À Beira do Abismo (The Big Sleep)

a-beira-do-abismo_posterPhilip Marlowe (Humphrey Bogart) é contratado para ficar de olho em Carmen, filha do General Sternwood, que está andando com más companhias e pode trazer problemas. Marlowe se apaixona pela outra filha de Sternwood, a mais velha, Vivien (Lauren Bacall), que o detesta. A partir daí, uma trama muito mais intrincada aparece, fazendo deste um dos grandes filmes noir do cinema.”

a história é super enrolada, com todo tipo de clichê e cenário: casa de milionário, estufa escaldante, escritório decadente, cassino, casa afastada, carro no rio, surra no beco etc !!!
os diálogos são uma história à parte, rápidos, sarcásticos, intrincados!!

bacallLauren jovenzinha linda e maravilhosa desfila c uma coleção de vestidos espetacular!!
na cena do beijo no carro, dão-lhe um brilho no rosto q a faz deslumbrante, parece q ela está implorando: ME DÁ UMA BEIJOCA AQUI!! irresistível!! aw aw!!!!

precisam ver o carro do Marlowe – é uma geringonça estilosa q marca presença!
ninguém tranca os carros, ele abre a porta de todos, e neles verifica uma etiquetinha com o nome do dono, endereço e tudo mais !!! nem precisa de internet, né?!!! hilário!!!
o Marlowe, vivido por Bogart, aparece em outros filmes e tem de fazer sucesso mesmo: magrelo, sarcástico, desbochado (mistura de desbocado com debochado), o típico baixinho folgado abusado!! bate e apanha muito bem!!

um dos “bandidos” tem a morte mais bem morrida da história do cinema!!!
vou treinar pra morrer parecido!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

TODO MUNDO FUMA DESBRAGADA E FURIOSAMENTE!!!
a imagem ao fundo do THE END é um cinzeiro c 2 cigarros esfumaçando!!!! ai ai!!

afinal, escrito por Raymond Chandler, dirigido pelo Howard Hawks e com roteiro do William Faulkner o filme é covardia pura, né?!!!

gentem!!! dêm (agora sem êe) uma olhada no currículo do Raymond na Wikipedia!!
o cara merece um filme só para ele !!!! vix!!!

Por: Claudio Hess.

À Beira do Abismo (The Big Sleep). 1946. EUA. Gênero: Crime, Filme-Noir,  Policial, Thriller. Duração: 114 minutos.

ABC do Amor (Little Manhattan)


“O amor é uma coisa feia e terrível praticado por tolos e um dia ele vai te pegar e quando isso acontecer, ele vai pegar seu coração e vai deixá-lo sangrando no chão.”

Admito que esse filme mexeu de uma forma inesperada comigo, provocando uma série de lembranças…

Gabe Burton (Josh Hutscherson) é um garoto de 11 anos, que cursa a 5ª série e mora com seus pais, Adam (Bradley Whitford) e Leslie (Cynthia Nixon), em Manhattan. Os pais de Gabe estão separados há um ano e meio, mesmo ainda morando juntos, pois seu pai sempre adia o dia de sua mudança.
Sem se incomodar com isso, Gabe é feliz se divertindo com seus amigos, seja jogando basquete na escola, andando com seu pequeno patinete pela vizinhança, ou treinando futebol americano com o pai, mas nada que lhe desperte qualquer interesse por garotas.

Até o dia fatídico em que ele começa a ter aulas de karatê na mesma turma de Rosemary Telesco (Charlie Ray), uma colega da escola e amiga de infância. Nasce uma simpatia recíproca entre eles. E basta Gabe ver Rosemary experimentando um vestido de dama de honra pra cair de amores por ela.
Aliás, Gabe não vê Rosemay. Pela primeira vez em sua vida, ela a fita… que é o que se diz quando você se encanta por outra pessoa, não importa a idade.
Gabe se apaixona por Rosemary, mas não consegue lidar com a dimensão gigantesca que este sentimento toma em sua vida, levando-o muito além dos quarteirões em que costumava passear de patinete. O menino só não duvida da sua importância e começa a traçar planos para fazer sua amada ser apaixonar por ele.

Gabe e Rosemary passam a fazer parte da vida um do outro, tornando-se inseparáveis amigos, vivendo aventuras e se metendo em enrascadas por Nova York, cidade que de certa forma é uma personagem importante, sendo a testemunha silenciosa e acolhedora desse desabrochar do amor juvenil.
Uma Nova York rica não só em sua flora, seja na selva de pedra dos prédios de Manhattan ou na beleza natural do Central Park, mas também em sua fauna, com tipos comuns, como a sempre preocupada babá de Rosemary, ou inusitados como o mendigo que prediz que o protagonista terá seu coração dilacerado por aquela garota ou ainda cativantes, como o ascensorista amigo do menino que se apaixona pela vizinha deste.
Por mais que eles se aproximem, no entanto, Gabe nunca tem a certeza, aquela certeza… a que que nos faz capaz de encarar qualquer coisa em qualquer lugar (ao menos na nossa imaginação) que seu sentimento é recíproco. O filme nunca mostra o ponto de vista de Rosemary, só nos dá dicas e sugestões.
Mas se nem pra uma pessoa adulta de cabeça fria é fácil compreender sacadas sutis, imagine quando você tem 11 anos e acha que encontrou o grande amor da sua vida?
E mais ainda quando você descobre que esse amor está prestes a partir para um acampamento de verão e que logo depois pode ser transferida para outra escola?

