Freud, Klein e os Vampiros

Por: Eduardo S. de Carvalho.
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Você já reparou como as pessoas se identificam com personagens de filmes de terror? Normalmente, espera-se que o espectador vibre com as peripécias do herói, mas essa é uma visão superficial do tema. Os vilões, em geral, aparecem como mais fascinantes. E esse fascínio inexplicado vem de longa data. Ainda antes de Freddy Krueger e Jason, uma figura legendária vinda da literatura do século XIX foi quase unanimidade nas primeiras produções de terror do início da história do cinema.

O sanguinário Conde Vlad Drácula foi um personagem real, conhecido como grande nacionalista e implacável com seus inimigos. Conhecido como “O Empalador”, Drácula teve sua figura livremente modificada por Bram Stoker em sua novela, e ganhou uma interessante introdução na produção de Francis Ford Coppola.

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A estória é conhecida: o nobre que luta pelo cristianismo em suas terras, e ao retornar da guerra, encontra sua esposa morta. Ela teria se matado, ao ser falsamente avisada da morte do marido na batalha contra os infiéis. Revoltado contra Deus, por quem havia lutado, o conde volta-se para Satã e torna-se um vampiro imortal, dono de presas que lhe permitem alimentar-se das vítimas, ao sugar-lhes o sangue do pescoço. Obcecado pela mulher perdida para os domínios de Deus, Drácula é dono de grande poder de persuasão e sedução, que utiliza para procurar a amada reencarnada pelos séculos afora.

Esse preâmbulo da estória por Coppola é o foco de nossa atenção, que acredito ser útil no entendimento desse fenômeno. A aura de mistério que cerca o vampiro gera até hoje grupos de admiradores. Há vários elementos que provocam tal identificação, e que justificam um aprofundamento no tema.

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A princípio, um personagem quase mítico é depositário de muitos desejos inconscientes. O que Freud diria sobre a estória do vampiro? Sem dúvida, a face sedutora de Drácula atrai tanto o homem que gostaria de possuir esse talento, quanto a mulher que sente-se desejada por essa figura. Essa busca pelo gozo imaginário esconde o lado trágico de Drácula, condenado à eternidade sem seu objeto de desejo.

O que vemos aqui, acredito, é uma antecipação pela literatura do triângulo edípiano proposto por Freud em sua teoria sobre o desenvolvimento da sexualidade. Drácula, sua esposa e Deus são os vértices desse Édipo estrutural. No caso, a mulher “morta”, objeto de amor de Drácula, perdida para sempre, e que ele busca de maneira obsessiva em outras relações, é a mãe da criança; a figura masculina de autoridade, que ele respeitava e admirava como divina, é o pai.

Assim, o vampiro é a metáfora aterradora da criança que não aceita a perda da mulher amada para o pai-rival, e torna-se fixada (“imortal”, na visão de Bram Stoker) em seu desenvolvimento libidinal nesse início de formação do sujeito desejante. Tal fixação no complexo edipiano acarretará demais falhas no desenvolvimento e nos processos psíquicos ligados às relações objetais.

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Porém, a visão freudiana não explica a escolha de Stoker pelos caninos de Drácula. O próprio Freud admitia a intuição dos escritores, ao anteciparem o que ele foi descobrindo ao longo de seu trabalho clínico e da elaboração teórica. Portanto, temos que recorrer a um complemento, se aceitarmos as idéias contidas no romance.

Freud situava a elaboração do complexo edipiano na criança por volta dos 5 a 6 anos. Nessa idade, a criança já teria passado pelo prazer essencialmente oral, e teria outros focos libidinais. É aqui que entra Melanie Klein: tendo trabalhado durante anos com crianças – coisa que Freud jamais fez – , ela percebeu traços do Édipo já aos 6 meses de idade. Nessa fase, o bebê descobre o prazer ao sugar o seio da mãe. Ao longo de seu trabalho, Klein identificou também uma enorme gama de fantasias violentas e sanguinárias na psique infantil precoces, e mesmo que a criança ainda não tenha dentes, tem a fantasia sádica de morder e destruir o seio. O ponto é que o bebê ainda não identifica o seio à mulher por trás dele, e ao descobrir que os dois objetos são um só, a sua mãe, surge um sentimento de culpa que ele procurará aliviar através de processos de reparação.

É provável que tal fantasia seja “realizada” com o surgimento dos primeiros dentes ainda na fase de amamentação. Não havendo um crescimento psíquico natural e o sujeito permanecer fixado em tal situação erótica, estará criado o vampiro na psique do bebê e que poderá perdurar em tal estado.

transilvania

Unindo essas duas teorias libidinais que se complementam, é possível uma (re)constituição da gênese de tal fascínio pela figura aterradora do vampiro. E entender o porquê de tanta atração pelas presas de Drácula, Nosferatu e tantos outros, em nossos próximos retornos à sala escura do cinema.

Por: Eduardo S. de Carvalho.

