SACRIFÍCIO E REDENÇÃO EM “A PAIXÃO DE CRISTO”.
Quando “A Paixão de Cristo” estreou nos EUA, ouvimos muito sobre o grau de violência da fita. No maior país católico do mundo, isso seria uma propaganda negativa. Ao estrear o filme em terras brasileiras, instaurou-se a mesma polêmica, levando porém milhares de pessoas às salas de cinema e perguntando-se: por quê tanta violência no filme?
O catolicismo exacerbado de Mel Gibson levou-o a uma visão muito particular sobre a questão do sacrifício enquanto caminho para a redenção. Em seu filme “Coração Valente”, o protagonista William Wallace, também vivido por Gibson, sofre uma violência similar, digna de Jesus. Wallace chega a ser esticado pelos braços por cordas, adotando a posição de um crucificado. Não é de estranhar, portanto, que Gibson tenha filmado as últimas horas de Jesus com tal intensidade. Sua obra anterior dava as pistas deste projeto.
Passada a polêmica inicial, podemos pensar em tudo o que causou-a. Por menos religiosa que uma pessoa diga ser, a formação moral na maioria das famílias brasileiras passa pela educação cristã, seja católica ou protestante, em suas várias ramificações. A figura de Jesus está impregnada no imaginário coletivo. Por isso, discutiu-se muito sobre religião e muito pouco sobre as qualidades do filme em si. Ouviu-se muitas vezes a frase “Não vi e não gostei”. Um terapeuta ligado a cinema chegou a dizê-la, o que mostra a força de valores religiosos em um profissional que deveria, no mínimo, ter uma visão mais abrangente e imparcial sobre o tema.
O que nos leva a tal identificação extrema, seja ela positiva – “Vou conferir se a violência é tão grande assim” – ou negativa – a já citada “Não vi e não gostei”? Uma certa fixação pela crucificação aponta para um recalcado sentimento masoquista, onde o sofrimento alheio exerce um atrativo a quem assiste. Pouco falou-se em relação à sutil e belíssima cena final do filme, quando da ressurreição de Jesus; a celeuma girou toda em torno da violência e da morte do Cristo.
O conceito freudiano de pulsão de morte, representada aqui pela crença neste sacrifício que salva e redime, instaura-se, assim, na origem da formação de nosso psiquismo durante a apreensão dos primeiros valores morais e religiosos. Um ponto a ser discutido e revisto na educação infantil, cujas conseqüências não podemos medir.
Por: Eduardo S. de Carvalho.
A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ). 2004. EUA. Direção e Roteiro: Mel Gibson. Elenco: James Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Bellucci, Hristo Jivkov, Hristo Shopov, Rosalinda Celentano. Gênero: Drama. Duração: 126 minutos.