Tudo isso leva o garoto a cometer todos os erros possíveis pra quem sabe uma hora acertar e poder declarar seu amor. Essa oportunidade chega, passa, chega de novo e passa outra vez… pra desespero do pequeno.

“Mas o amor não é de palavrinhas ridículas, o amor é de grandes atitudes, o amor é ir mais além mesmo que doa; deixando tudo pra trás. Amor é encontrar uma coragem dentro de sim mesmo, que você nem sabia que tinha.”

Porém, quando menos se espera, um encontro e um beijo acontecem. Não porque ele planejou, mas porque foi natural. Porém, pedir que a mente assimile essa informação com o coração batendo mais rápido que carro de Fórmula-1 é querer demais.
E daí vem a necessidade desnecessária de auto-afirmação, como se o que você tem já não bastasse… porque o ciúme e a inveja cegam… você não é mais criança pra ser humilhado pelos outros sem reagir, mas também ainda não é adulto o suficiente pra perceber que as pessoas ao redor não estão com o propósito maligno de te humilhar pois tem mais o que fazer. O nome disso é adolescência.
E daí vem a clássica “pagação de mico”… Cedo ou tarde em nossas vidas, todos nós pagamos a dívida pro tal do mico.
Pra Gabe, o preço saiu muito caro como uma descida do paraíso ao inferno com direito à baldeação no pronto-socorro pra engessar a mão. E então, vem à tona toda a frustração e raiva na hora errada e com a pessoa errada.
Afinal, se ela realmente o amasse não o teria traído na sua imaginação!

Gabe então se afasta de Rosemary, mas não consegue afastá-la do seu coração. Uma conversa com o pai no fim do filme acaba levando a reflexão de ambos e esclarecendo muita coisa. Seus pai e sua mãe se conheceram e se apaixonaram quando eram alguns anos mais velhos que Gabe e Rose, mas se separaram pelo mesmo motivo.

“Talvez nem tudo deva durar para sempre, certas coisas são como escrever no céu. Uma coisa muito bonita, mas que dura alguns instantes apenas e depois… depois você entende né? O amor, ele realmente é terrível!”

Porque às vezes você evita falar tantas coisas pra pessoa que ama por medo, que o acúmulo delas acaba criando o vazio de uma distância… até que elas não tenham mais nada pra dizer.
Gabe tem finalmente um momento de maturidade, se despindo do seu ego e indo encontrar Rosemary, que calhou o destino que estivesse num casamento usando o mesmo vestido de dama de honra com que ele se apaixonou por ela. Após finalmente se declarar, ele e o público ouvem da menina o óbvio: que ela ainda é uma criança pra pensar em namorar e que tem tantas dúvidas sobre seu sentimento quanto o próprio Gabe.
Assim ele percebe que, ainda que fazendo as pazes, o afastamento de ambos é inevitável. Ao menos, os dois terminam dançando juntos, desfrutando desse último momento.

Como o pequeno narrador havia prometido no início contar uma grande história de amor, o diretor ainda sai pela tangente reconciliando os pais do protagonista no fim numa cena bastante simbólica.
ABC do Amor me cativou bastante. Mesmo tendo 25 anos consigo me identificar com um garoto de 11 e tenho certeza que não sou o único. Alguns exageros à parte (desnecessários como o vômito coletivo ou perspicazes como o astro de artes marciais), essa pequena obra-prima é um firme e singelo retrato da infância e do começo da juventude.
O primeiro amor vem pra todo mundo. Ele não é necessariamente a primeira paixão, o primeiro beijo ou o primeiro namoro, mas como Gabe diz no fim, entre tantos outros que vem e vão, ele vai ficar pra sempre e vale à pena o sacrifício que enfrentamos nem que seja pra tudo acabar em saudade.

Se a princípio eu achei inadequado o filme focar tanto nos melodramas do protagonista só pra terminar com a sensata declaração da menina, dando a entender que eles não ficam juntos justamente por todos os arroubos inevitáveis da idade, um olhar mais atento na cena em que o garoto vê os pais como eles eram quando jovens revela uma forte dose de esperança não só pra eles, mas também pra Gabe e Rosemary, que afinal tem todo o futuro pela frente… e quem sabe até pro público que um dia encontrou ou reencontrará esse amor.

“E agora você me pergunta: o que eu ganho no final? Nada, além de algumas incríveis lembranças que não se esquecem. A verdade é que haverá outros garotas, quer dizer, assim espero, mas nunca terá esse primeiro amor novamente, esse primeiro amor sempre será você.”

Por: Guilherme Martins. Blog: Panorama Imaginado.

O Efeito da Fúria (Winged Creatures)

o-efeito-da-furia_posterJá disseram que para morrer, só basta estar vivo. O que não estaria certo, é alguém se sentir no direito de levar outras vidas junto, por não estar gostando da sua. Fato esse que até nos levaria a um debate sobre o porte de arma. Já que nem todos têm condições psicológicas em ter armas. Mas o filme não foca esse lance, muito embora a tragédia parte disso. E o que ele aborda?

Um cara entra numa lanchonete e começa a atirar. Quatro pessoas sobrevivem a essa fúria assassina. Três, saem ilesos: um casal de adolescentes, e uma garçonete. O outro, um dos fregueses, mesmo baleado, se salva. Fora esses, vai ficar abalado também, um médico.

