Aviso: O texto a seguir contém spoilers. Se ainda não viu esse filme, e queira não perder as surpresas, já que se trata de um thriller, seria melhor deixar para ler após assistir.
CRUELDADE E HIPOCRISIA: UMA VISÃO ANALÍTICA SOBRE “DOGVILLE”.
“Dogville” é mais do que uma fábula anti-americana. Ao criticar a hipocrisia típica do povo norte-americano, o diretor dinamarquês Lars von Trier desmascara a crueldade existente em todo e qualquer ser humano. Se em “Dançando no Escuro”, seu filme anterior, von Trier se vale dos conceitos freudianos de princípio de prazer e princípio de realidade para mostrar uma vida real insuportável para sua protagonista – e que é engolida por esta realidade –, “Dogville” é ainda mais massacrante. Seus únicos elementos que remetem à fantasia são os ruídos de portas inexistentes se abrindo, um cão que late mas que não está lá. A secura minimalista do cenário é ainda maior do que em muitas montagens teatrais, o que nos aproxima ainda mais de uma estranha impressão: isto não é entretenimento. Parece muito uma sessão de terapia em grupo – sinto que o cinema se presta muito bem a isto, cada vez mais –, onde vemos nossas próprias mazelas estampadas na tela.
A protagonista, Grace, surge como vítima, assim como a Selma de “Dançando no Escuro”. O nome da personagem, “Graça”, pode soar com um tom católico, mas não tenho a menor noção das convicções religiosas do diretor. O fato é que, depois de todo o tipo de humilhação a que é submetida ao longo da fita, Grace torna-se tão cruel quanto seus algozes. Não poupa nenhum ser humano, nem mesmo uma criança, uma vez que é uma criança que deflagra toda a crueldade dos habitantes. Violência gera violência; isto é e sempre será natural no ser humano. Isto é que torna Grace mais humana e retira a cruz (= coleira ?) de mártir religiosa que carregou durante toda a projeção do filme.
Enquanto hipócrita, o maior personagem da fita parece ser Tom. Sua psicologia remete ao sujeito que utiliza a intelectualidade para fugir de suas emoções, desconhecendo a si mesmo (vocês conhecem alguém assim?). Sutilmente, ele vai manipulando as reações dos habitantes da cidadezinha a seu bel prazer, sempre com a máscara da ética e da virtude. Quando Grace faz Tom enxergar a si mesmo, ele decide quebrar o espelho. Não quer ver desmoronar a persona que construiu para si, e revolta-se contra Grace. Esta última ação acende o pavio da cólera da protagonista, que decide destruir Tom pessoalmente.
Ao final, é singular a idéia de Grace em poupar a vida do cão. O animal é o único ser que não renega seus instintos, e torna-se ameaçador apenas quando ameaçado. “Ele rosnou para mim quando quis roubar seu osso”, ela diz. A violência animal difere completamente da violência humana; ele torna-se agressivo quando tem sua sobrevivência ameaçada, e nós, muitas vezes, por fraqueza, vaidade e capricho descabidos.
Fica em mim uma impressão: por vezes, a civilização é civilizada demais.
Por: Eduardo S. de Carvalho. Contato: edupsi2001@gmail.com
DOGVILLE. 2003. Dinamarca. Direção e Roteiro: Lars Von Trier. Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Ben Gazzara, Phillip Baker Hall, John Hurt (Narrador – voz). Gênero: Drama, Thriller. Duração: 177 minutos.

Edu!
Grata pelos pelos presentes que trouxe para nós!
Esse é o primeiro deles. Irei trazendo os demais intercalando com uns Nacionais que um dos convidados, o COBRA, tão gentilmente cedeu, como também de um outro amigo, além de um meu. Mas todos seus belos textos virão.
Beijo grande,
Adorei este filme!!! A estética e a história são maravilhosas.
Me deu vontade de ver de novo. E ainda não assisti a “segunda parte” desta trilogia do diretor: Manderlay.