Horas de Verão (L’heure d’été)

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Onde existe morte, existe também ressurreição“. (Olivier Assayas)

Antes, quero falar de um tipo de abandono. Em relação aos familiares mais velhos. Em só visitá-los em datas ditadas pela sociedade. Por mais afazeres, compromissos… querendo, encontrará um espaço na agenda para uma visita fora das datas de praxe: aniversário, Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais… Nem sempre, há cobranças por parte deles, mas com certeza lhes agradaria serem mais visitados. Como no caso da personagem de ‘Horas de Verão‘. Vendo Hélene (Edith Scob) acenar para a família na despedida após o almoço dos seus 75º aniversário, bateu uma tristeza. Eles tinham pressa de irem embora. E isso é algo tão comum, e no mundo real. Mas o foco do filme é na partilha dos seus bens entre seus filhos.

Hélene, como a pressentir que estaria perto do fim, aproveitou essa reunião para conversar com o seu filho mais velho, Fredéric (Charles Berling). O único, dos três filhos, que ainda mora na França. Pedir a ele que cuidasse da partilha dos bens. Ela sabia que após a sua morte, a casa seria vendida. Como tudo mais de valor dentro dela. Ciente do valor de alguns bens, ela lhe deu um inventário particular. Os valores sentimentais dos objetos sendo expostos.

Era como se Hélene só esperasse por um livro onde catalogou as obras de um tio, o pintor Paul Bertier. Chegou a ir a uma das conferências, e se foi. Como disse ainda no seu aniversário, à empregada já idosa: que com ela iriam apenas as emoções, as histórias, os segredos… E é mesmo o que levamos. Sem saber, o que ficará de nós naqueles que continuam vivos. Em muitas histórias familiares, quando um idoso morre, com ele também se vai o único laço que unia os outros familiares.

museu d`orsayNão se pode mesmo interferir na vida adulta dos filhos. Pois cada um precisa construir a sua história. Hélene viveu a sua. Ela tratou apenas de resguardar uma quantia para sua serviçal. Os filhos, como herdeiros legítimos, que cuidassem do inventário oficial. Para diminuir o valor do inventário, buscaram por um Museu, o d’Orsay. Outro ponto interessante nessa história. Conhecer um pouco o trabalho nos bastidores de um museu: aquisição do acervo, restauração das obras…

Seus outros dois filhos, eram:
- Adrienne (Juliette Binoche, loira), uma Designer. Morava em Nova York. Não tinha filhos.
- Jerémie (Jerémie Renier), um empresário que estava sentando base na China. Por conta dos salários baixos pagos por lá.

Fredéric foi voto vencido em não querer vender a chácara da família. Pois seus irmãos queriam vender tudo, e rápido. Adrienne não quis o jogo de chá, em porcelana que sua mãe, em vida, disse que seria dela. Além da bandeja de prata, ficou com um bule de prata. Algo que Hélene falou que ela não gostaria por ser uma obra de arte. Por Adrienne gostar de um designe moderno. No qual ela rebateu. Gostava do funcional.

Paralelo ao inventário, Fredéric está tendo trabalho com a filha adolescente. Uma rebelde sem causa. Como também, em defender suas ideias lançadas num livro. Sobre política econômica. Talvez, por isso, não contestou seus irmãos. Dos três, era o mais apegado a chácara, os quadros, os objetos… Por ele, tudo continuaria em família. Como estava até antes da mãe falecer.

O filme é de uma simplicidade ímpar no contar, em mostrar uma história comum. Mesmo contendo objetos valiosos,  como herança, ela é igual a tantas outras. A mim, me fez lembrar de muitas cenas reais. Por ter me identificado tanto, que eu amei ‘Horas de Verão‘. Mas o filme é para um público mais seleto. Daqueles que gostam de ouvir histórias da família, em reuniões em torno de uma mesa. Uma pena! Mas até nisso o Diretor, Olivier Assayas, pensou. Está no final do filme. Desse excelente filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Horas de Verão (L’heure d’été). 2008. França. Direção e Roteiro: Olivier Assayas. Gênero: Drama. Duração: 103 minutos.