Com isso, o filme mostra como cada um reagiu após essa tragédia. Por estarem vivos. Se o cara entrou disposto a matar todos, o porque de terem sobrevivido? Em comum, entre os quatro, o não querer contar o que viram naquela hora. E o que aconteceu por lá? Ao longo do filme vamos sabendo. Assim como também acompanhando o comportamento dessas, mais atingidas pela tragédia, como de seus familiares.

Anne (Dakota Fanning) se apega a religião. Encontrando nela, uma tábua de salvação. Mais do que ter sobrevivido, quer encontrar um porque do seu pai ter sido morto daquele jeito. Ela idolatrava seu pai.

Jimmy (Josh Hutcherson), emudece. Talvez por recear dizer algo. Mas o que ele viu? Mais. Por que Anne lhe pede tanto para não contar nada. Enquanto sua mãe fica preocupada com essa sua reação, seu pai (Jackie Earle Haley) tem outras. Para quem viu ‘Sicko – $O$ Saúde‘, poderá entendê-lo melhor.

Se eles, ainda bem jovens, comportaram-se assim, como seria a reação dos outros, mais adultos?

Carla (Kate Beckinsale), jovem ainda, mãe solteira… Fica indignada ao ver um prospecto de um grupo pronto para ajudar os sobreviventes de tragédias como essa. Tal como Anne, o vê como uma ave agourenta. No fundo, é uma crítica a uma cultura armamentista. Grupos como esse, fazem parte do show. Carla pira um pouco, trazendo consequências ao seu bebê.

Charlie (Forest Whitaker) se sente um cara de sorte. Parte então para os Cassinos. Tal qual uma droga, depois da euforia, vem… Paralelo a essa sua fuga, a polícia o procura. Mas como sua filha (Jennifer Hudson) desconhece o seu paradeiro, aumenta a sua apreensão por conta do que fica sabendo pelo tira.

E o médico, como entrou nessa história? Por que teria agido daquele jeito? Casualmente, ao sair da lanchonete, o Dr. Bruce (Guy Pearce) dá passagem para o matador. Depois, já no Hospital, se ressente por não ter salvo uma das pessoas baleadas. A partir dai, resolve brincar de Deus. Ou, de cientista louco.

Cada um reage de um jeito a essas pancadas do destino. Mesmo que achemos que nossas reações seriam diferentes, é preciso vivenciar para se ter a certeza. Agora, com ajudas, ou por si mesmo, é gratificante em ver que a pessoa está de volta à vida, seguindo em frente.

Um bom filme! E que eu voltaria a rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Efeito da Fúria (Winged Creatures). 2008. EUA. Direção: Rowan Woods. + Elenco. Gênero: Crime, Drama. Duração: 95 min.

Mandando Bala(shoot ´em up)

shoot-em-up-carrot

A primeira vez que assisti Clive Owen foi atuando foi no sensivel filme “As rosas sao vermelhas, as violetas são azuis” que apesar de ser catalogado como comédia, ele aborda muito mais o lado humano que comedia.. Me apaixonei pelo cara.
Tempos depois, ele aparece um comercial, de uma marca X de carro como motorista da Madona.
Apresentação curtissima, porem marcante.
Aos poucos ele foi crescendo no cinema, despontando em filmes, e atualmente desaba num monte de produções.

O problema é que a imagem dele como ator esta se tornando um perfil de justiceiro, vingador, heroico, imbativel. Nao tem mudado. A cada filme novo, parece que é sempre a mesma coisa.Isso é pessimo. Ele tem potencial para todo tipo de papel. Nao justifica ficar so nestes.

No filme Mandando Bala nao é diferente. Alem de ser louco por cenouras – passa o filme inteiro consumindo duzias delas, poderia escrever 15, 20, 30 linhas so repetindo: bang, bang, bang, pow, soc, ratatatatatat e mais bang bang bang bang bang bang bang bang bang bang bang bang bang bang, bang bang bang bang bang bang bang bang.

O filme praticamente vai ficar nisso.
Envolver um bebe que deve ser assassinado, de ter a belissima Monica Bellucci e uma transa entre eles de deixarem homens e mulheres suspirando entre desejo e bizarrice, o resto é tudo igual.
A forma como o ele defende o Bebe dos assassinos, Matriz torna – se fichinha de tantos absurdos.
Enfim o bom é que o bebe sai ileso, sem uma assadura (apesar de usar jornal como fraldas) e todos ficam felizes no final.

Direção e Roteiro: Michel Davis
Genero: Ação, cenas de sexo, tortura, muita violencia
Duração: 88 min, EUA, colorido
Elenco: Com Clive Owen, Paul Giamatti, Monica Bellucci, outros

Antes que o diabo saiba que voce esta morto (Before the Devil Knows You’re Dead)

diabosala

Andy (Philiph Seymour) é um alto executivo de uma incorporadora onde tambem trabalha o irmão Hank (Ethan Hawke) numa função menor. Manipulando documentos, Andy frauda a empresa sem que ninguem nem mesmo o irmão. O dinheiro desviado é gasto principalmente para sustentar o vicio em heroina.

