“Em 1860, Garibaldi inicia o movimento de unificação de Itália. D. Fabrício (Burt Lancaster) é um aristocrata que tenta manter o anterior modo de vida, apesar dos tempos de mudança. Para ele, a ascensão da burguesia é uma ameaça. Mas numa manobra astuta, combina o casamento do seu sobrinho Tancredi (Alain Delon) com Angélica (Claudia Cardinale), filha de um rico e influente administrador de propriedades. Fiel aos seus valores, este aristocrata consegue assim manter acesa a chama do antigo regime. ‘Tudo deve mudar para que tudo fique como está.’ (Giuseppe T. di Lampedusa)”
Não vi muito do Visconti, mas dos que conheço, esse, ‘O Leopardo‘ (Il Gattopardo) é o melhor. Um verdadeiro tratado sobre a decadência (tanto quanto de um homem quanto de uma classe) e a autoridade como uma busca pela compensação à fragilidade.
Tudo transpira genialidade aqui. A caracterização dos cenários e figurinos, a trilha… O plano inicial focando na mansão é belíssimo. A cena em que o empregado avisa que algo está acontecendo lá fora e todos permanecem calados esperando o personagem do Burt Lancaster terminar suas preces demonstra o respeito e a autoridade que ele impunha, mesmo que apenas como um escape para disfarçar sua insegurança, afinal os tempos mudavam e outra classe estava para assumir o poder.
Ele precisava lidar com isso e o sentimento de ‘Ninho Vazio‘, sentimento este cada vez mais profundo e externado na (genial) sequência do baile, quando ele dança com a jovem no baile e, mesmo galante, é rejeitado pela moça que o acha ‘velho’. Nessa hora, ele para diante de um espelho e pela primeira vez se vê velho… E chora! Uma das mais belas do filme ao lado da que ele permanece de pé com o olhar vidrado em um quadro que retratava um homem morto em sua cama (esse momento onde o personagem parece estar em transe demonstra a estreita relação dele com esse sentimento de uma morte próxima).
Aliás, as sequências do baile são o melhor do filme (ou não – é tanta coisa maravilhosa aqui). Carregada de sutilezas, impossível julgar com uma assistida apenas (eu só vi 3 vezes e considero muito pouco), sendo a maior delas o próprio baile, uma grande alegoria que à transição de uma classe dominante à outra.
No mais, cito o Alain Delon, carismático como sempre, carregando com perfeição no cinismo de seu personagem e um elenco de apoio sobre o qual não posso comentar mais a fundo por não conhecer bem, mas que se mostra muito bem no longa.
E algo que não pode deixar de ser dito…
Esse filme é uma das maiores provas de que o Oscar não pode ser considerado como referência de nada…
Num dos anos mais vergonhosos de sua história, ‘As Aventuras de Tom Jones’ leva a estatueta de Melhor Filme, desbancando ‘A Conquista do Oeste’ do Ford e ‘Cleópatra’. E ‘O Leopardo’ nem mesmo indicação recebe.
É uma dessas que me faz ter (mais) orgulho do meu amado ‘Rocky‘.
Por: Luiz Carlos Freitas.
O Leopardo (Il Gattopardo). 1963. Itália. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Terence Hill, Giuliano Gemma, cast. Gênero: Drama, História, Romance, Guerra. Duração: 187 minutos.