Normalmente, os humanos sonham com a vida eterna, uma vida sem sofrimento ou dor, uma vida contemplativa na qual não sejamos vítimas nem do tempo, nem das circunstâncias.
Mas não Damiel.
Claro, ele não é humano! Evidente que ele deseja algo diferente dos humanos. Ou não?
Damiel é um anjo que observa a vida desde seu surgimento. Junto a seu amigo, Cassiel, troca impressões sobre vidas alheias, mais ou menos felizes, mas vidas reais, histórias que se desenrolam com começo, meio e fim. Histórias cheias de sensações. Cores. Tempo limitado, sim, mas tempo sentido, vivido, real. Em sua existência contemplativa e sem grandes interferências, Damiel sente uma espécie de dor, uma espécie de impulso vital. Ele quer ser humano.
Este é o enredo de Himmel über Berlin, título original em alemão: O Céu sobre Berlim. Por se tratar de uma co-produção francesa, temos um segundo título, adotado em inglês e português, Asas do Desejo.
Segundo o diretor, Wim Wenders, o roteiro foi sendo escrito durante as filmagens, aos poucos. Mas a intenção era clara. Wenders queria se reencontrar com sua pátria. Andou pelas ruas da cidade, coletando impressões e notando que havia muitas e muitas estátuas de anjos pela cidade. A principal delas, a Siegessäule (coluna da vitória), também conhecida – mas só pelos Berlinenses, como Goldne Else (Elza dourada), aparece quase como personagem, apoiando Damiel e, principalmente, Cassiel.
Ao mesmo tempo que queria se reencontrar com a cidade, Wenders queria recuperar sua intimidade com o idioma, depois de uma temporada intensa nos EUA. Leu Rilke, um dos poetas mais talentosos para falar da existência. E, que coincidência (!), os textos eram repletos de figuras angelicais. Definida a perspectiva, Wenders contou ainda com mais uma inspiração literária: Peter Handke. São dele os poemas que, declamados por Bruno Ganz (Damiel) ao longo do filme, dão a ele o caráter pelo qual ficou conhecido: filme-poema.
Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo estava na alma,
e todas as almas eram uma.
(…)
Quando a criança era criança,
era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não lá?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e cheiro é
apenas uma imagem do mundo frente ao mundo?
Há de fato o mal, e pessoas,
que realmente são as más?
Como pode ser, que eu, que sou,
antes de ter me tornado, não era,
e que eu, uma vez, que sou,
não mais serei quem sou?
(…)
Numa participação muito mais do que simpática, Peter Falk faz o papel de um anjo que já deu o passo para a mortalidade. Adorável. Solveig Dommartin, na época namorada de Wenders, faz Marion, a trapezista melancólica que é a última motivação que Damiel precisava para dar seu passo além dos muros do mundo cinzento da eternidade (por conta de que muitos interpretam o filme de forma política…).
Mas eis o que Damiel realmente quer:
… É maravilhoso viver só em espírito e dia após dia pela eternidade … (acompanhando) das pessoas puramente o que lhes for espiritual – mas, às vezes, minha eterna existência etérea é demais. Então quero deixar de flutuar eternamente adiante, quero sentir um peso em mim que suspenda minha falta de fronteiras e me fixe à terra.
(…)
Não que eu queira sair concebendo um filho ou plantando uma árvore, mas seria interessante, ao chegar em casa, alimentar o gato.
(…)
Ou, finalmente, sentir como é tirar os sapatos sob a mesa e esticar os dedos dos pés, descalço, assim. (Simplesmente AMO este trecho!)
(…)
Afinal, estive tempo demais do lado de fora, tempo suficiente ausente, o suficiente fora do mundo! Para dentro da história do mundo!
É assim que Damiel me lembra, por muitas vezes, que a humanidade tem uma beleza peculiar. As sensações valem a pena. Por isso, ele declara ao final:
“Agora, eu sei o que nenhum anjo sabe“…


Uau! Valeu a pena esperar! Ficou lindo!
E por demais motivador para ver esse filme
Parabéns pelo texto, edição!
Só um aviso: é um filme lento, com grande parte da fotografia em preto e branco, cheio de frases desconexas (os pensamentos ouvidos pelos anjos), diversos idiomas e referências até a Homero e Columbo (os mais velhinhos vão se lembrar do detetive)! Foi lançado em 1987, ou seja, é um jovem moço de 22 anos.
Mas eu adoro, amo, venero. Mas eu perdôo os que dormirem durante a sessão. Será um sono com anjos!
Oi, Elaine!
Também é um dos filmes que mais me marcou… Recentemente baixei uma cópia na rede para revê-lo…
Fiquei com uma dúcvida sobre qual o idioma original do filme, já que começa com o belíssimo poema sendo escrito em alemão ao tempo em que a voz narra em francês…
Seu lindo texto faz jus à bela obra-prima de Win Wenders!
Oi Edu!
A Elaine está em viagem. O mais provável, é estar de volta em setembro.
E grata por sua participação!
Volte sempre!
Oi, Lella!
E você poderia tirar minha dúvida quanto a esse filme?
Olá Valéria e Edu!
Asas do Desejo é uma producão franco-alemã. Eu já assisti a diferentes versões e numa delas havia mais francês: principalmente Marion, que é francesa, falava muito mais neste idioma. Concluo que esta é a versão base da cópia que vc tem, Edu.
A princípio, cada personagem fala seu próprio idioma no filme: Peter Falk e Nick Cave – inglês, Marion e seus colegas no circo – francês…
O autor do(s) poema(s), Peter Handke, por sua vez, é austríaco, ou seja, o idioma original é alemão.
Direto da Suíca (sem cedilha no teclado!!!) para vcs! E amanhã, em BERLINNNNNNNNNNNNNNNNNN!!!
Valeu, Elaine!
Obrigado pela resposta… Estava mais confuso ainda: a versão que baixei que começa com os versos narrados em francês tem os letreiros iniciais em alemão… já a que começa com o poema narrado em alemão tem os letreiros em inglês!!! É pra me deixar doido!!!
Curta bastante sua viagem!!!