Tempos depois, o conselho da empresa resolve fazer uma auditoria interna e Andy entra em desespero porque vão descobrir os roubos que ele cometeu. De onde ele vai tirar dinheiro para cobrir o rombo?

Simples: assaltando a joalheria da familia, a loja “Family Jewelrs”. Como ele é um covarde, ele conta para o irmão Hank o que fez e pior: praticamente obriga – o a simular o assalto na joalheria. Com a venda do roubo , tudo estaria resolvido. Em panico Hank, fará tudo pelo irmão, incluvise tem um caso com Gina (Marisa Tomey) a mulher de Andy.

Porem, tudo dá errado:
Hank resolve pedir ajuda dum amigo para realizar esse assalto.
Comete o primeiro erro ao ir buscar o comparsa na casa dele e ser visto pela mulher do cara. Acontece o segundo erro: enquanto Hank espera no carro, o comparsa entra na loja e realiza o assalto, mas nao contava que a dona da loja (e mãe de Hank) fosse reagir: ha uma troca de tiros, o assaltante morre e ela é ferida mortalmente.
Enquanto isso, o irmao da moça que ficou viuva (do assalto) resolve chantagear os irmaos para manter o bico calado sobre o assalto.

Mas Andy, no entanto, comete o maior erro de todos: antecipado ao resultado do assalto vai a um ourives negociar os produtos do roubo e deixa um cartão pessoal para firmar o acordo.

Charles (Albert Finney) que nao desconfia de toda essa tramoia, pai de ambos , fica sabendo do assalto, da situação da esposa entre a vida e morte e pressão do filho Andy para tomarem medidas imediatas – que é desligar os aparelhos q mantem a mae viva (talves para agilizar o seguro). Charles entra em despesro. Concorda em desligar os aparelhos, mas resolve investigar o assalto.
Nas buscas pela solução do crime, o pai chega ao filho Andy atraves daquele cartão encontrado com o ourives.

O final é incrivel, a atitude do pai é surpreendente. Fica a duvida do que será de Hank. Cada um escolhe as probabilidades.

O que detestei no filme, e que ja virou rotina é a eterna mania de dizer que o Brasil é a solução para todo mundo que burla a lei. Esse dialogo acontece logo apos a primeira cena do filme que é uma transa entre Andy e a Gina .

Apesar de elogiado por muitos, de um elenco excelente, nao seria minha preferencia na locação.

Direção: Sidney Lumet,
produção: EUA / Reino Unido
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney, Marisa Tomei
Genero: Suspense, drogas
Colorido, duração: 117 min

O VESTIDO – Esse Obscuro Objeto do Desejo

o-vestido_posterCarlos Drummond de Andrade é o meu poeta brasileiro preferido. O Caso do Vestido, é um de seus poemas que considero fascinante e intrigante. Ele é composto de 150 versos distribuídos em 75 estrofes de dois versos cada. É um poema que tem HISTÓRIA, que conta várias histórias tendo como protagonista um objeto que é um VESTIDO.

Eis o poema:

CASO DO VESTIDO
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele…

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacas
sede meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
e colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei… disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberbam
e aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há… nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
Carlos Drummond de Andrade

o-vestido_01Uma obra literária EM VERSOS, transformada em um belíssimo filme nacional: O VESTIDO dirigido por Paulo Thiago, roteirizado por ele e por Haroldo Marinho Barbosa.

A literatura é TÃO imprescindível e fundamental quanto a música, o cinema entre outras manifestações artísticas. E falar em literatura vale lembrar que toda poesia nem sempre é de fácil compreensão, interpretação ou tradução. Ser considerada obra aberta, não significa que ela possa ser escancarada.
Em se tratando de cinematografia, tornou-se lugar comum o encontro de duas linguagens (literatura e cinema), os textos literários em prosa transformados em belíssimos filmes. Não querendo entrar no mérito de grau de igualdade, inferioridade ou superioridade, ou melhor, se o filme superou ou não a literatura, e vice-versa, não deixando de ser um assunto relevante, porém para outro momento.

O poema O Caso do Vestido do Drummond, é inédito, que eu saiba, saindo das páginas líricas, e sendo transformado primeiramente num ótimo romance pelas mãos de Carlos Herculano considerado um dos mais talentosos da nova geração, vencedor de vários prêmios literários e posteriormente um argumento para roteiro do filme proposto pelo cineasta Paulo Thiago que, como eu, é também fã do poeta Drummond. É claro que o romancista mineiro Herculano topou, graças a ele, temos somado ao cinema nacional um dos filmes mais brilhantes e formidáveis lançado em 2004 que é esse homônimo – O VESTIDO.

E a storyline ficou ótima: A descoberta de um antigo vestido faz com que duas irmãs decidam investigar o passado de sua família. Sem falar nas ótimas atuações de todo o elenco escolhido a dedo: Gabriela Duarte, Ana Beatriz Nogueira, Leonardo Vieira, Paulo José e Daniel Dantas.

o-vestido_02E a sinopse não ficou para trás: Por acaso duas meninas descobrem, no porão de sua casa, um velho e lindo vestido de festa. Curiosas, elas querem saber corno o vestido foi parar ali, principalmente após verem sua mãe chorando com o mesmo entre as mãos. Elas iniciam então uma investigação, que pode responder ainda outra pergunta: por que sempre à mesa, nas refeições, havia um prato reservado ao pai, que as havia abandonado há muitos anos?
Do poema para o romance e do romance para o cinema, Carlos Herculano Lopes cumpre a proposta e escreve um romance épico de amor e paixão na Minas Gerais dos anos 40, recheando-o com outros personagens e um enredo tão envolvente quanto o do poema. Foi, segundo ele, um desafio interessante escrever este romance.(“O Vestido”, BRA, 2004, 121 min)O cinema brasileiro nunca esteve tão bom quanto agora; impecável, e o Vestido é intenso e envolvente. O filme é tão sublime quanto o poema. É um leve dois e pague um. Uma obra-prima e mais uma vez Paulo Thiago fez escolha acertada, já que em 2002, ano do centenário do Poeta Carlos Drummond de Andrade, o cineasta lançou o documentário POETA DE SETE FACES.

