Crash – No Limite (Crash)

Por: Eliude A. Santos.
Recentemente ganhei o DVD do filme Crash-No Limite. Esse filme se encaixa numa categoria especial para mim. Eu fui ver Crash no cinema sem grandes expectativas e o filme me surpreendeu… Fiquei impressionado com as histórias e os dilemas dos personagens e com a sensibilidade com que foram abordadas… Fiquei impressionado com o talento de Paul Haggis, roteirista e diretor, em encaixar temas tão nobres num roteiro tão bem amarrado: uma dona de casa e seu marido procurador de Justiça, uma família Persa dona de uma loja, dois detetives, um diretor de televisão e sua mulher, um chaveiro, dois ladrões de automóveis, dois policiais e um casal coreano, todos vivem em Los Angeles e durante um dia e meio entram em colisão uns com os outros das maneiras mais surpreendentes e reais.

O modo sensível como são contadas essas colisões pessoais já fica evidente na primeira frase que se ouve no filme: “É o sentido do tato… Numa cidade de verdade você anda, esbarra nas pessoas, elas topam com você. Em Los Angeles, ninguém toca em você. Estamos sempre atrás de metal e vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque que damos esbarrões uns nos outros só para sentirmos alguma coisa“, fala um personagem referindo-se a um acidente de carro que acaba de acontecer.

O tema central de Crash é o preconceito e a maneira como ele se manifesta das mais diferentes formas, mas não é um filme de denúncia. O preconceito é pano de fundo para o filme falar sobre relacionamentos e a teia de relações que existe entre pessoas. E, pelo modo como as histórias são contadas, você começa a desenvolver empatia pelas personagens que supostamente menos mereciam tal sentimento se víssemos somente parte de sua história. Isso nos ajuda a perceber que difícilmente conseguimos enxergar todas as ramificações de uma situação ou de uma personalidade para que nos coloquemos como juízes diante de qualquer fato, mesmo que a pessoa na tribuna esteja sendo julgada por si mesma, afinal o argumento do filme é “Você acha que se conhece? Você não tem a menor idéia!

O filme tem um argumento poético e utiliza-se dessa licença poética para conduzir a narrativa. O efeito da neve em Los Angeles (a exemplo da chuva de sapos em “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson) não foi um erro. O filme é direcionado para americanos que sabem que não neva na Califórnia. Ele fala da frieza (gelo) de relações entre essa massa de americanos (de tantas partes do mundo – e de todo o preconceito que gira por trás dessas relações) e mostra, nesses relacionamentos desses poucos personagens, que todos estamos de certo modo conectados. (mas que a percepção dessa conexão é tão rara quanto seria nevar naquela cidade) Que normalmente sentimos essa ligação somente naquilo que reconhecemos, mas dificilmente reconhecemos quando não percebemos essas ligações.

Com uma trilha sonora encantadora e um elenco talentosíssimo, Crash é um filme que nos faz parar e pensar, uma lição de vida que nos surpreende.

Por: Eliude A. Santos  Blog: Ode ao Ego.

Crash – No Limite (Crash). 2004. EUA. Direção e Roteiro: Paul Haggis. Elenco: Don Cheadle, Jennifer Esposito, Alexis Rhee, Shaun Toub, Marina Sirtis, Ludacris, Larenz Tate, Sandra Bullock, Brendan Fraser, Art Chudabala, Matt Dillon, Loretta Devine, Michael Peña, Ryan Phillippe, Terrence Howard, Thandie Newton, Ashlyn Sanchez, Beverly Todd, William Fichtner. Gênero: Crime, Drama. Duração: 113 minutos.