Eu Odeio o Dia dos Namorados (I Hate Valentine’s Day)

eu-odeio-o-dia-dos-namoradosEu gosto de Comédia Romântica. Dai, encaro sem susto cada uma que aparece. Se for boa, já será lucro. Mas quem não gosta desse gênero de filme, melhor passar longe dessa aqui. Para quem curte, e não tenha outra opção mesmo, verá com essa algo… diria meio surreal. Já conto o que é.

Muito embora o que me atraiu mesmo para assistir esse filme foi o título: ‘Eu Odeio o Dia dos Namorados‘.

Começa o filme, e eu quase abandono. Ao ver a protagonista em cena, cheguei a exclamar: ‘Mas o que é isso? Temos uma Barbie Balzacquiana aqui? Como alguém pode atuar tão mal assim?‘. Mesmo sendo ela a Diretora e Roteirista… Faltou bom senso.

I Hate Valentine's DayResolvi relaxar, e ver no que daria aquilo. Até para escrever depois. E o ator que faria par com ela, é bonito; se bem que em certos momentos me fazia lembrar da cara de panaca do Arnold Schwarzenegger. Ele nesse filme, ficou perdidaço. Aliás, estavam quase todos plásticos demais. Como falei no início, a sensação era de estar assistindo algo surreal. Pareciam saídos dos anúncios de revistas antigas. O que me levou a rir.

A história do filme vai das vésperas de um Dia dos Namorados a outro. No início, a figuraça Genevieve (Nia Vardalos) adora essa data. Por ser o dia em que mais fatura na sua loja de flores. Confiante, porque os homens deixam para a última hora comprar um mimo para a amada.

Mas ela mesmo não tem namorado. Optou por só ter relacionamentos que não ultrapassem cinco encontros. Que depois é ela quem termina a relação. Acredita que encontrou a chave da felicidade. E para ter certeza disso, se cerca de pessoas infelizes no amor. Que viram um prato cheio para ela: os ter na dependência de seus conselhos.

Até que, surge o Greg (John Corbett). Um cara que sempre buscou por romances duradouros, mas não obtinha sucesso. Assim, se era infeliz no Amor, iria tentar ter sorte nos negócios… Resolve abrir um restaurante espanhol num ponto onde outros fracassaram. E aceita ter os cinco encontros com Genevieve. Até para aprender com ela a agir assim dali pra frente.

A mestre acaba ensinando tudo. E ai… cai no vazio. Ou melhor, vê que toda a sua vida era de aparentar felicidade. Bem, o motivo que a levou a agir assim, ficou forçado demais para alguém da idade dela. Se ainda fosse uma adolescente, seria plausível. No caso dela, indicaria um divã, e há tempo.

Com o final… valeu ter assistido até o final, só o fato do Greg me emocionar ai. Sou uma romântica incurável. Foi lindo o que ele fez! Mas deixem passar na tv, para ver esse filme. Não percam tempo com ele não.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Eu Odeio o Dia dos Namorados (I Hate Valentine’s Day). 2009. EUA. Direção e Roteiro: Nia Vardalos. +Elenco. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 89 minutos.

Gigante: o amor pelas câmeras de supermercado

Por: Simão Zygband.
Gigante_filme-uruguaioGigante, filme que fui assistir neste final de semana. Trata-se de uma produção uruguaia (onde se passa o filme), em conjunto com Argentina, Alemanha e Espanha.

Gigante é gostoso de ver. Retrata a vida simples (e sofrida) de um segurança de supermercado, Jara (Horacio Camandule), que se apaixona anonimamente por uma faxineira, Julia (Leonor Svarcas), a quem monitora pelas câmeras de vigilância.

Não é um filme brilhante, mas mostra como vivem pessoas humildes, em suas casas (onde passam o menor tempo de suas vidas) e o seu local de trabalho (ou mais de um, como é o caso de Jara, a personagem principal, que faz bico de leão de chácara, nos finais de semana, em uma danceteria).

Pela imagens, pela singeleza do amor que nasce repentinamente por detrás das câmeras de segurança, é que vale a pena dedicar 90 minutos do seu dia para assistir a este filme.