Lembrando que 2002 foi o ano de centenário do poeta, e até eu me inspirei no poema QUADRILHA para escrevinhar algo do gênero Dramaturgia

Por: Karenina Rostov. Blog: Letras Revisitadas.
O Vestido. 2004. Brasil. Direção: Paulo Thiago. Elenco: Gabriela Duarte (Bárbara), Ana Beatriz Nogueira (Ângela), Leonardo Vieira (Ulisses), Daniel Dantas (Fausto), Paulo José (Dr. Espanhol), Renato Borghi, Othon Bastos, Ana Lúcia Torre, Sura Berditchevsky, Stella Freitas. Gênero: Drama, Romance. Duração: 121 minutos.Inspirado em conto de Carlos Drummond de Andrade.

Inimigos Públicos (Public Enemies)

inimigos-publicos_posterIndo apenas pelo título, e pensando nos tais ‘atos secretos’ do nosso Senado, ficaria a impressão de que seria um documentário sobre eles. Piadinha podre, mas foi irresistível.

Claro que um filme estrelado por Johnny Depp ganha muita divulgação, assim já ficamos ciente da trama principal. E ele merece os holofotes! Por mostrar que é mais que um rostinho bonito. Que já está no patamar dos grandes atores. Daqueles que cada papel é único. Que por mais que o personagem anterior ainda esteja vivo na memória, tão logo começamos a vê-lo atuando com o recente, o outro se dissipa.

Mas não foi apenas o Depp que me motivou a assistir esse filme – Inimigos Públicos -, teve também em saber como mostrariam o início do FBI (Federal Bureau of Investigation). E não iriam mostrar esse início com um final desfavorável para eles. Assim, não há surpresas com o destino dos homens procurados. Nosso interesse fica em como chegaram a eles.

Se em plena década de 30 já utilizavam escutas… dá para imaginar o que usam atualmente nas investigações com todo o avanço tecnológico que há. Se o que querem são resultados, então não existe limites para consegui-los. Se posicionam-se como em estado de guerra, mais do que ‘Recolham os suspeitos de sempre!‘, também entram nessa dança: familiares, amigos, colaboradores… Se estão como numa guerra, às investigações por métodos racionais cedem a vez também para as torturas.

Esses homens procurados concentram-se em Chicago. Ali, são acobertados por um sistema corrupto. O que faz querer levá-los para serem julgados em outro estado. E são até levados às celas, mas acabam fugindo. John Dillinger (Johnny Depp), pelo carisma, pelo atrevimento, ganha o status de inimigo público number one. Sempre encontra meios de fugir. Por assaltar bancos, ganhou a simpatia do povão que sofre com a recessão.

Acontece que J. Edgar Hoover (Billy Crudup) quer, e muito, que o seu Departamento exerça um poder nacional. O que o leva a importar bons policiais. Um deles é o policial Melvin Purvis (Christian Bale). Usaram mais o olhar de Bale, para dar uma frieza maior ao seu personagem. Mas na cena onde se postou de frente ao Cinema, a mim, ficou a impressão que estava esperando seu par para irem dançar na Estudantina. Voltando ao Purvis, ele quase abandonou a caçada, por conta das baixas em seu contingente. Para continuar, pede por mais policiais, e de outros lugares.

Como o FBI, estava querendo mostrar serviço, nessa história, foram mesmo em cima de Dillinger e seu bando. Quanto aos policiais corruptores, deixaram para uma outra história.

Com as baixas também do lado de Dillinger, como também com o cerco se fechando, ele bem que poderia fugir.

Fugir… Adivinhem para onde ele queria ir morar? Affe! Bem que poderiam escolher outro lugar nesse roteiro. Mas… por conta dos pizzaoilos na política… o estigma que Bigs jogou no Rio de Janeiro, pelo jeito ganhou novo combustível.

O que reteve Dillinger de fato nos Estados Unidos, foi ter se apaixonado. Por Billie Frechette (Marion Cotillard).

Foi algo meio machista, como também um tanto frio, mas tenho que concordar com uma fala: ‘_Para isso, inventaram as prostitutas‘. Numa de que, quem escolhe levar esse tipo de vida, deveria evitar uma relação a dois mais séria, porque pode mantê-lo preso ao local, como deixá-lo vulnerável.

As atuações estavam de acordo com a época. Meio caricato, mas nada que comprometesse muito.

A trilha sonora foi muito bem escolhida. Com a Diana Krall atuando cantando.

