Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

Asas em sonhoNormalmente, os humanos sonham com a vida eterna, uma vida sem sofrimento ou dor, uma vida contemplativa na qual não sejamos vítimas nem do tempo, nem das circunstâncias.

Mas não Damiel.

Claro, ele não é humano! Evidente que ele deseja algo diferente dos humanos. Ou não?

Damiel é um anjo que observa a vida desde seu surgimento. Junto a seu amigo,  Cassiel, troca impressões sobre vidas alheias, mais ou menos felizes, mas vidas reais, histórias que se desenrolam com começo, meio e fim. Histórias cheias de sensações. Cores. Tempo limitado, sim, mas tempo sentido, vivido, real. Em sua existência contemplativa e sem grandes interferências, Damiel sente uma espécie de dor, uma espécie de impulso vital. Ele quer ser humano.

Este é o enredo de Himmel über Berlin, título original em alemão: O Céu sobre Berlim. Por se tratar de uma co-produção francesa, temos um segundo título, adotado em inglês e português, Asas do Desejo.

Segundo o diretor, Wim Wenders, o roteiro foi sendo escrito durante as filmagens, aos poucos. Mas a intenção era clara. Wenders queria se reencontrar com sua pátria. Andou pelas ruas da cidade, coletando impressões e notando que havia muitas e muitas estátuas de anjos pela cidade. A principal delas, a Siegessäule (coluna da vitória), também conhecida – mas só pelos Berlinenses, como Goldne Else (Elza dourada), aparece quase como personagem, apoiando Damiel e, principalmente, Cassiel.

Ao mesmo tempo que queria se reencontrar com a cidade, Wenders queria recuperar sua intimidade com o idioma, depois de uma temporada intensa nos EUA. Leu Rilke, um dos poetas mais talentosos para falar da existência. E, que coincidência (!), os textos eram repletos de figuras angelicais. Definida a perspectiva, Wenders contou ainda com mais uma inspiração literária: Peter Handke. São dele os poemas que, declamados por Bruno Ganz (Damiel) ao longo do filme, dão a ele o caráter pelo qual ficou conhecido: filme-poema.

Als das Kind...(…)

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo estava na alma,
e todas as almas eram uma.

(…)

Quando a criança era criança,
era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não lá?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e cheiro é
apenas uma imagem do mundo frente ao mundo?
Há de fato o mal, e pessoas,
que realmente são as más?
Como pode ser, que eu, que sou,
antes de ter me tornado, não era,
e que eu, uma vez, que sou,
não mais serei quem sou?

(…)

Numa participação muito mais do que simpática, Peter Falk faz o papel de um anjo que já deu o passo para a mortalidade. Adorável. Solveig Dommartin, na época namorada de Wenders, faz Marion, a trapezista melancólica que é a última motivação que Damiel precisava para dar seu passo além dos muros do mundo cinzento da eternidade (por conta de que muitos interpretam o filme de forma política…).

Mas eis o que Damiel realmente quer:

É maravilhoso viver só em espírito e dia após dia pela eternidade … (acompanhando) das pessoas puramente o que lhes for espiritual – mas, às vezes, minha eterna existência etérea é demais. Então quero deixar de flutuar eternamente adiante, quero sentir um peso em mim que suspenda minha falta de fronteiras e me fixe à terra.

(…)

Não que eu queira sair concebendo um filho ou plantando uma árvore, mas seria interessante, ao chegar em casa, alimentar o gato.

(…)

Ou, finalmente, sentir como é tirar os sapatos sob a mesa e esticar os dedos dos pés, descalço, assim. (Simplesmente AMO este trecho!)

(…)

Afinal, estive tempo demais do lado de fora, tempo suficiente ausente, o suficiente fora do mundo! Para dentro da história do mundo!

É assim que Damiel me lembra, por muitas vezes, que a humanidade tem uma beleza peculiar. As sensações valem a pena. Por isso, ele declara ao final:

Sei, agora, o que nenhum anjo sabe...

Agora, eu sei o que nenhum anjo sabe“…