Informações Técnicas
Título no Brasil: Gigante
Título Original: Gigante
Direção e Roteiro: Adrián Biniez
País de Origem: Uruguai
Gênero: Comédia / Drama
Tempo de Duração: 90 minutos
Ano de Lançamento: 2009

Beleza Americana (American beauty)

american beauty 2American beauty é um tipo de rosa muito cultivada nos Estados Unidos, com uma peculiaridade: ela não possui espinhos nem cheiro, uma metáfora sobre o vazio do americano comum.

O vazio tratado com humor negro e maturidade.

Acordar todos os dias cedo, tomar café com a família, dar um beijo de despedida na esposa, fingir ser pai com a filha na adolescência, ir pro emprego enfadonho que você odeia, voltar pra casa, encarar um jantar cheio de papos falsos e dormir.

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A rotina acaba com as pessoas.

A corrosão começa quando menos se espera, e é por meio de detalhes minúsculos que ela aparece. Tudo conduz a alma ao desespero, você não se sente realizado e se arrepende de tudo o que podia ter feito e não fez. E ali está você, perdido no meio da sua rotina, prestes a explodir.

Lester Burham (Kevin Spacey perfeito) sente o peso disso. Em casa vive trocando farpas com a esposa Carolyn (Annette Bening perfeita), que vive mau por não ter o sucesso que planejava, a filha adolescente e com crise existencial Jane (Thora Birch perfeita) que não aguenta mais a infelicidade que se tornou viver ali.

É uma família tradicional americana. Só que se deixaram cair na mais completa monotonia por conta de tudo o que fazem. Com Jane tentando alguma coisa, os pais se sentem obrigados a ver o progresso da filha na escola, se apresentando com aquelas dançarinas gostosinhas do time da escola, e é lá que as coisas passam a tomar outro rumo. Lá Lester conhece a “fogosa” Angela (Mena Suvari muito diferente do que mostrou em American Pie), que logo desperta algum desejo nele. Enquanto o navio que é aquela casa afunda, Lester decide voltar a viver.

Assim que é demitido, Lester encontra o momento perfeito e deixa de ser o típico homem que vive pra família e começa a viver pra ele mesmo.

american beauty 7Sentindo o peso de ser a única com “responsabilidades” em casa, Carolyn se entrega ao trabalho, com direito a pulada de cerca com seu maior inimigo no ramo imobiliário, e Jane se encanta com o misterioso Ricky Fitts (Wes Bentley), um jovem traficante que vive filmando tudo o que vê por hobby. Recém chegado no bairro, mudou-se com sua aparentemente “comum” família: uma mãe sem sal nem sazon e um pai linha dura, ex militar interpretado por um Chris Cooper perfeito. No meio disso tudo, desenrola-se uma trama que envolve segredos, mentiras, preconceito e dismistifica o tal “american way of life”, mostrando que o sonho americano não passa de ilusão.

É com maestria que Sam Mendes mostra em seu primeiro trabalho todo o cuidado necessário pra encher uma trama densa de sentimento e tensão. Os diálogos são afinadíssimos, as cenas de troca de farpas são deliciosas e ajudados pelo roteiro incrível o elenco arrebenta em cada cena.

AmericanBeauty 6 Kevin que saiu vencedor do OSCAR por esse filme, demonstra uma capacidade de criar rostos para todos os sentimentos possíveis de seu personagem, tristeza, angústia, medo, solidão, pena, juventude, tudo num mesmo homem, uma das interpretações mais perfeitas do cinema.

Cada ângulo, cada quadro, cada momento que ele aparece o filme se torna mais interessante e divertido.

Spacey em cena, atuação beirando a perfeição.

Annette também arrasa, sua personagem é forte e fraca ao mesmo tempo, coisa que fica mais evidente ao final do filme (me emociono na ultima vez que ela aparece em cena, abraçando as roupas do marido que acaba de morrer.). Ela odeia e ama o marido, ela odeia e ama trabalhar, ela faz tudo errado sabendo que podia fazer o certo, ela é ser humano e comete erros.

