Matheus Nachtergaele sabiamente bebeu um pouco da água do ótimo trabalho que fez como ator em “Baixio das Bestas” do amigo Cláudio Assis para criar esta também visceral e perturbadora obra-prima. Neste caso, outro pedaço inóspito e esquecido do Brasil, na região amazonense é o palco de um estranho culto a uma menina misteriosamente morta há vinte anos.
A cerimônia e os festejos são comandados por Santinho (Daniel de Oliveira), figura estranha e andrógina que é tão adorada e respeitada pela população como a própria menina. O culto em torno do santo (e da criança) é construído com a ajuda de seu pai (Jackson Antunes) e de fiéis devotas que vivem na casa alheias a fatos que poderiam sugerir profanação. O sofrimento e revolta de Tadeu (Juliano Cazarré), irmão da menina morta, arranham a sua fé e aumentam a sua confusão em meio à festa que se transforma num grande e bizarro show popular.
É um filme delicado e sensível, apesar das imagens cruas e cenas fortes de destemperos e sexo em família. Chegaria próximo à perfeição com uma montagem mais enxuta: O papel de Paulo José numa estória tão típica poderia ser cortado sem prejuízo da obra bem como a última imagem antes dos créditos que redunda o que já havia sido dito estragando um desfecho de impacto. Nada que estrague a fluidez de um roteiro original que passeia por excessos e ausências de esperança e fé entre a fauna estranha da região, que aparece em closes pontuando sequencias de humor peculiar quase melancólico, como deve acontecer por aquela região sofrida. Às vezes, é melhor crer para não amargar porque desesperança é o fim.
Por: Carlos Henry.
A Festa da Menina Morta. 2008. Brasil. Direção e Roteiro: Matheus Nachtergaele. Elenco: Daniel de Oliveira, Juliano Cazarré, Jackson Antunes, Cássia Kiss, Dira Paes. Gênero: Drama. Duração: 110 minutos.
Deixe ela entrar, 2008, Suécia, de Tomas Alfredson
É raro ver bons filmes com atores infantis… Quem assistiu às interpretações em “O ano em que meus pais saíram de férias” pode ter ficado um tanto aborrecido. Atores como Jean-Pierre Leaud, predestinados a se tornarem estrelas, que em “Os incompreendidos” (Les quatre cents coups) faz uma criança leitora de Balzac, problemática e rebelde é uma rara exceção. Ele foi um ator mirim deveras concentrado em seu trabalho: Exemplo distante no tempo, mas incontornável.
Trabalhar com crianças, no cinema, por mais difícil que seja também é incontornável. Se não se falar delas fica praticamente impossível fazê-lo. Presentes mesmo quando ainda nem se tornaram pessoas: a terrível interrupção da gestação em “4 meses, 3 semanas e dois dias” (4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile); ou quando são mercantilizadas em “A criança” (L’Enfant). Agora, quando temas adultos são transpostos para o universo infantil, carecendo da participação ativa desses atores mirins, a coisa pode mudar totalmente de figura e descambar para um completo desastre fílmico: “Quando as Metralhadoras Cospem” (Bugsy Malone).
Trata-se de “Deixe ela entrar” (Låt den rätte komma in). Filme sueco que aborda a difícil vida (a tentativa de sobreviver, na verdade) de uma garotinha vampiro e seu protetor. Ela, por sorte, encontra um rapazinho um tanto esquisito para lhe fazer par e servir de amigo (talvez pro resto da vida, dele, claro).
Lina Leandersson e Kåre Hedebrant fazem uma dupla romântica (de um amor ressabiado e discreto) brilhante. Até mesmo a nudez da menina nos é exibida (e permitida) sem pudores e sem receio de se incorrer em um brinde aos pedófilos (isto fica por conta dos programas do Raul Gil). Talvez os moralistas de plantão condenem o nu frontal da jovem atriz (brevíssimo e um tanto artificial, diga-se), mas é que alguns poucos seres humanos conseguem separar as coisas e não fazem do politicamente correto um comportamento abjeto e limitador da arte. Veja como é raro, no outro extremo, ver corpos nus de idosos no cinema! Quem assistiu a “Três enterros” (The Three Burials of Melquiades Estrada) viu a nudez de Melissa Leo desprovida de jovialidade, mas não de beleza.
Ah, e não é só isso! O diretor ainda nos brinda com um jovem (Oskar) proto serial killer – tal fato é um elemento qualificador do garoto na escala de valores da vampirinha. A vocação assassina do menino alude até como teria sido a tenra idade de um Hannibal Lecter, de “O silêncio dos inocentes” (The Silence of the Lambs). Fascinante!
Aparentemente em histórias de vampiro… um romance é inevitável. Uma recente matéria do jornal “Valor” fala do sucesso editorial de “O crepúsculo”. Segundo o periódico, as mulheres solteiras e balzaquianas, especialmente, apreciam o livro por tratarem de vampiros bonitos, jovens, românticos e dispostos a um amor imortal, etc. Nada, presumo, relacionado com a tragédia narrada em “Drácula de Bram Stoker” (Bram Stoker’s Dracula). Havia também um tanto de tolice em “Entrevista com vampiro” (The Vampire Chronicles) quando apelaram a um elenco de galãs, mas em menor grau e com uma proposta um tanto didática e original. Bem, nada contra o amor e os vampiros, mas a maturidade de “Deixe ela entrar” é imbatível.
O filme, além de tudo, tem ótimos efeitos especiais e uma condução exemplar do diretor. Um filme seco (mas cheio de sangue) e sem o glamour e pompa que os filmes de vampiro costumam exibir com a mesma previsibilidade de uma noite de desfiles de escolas de samba: sempre aquela coisa de carros alegóricos e tal. Os personagens de “Deixe ela entrar” parecem bastante com aqueles vizinhos estranhos que moram na sua rua, sabe?, e que algum tempo depois, você descobre pela fofoca ou pelos tablóides, que eles aprontaram algo bizarro.
Não é propriamente um filme para crianças, mas se você conviver com crianças maduras e inteligentes, é bem provável que elas possam lhe fazer cia durante a exibição.