Não espere por um filme fácil. Afinal trata-se de Lars Von Triers numa espécie de terror-fantástico-cabeça num estilo que lembra Zulawski e Tarkovski.
A belíssima e perturbadora abertura, que é a cena-chave, mostra o casal copulando em closes explícitos enquanto sua prole inocente salta da janela para a morte ao som de uma ária conhecida (ópera “Rinaldo”, de Handel) que também está no epílogo.
A partir daí, a desesperança e dor da raça humana representada por este casal de personagens sem nome reinará sem tréguas em meio a imagens chocantes e gravuras diabólicas, ilustrando a essência de uma maldade congênita e assustadora.
Há uma dolorosa redenção no sexo que culmina em sangue ejaculado no lugar do esperma e na tesoura que extirpa o clitóris em sequencias de cair o queixo.
Nesta sarabanda de momentos assombrosos com toques misóginos e alusões a um Éden sinistro, o bicho-ruim encarnado num cão danado horripilante articula: “O caos reina!” Lars então lança uma questão na frase polêmica: “A natureza é a igreja de Satanás”. O mundo seria mesmo regido pelo mal? A única reação que o espectador não terá quando os créditos subirem será a indiferença.
Carlos Henry.
Anticristo (Antichrist). 2009. Dinarmarca. Direção e Roteiro: Lars von Trier. Elenco: Willem Dafoe (He), Charlotte Gainsbourg (She). Gênero: Drama, Horror. Duração: 109 minutos
São muitas metáforas lançadas neste filme de Lars von Trier. O da NATUREZA é a espinha dorsal por ela ser infinita. A Natureza humana, por exemplo, pode ser boa ou má; falsa ou verdadeira.
Infelizmente o caos reina. Na destruição da natureza quem sairá perdendo é a natureza do homem. Os homens perderam o controle e as rédeas de quase tudo: um matando o outro; um mutilando o outro – a mãe desnaturada aleijando os pés de seu próprio rebento; o anticristo de prontidão fazendo um inocente errar o caminho que ele deve andar propositalmente. E salve-se quem puder!