Thora Birch não podia ser melhor escolha para o papel de Jane, ela entrega uma veracidade perfeita ao personagem. Vinda de um histórico de filmes mais comerciais (Abracadabra, Perigo Real e Imediato) ela mostra muita tranqüilidade e segurança em seu personagem. Sem apelar para aqueles “caras e bocas” comum entre atores jovens, ela consegue convencer até quando não quer.

AmericanBeauty 5A loirinha Mena Suvari prova ser boa atriz, contrariando a sua personagem sem sal de American Pie, a bonitinha arrebenta. É mentirosa, sexy, e leva tudo com a barriga, típica adolescente americana popular. Mas o melhor fica pro final, quando ela tira a máscara de sedutora e veste a de uma inocente.

A mudança de humor e a capacidade incrível de nos enganar por duas horas comprova o grande talento da loirinha.

Quanto a Wes Bentley, um dos personagens mais incríveis do filme, fica sua melhor atuação da carreira. Ele é ácido, envolvente, misterioso e com aquela cara de babaca consegue enganar muito bem todos a sua volta. Seu personagem é complexo, mas ele passa uma segurança que é sentido pelo espectador.

E Chris Cooper, outra performance memorável, arrebenta na pele de um militar casca grossa que comanda todos os passos do filho e reprime todos em casa com seus preconceitos e mandamentos. A surpresa maior do filme sem dúvida é a dele no final.

american beauty 4 Sam Mendes aparece no seu melhor filme. O cara tira leite de pedra aqui.
Mostrando preparo e cuidado em cada quadro do filme, nota-se a influencia teatral em muitas cenas. As cenas no jantar, feitas da maneira mais tensa possível é uma das coisas que se pode destacar aqui.

O jantar falso funciona como termômetro da situação incomoda que a família vem passando.

Vindo do teatro, o jovem diretor inglês, inspirado em Kubrick e cheio de idéias criativas, capta as sutilezas do ótimo roteiro de Alan Ball (mente por trás de séries fantásticas como Six Feet Under) e consegue colocar na tela de uma forma acessível e sem precisar abusar de artimanhas desnecessárias para emocionar (erro cometido por diretores como Gabriele Muccino, de Sete Vidas, onde usa de emoção forçada para criar o clima de seus filmes.). Mendes consegue bolar situações que mesmo parecendo absurdas, são de uma interpretação singular. A cena do saco por exemplo, as “gags” involuntárias responsáveis pelo desfecho do filme ou até as cenas em que a família está jantando, querendo ou não fazem o espectador se sentir passando por tudo aquilo.

É complicado assistir esse filme sem sentir um incomodo consigo mesmo, e esse incomodo, atingido com perfeição pela forma como Mendes conduz seu filme, lhe valeu o merecido OSCAR.

Com uma trilha instigante e até certo ponto cômica de Thomas Newman, músicas que desenham as fases de humor de todos os personagens, sendo All right now do Free a mais “irônica” delas, o filme vai aos poucos afunilando as conseqüências dos atos de todos. A pulada de cerca da esposa, o vício em maconha do marido, a cachorra virando um anjo, o machão mostrando ser uma boneca e um casal estranho se formando, desenrola um final surpreendente e até inesperado para todos os personagens.

AmericanBeauty 3Bom humor apenas aparente: o casamento dela está a um fio.

A premiada fotografia é curiosa. Vermelha na hora de ser vermelha, lembrando as rosas “beleza americana”, e representando o vazio dos personagens. Elas estão presentes em grande parte do filme, e sempre com essa dualidade de significados. A beleza e o vazio. O filme é sobre isso.

Eu deveria ter ficado muito puto com o que me aconteceu, mas é dificil ficar nervoso quando se tem tanta beleza no mundo .” Lester Burhan.

Para mim, uma obra prima indiscutível. Nota: 10.

Olhem bem de perto.

Por: Rafael Lopes.

American Beauty. Direção: Sam Mendes.

Marcado na Mente (Brand Upon the Brain)

Por: Simão Zygband.
marcado-na-menteO fantástico cinema de Guy Maddin

Tive a oportunidade de conhecer hoje a obra fantástica do cineasta canadense Guy Maddin. O filme era o Marcado na Mente (Brand Upon the Brain), produzido em 2006 em preto e branco. Simplesmente fantástico.

