Um Golpe do Destino (The Doctor. 1991)

The Doctor é um filme que fala sobre pessoas e médicos. Sim, estou traçando uma linha imaginária entre os Médicos e as Pessoas. Não é um tipo de arrogância ou de desprezo – mas sim uma simples constatação que todos nós reagimos de maneira diferente quando estamos diante de um homem ou mulher que pode simplesmente nos dizer “você não tem mais que cinco minutos de vida”.

Neste filme, William Hurt interpreta o médico/paciente Dr. Jack que sofre de um mal: câncer nas cordas vocais. Você tem contato com um profissional admirado que se ocupa quase que unicamente de seu trabalho, tanto que sua família é “alocada” no filme – pois em uma das muitas cenas interessantes, você chega a acreditar que a esposa do Dr. Jack é apenas uma paquera “acidental” de percurso. O curioso é que o médico tem um filho com o qual tem um contato limitado: ambos parecem já não saber mais o que dizer um ao outro.

Jack é um médico solitário, egoísta e totalmente indiferente aos seus pacientes, os quais são apenas números em um papel com leitos de hospital. A doença com tudo o leva de encontro a si mesmo: na condição de paciente, ele quer ser tratado com relevante diferença, pois não se posiciona enquanto paciente e sim enquanto médico. O caso é que o médico Jack descobre como é ser apenas um número em um papel com leito num hospital onde ele trabalha há mais de dez anos.

um-golpe-do-destino-02

O filme mostra uma transformação interessante: Jack se humaniza devido a sua doença porque consegue um olhar sobre si mesmo, seja através da demora de um exame ou da espera por uma resposta sobre o andamento de seu tratamento ou ainda da indiferença por parte da médica que o atende. E há ainda a jovem com um tumor no cérebro (Elizabeth Perkins) que se torna amiga de Jack – uma jovem que enfrenta seu destino com calma e tranqüilidade, mesmo estando diante do inevitável: sua morte. E mesmo sua morte sendo conseqüência da burocracia que rege o universo hospitalar, ela é dócil, amável e trata as pessoas com aprazível amorosidade, diferentemente de Jack. A presença da personagem é fundamental para mostrar ao médico que ele pode ser mais que um homem solitário e egoísta, permitindo que as pessoas estejam próximas a ele ou pelo menos percebendo que aqueles seres que habitam a sua volta: sejam estes seus pacientes, sua esposa ou seu filho – são pessoas com suas dores, angústias, temeridades, esperanças…

A cena do filme que mais me impressiona é o momento em que ele dança com June no deserto ao som da música Strange Angels – ao final, ele está ofegante e acho que pasmo diante de si mesmo. Afinal, ele finalmente se dá conta, que precisou estar doente para se permitir viver. A seguir, ele se lembra de ligar para esposa, alguém que ele manteve distante demais e que já não sabe mais como se aproximar dela. Ela sabe de tudo que acontece em sua vida através da secretária do Dr. Jack e quando ele descobre que o tratamento não está funcionando não é ela quem ele busca.

A constatação definitiva de uma perda, mas como se perde algo que não temos?

Por: Lunna Montez’zinny Guedes.    Blog: Menina no Sotão.

Um Golpe do Destino (The Doctor). 1991. EUA. Direção: Randa Haines. Elenco: William Hurt, Christine Lahti, Elizabeth Perkins, Mandy Patinkin, Adam Arkin, Wendy Crewson. Gênero: Drama. Duração: 122 minutos. Baseado na história real do Dr. Edward Rosenbaum que escreveu um livro autobiográfico de sua experiência entitulado “A Taste of My Own Medicine: When the Doctor Becomes the Patient”.

About these ads

28 comentários em “Um Golpe do Destino (The Doctor. 1991)

  1. Pingback: São Paulo - Metrópole « Acqua

  2. Oi Lella!
    Tenho tentado deixar comentário, em outros dias, sem sucesso. Espero que este “cole” no teu blog ;)
    Lembro deste filme como se fosse ontem e faz tanto tempo que vi. Sensacional. Deu vontade de rever!
    Boa semana!
    beijos

  3. Isso é uma boa lição de vida, os médicos no seu pedestal olham os pacientes com tanta distância que sempre me perguntei se não seria uma defesa por estarem habituados a perdê-los. Passando do outro lado talvez se humanizem um pouco. Muito bem feita tua crítica, Lunna, e gosto muito de William Hurt.
    Beijos.