Há Tanto Tempo que te Amo (Il y a longtemps que je t’aime)

Ha Tanto Tempo Que Te AmoPhilippe Claudel estréia na direção em grande estilo. Kristin Scott Thomas é Juliette, que sai da prisão após cumprir pena por um crime terrível e se hospeda na casa da irmã criando um certo conflito na harmonia da família.

Il y a longtemps que je t’aime” – que também é a letra da canção que pontua o filme – contém um saboroso desfile de interpretações exímias (incluindo a engraçada menininha vietnamita que ajuda a amenizar a amargura da estória e parece ter nascido para brilhar na tela grande) e sequencias muito naturais e bem filmadas como as da festa no campo.

O roteiro interessante mantém a atenção de quem vê este curioso jogo de crime, culpa, castigo e julgamento. Dostoievski aqui não é citado à toa.

Carlos Henry

OS DESAFINADOS

Chovendo, inverno, não precisei ser muito criativa para ter a brilhante idéia de colocar em dia os filmes que perdi no circuitão porque corri atrás dos alternativos. Assim nada como Rodrigo Santoro embaixo das cobertas com chocolate quente!

E isso foi tudo o que realmente aproveitei deste filme, o prazer de estar com Rodrigo Santoro, Claudia Abreu e Selton Melo num domingo chuvoso e friorento num cantinho quentinho. E eu que jamais falo mal do cinema nacional poderia ter visto algo muito melhor. Não é que o filme seja ruim, mas poderia ser bem menor. Vale pelas interpretações enxutas, na medida.Segundo meu irmão a culpa é da Bossa Nova, um tipo de música híbrida de samba e jazz tinha que dar nisso e a culpa, claro não é do samba… Se temos que eleger um culpado que seja o excesso da minha expectativa na direção e roteiro do Walter Lima Jr que tentando gerar expectativa, me rendeu um desapontamento.
São 5 amigos que formam uma banda de bossa nova, em busca de uma voz feminina que surge como que por acaso. Ela aparece como flautista, logo surge cantora e musa e os rapazes vão e voltam entre os anos 60 e 2000 tantas vezes quantas são necessárias para nós não entendermos o que exatamente as idas e vindas estão tentando mostrar. Logo de início o susto é encontrar a voz de Selton Melo em Arthur Kohl, a dublagem nítida ainda que sincronizada, com certeza teve um propósito que realmente não consegui saber qual e me gerou um certo desconforto. Passei o filme inteiro tentando desvendar quais são nos anos atuais as personagens que vimos jovens nos anos 60.
Walter nos mostra algumas coisas que estamos já acostumados a ver na vida real como o amigo “boa pinta” e talentoso que ainda por cima “pega” as mulheres mais bonitas e tem sempre aquele jeitinho de ”tadinho” levemente deprimido. Tem aquele que não dá sorte com as mulheres e que embora sofra, não transforma isso em drama. Davi (Ângelo Paes Leme) passa a vida à sombra do carisma de Joaquim (Rodrigo Santoro), apesar de serem parceiros na música, só dá Joaquim e algumas vezes percebemos o olhar melancólico de um sobre a vida cheia de tudo do outro que ainda reclama…
Glória, (bem) vivida por Cláudia Abreu, a bela e independente desbravadora de Manhattan, faz um contraponto com a não menos bela e ligeiramente sem graça por opção e anulação, Luíza (Alessandra Negrini). Imagino que o filme queira mostrar as diferenças entre comportamentos femininos, pois se uma está no exterior sozinha buscando seu sonho americano, a outra patrocina material e emocionalmente a viagem do amado em busca do sonho dele. Imagino que o filme queira mostrar as semelhanças entre o que se desiste e o que não se insiste. A destemida Glória que reconhece no texto “não saber se despedir” a despeito de saber fazer pirraça, provocar, ter ousadia para tomar banho de banheira diante dos amigos do namorado e do próprio e vai aceitando aquele amor pela metade do grande amor da sua vida.
Os desafinados em certos momentos parece ser isso, a história do sonho americano que não dá certo e nunca se sabe exatamente porque… A história de quem quando está aqui pensa que deve ir para lá e quando está lá só pensa em voltar… A história de quem passa a vida inteira dividido entre o que se sonha e o que se realiza.