Com uma técnica moderna, mas retratando o início do século passado, Guy Maddin em Marcado na Mente faz uma trama muito densa psicologicamente, mostrando uma história surreal, que se passa em uma ilha deserta com um farol, onde existe um orfanato onde as crianças são “cuidadas” por um casal, ela a gerente e ele um excêntrico cientista que retira líquido do pescoço dos internos para injetar e manter a jovialidade de sua esposa.

O filme mistura questões como a relação edipiana entre o jovem Guy (que apesar do mesmo nome do cineasta é o personagem principal) e sua mãe, relações homossexuais entre sua irmã e uma interna, entre outros temas fortes que merecem reflexão.

O filme foi exibido no Centro Cultural Branco do Brasil e talvez esteja disponível em vídeo.

Simplesmente fundamental tentar assisti-lo, principalmente pela técnica empregada, pelo tema desenvolvido e a forma fascinante e absolutamente inédita como Guy Maddin desenvolve a trama.

A Questão Humana (2007), de Nicolas Klotz

questaohumanaFilme que desde que foi exibido no Brasil pela primeira vez (quando ganhou o prêmio da Critica na Mostra de São Paulo em 2007) tem dividido opiniões e despertado reações controversas por parte dos cinéfilos que tiveram a oportunidade de assisti-lo.

À principio é um thriller corporativo em torno de Simon (Matthieu Amaric), um psicólogo no departamento de recursos humanos de uma corporação petroquímica franco-alemã. Trata-se de um funcionário rigoroso e exemplar, responsável pela análise da capacidade e do rendimento de todos os empregados, inclusive logo no começo do filme ele é requisitado para avaliar quem deve sair quando, por contenção de despesas, a mega-empresa está prestes a despedir um determinado número de funcionários. Toda a primeira metade do filme vai preparando o terreno para a missão que o presidente da corporação entrega a Simon: investigar o seu sócio, que vem se comportando de maneira estranha, cada vez mais alheio e distante dos deveres exigidos por seu cargo.

À medida que Simon avança em sua pesquisa sobre o seu superior misterioso, ele vai adentrando na intimidade de um homem melancólico, cuja tristeza contamina o investigador, abala a sua segurança e afeta sua personalidade, envolvendo-o numa história cujo controle lhe escapa ao descobrir o passado nazista do seu chefe, e por trás dele, um paralelo entre o processo eliminatório dos oficiais nazistas que enviavam os que não eram de suas raças “puras” para os campos de concentração, com o dos modernos empresários do capitalismo contemporâneo, que pautados de acordo com os interesses de rendimento máximo e do lucro pelo lucro, excluem os que são menos úteis nas engrenagens da máquina que faz o capital girar, empurrando na maioria das vezes esses excluídos para áreas menos nobres e periféricas dos grandes centros, como uma nova forma de holocausto.

A história não se trata de desvendar um mistério, punir os vilões e salvar os oprimidos, e sim sobre uma profunda crise ética de Simon diante dessas constatações que o afetam fortemente e que não sabe como lidar com a própria culpa e cumplicidade, numa jornada que encontra paralelo com a de Gene Hackman no clássico A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola. Há também uma bela história de amor dentro do filme, que é engolida pelas preocupações maiores da obra, a de Simon com uma de suas colegas na corporação, em uma relação de desencontros que tem seu ápice na festa rave que se dá pela metade do filme, quando começa a se quebrar a postura rígida e impecavelmente formal do maquinizado personagem principal.

Ao final, quando Simon e o filme lançam um olhar em direção às classes excluídas, A Questão Humana encontra ecos em outro clássico, o célebre Noite e Neblina (1955), de Alain Resnais, que registrou de um modo pungente as condições e circunstâncias em que ocorreu o extermínio nos campos de concentrações, e que no seu desfecho alertava (mesmo com o nazismo fora de moda) sobre a chegada de possíveis novos carrascos, afirmando que no fundo fingimos acreditar que isto tudo (a opressão e esmagamento em largas escalas) pertencem a um único tempo e a um único país e que não olhamos à nossa volta.