O filme usou muito mais o período noturno para o cerco. O que fez o espetáculo dos tiroteios. Agora, houve uma dessas cenas, que me fez lembrar do que escrevi sobre o filme ‘Moscou em Chamas‘. A cena em questão era: de um lado, um dos procurados, com uma metralhadora em ação. Do outro lado, o Agente Purvis, também atirando, mas com uma pistola. O da metralhadora, caído, com o corpo já crivado de balas. Então, a câmera se posiciona por trás dele, mostrando que o Agente está bem próximo, de pé, e sem nenhuma bala. Nessas horas, dá até vontade de dizer: ‘_Milagre! Aleluia!‘ Assim, foi irresistível não rir. É! Eu realmente não entendo de armas.

O filme é bom. Agora, revê-lo? Só se for para tentar descobrir o nome da música que o Dillinger canta numa das fugas, enquanto guiava. Ah! Em destaque: a cena de Dillinger dentro da sala onde se concentravam as investigações sobre ele. É ótima!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Inimigos Públicos (Public Enemies). 2009. EUA. Direção: Michael Mann. +Elenco. Gênero: Crime, Drama, História, Romance, Policial, Thriller. Duração: 140 minutos. Baseado em livro-reportagem de Bryan Burrough.

Deadgirl

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Embora alguns possam rotular este como um filme de terror medíocre, senão mesmo ruim, eu o considero um bom drama, excelente objeto para algumas reflexões acerca da bestialidade humana – tema tão explorado por mim em meu blog e mesmo em outras análises da sétima arte.

Em Deadgirl temos dois amigos problemáticos e não-sociáveis com o mundo. Na escola não interagem com ninguém. Não obedecem regras do mundo. São invisíveis perante a existência. Entretanto, o vandalismo é a forma que encontram para dizer ao universo “Ei, estamos aqui!”, visto que o próprio sol e a própria lua viraram de costas para ambos.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontece, então não leia o conteúdo abaixo.

Um dia, como tantos outros, os dois resolvem matar aula para se divertirem. J.T – o que mais aceita a sua condição de esquisito e de abandonado por todos – sugere à Rickie – este não se vê como alguém esquecido, embora seja tanto quanto o seu amigo – que eles visitem um hospício abandonado.

Ao chegar ao local, os dois se embebedam e começam a destruir as coisas por pura diversão. Entre quebra de vidros e cadeiras arremessadas, os dois ouvem um barulho proveniente de um corredor. Um cachorro ameaça atacá-los, então eles correm e acabam por entrar numa sala onde uma mulher está deitada, amarrada e, aparentemente, viva!

Diante da cena, Rickie fica preocupado e deseja ir embora. Aquela mulher ali poderia representar problemas para ambos. Porém J.T. fica fascinado ao observar a mulher amarrada, em total submissão e sem poder fazer nada, com um olhar mórbido e cansado. Ao fazer um exame mais minucioso, J.T. acha a mulher bonita e começa a se excitar com a imagem.

Rickie deseja ir embora, porém quando J.T. começa a tocar a mulher, Rickie tenta impedi-lo e acaba levando um murro de seu melhor amigo. É o fim da amizade. Rickiei vai embora e J.T. fica sozinho com a mulher amarrada.

No outro dia na escola, J.T. diz que Rickie precisa voltar com ele ao local para mostrar algo indizível com palavras. Convencido, ambos voltam ao hospício e Rickie observa a mulher com o pescoço quebrado, porém ela ainda se mexe.  Sem entender, J.T. pega a arma de Rickie e dá três tiros na mulher. Ela continua movendo-se. Então J.T. explica que a mulher não morre – que na noite anterior ela começou a gritar e ele quebrou o seu pescoço por três vezes, porém ainda vivia.

Deadgirl

Ao saber que não há um limite para o fim da mulher, J.T. se excita cada vez mais com a tortura. Na contramão, Rickie está cada vez mais horrorizado e rompe em definitivo com o seu ex-amigo. As cenas de tortura não saem de dentro de si, ele pensa constantemente em libertar a mulher dos abusos sofridos. No dia em que planeja fazer isto, encontra um outro colega da escola transando com a pobre mulher amarrada, enquanto J.T. apenas observa, anestesiado pelo sofrimento da mulher morta-viva.

Na escola, Rickie arruma uma briga com o namorado da menina que ele é apaixonado. No meio da uma surra, Rickie oferece a oportunidade de ver algo único e leva o cara para ver a mulher no hospício. O fortão fica com medo, porém com a pressão de J.T. e de outros dois colegas da escola, ele vai manter relações com a defunta, que já está com o pescoço quebrado, com três buracos de bala no corpo, e cheia de hematomas. Acaba mordido por ela. É a vingança de Rickie através da mulher morta.

No outro dia, porém, o brigão começa a falecer e acaba por morrer. Eles então adivinham que a mulher é uma espécie de zumbi: quem ela morder também fica num estado semelhante ao seu. Então J.T. decide transformar uma nova mulher em zumbi para fazer de objeto de desejo junto com a outra.

Eles acabam por pegar a menina que Rickie está apaixonado. Rickie consegue salvá-la enquanto seus amigos morrem, porém ela é ferida. Antes de sair do hospício, Rickiei manifesta o quanto ele a ama. Porém ela repudia este amor e pede apenas para sair dali. Então J.T., ferido e a beira da morte, diz que ainda havia tempo para transformar ela num zumbi também, que ele poderia ter ela por todos os dias naquele mundo. Que no mundo real eles jamais conseguiriam algo assim por que eram rejeitados.