Quem pareceu não insistir na América é quem está profissionalmente melhor colocado. Dico (Selton Melo) se não vive uma carreira interessante no cinema está “de boa” com a TV e as amizades antigas servem para imaginar um especial que lhe renda ibope e para os antigos companheiros apenas lembranças. Dois mil reais é quanto vale a imagem de todos eles, afinal, o investimento do esperto diretor segundo ele próprio é grande! Achei interessante a sutileza de ser justamente esta personagem que representava a esquerda, que faz um filme sobre reforma agrária o qual envia clandestinamente para fora país, uma vez que o golpe militar chegou juntinho com a finalização do filme. O filme ganharia um prêmio no festival de Moscou deixando seu diretor aborrecido. Afinal, neste filme todo querem sossego e sucesso com “algum trocado pra dar garantia”. Dico, indo pra Nova Iorque, promete comprar as entradas do Carnegie Hall, onde a música composta pelos amigos será vai ser tocada após a venda dos direitos para um editor americano. Dico compra um único ingresso – o seu próprio. Ele parece sempre deslocado, sempre sobrando… É o único não músico . É o único que como sonho tem apenas ser bem sucedido usando uma câmera. Ele não é visto com namorada e insiste em ficar de vela para os beijos alheios. Ele acompanha o grupo e filma muita coisa que permanece como material inédito, o que já nos mostra que nossos desafinados não conseguirão o almejado sucesso retumbante.

Os desfinados é não é um filem sobre bossa nova (?) Seria um filme sobre não eram apenas os ricos que faziam bossa nova, ou nem todos se tornaram famosos com a bossa nova ou ainda a ditadura não respetiou sequer a bossa nova?

Este filme tem vários elementos interessantes porem parece faltar liga entre eles. Algumas coisas como por exemplo cantar “Copacabana Princesinha do Mar” no Central Park parece artificial embora não seja inverossímel… Mostrar o ambiente que cada um dos membros da banda deixou para sublinhar que não chegariam onde sonharam. E quando pensamos que estamos diante de um filme sobre o sonho americano, chega a repressão, a ditadura no Brasil e fora dele. Fala-se do músico que vende os direitos da sua música. Mostra o editor que faz a sua versão sem estar nem aí pro que a letra original queria dizer. Fala da inveja entre amigos, dos que têm tudo e constroem pouco por permanecerem divididos. É assim o Joaquim de Rodrigo Santoro: dividido entre um amor de verdade realizado e concreto e a paixão pelo inusitado e os dois sentimentos são tão genuínos que a pergunta parece ser: será que ele vai conseguir fazer uma escolha? Luíza também terá uma punição por aceitar a metade do que lhe cabe e a gente fica contente por ver como Alessandra Negrini pode simplesmente “desaparecer” quando solicitado pela direção.Por último é preciso falar sobre o único músico “feliz” nesta história, o ínico músico com sorriso de músico e capaz de olhar para Joaquim com a leveza que música nos dá: Geraldo, interpretado por Jair Oiveira, que acha linda a filha do amigo tão invejado por um e desdenahado por outro e que confessa-se louco para ter um filho, porem mais tarde, daí uns 2 anos… E finalmente podemos dizer que os desafinados fala sobre música.

Rozzi Brasil.

OS DESAFINADOS. 2006. Brasil. Direção: Walter Lima Jr. Gênero: Comédia, Musical, Romance. Duração: 139 minutos.

De repente, Califórnia (Shelter)

shelterZach e Shawn (Trevor Wright e Brad Rowe) são amigos de infância e surfistas. Zach é artista, mas precisa cuidar do pequeno sobrinho e precisa adiar seus sonhos. Shaun é escritor rico e gay assumido. A união dos dois provocará conflitos com a família e a namorada de Zach que terá de conciliar responsabilidade, amor e projetos futuros.

Shelter” de Jonah Markowitz é um filme terno, delicado e tenso, mas com a dose de preconceito exata para os nossos tempos, o que garante um desfecho feliz e previsível para o deleite da platéia.

