Irvin Yalom, o filme com mesmo título, conta a história de um encontro fictício entre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o Médico Josef Breuer, professor de Sigmund Freud.

Esse encontro se dá graças à insistência perssuasiva de Lou Salomé (Katheryn Winnick) que foi a grande paixão e obsessão de Nietzsche (Armand Assante). Ela pede que o Dr. Breuer (Ben Cross) o trate com a controversa técnica da “terapia através da fala”.

Quando o Médico se vê diante do filósofo, percebe a inteligência e brilhantismo de seu suposto paciente, e impressionado resolve então propor um tratamento de duas vias. Ele trata Nietzsche enquanto este trata dele mesmo, pois o próprio médico também está sofrendo pela paixão por sua paciente chamada Anna O. (O Caso de Histeria). O Dr. Breuer tem ainda o auxílio do seu pupilo Dr. Freud (Jamie Elman).

O resultado é um filme maravilhoso, que mistura filosofia e psicologia, obsessões, medos, e sonhos. De quebra ainda temos a trilha sonora com muita música clássica, com Wagner, Tchaikovsky, Bizet.

A cena inesquecível é quando Nietzsche rege, já delirante, uma Orquestra que toca As Valquírias, de seu não mais amigo, Richard Wagner.

Não li o livro mas os comentários dizem ser um romance excelente. Taí uma boa pedida: o filme, o livro ou ambos. A única opção ruim seria não mergulhar nesse romance inteligente.

Por: Thaís Gischkow.

Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept). 2006. EUA. Direção e Roteiro: Pinchas Perry. Elenco: Armand Assante, Katheryn Winnick, Ben Cross, Jamie Elman, Andreas Beckett (Zarathustra), Ayana Haviv (Singer – ‘Hymnus an den leben’), Rachel O’Meara (Frau Becker), Joanna Pacula (Mathilda), Michal Yannai (Bertha). Gênero: Drama, Romance. Duração: 105 minutos.

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen)

O Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro desse ano, “A Vida dos Outros“, filme alemão que só fui assistir nesse fim de semana. Já tinha ouvido ótimos comentários e faço coro junto a eles.

A história se passa na Alemanha Oriental, nos anos próximos a queda do Muro de Berlim, sob o regime castrador do comunismo ortodoxo, que procura, através do seu “staff”, perpetuar-se, fazendo controle e vigilância dos seus cidadãos.

Interessante que isso seja tão recente e ao mesmo tempo tão “medieval”.

O estado de paranóia e crueldade que havia. A perseguição às pessoas comuns, e principalmente aos artistas e que ainda assim, conseguiam, a muito custo e correndo grandes riscos, passar suas denúncias pro outro lado do muro, onde eram aguardadas com ansiedade pelos meios de comunicação e pelo resto do mundo.

O filme, como não podia deixar de ser, tem a aspereza alemã, a frieza dos prédios que parecem blocos de concreto num tom cinza triste. Mas tem também algo de sensível. A arte que penetra em almas intocadas e carentes de gestos bons. Um Oscar mais do que merecido!

Por: Thaís Gischkow.

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen). 2006. Alemanha. Direção e Roteiro: Florian Henckel Von Donnersmarck. Elenco: Martina Gedeck (Christa), Ulrich Mühe (Gerd), Sebastian Koch (Georg), Thomas Thieme (Minister Bruno). Gênero: Drama, Thriller. Duração: 137 minutos.