Deixe ela entrar, 2008, Suécia, de Tomas Alfredson
É raro ver bons filmes com atores infantis… Quem assistiu às interpretações em “O ano em que meus pais saíram de férias” pode ter ficado um tanto aborrecido. Atores como Jean-Pierre Leaud, predestinados a se tornarem estrelas, que em “Os incompreendidos” (Les quatre cents coups) faz uma criança leitora de Balzac, problemática e rebelde é uma rara exceção. Ele foi um ator mirim deveras concentrado em seu trabalho: Exemplo distante no tempo, mas incontornável.
Trabalhar com crianças, no cinema, por mais difícil que seja também é incontornável. Se não se falar delas fica praticamente impossível fazê-lo. Presentes mesmo quando ainda nem se tornaram pessoas: a terrível interrupção da gestação em “4 meses, 3 semanas e dois dias” (4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile); ou quando são mercantilizadas em “A criança” (L’Enfant). Agora, quando temas adultos são transpostos para o universo infantil, carecendo da participação ativa desses atores mirins, a coisa pode mudar totalmente de figura e descambar para um completo desastre fílmico: “Quando as Metralhadoras Cospem” (Bugsy Malone).
Trata-se de “Deixe ela entrar” (Låt den rätte komma in). Filme sueco que aborda a difícil vida (a tentativa de sobreviver, na verdade) de uma garotinha vampiro e seu protetor. Ela, por sorte, encontra um rapazinho um tanto esquisito para lhe fazer par e servir de amigo (talvez pro resto da vida, dele, claro).
Lina Leandersson e Kåre Hedebrant fazem uma dupla romântica (de um amor ressabiado e discreto) brilhante. Até mesmo a nudez da menina nos é exibida (e permitida) sem pudores e sem receio de se incorrer em um brinde aos pedófilos (isto fica por conta dos programas do Raul Gil). Talvez os moralistas de plantão condenem o nu frontal da jovem atriz (brevíssimo e um tanto artificial, diga-se), mas é que alguns poucos seres humanos conseguem separar as coisas e não fazem do politicamente correto um comportamento abjeto e limitador da arte. Veja como é raro, no outro extremo, ver corpos nus de idosos no cinema! Quem assistiu a “Três enterros” (The Three Burials of Melquiades Estrada) viu a nudez de Melissa Leo desprovida de jovialidade, mas não de beleza.
Ah, e não é só isso! O diretor ainda nos brinda com um jovem (Oskar) proto serial killer – tal fato é um elemento qualificador do garoto na escala de valores da vampirinha. A vocação assassina do menino alude até como teria sido a tenra idade de um Hannibal Lecter, de “O silêncio dos inocentes” (The Silence of the Lambs). Fascinante!
Aparentemente em histórias de vampiro… um romance é inevitável. Uma recente matéria do jornal “Valor” fala do sucesso editorial de “O crepúsculo”. Segundo o periódico, as mulheres solteiras e balzaquianas, especialmente, apreciam o livro por tratarem de vampiros bonitos, jovens, românticos e dispostos a um amor imortal, etc. Nada, presumo, relacionado com a tragédia narrada em “Drácula de Bram Stoker” (Bram Stoker’s Dracula). Havia também um tanto de tolice em “Entrevista com vampiro” (The Vampire Chronicles) quando apelaram a um elenco de galãs, mas em menor grau e com uma proposta um tanto didática e original. Bem, nada contra o amor e os vampiros, mas a maturidade de “Deixe ela entrar” é imbatível.
O filme, além de tudo, tem ótimos efeitos especiais e uma condução exemplar do diretor. Um filme seco (mas cheio de sangue) e sem o glamour e pompa que os filmes de vampiro costumam exibir com a mesma previsibilidade de uma noite de desfiles de escolas de samba: sempre aquela coisa de carros alegóricos e tal. Os personagens de “Deixe ela entrar” parecem bastante com aqueles vizinhos estranhos que moram na sua rua, sabe?, e que algum tempo depois, você descobre pela fofoca ou pelos tablóides, que eles aprontaram algo bizarro.
Não é propriamente um filme para crianças, mas se você conviver com crianças maduras e inteligentes, é bem provável que elas possam lhe fazer cia durante a exibição.
Por: Fábio Montarroios.
O Fábio me enviou seu texto, deixando as fotos a minha escolha. Assim, ao procurar pelo Google Imagens… Vi, e gostei muito da ilustração acima. Dessa página:
http://ventedspleen.com/blog/2009/01/24/let-the-right-one-in-illustration/
Deixei um pedido/aviso de que traria para cá a ilustração.
É um belo desenho! E que comporia muito bem nesse belo texto do Fábio.
p.s: Espero que não haja impecilho em relação ao desenho.
p.s2: Oba! Ele deixou usar a imagem
mto boa mesmo a imagem!
Oi Fábio
que bom que também gostou do desenho.
o diretor disse isso na folha de sp de hj: “Dirigir crianças é um trabalho de desconstruir sequências em pedaços menores, mais compreensíveis. Trabalhando assim, com foco no dia a dia, o ator mirim não tem que assumir a responsabilidade de toda a construção [do personagem]“. O filme vai passar no SP Terror – Festival Internacional de Cinema Fantástico. quem quiser assistir é no reserva cultural: http://www.reservacultural.com.br/sinopse_terror.htm
Estou surpreso com a quantidade de pessoas (principalmente adolescentes) que estão achando que este é um filme romantico, um filme que versa sobre uma estória de amor adolescente! Acordem, este brilhante filme não é um romance que tem vampiros no roteiro! É uma estória fantástica que aborda de forma simbólica, e não por isto menos precisa e verdadeira, a gênese de uma mente psicopata. O velho assassino representa o futuro do Oskar. Reparem como os dois manipulam a mesma faquinha, com os mesmos gestos. O velho é Oskar e Oskar é o velho. A “menina vampira” representa o mal absoluto. O mal que seduz e conquista o frágil e massacrado Oskar. O mal que o redime, objeto de culto e paixão. A “menina” que aliás não é uma menina. Ela diz isto repetidas vezes, mas ele não que ouvir. Na cena em que “ela” troca de roupa isto fica claro, pois ela não possui vagina, e sim uma cicatriz no lugar do antigo pênis – sim, a “vampira” é um menino castrado, feminilizado (isto está colocado de forma explícita no livro, mas no filme a cena é muito rápida e fica difícil de entender). Ou seja, “ela” é o “alter-ego” dele. A cena em que ele “a” aceita é fantástica. A cena em que comete o primeiro assassinato (ao entregar o vizinho no banheiro). A cena final em que ele conversa com “ela” no trem, em morse, é uma obra-prima. A conjunção de absolutos que caracteriza a mente dos psicopatas: amor x maldade. Se você quer entender como funciona a mente de um psicopata veja este filme. Um último comentário: o título em português mais uma vez decepciona: “Deixa ela entrar”. O título original, que em português seria algo como “Deixa o que está certo entrar”, é uma provocação, mas traz o significado do filme (na ótica do psicopata).