3 MACACOS (Üç Maymun/ Three Monkeys)

tres-macacos_filmeUma família pobre na Turquia aceita certa quantia em dinheiro para que o pai assuma a culpa de uma morte causada pelo patrão político rico. A partir daí, haverá um perigoso código adotado entre as pessoas envolvidas que preferirão esquecer e ignorar alguns fatos como os macacos da famosa parábola, que não ouvem, falam ou escutam para se protegerem.

A ação lenta e difícil se desenvolve através de uma fotografia triste e monocromática e um silencio perturbador. Há segredos que nem serão revelados até a tempestade final desabar lavando qualquer resquício de esperança no desfecho deste filme desolador de Nuri Bilge Ceylan.

Üç Maymun”, apesar de excelente, não é aconselhável em dias sombrios ou qualquer nível de depressão.

Por: Carlos Henry.

3 MACACOS (Üç Maymun/ Three Monkeys). 2008. Turquia. Direção: Nuri Bilge Ceylan. Elenco. Gênero: Drama. Duração: 109 minutos.

Por Carlos Henry Postado em Turquia

Tudo Sobre Minha Mãe

tudo-sobre-minha-mae_posterAlmodóvar é o príncipe do improvável. Subverte o texto utilizando situações esdrúxulas e de exceção para relatar o nosso cotidiano. Exemplo: como uma mãe solteira abandonada por um travesti, perde o filho no seu aniversário de 17 anos? E depois abandona tudo para ficar amiga de uma jovem freira grávida do mesmo sujeito e ainda por cima HIV(+)? E que suas melhores amigas são uma atriz lésbica de meia-idade que tem uma namorada junkie e mal-humorada. E a outra grande amiga é um travecão que tem grandes qualidades morais e uma sabedoria instintiva quase que filosófica?

Os personagens masculinos são todos sublimados. O pai ausente é o travesti. O futuro é o filho adotado que revive o pai. O pai desmemoriado é o presente sem rumo. E o filho morto é a memória viva de uma história. Como se fossem sóis fixos no sistema almodovariano em que os planetas femininos transitam ao redor, belas, angustiadas, loucas, inseguras, mas incomodamente; livres.

O prólogo é o que de melhor existe no enredo. Referencial, e ao mesmo tempo tudo prevê. A cena com Bette Davis e o título do filme. Que em português chama-se “A Malvada”… A simulação da mãe que perde o filho. O atropelamento. O enorme cartaz da atriz Huma (que será de suma importância na história de Manuela). Esses fatos irão se repetir – ainda que para alguns de modo imprevisível – no restante do filme. E enfim, resumindo, é uma gigantesca amostra do incondicional e imensurável amor materno.

Filmado com as sempre exageradas cores e texturas. Reina a atmosfera kistch (nunca esta palavra se adequou tão bem a um diretor). O espanhol com a língua presa, da Espanha, é bonito. A atriz Cecília Roth está estupenda. Sua paixão pelo filho e entrega e dedicação as novas amigas é digno do que melhor existe na alma feminina. Até a citação do emérito cirurgião plástico Pitanguy encaixa legal. Tudo flui. Apesar do insólito. Do universo de underground sexual.

O desenrolar da trama trás vivências femininas por excelência. O roubo do papel e consequentemente das atenções. A inveja. O ciúme. O desejo dos homens pela novidade, mesmo que essa tenha um pênis debaixo das mamas siliconadas. A preocupação estética de se pentear, de se arrumar, de estar simplesmente… bonita.

O final nos coloca em xeque. O diretor dá direito a um homem colocar no colo o filho que ele destruiu a vida mesmo antes de nascer. Os ajustes sociais ocorridos e o encaixa dos personagens na sociedade são uma lição ou um reparo? Uma homenagem ao cinema e ao teatro que dizem sempre, a vida – e o espetáculo – deve continuar.

O que há de bom: atores magníficos, até Penélope Cruz se destaca, sem dizer das duas prediletas do diretor; Marisa Paredes como Huma Rojo e Cecília Roth como Manuela. Eu mesmo adorei e dou o prêmio de melhor atriz almodovariana para a Antônia San Juan que faz um papel de boneca, sendo uma mulher de verdade!

O que há de ruim: não sei quem é o analista de Almodóvar, mas ele deve dar um trabalho danado, pois divide o filme em metalinguagem pura no início, para depois tornar-se narrativo, muita gente vai boiar, não é, absolutamente, para todos

O que prestar atenção: veja o filme “All about Eve” e os olhos de Bette Davis, além da beleza de Marilyn Monroe, veja “Uma Rua Chamada Pecado” é o mesmo “Um Bonde Chamado Desejo” e o brutal e sexual Kowaslky de Marlon Brando. E por fim “Noite de Estréia”de John Cassavettes, em que a primeira cena é idêntica a esse filme e veja como uma atriz e  mulher representam o tempo todo, seja no palco ou na vida em si

A cena do filme: quando as quatro se reúnem para discutir seriamente o que está ocorrendo e a conversa descamba para uma apologia ao mundialmente apreciado “boquete”, fêmeas…

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por: Giovanni Cobretti – COBRA.

Simonal: Ninguém Sabe o Duro Que Dei

simonalWilson Simonal foi um grande artista no Brasil, mas morreu quase no anonimato. Ao ver as imagens de seu impressionante poder de comandar as platéias nos anos 60 neste documentário de Cláudio Manoel, fica fácil entender o fenômeno do seu nome.

Mas o artista cometeu um erro naqueles anos difíceis de ditadura: Ingenuamente admitiu pertencer à extrema direita quando esteve envolvido num obscuro episódio ligado à tortura de seu contador por agentes do DOPS (Órgão repressivo do regime militar). Nada fica totalmente esclarecido.

Mas o filme emociona não só pelo poder de algumas palavras em destruir vidas e carreiras num momento de intolerância. Como também por desvendar a trajetória de um grande “cantor-entertainer” brasileiro, provavelmente o único naquele estilo e grandiosidade.

Por: Carlos Henry.