Num primeiro momento (a exemplo do já citado A Conversação, que é um filme cerebral que também derruba o espectador desavisado),  A Questão Humana pode pode parecer um filme pouco envolvente, por ser um trabalho tão opaco e cinzento como o mundo que espelha e representa em seu teor à principio ilustrativo, e se for o caso vale a pena insistir em lançar um olhar mais atento em direção a uma obra que vai ganhando em densidade, em aprofundamento, ao ponto de se tornar uma experiência bastante sensorial. Um dos muitos exemplos nesse sentido são as “cortinas” listradas e acinzentadas do fundo de muitas cenas (ver primeira foto), recorrentes ao longo do filme, e que nos transmitem a sensação de grades que encerram os homens e determinam as suas ações no mundo corporativo.

Enfim, se estamos acostumados a assistir filmes que tratam dos pobres e desamparados, que giram em torno de territórios de excluídos, daqueles que não servem ao corporativismo e, por conta disto, são postos à margem da sociedade, com A Questão Humana temos a possibilidade de enxergar um outro lado da moeda, pois o filme do francês Nicolas Klotz é basicamente sobre aqueles que excluem e detêm grande parte de todo o poder.

Vlademir Lazo.     Blog: O Olhar Implícito.

Uma Prova de Amor (My Sister’s Keeper)

uma-prova-de-amor_2009Não se trata de crise existencial de adolescente. Do tipo: ‘Quem sou eu?’, ‘Qual é a minha missão nesse mundo?’… É muito mais! É de ter o direito de ser dona do próprio corpo. Da própria vida. Mesmo que para isso se busque pelos caminhos legais. Por uma lei que faça a família simplesmente deixar a natureza agir. E nessa família, quem fechava todas as portas para a morte, era uma mãe. Lutou com todas as armas para manter viva uma filha.

Uma Prova de Amor‘ é um filme que leva a várias leituras. Pelo peso de uma doença tão brutal no seio de uma família.

Pela mãe que esquece até dos outros filhos por conta desse que está com leucemia. Uma mãe, jovem ainda, mas que parece sentir-se responsável pela doença que acometeu na filha ainda em criança. Levando a todos a gravitarem em torno da Kate (Sofia Vassilieva).

Um pai (Jason Patric) que cai em si, a tempo de ver que seus filhos cresceram, logo que buscam por seus próprios caminhos. Não que tivesse sido omisso demais. Mas sim por concordar com o mundo de Sara. Alguém desconhece viver num matriarcado? Ou mesmo num patriarcado. Mas do tipo: que todos rezem da mesma cartilha.

Pelos filhos, já que quem ‘rouba’ as atenções também se sente mal, não apenas os que se sente relegados.

Aqui, separam-se também os familiares. De um lado, uma tia que realmente colocou a família da irmã na sua rotina de vida. De outro, os que vão apenas visitar Kate, com mensagens de otimismo. E Kate, em dores, sorri para eles… A fé num milagre, era uma utopia. Limpar vômitos, são poucos os que aceitam fazer.

My SisterÕs KeeperSara Fitzgerald (Cameron Diaz), é a mãe que largou a própria vida para viver em razão da Kate. Nem viu o pequeno Jesse (Evan Ellingson) crescer, nem que ia mal nos estudos por ser disléxico. Quando o médico sugeriu que um filho de proveta poderia trazer uma cura, ela nem hesitou. E assim veio ao mundo a pequena Anna (Abigail Breslin). Para que doasse partes físicas de si, a Kate. Começou com o cordão umbilical, mais tarde veio o líquido da sua medula, vieram várias transfusões… Até que queriam um dos seus rins. E ai?

Doar um órgão ainda em vida, ainda tendo uma longa vida pela frente, por ainda ser adolescente, é um caso a pensar. Até porque quem receberia o rim só ganharia mais um curto espaço de tempo. Uma sobrevida a mais entre quimios, ambientes hospitalares, e quase sem chances de um tempo em casa. É um gesto mais que humanitário, mas também egoísta. Porque fariam de Anna uma pessoa com cuidados de saúde pelo resto de sua vida.

