Por: Giovanni COBRA.
Existe uma ou mais maneiras de ascensão social para o pobre além do casamento, a herança ou o esporte? A figura masculina paterna é tão vital que na sua ausência os limites estão abertos? A mulher trabalhadora não tem o direito de ter sua vida particular, íntima, suas necessidades e vontades? Filmar fatos reais não intervém com a visão cor de rosa da sociedade?
São Paulo – periferia é o cenário. Antenas, asfalto, mãos. Umas gritam pelo time e outras por Deus. Futebol e religião se discutem.
Walter Salles nos apresenta Cleuza, uma dona de casa exemplar, mãe de quatro filhos, trabalhadeira e grávida do quinto. Não tem companheiro algum. Fuma, toma cervejinha, torce pelo Timão e ama os filhos. Ela é absolutamente normal. Igual a milhares no ponto de ônibus pela manhã bem cedo.
O primeiro filho é craque, mas não consegue passar nas “peneiras”, falta um toque. Seja dinheiro ou sorte; ou ambos. O segundo é frentista e religioso. Um devoto fiel. Mas bate punheta como todo mundo e dá porrada se necessário for. O terceiro é motoboy. Já é pai. Irá ele perpetuar o abandono que sofreu? Utilizando da mãe do seu filho apenas para coitos rápidos e perigosos como sua moto? O quarto é um menino. É negro, os outros não. É o mais esperto, bem articulado, mas sente o falta do pai como uma lacuna idêntica ao compressor dos ônibus que tanto ama. Tem um buraco no coração.
O filme é uma colcha de retalhos bem alinhavada. Cada momento é de um filho. E a câmera aproveita para mostrar a cara desses atores. Suada, cheia de espinhas, cabeludos, desarrumados, despenteados, dentes falhos. Além do vestuário gasto, lembre bem da chuteira (tanto como ele amarra, como quando ele ganha uma e ainda pergunta se a mãe do riquinho não vai ligar…).
A marginalidade é um pequeno passo para todos os quatro. Ela circunda-os.
Talvez o motoboy seja o mais exposto. E ele sucumbe. Cenas de moto espetaculares e o tombo idem. Quem já caiu, sabe. Os fatos vão se superpondo de maneira mais rápida, e até iminência do parto. Tenho a vívida impressão de que não iria acabar bem. Mas o diretor é muito hábil. Deixa tudo em aberto, as possibilidade, a segunda chance.
O que há de bom: utilizar o futebol como uma das âncoras da narrativa, mas sem ser demasiadamente forçado. O que há de ruim: ninguém estuda, ninguém vê o conhecimento como possibilidade de crescimento. O que prestar atenção: o ralo desentope, o menino tem sua oportunidade, o pastor recolhe a ovelha perdida, o neném vai nascer, há uma esperança… A cena do filme: ela sentada, espremendo, sozinha… quantas já não se sentiram assim?E o final é como o grito da torcida. Antes de tudo, um desabafo.
Cotação: filme ótimo (@@@@)
Por: Giovanni Cobretti – COBRA. Blog do C.O.B.R.A.
Linha de Passe. 2008. Brasil. Direção: Walter Salles, Daniela Thomas. Elenco: João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaique de Jesus Santos, Sandra Corveloni, Ana Carolina Dias. Gênero: Drama. Duração: 108 minutos.