Psicopata Americano (American Psycho. 2000)

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Aviso: Caso ainda não tenha assistido ao filme, o texto a seguir contém vários spoilers.

Esse filme é de 2000 e é ambientado na década de 1980. Um típico yuppie (Christian Bale) toma atitudes insanas sempre que sente-se ameaçado por amigos que, como ele, são obcecados por sucesso e glamour. O filme de Mary Harron é um retrato irônico da década de 80. Assisti quando foi lançado e achei uma droga. Assisti novamente recentemente (início de 2007) e agora o considero um clássico! Indico a todos.

Acredito que a intenção do filme não é mostrar a impunidade e nem uma crítica ao estilo de vida yuppie (por mais que dê umas cutucadas), mas mostrar a loucura do personagem. Também não acho que ele tenha a pretensão de mostrar que a vida atual transforma as pessoas em psicopatas (não que não as transforme), porque a história da humanidade mostra que psicopatas existem desde que existe o ser humano, é uma doença inerente a ele, independente de credo, cor, raça, poder aquisitivo, escolha sexual, etc…

O filme vai mostrando um crescente na doença mental de Bateman. Desde o nome do filme, Psicopata Americano. Psicopatia se refere à doença mental que Bateman tem.

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Doença mental.

O filme inicia com Bateman falando sobre isso quando narra sobre si mesmo, principalmente na parte onde ele diz que não existe um ‘eu’, apenas uma instituição humana que ele mantém através de gel, da boa alimentação, dos cartões de apresentação e de seus exercícios. Ele diz também não ter sentimentos nem apegos emocionais. A sua vida é uma farsa que ele precisa sustentar e seu mundo um teatro – o que é caracterizado no filme pela exaltação dos inúmeros pratos e suas descrições, da luta pela sustentação de Status.

A partir do momento que ele retira a máscara facial quase tudo passa a ser delírio. Claro que os almoços, as idas e vindas ao escritório, as reuniões com amigos e colegas da empresa, tudo isso aconteceu. O que era delírio era o que passava em sua mente referente ao o que ele gostaria de ter feito com aquelas pessoas: matá-los a todos!

Logo em seguida há a cena da boate, onde ele diz sorrindo para a atendente que gostaria de matá-la. Ela não escuta. Pode ser porque o som estava muito alto, mas prefiro acreditar que ela não escutou porque ele disse somente em seus pensamentos.

No escritório, outra farsa, ele era uma espécie de cabide de emprego, ‘apadrinhado’. A empresa é de sua família – tanto que ele não trabalha, não faz nada o tempo todo. Apenas escuta seu walkman.

A certa altura ele diz que ‘precisa se enquadrar’ naquela vida onde ele foi colocado. Acho muito legal essa observação. Digamos assim (estou viajando agora): ele tinha um dom para classificar, detalhar e analisar músicas. Se ele não ‘precisasse se enquadrar naquele sistema tido como ideal’, talvez ele não fosse o psicopata que era, e talvez fosse um ótimo critico musical, por exemplo. O desejo do outro, possivelmente de seu círculo familiar/social, era maior que o desejo dele, e essa raiva toda por essa impossibilidade de fazer o que queria era dada vazão em seus delírios. Tanto que todos os assassinatos eram acompanhados de análises dos cds que ele escutava durante o ritual, quando ele demonstrava um imenso prazer ao fazer essas análises – prazer esse que logo era trocado por uma raiva incrível enquanto ele matava ‘aquilo’ que representava o mundo ao qual ele estava preso.

O filme mostra o lado negro da mente de uma pessoa aparentemente normal, um lado que todos nós temos – o que difere é a intensidade… Até diria que a ‘vida em sociedade’ só é possível por conta da ‘domesticação’ desse lado negro que nos habita, porque, afinal, queiram ou não, todos já tivemos um desejo de trucidar alguém. No mundo que ele freqüentava, em no mundo em geral, oras!, uns matam os outros de forma metafórica – apesar de que naquele mundo a presença maior (tecnicamente falando) é de neuróticos obsessivos, e não psicóticos – ele, Bateman, não faz aquele mundo girar, não é exemplo de profissional, ele é, na verdade, incompetente – duas pessoas disseram isso no filme.

Cenas que comprovam ser delírios os assassinatos:

-> Ele arrasta um corpo por um saguão deixando marcas de sangue, mas, logo em seguida, essas marcas desaparecem.

-> Ele explode dois carros da polícia com tiros, olha para a arma e bate na cabeça – impossível explodir dois carros daquela forma, a não ser em filmes do Charle Bronson. Impossível em um filme que se supõe sério (como esse) que um ‘amador’ mate todos os guardas, mais experientes e capacitados, e saia ileso. Além de que ninguém escutou os tiros nem as explosões – como é o caso do porteiro e do zelador do edifício que ele entra logo em seguida.

