Almodóvar é o príncipe do improvável. Subverte o texto utilizando situações esdrúxulas e de exceção para relatar o nosso cotidiano. Exemplo: como uma mãe solteira abandonada por um travesti, perde o filho no seu aniversário de 17 anos? E depois abandona tudo para ficar amiga de uma jovem freira grávida do mesmo sujeito e ainda por cima HIV(+)? E que suas melhores amigas são uma atriz lésbica de meia-idade que tem uma namorada junkie e mal-humorada. E a outra grande amiga é um travecão que tem grandes qualidades morais e uma sabedoria instintiva quase que filosófica?
Os personagens masculinos são todos sublimados. O pai ausente é o travesti. O futuro é o filho adotado que revive o pai. O pai desmemoriado é o presente sem rumo. E o filho morto é a memória viva de uma história. Como se fossem sóis fixos no sistema almodovariano em que os planetas femininos transitam ao redor, belas, angustiadas, loucas, inseguras, mas incomodamente; livres.
O prólogo é o que de melhor existe no enredo. Referencial, e ao mesmo tempo tudo prevê. A cena com Bette Davis e o título do filme. Que em português chama-se “A Malvada”… A simulação da mãe que perde o filho. O atropelamento. O enorme cartaz da atriz Huma (que será de suma importância na história de Manuela). Esses fatos irão se repetir – ainda que para alguns de modo imprevisível – no restante do filme. E enfim, resumindo, é uma gigantesca amostra do incondicional e imensurável amor materno.
Filmado com as sempre exageradas cores e texturas. Reina a atmosfera kistch (nunca esta palavra se adequou tão bem a um diretor). O espanhol com a língua presa, da Espanha, é bonito. A atriz Cecília Roth está estupenda. Sua paixão pelo filho e entrega e dedicação as novas amigas é digno do que melhor existe na alma feminina. Até a citação do emérito cirurgião plástico Pitanguy encaixa legal. Tudo flui. Apesar do insólito. Do universo de underground sexual.
O desenrolar da trama trás vivências femininas por excelência. O roubo do papel e consequentemente das atenções. A inveja. O ciúme. O desejo dos homens pela novidade, mesmo que essa tenha um pênis debaixo das mamas siliconadas. A preocupação estética de se pentear, de se arrumar, de estar simplesmente… bonita.
O final nos coloca em xeque. O diretor dá direito a um homem colocar no colo o filho que ele destruiu a vida mesmo antes de nascer. Os ajustes sociais ocorridos e o encaixa dos personagens na sociedade são uma lição ou um reparo? Uma homenagem ao cinema e ao teatro que dizem sempre, a vida – e o espetáculo – deve continuar.
O que há de bom: atores magníficos, até Penélope Cruz se destaca, sem dizer das duas prediletas do diretor; Marisa Paredes como Huma Rojo e Cecília Roth como Manuela. Eu mesmo adorei e dou o prêmio de melhor atriz almodovariana para a Antônia San Juan que faz um papel de boneca, sendo uma mulher de verdade!
O que há de ruim: não sei quem é o analista de Almodóvar, mas ele deve dar um trabalho danado, pois divide o filme em metalinguagem pura no início, para depois tornar-se narrativo, muita gente vai boiar, não é, absolutamente, para todos
O que prestar atenção: veja o filme “All about Eve” e os olhos de Bette Davis, além da beleza de Marilyn Monroe, veja “Uma Rua Chamada Pecado” é o mesmo “Um Bonde Chamado Desejo” e o brutal e sexual Kowaslky de Marlon Brando. E por fim “Noite de Estréia”de John Cassavettes, em que a primeira cena é idêntica a esse filme e veja como uma atriz e mulher representam o tempo todo, seja no palco ou na vida em si
A cena do filme: quando as quatro se reúnem para discutir seriamente o que está ocorrendo e a conversa descamba para uma apologia ao mundialmente apreciado “boquete”, fêmeas…
Cotação: filme ótimo (@@@@)
Por: Giovanni Cobretti – COBRA.