Não poderia ser de outra forma, porque é um belíssimo filme romântico de verão para ficar na memória e assistir sempre e em qualquer momento emocional.

Carlos Henry

Marley e Eu (Marley & Me)

cartaz_marley-e-euUm homem casado, uma esposa zelosa, e a casa vazia. E um cão. Adoro cães, posso assistir ao filme pela ótica canina ou pela humana. Uma será doce e outra meio amarga. Mas acredito que em um parágrafo cabem ambas. Cão-binação.

Ele é um jornalista meia-boca, cheio de sonhos que anda num carrinho europeu quebrado e está casado.  E ela não consegue, ou não quer engravidar. Compra um cachorrinho, lindo, fofo, batizado de Marley. Um labrador cor de caramelo, totalmente indisciplinado. Cão-fusão.

O animal domina a casa de maneira completa, é um grande destruidor e os “pais” fazem-lhe as vontades todas. Enquanto isso o amigão – solteiríssimo- é repórter-investigativo e vive viajando. Cenas e cenas do animal arrebentando com todos os cômodos da residência, eu morri de rir. Cão-tinuação.

Até que ele numa enrascada total, tenta mudar de vida. Abandona os sonhos e resolve mudar para um condomínio chatésimo, mas seguro. E ela depois de um aborto, engravida. Novos takes do bicho se alimentando de mangas, almofadas, e até um presente de ouro. Arrebenta tudo, quebra até a paciência de ambos. Cão-tusão.

Ele recebe uma proposta irrecusável, muda-se para uma cidade fria e o ambiente de trabalho idem. A moça que sempre foi linda, entrega-se apenas ao trabalho. E Marley prossegue na sua saga de dono-da-casa sem limites ou prisões. O carro do repórter só vai melhorando. Cão-ciliação.

As crianças nascem e vão crescendo, umas briguinhas aqui e ali. O ator é muito simpático, gente boa, mas sem ação. Gosto quando ele escreve sobre o seu melhor amigo, o cão. Em vez de rivalizar por espaço com os novos rebentos, o Marley torna-se o melhor amigo deles. Não há cão-petição.

E a vida linear deles passa, com trabalho garantido, crianças lindas e um velho animal. Agora se arrastando, passando mal pela casa. O que toca as pessoas é a idealização de uma família padrão. Todos querem amar e serem amados. E somente um cão consegue fazer isso de maneira incondicional. Mas cães duram pouco, no máximo –os grandes- uns quinze anos. E aí? Final com muita cão-paixão.

O que há de bom: divertidas cenas das estripulias do labrador
O que há de ruim: a vidinha normal do casal não dá espaço para sonho mais altos
O que prestar atenção: eu vi uns quatro cães diferentes fazendo o Marley, a produção me respondeu que foram 22 e metade deles, filhotes
A cena do filme: o final lacrimejante, como eu já disse, amo cães

Cotação: filme bom (@@@)

COBRA

Deu Zebra! (Racing Stripes)

racing-stripesUm filhotinho de zebra perde-se do circo numa noite de tempestade e é salvo por um fazendeiro (Bruce Greenwood), famoso treinador de cavalos precocemente aposentado.
Chamado de Stripes e criado pela filha do fazendeiro, o filhote logo faz amizade com os outros animais da fazenda e sente-se em casa. Mas há um único problema: Stripes pensa que é um cavalo, e decide treinar para ser um campeão de corridas. Diante da sua determinação, todos os animais da fazenda vão ajudá-lo
.”

De início, bateu um: ‘Animais que falam e numa fazenda?’ Por me fazer lembrar de ‘Babe, O Porquinho’… Mas até pela gostosa companhia de um sobrinho, resolvi curtir o filme. Se no outro, havia um pato roubando a cena, nesse há um pelicano; e chamado Ganso. Também há outros coadjuvantes engraçadíssimos, em especial, uma dupla de insetos.

Enfim, um divertido sessão pipoca!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Deu Zebra! (Racing Stripes). 2005. EUA. Direção: Frederik Du Chau. Gênero: Aventura, Drama, Comédia, Esporte. Duração: 102 minutos.