Watchmen – O Filme

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Alan Moore, definitivamente, é um gênio da cultura pop dos ultimos tempos. Enigmaticamente, ele foi premiado com uma imaginação fantástica, detalhista e peculiar. Suas obras foram revolucionárias em seu campo de atuação principal, sendo que, assim como o Rei Midas, tudo o que ele toca vira ouro.

O Sr. Moore, figura excêntrica, fez história ao criar enredos complexos e inaugurar um novo genêro literário: o quadrinho adulto. Ele simplesmente inseriu o até então chamado gibi para um novo patamar, tornando quadrinhos em algo para pessoas cultas e com um vislumbre de arte a mais do que o convencional.

Foi assim com Do Inferno, A Fantástica Liga Extraordinária, V de Vingança e sua mais célebre obra: Watchmen, que segundo a revista Time está entre os 100 livros mais influentes na lingua inglesa. Todos sabem que Alan Moore têm sérios problemas com a indústria cinematográfica, nunca se envolve nas produções e recentemente pediu para seu nome ser excluído das duas ultimas adaptações de seus livros.

Deveras, afinal no V de Vingança ainda que tenha ficado muito bom, teve sua história reescrita com centenas de pontos alterados, não mantendo a fidelidade do ator. No caso de Watchmen a trama principal foi mantida a risca, inclusive os diálogos são exatamente os mesmos, porém as entrelinhas não aparecem no cinema, assim como as tramas paralelas que dão um frisson e uma dose extra de entretenimento e cultura para aqueles que leram a obra original.

Mas isto significa que Watchmen – The Movie ficou ruim? Muito pelo contrário, ficou excelente! As 2h30m foram bem aproveitadas pelo seu diretor, Zack Snyder, que é fascinado no tema (antes ele havia filmado 300, de Frank Miller, com grande maestria). Embora o final tenha sido levemente alterado, a ideia se manteve fiel a ambição proporcianada por Alan Moore.

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O problema é que Watchmen não foi escrito para o público em geral, então é possível que as pessoas não entendam o quão grandiosa é esta história. Uma grande parte sairá do cinema e irá dizer que gostou, porém o assunto se encerra ali, quando para aqueles que são mais entendidos o término da projeção será apenas o início de uma longa e intensa discussão.

Primeiro, é preciso conhecer e sentir como a guerra fria adentrou por entre a pele daqueles que viveram naquele período, o quão grande foi a tensão gerada naquela época e o quão apreensivas estavam as pessoas na probabilidade de uma ameaça nuclear.

Segundo, é preciso entender como seria um mundo onde realmente existissem vigilantes mascarados que combatessem o crime, sendo que eles não são perfeitos como nos contos de fadas, ao contrário, têm tantos defeitos como nós: medo, culpa, visão política, distúrbios, solidão, tendências sexuais, manias e outros.

Terceiro, quando Watchmen foi publicado o universo dos quadrinhos, com Batman, Superman, Homem-Aranha e Capitão América, era perfeito: eles agiam como seres corretos, num mundo ético, onde todos desejavam o bem e apenas os criminosos eram os responsáveis pelo caos. O universo dos quadrinhos era inocente e inofensivo -  não havia desemprego, estupros, protestos, nem um único mal daqueles que estamos acostumados a ver! Alan Moore colocou tudo isto de ponta-cabeça e a partir dali nada mais foi o mesmo!

Quarto, é preciso entender a situação política da época. Quem foi Nixon? O que foi a Guerra do Vietnã? Do que se trata o escândalo Watergate? Como e porque surgiu o movimento Hippie? Apenas sabendo o que é cada uma destas coisas poderemos notar como Watchmen é espetacular em cada cena transcrita e em cada diálogo entre seus personagens.

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Até mesmo a trilha sonora vai de acordo com a proposta da história. Canções como Desolation Row e “he Times They Are A-Changin’ do Bob Dylan e The Sound Of Silence do Simon & Garfunkel são exemplos perfeitos de músicas que complementam ainda mais a ambientação da obra enquanto filme. Nos quadrinhos mesmo temos diversas referências para canções da época, algo típico de Alan Moore, que une diversos elementos cults em seus textos.

No filme tudo funciona muito bem. Se há algo que eu não gostei, porém, foi que no cinema os mascarados são super-heróis poderosos, enquanto nos quadrinhos eles são pessoas como nós – com a exceção do Dr. Manhattan, que ganhou os seus poderes num acidente nuclear. Ou seja, todos os problemas humanos apresentados na trama são identificáveis por nós nos quadrinhos, enquanto no cinema eles estão um pouco mais distantes. De resto ficou tudo muito bom. Claro que não está tudo lá, porém vamos aguardar a versão do diretor, que terá uma hora a mais de duração do que a versão da telona.

Sobre o enredo, a história se inicia com o assassinato de Edwark Blake, um ex-mascarado conhecido como Comediante. Logo Rorschach, uma figura fantástica, com humor negro afinado, psicótico e perturbado, começa a investigar algo que ele desconfia ser uma espécie de conspiração. Por trás desta investigação ele começa a visitar cada um de seus ex-colegas e descobrir coisas que dão à entender que o plano é muito maior do que ele imaginava. Esta é a premissa básica.

Watchmen não é filme ou livro para ser apreciado uma única vez. Para pegar todos os detalhes, diversas leituras devem ser realizadas. O filme mesmo pede por isto, pois ele é muito mais do que parece numa primeira audiência.. Afinal uma obra que ganhou um prêmio Hugo e vários Eisners não é uma coisa qualquer. Lá nos detalhes temos uma vasta gama de easter eggs para decifrarmos, como aqueles deixados em Donnie Darko e no seriado Lost.

Apesar de você ter gostado ou não, uma coisa é certa: agradeça à Watchmen por filmes como Batman The Dark Night, pois foi ele que abriu as portas para que personagens aparentemente inofensivos ficassem complexos, quase sempre atormentados pelos mesmos demônios que nos atormentam.

Por: Evandro Venancio.  Blog: EvAnDrO vEnAnCiO

Watchmen – O Filme (Watchmen – The Movie). 2009. EUA. Direção: Zack Snyder. Roteiro: David Hayter e Alex Tse. Elenco: Malin Akerman (Laurie Jupiter / Silk Spectre II), Billy Crudup    (Dr. Manhattan / Jon Osterman), Matthew Goode (Adrian Veidt / Ozymandias), Jackie Earle Haley    (Walter Kovacs / Rorschach), Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake / The Comedian). Gênero: Aventura, Fantasia, SCI-FI. Duração: 163 minutos.