Ao término do filme vemos Rickie feliz na sala de aula. Ao término, ele se direciona para o hospício e lá está a garota de seus sonhos presa como a mulher anterior. Ele acolheu o conselho do falecido J.T. e aceitou o seu estado de invisibilidade.

Por incrível que pareça, este filme tem um objeto de crítica semelhante à uma grande obra, tanto da literatura quanto do cinema: Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Os mesmos demonstram o quão cruel pode ser o homem numa situação onde as leis, a ética e a moral não se aplica. Quando não há nada que possam repreender o homem, eis que ele revela o seu lado mais insano.

Neste filme o que observamos é exatamente isto. Se de um lado o mundo nunca deu bola para J.T., por que ele se importaria com regras agora? Se o caminho que eles trilharam até então era o mesmo dos outros, por que eles não eram aceitos por todos? Neste contexto, suas ações eram justificadas pela aceitação da negação de sua existência perante o universo. Neste caso, não há busca de construção de nada, apenas destruição, alívio e prazer imediato.

No “mundo real” ele era controlado, em seu mundo ele controlava: a punição da mulher morta era a punição para todos aqueles que lhe esqueceram. Era a raiva contida colocada para fora. Era a afirmação que ele precisava: se ninguém se importa eu também não preciso me importar. Adeus condutas leais, adeus leis. Temos o retrato da moral ao avesso.

Se no Ensaio Sobre a Cegueira o tema é tratato de forma filosófica e sociológica, neste Deadgirl o tema é tratado de forma antropológica. Aqui temos a vingança de um homem só. A criação de uma realidade única e exclusiva para o ser solitário arremessado num mundo despreparado para recêbe-lo. Embora Rickie não acreditasse em J.T. e embora ele quisesse mudar a forma como era vista por todos, ao término Rickie descubriu que J.T. tinha razão: eles não pertenciam aquele local.

Neste contexto, quem são os os loucos,  aqueles que estão do lado de fora ou aqueles que estão do lado de dentro desta bolha imensa chamada vida?

Enquanto filme o desenvolver é lento e por vezes cansativo, embora não menos instigante (é aquele filme que você deseja ver o final à todo o custo, embora visualize o visor algumas vezes para saber se ainda falta muito para acabar). Porém enquanto instrumento ele é muito bom. Neste caso, se não houver muitas opções para assistir, fique com este que você não irá se arrepender.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Link IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0896534/

Deadgirl. 2008. EUA. Diretor: Marcel Sarmiento. Roteiro: Trent Haaga. Charlotte Frogner, Shiloh Fernandez, Noah Segan, Michael Bowen, Candice Accola, Andrew DiPalma, Eric Podnar, Nolan Gerard Funk.

Død Snø

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Recordo que um amigo uma vez me confidenciou que gostaria de ver o círculo pegar fogo na recente tensão causada no oriente entre a Coréia do Norte e o Japão. Surpreso, questionei o motivo desta posição. Pois ele disse: “Pois aí surgiria uma terceira guerra mundial! Assim teríamos uma série de boas novas histórias para serem contadas à respeito deste tema! Novos romances e novos filmes! A companhia de Hitler já não oferece mais nada interessante para a cultura do século XXI”.

Ele estava errado. Mesmo com um tema que, aparentemente, parece que está esgotado, fui extremamente surpreendido com o filme que dá título à este post! Se trata de um filme de terror gore, thrash mesmo! Vem do Lado B de um vinil bem sem vergonha, de um artista que nunca ouvimos falar e cujo atrativo está no borrachão esverdeado. A temática é a mesma de sempre: jovens se reunem para passar um final de semana afastados da cidade grande com o único propósito de beberem e fazerem sexo. Lá coisas estranhas começam a acontecer e as vítimas começam a desaparecer uma a uma.

Parece maçante e clichê demais, não é mesmo? Pois não se enganem, pois o filme é muito divertido! As coisas estranham são nada mais nada menos que zumbis – e daí? – pois é, meu chapa, só que não são qualquer zumbi não! São zumbis nazistas! É isto mesmo, você não leu errado! Basta ver as fotos deste artigo!

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Um antigo batalhão do regime nazista se converteram em mortos-vivos e agora alastram as proximidades de onde encontram-se os jovens inocentes (burros) que buscam apenas um pouco de perversidade!

O que faz este filme ser diferente dos demais? São várias coisas:

1) Não se trata de um filme americano – eles sabem fazer bons filmes, mas pecam neste gênero (por isto a invasão de filmes orientais e mesmo outros, como “Deixe Ela Entrar ” são exemplos de como fazer um excelente filme de terror).

2) Diferente dos acampamentos de fim-de-semana de outros filmes, onde geralmente a paisagem é linda e o tempo é agradável, nesta filmagem o cenário é debaixo de neve.

3) Não estamos falando de qualquer tipo de zumbi: estamos falando de soldados treinados, regidos por um comandante maligno, impetuoso e voraz!

4) O filme não tenta lhe dar sustos, pois a própria história beira ao rídiculo e isto seria um desastre, portanto você encontrará um filme muito hilário (quase como se fosse uma comédia de terror) e também… muito (mas muito mesmo) nojento…

5) O banho de sangue e as mortes brutais!