-> Atira no porteiro e o zelador de um prédio que acredita não ser o dele – mas as pessoas o conhecem e há câmaras filmando.

-> Estava com os amigos, segundo o detetive Donald Kimbal na noite do sumiço de Paul Allen (apesar de que acho que até o detetive possa ser fruto de sua imaginação).

-> O apartamento é reformado de um dia para outro.

-> O advogado no final nem quis papo com ele (possivelmente nem o conhecia) e havia almoçado com o Paul alguns dias antes. (esse advogado é um dos que se referem ao Bateman como incompetente).

-> Todos os crimes estavam desenhados no caderno que a secretária encontra na mesa de Bateman. Não porque ele desenhava antes, mas porque, enquanto ele desenhava, os crimes criavam forma em seus pensamentos.

-> O fato de haver uma continuação que afirma que as atrocidades foram reais não quer dizer nada, porque essa continuação era apenas para Hollywood faturar mais, utilizando o sucesso do primeiro filme, tanto que o filme é um lixo, não é do mesmo escritor, nem roteiristas, e nem conta com o mesmo elenco.

Observações:

Sobre o cartão de visitas, todos olham o de todos, mas o único que fica realmente fisgado e incomodado com isso é Bateman. Os outros olham, tecem um ou dois comentários, demonstram até admiração, mas logo retornam aos encostos de suas cadeiras. Somente Bateman sua frio e realmente sofre com isso. O diretor queria mostrar como essas particularidades influenciavam Bateman.

Sobre o restaurante Dorsia, é impossível que nenhum deles nunca conseguisse reservas para o restaurante, que fizessem a reserva para dali um ano, se fosse o caso, então esse “tal dia” um dia chegaria. Mas essa dificuldade fora colocada no filme apenas como gancho para representar algo inacessível, símbolo máximo de status, e para dar motivo à raiva de Bateman contra Paul Allen. Batman, por sinal, havia por várias vezes tentado fazer uma reserva e não conseguira (em uma ocasião, o atendente inclusive riu da cara dele), e até a secretária humilde já tinha ouvido falar. Novamente o diretor quer mostrar o quanto as frivolidades atingiam Bateman, tanto que os outros ficaram com inveja, uns até o desacreditaram, mas logo retornaram às suas vidas fúteis. Apenas Batemam não conseguiu lidar nem conviver com isso.

Impressões:

A mulher do apartamento não percebe que Bateman é Bateman, ela sequer o conhece, senão o teria chamado pelo nome. Ela fica com raiva de um sujeito entrar daquela forma no apartamento, ainda mais em New York, cidade de pessoas arrogantes, além de que ele podia ser um assaltante, ou qualquer outra coisa – ela pergunta se ele viu a informação da venda na Times para pescá-lo, percebe que ele está mentindo. Se ela o conhecesse, não faria esse tipo de joguinho, ela poderia comentar: ‘você por aqui?’, ou ‘como você tem a cara de pau de vir aqui?’. Além de que seria impossível querer ‘esconder’ os assassinatos. E, se ela soubesse que ele era o assassino, pelo estilo dela, e pelo estilo dos americanos, eternos paranóicos, ela ligaria logo em seguida para a polícia.

Acho que as cenas condizem com a realidade de Bateman, e a realidade dele são os seus delírios – todos os crimes aconteceram em seus desejos, representados por seus desenhos…

Sobre a prostituta que não queria entrar no carro. Ele realmente a espancou. Até ai ele podia ir – espancamento. Matar estava além de seus atos, reservado somente aos seus pensamentos. Mas ela precisava do dinheiro e entrou novamente no carro.

Bateman não extraia prazer do sexo. Ele extraia prazer em ‘se ver’ fazendo sexo. O gozo estava em se ver no espelho ou revendo o filme que fazia – extremamente narcisista. E, por ser narcisista, a intenção era matar tudo aquilo que criasse problemas ao ‘seu mundo’ narcíseo; tanto que ele matou (fantasiosamente) o advogado somente porque ele tinha um cartão de apresentação melhor que o dele e, principalmente, porque conseguia (e se exibia por isso) reserva no Dorsia – o símbolo da inacessibilidade.

Por: Junior Oliveira.  Blog: Jr. Oliveira.

Psicopata Americano (American Psycho). 2000. EUA. Direção: Mary Harron. Elenco: Christian Bale (Patrick Bateman), Willem Dafoe (Donald Kimball), Jared Leto (Paul Owen), Reese Whisterpoon (Evelyn Williams), Samantha Mathis (Courtney Rawlinson), Chloë Sevigny (Jean), Justin Theroux (Timothy Bryce), Josh Lucas (Craig McDermott), Guinevere Turner (Elizabeth), Matt Ross (Luis Carruthers). Gênero: Crime, Terror, Thriller. Duração: 104 minutos.