  4. Oi Lunna!

    Eu, na correria dos últimos dias, acessando a net bem rapidamente, nem agradeci pela gentileza em compartilhar seu belíssimo texto! Grata!

    —————————-

    Oi Su!

    Grata pela visita! Volte sempre!

    ——————————-

    Oi Isa!

    Eu nem faço idéia do que pode ter ocorrido. Até porque uma outra pessoa também comentou sobre uma dificuldade em deixar comentário. Vou dar uma olhada lá dentro se a atualização automática do Wordpres modificou algo.

    E grata por ter insistido e assim deixado seu comentário :) eles sao sempre bem-vindos!

    Mais tarde, retribuo a visita!

    ————————

    Oi Maria Augusta!

    Seja Bem-vinda!

    —————-

    Beijo grande em Todas!

  5. Eu simplismente adorei este filme,assiste ele na sala de aula
    e depois fizemos um trabalho sobre ele…
    ficamos emocionados.
    gosto muito de filmes assim deste tipo.

    bjos

  6. eu adorei esse filme…
    faço enfermagem e a minha professora passou na aula…
    no começo naum gostei mais no decorrer do filme gostei muito. e vcs que ainda naum viram,podem ver que iram gostar…

  7. Assisti esse filme quando fiz enfermagem…depois de assisti-lo sempre comentei com os médicos com quem trabalhei, pois também sou assistente social, que esse filme deveria ser passado no centro médico de todas as cidades, para que esses profissionais que se julgam seres superiores, aprendessem a dar valor a vida de qualquer ser humano, respeitando-os sem preconceitos de cor, etnia ou preferência sexual…somos todos iguais e dignos de respeito !!!

  8. Assisti esse filme hoje . Foi emocionante !!!
    Estou no 1º semestre de medicina e a faculdade resolveu nos apresentar o filme . Quem não assistiu , assista ! vale a pena .

  9. Pingback: Um golpe do destino (The Doctor) « L.u.N.n.A.t.I.c.O.s

  10. estou fazendo trabalho sobre esse assunto e achei esse filme fundamental para meu trablho,asissti o filme e amei…infelismente a rrealidade é essa !
    Bjs

  11. fico triste em saber que existe esse tipo deprofissional da saude ,pois quando eu era criança acreditava que ele era imortal que não passaria pela morte por salvar e cuidar de vidas.Estou chocada!

  12. David Rodrigues:guarulhos
    estou fazendo o curso de auxiliar:irei assistir hoje o filme,mas só através dos coméntarios,parece que já assistir…..um forte abraço a todos…e que deus nos abençoe……

  13. Querida Luna,
    Adorei seu artigo, e por isso tomei emprestado para postar em meu blog/site. Sou psicóloga e faço um trabalho de reunir filmes que tenham alguma indicação psicológica. Nos posts eu reúno sinopse e exploro o olhar psi do filme em questão. Para isso, sempre faço uma vasta pesquisa, visto que a ideia do site é ser uma referência para quem procura o filme pelo tema de seu interesse e encontre neste uma ferramenta para o bem estar. Ah, no final do trecho que retirei do seu artigo foi colocado um link para seu site.
    Obrigada, abs

  14. Enquanto estudante de medicina me sinto no dever de propagar essa mensagem preciosa:
    A história de um cirurgião insensível com os pacientes e desumanizado que só se importa em fazer a sua função técnica da melhor forma (visando o sucesso profissional) em detrimento a sua vida social, desvalorizando a família e magoando a todos que se aproximam dele com arrogância e prepotência, mas o destino lhe surpreende com um câncer e lhe obriga a repensar suas atitudes como médico, pai, marido e obviamente como ser humano, e a partir dessa inversão de papéis: o médico se tornando paciente; ele percebeu, estando do outro lado, o quanto desconfortável pode ser a indiferença do médico com os sentimentos do paciente na hora de um diagnóstico ou no enfrentamento da doença por exemplo – ele não vai à procura de assistência médica apenas pela cura ele precisa de um direcionamento para a compreensão do que está acontecendo com seu organismo, as opções de tratamento e assim melhor lidar com os conflitos psicológicos envolvidos ao assistido e seu contexto de vida.
    Enfim, recomendo a todo profissional de saúde, pois nos incita a uma reflexão importantíssima sobre a importância da prática humanística.

Seu comentário é importante para nós! Participe! Ele nos inspiram, também!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s