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Colega, se você não tem estômago forte nem assista ao filme – ao menos, não depois de uma refeição  – caso contrário suas entranhas sairão por sua garganta. Tripas, sangue, cérebro, sangue, amputações, sangue, cabeças decepadas, sangue, intestino arrancado e muito sangue! Tudo isto sem desviar a câmera!

E mesmo assim você consegue dar boas risadas, como nas cenas finais, onde dois amigos resolvem sair da casa de inverno! Enfim, aos fãs do gênero, eu recomendo como uma opção de bom entretenimento – mas não vá pensar que após ver o filme você terá aprendido algo sobre o nazismo! Quem não gosta, passe para o próximo filme da lista!

Se relacionamos sangue e vinho com filmes vampíricos, com todo o glamour, romance e elegância com um refinado terror, podemos relacionar este filme apenas com sangue e cachaça de segunda linha!

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Link IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1278340/
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=9SQSijWiOsk

Død snø. 2009. Noruega. Diretor: Tommy Wirkola. Roteiro: Stig Frode Henriksen e Tommy Wirkola. Charlotte Frogner, Ørjan Gamst, Stig Frode Henriksen, Vegar Hoel, Jeppe Laursen, Evy Kasseth Røsten, Jenny Skavlan, Bjørn Sundquist, Ane Dahl Torp, Lasse Valdal. Duração: 91 minutos.

Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

Asas em sonhoNormalmente, os humanos sonham com a vida eterna, uma vida sem sofrimento ou dor, uma vida contemplativa na qual não sejamos vítimas nem do tempo, nem das circunstâncias.

Mas não Damiel.

Claro, ele não é humano! Evidente que ele deseja algo diferente dos humanos. Ou não?

Damiel é um anjo que observa a vida desde seu surgimento. Junto a seu amigo,  Cassiel, troca impressões sobre vidas alheias, mais ou menos felizes, mas vidas reais, histórias que se desenrolam com começo, meio e fim. Histórias cheias de sensações. Cores. Tempo limitado, sim, mas tempo sentido, vivido, real. Em sua existência contemplativa e sem grandes interferências, Damiel sente uma espécie de dor, uma espécie de impulso vital. Ele quer ser humano.

Este é o enredo de Himmel über Berlin, título original em alemão: O Céu sobre Berlim. Por se tratar de uma co-produção francesa, temos um segundo título, adotado em inglês e português, Asas do Desejo.

Segundo o diretor, Wim Wenders, o roteiro foi sendo escrito durante as filmagens, aos poucos. Mas a intenção era clara. Wenders queria se reencontrar com sua pátria. Andou pelas ruas da cidade, coletando impressões e notando que havia muitas e muitas estátuas de anjos pela cidade. A principal delas, a Siegessäule (coluna da vitória), também conhecida – mas só pelos Berlinenses, como Goldne Else (Elza dourada), aparece quase como personagem, apoiando Damiel e, principalmente, Cassiel.

Ao mesmo tempo que queria se reencontrar com a cidade, Wenders queria recuperar sua intimidade com o idioma, depois de uma temporada intensa nos EUA. Leu Rilke, um dos poetas mais talentosos para falar da existência. E, que coincidência (!), os textos eram repletos de figuras angelicais. Definida a perspectiva, Wenders contou ainda com mais uma inspiração literária: Peter Handke. São dele os poemas que, declamados por Bruno Ganz (Damiel) ao longo do filme, dão a ele o caráter pelo qual ficou conhecido: filme-poema.

Als das Kind...(…)

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo estava na alma,
e todas as almas eram uma.

(…)

Quando a criança era criança,
era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não lá?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e cheiro é
apenas uma imagem do mundo frente ao mundo?
Há de fato o mal, e pessoas,
que realmente são as más?
Como pode ser, que eu, que sou,
antes de ter me tornado, não era,
e que eu, uma vez, que sou,
não mais serei quem sou?

(…)

Numa participação muito mais do que simpática, Peter Falk faz o papel de um anjo que já deu o passo para a mortalidade. Adorável. Solveig Dommartin, na época namorada de Wenders, faz Marion, a trapezista melancólica que é a última motivação que Damiel precisava para dar seu passo além dos muros do mundo cinzento da eternidade (por conta de que muitos interpretam o filme de forma política…).

Mas eis o que Damiel realmente quer:

É maravilhoso viver só em espírito e dia após dia pela eternidade … (acompanhando) das pessoas puramente o que lhes for espiritual – mas, às vezes, minha eterna existência etérea é demais. Então quero deixar de flutuar eternamente adiante, quero sentir um peso em mim que suspenda minha falta de fronteiras e me fixe à terra.

(…)

Não que eu queira sair concebendo um filho ou plantando uma árvore, mas seria interessante, ao chegar em casa, alimentar o gato.

(…)

Ou, finalmente, sentir como é tirar os sapatos sob a mesa e esticar os dedos dos pés, descalço, assim. (Simplesmente AMO este trecho!)

(…)

Afinal, estive tempo demais do lado de fora, tempo suficiente ausente, o suficiente fora do mundo! Para dentro da história do mundo!

É assim que Damiel me lembra, por muitas vezes, que a humanidade tem uma beleza peculiar. As sensações valem a pena. Por isso, ele declara ao final:

Sei, agora, o que nenhum anjo sabe...

Agora, eu sei o que nenhum anjo sabe“…