9 comentários em “Freud, Klein e os Vampiros

  1. Nossa, rs … só tem filme assombrado aqui, rsss .. Morro de medo …. verdade!! Não vejo nem que me paguem.

    E vc moça, tudo bem? Andei afastada mas tou voltando aos pouquinhos … E vc, como foi o blog no Best Blogs, já saiu o resultado??

    Saudades e beijos de feliz ano novo!! :-)

  2. Já coloquei seu blog nos meus favoritos para meus leitores também lerem seu blog.
    Quanto a proposta, pode ser, mas eu só escrevo dos filmes que estão em cartaz no cinema.
    Podemos combinar sim.
    Grato pela visita.

    Quanto ao Drácula, esse é o mais completo de todos. Porém antigão.

  3. O que Freud diria sobre Drácula? – Eduardo pergunta.
    Como responder por ele? rs Ele mesmo responde rs.

    Bom, uma obra de arte tem sempre N interpretações e possibilidades de tais. Eduardo apresenta uma possível e assertiva análise, mas ressalto que pode ser que não pare por aí.

    Gostei de sua análise, Edu. O âmago da questão, ou melhor, do seio, foi bem explorado por ti, como não poderia ser diferente.

    Em termos literários, Drácula de Bram Stoker é um romance, ou seja, o romantismo entre Dracul e Mina é apenas história, pois Dracula é extremamente “sem coração” rs ;)

    beijão.

  4. Oi Sarah!!

    Ainda está sendo. Ainda tem tempo de votar :)
    A votação termina no dia 15.

    Eu não gosto de Terror do tipo 6ª feira 13.

    Esperando por um texto seu :)

    Beijão,

  5. Edu e Oly,

    eu acho que nunca parei para pensar do porque gosto desse tipo de filme, e desde criança. Com filmes com Christopher Lee, Boris Karloff e Vincent Price. Mas os que passavam na tv. Dai, acho que eram mais Thriller.

    Um que eu adoro é “A Dança dos Vampiros”. Dá até vontade de revê-lo para trazer para o blog ;)

    Beijão,

  6. Desculpa, mas não em convenceu. Eu sinceramente tentei analisar pelo seu ponto de vista, mas não deu. Achei muito bacana você citar Freud relacionando com Drácula, mas acho que se trata mais de uma questão de repreensão paterna do que edipiana. Detalhe: isso ocorre apenas no filme, no livro a mulher não tem relação com nada que originou o monstro.

    A questão é que Drácula acusa o pai, no caso Deus, de o privar da alegria amorosa imposta pela natureza. O filho (Drácula) em contrapartida decide se reinventar como criador, dessa vez ele arranca pessoas do mundo comum a fim de trazê-las para o seu próprio (formado de escuridão, ao contrário do de Deus). Essas pessoas são aquelas que Deus ama, ou seja, o filho procura ferir o pai da mesma forma como esse o fez ao arrancar sua amada para seu reino (é claro que tudo foi um engano e Deus era inocente, seria demais para o público se ela não morresse por suicídio já que o filme inteiro se tornaria uma heresia contra o criador, dado como tirano por levar a jovem para longe do amado do ponto de vista de Drácula).
    Essa questão familiar pode ser analisada também na origem histórica dos vampiros, ouvi falar que numa das versões existentes da Bíblia, existia uma mulher (Lilith), que mais tarde se rebelou contra Deus e passou a levar pessoas ao inferno, Caim nessa versão vagava pelo mundo como um vampiro. Mas é óbvio que isso foi algo bem diferente do mostrado no filme, que pode ter se inspirado nisso também.

  7. Desculpa, mas não me convenceu. Eu sinceramente tentei analisar pelo seu ponto de vista, mas não deu. Achei muito bacana você citar Freud relacionando com Drácula, mas acho que se trata mais de uma questão de repreensão paterna do que edipiana. Detalhe: isso ocorre apenas no filme, no livro a mulher não tem relação com nada que originou o monstro.

    A questão é que Drácula acusa o pai, no caso Deus, de o privar da alegria amorosa imposta pela natureza. O filho (Drácula) em contrapartida decide se reinventar como criador, dessa vez ele arranca pessoas do mundo comum a fim de trazê-las para o seu próprio (formado de escuridão, ao contrário do de Deus). Essas pessoas são aquelas que Deus ama, ou seja, o filho procura ferir o pai da mesma forma como esse o fez ao arrancar sua amada para seu reino (é claro que tudo foi um engano e Deus era inocente, seria demais para o público se ela não morresse por suicídio já que o filme inteiro se tornaria uma heresia contra o criador, dado como tirano por levar a jovem para longe do amado do ponto de vista de Drácula).
    Essa questão familiar pode ser analisada também na origem histórica dos vampiros, ouvi falar que numa das versões existentes da Bíblia, existia uma mulher (Lilith), que mais tarde se rebelou contra Deus e passou a levar pessoas ao inferno, Caim nessa versão vagava pelo mundo como um vampiro. Mas é óbvio que isso foi algo bem diferente do mostrado no filme, que pode ter se inspirado nisso também.

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