Anna então procura um advogado, Alexander (Alec Baldwin), conta a sua história. Pedindo a ele que quer emancipação do seu corpo para fins médicos. Ele aceita. Anna fica sabendo depois o porque dele abraçar a sua causa.

Essa sua decisão evidencia o racha que havia naquela família… Sara fica sozinha nessa sua missão de tentar salvar Kate. Decide ser ela mesma a advogada contra Anna. E para julgar a questão, uma juíza (Joan Cusack) que voltava de licença: tinha perdido uma filha adolescente.

É Anna quem conta a história. Em flashback…

Conheço mães como Sara. Logo, não vi nada incomum no contar esse drama. O único porém, que não o fez ficar um ótimo filme, foi a escolha de Cameron Diaz. Uma outra atriz, teria feito de Sara, uma mãe memorável. Poderia ter batido um bolão com a pequena grande atriz Abigail Breslin. Essa tem um grande talento. Os outros atuaram bem. Foi a primeira vez que vi Sofia Vassilieva atuando. Gostei muito! Não deu para segurar as lágrimas com a maturidade de Kate no finalzinho.

Eu gostei! É um bom filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Uma Prova de Amor (My Sister’s Keeper). 2009. EUA. Direção: Nick Cassavetes. +Cast. Gênero: Drama. Duração: 109 minutos. Baseado num Romance de Jodi Picoult.

O Anticristo

willem-dafoe-and-charlotte-gainsbourg_anticristoVi na semana passada e fiquei pensando: qual é o critério usado pra se classificar um filme como de TERROR? Por que aterroriza quem o vê? Se for só isso, eu não classificaria ESTE filme como de terror. Diria que tem DUAS cenas terríveis e foi só. Como psicóloga que lidou com o inconsciente por mais de 20 anos, através de sonhos, mitos, lendas, símbolos, eu o classificaria como DRAMA PSICOLÓGICO.  Ou ser testemunha desse tipo de drama é que aterroriza qualquer um que desconheça seus próprios demônios? A mulher foi a culpada pela morte do filho? Nananinanum: sexo se faz a 2!

Vi este filme como quem vê um processo psicoterapêutico profundo, sem entender muito bem porque levou o nome de Anticristo. Viver o lado sombrio – no caso, 1º como todos, tentando fugir dele, mas depois deixando-o vir à tona – transformou-se numa inabilidade do terapeuta/marido em lidar com o seu próprio lado sombrio. Matar sua contra-partida sexual porque é inábil me pareceu a grande derrota de alguém que se diz terapeuta, mas que não faz a menor idéia do que venha a ser o inconsciente. Mexeu com o que não devia: não ‘salvou’ ninguém nem nada, como costuma ser a proposta dos que se dizem terapeutas sem serem psicólogos do inconsciente, entrando – inevitavelmente – em contato com seu próprio “buraco negro”: se contaminou. E por se contaminar, foi derrotado, não lhe restando outra opção a não ser eliminar sua própria proposta falida.

À parte das cenas ‘surrealistas’, pra mim este filme expressou os nossos próprios ‘monstros’ a serem reconhecidos e não, escamoteados como o filme mostrou: quer se acalmar –> uma boa trepada resolve… O PRAZER, a busca pelo prazer ACIMA de tudo? É a fuga, a eterna fuga de si mesmo. Vai ver que o ‘anticristo’ está nisso…

Este filme me lembra Os Idiotas, não por acaso do mesmo diretor.

Por: Eli@ne L@nger.

Próxima parada MOSCOU

E tudo o mais que as fronteiras do nosso imaginário permitir. O jogo de cena continua.
Eduardo Coutinho mais uma vez nos presenteia com o ótimo documentário MOSCOU. Para quem assistiu ao JOGO DE CENA, vai ter uma certeza: de que o diretor tomou gosto pela dramaturgia. Nota-se que ele se sente à vontade ao dirigir o elenco teatral. O elenco do Grupo Galpão recebeu de seu diretor Enrique Diaz o texto da nova peça somente no dia da filmagem. O texto a ser encenado, AS TRÊS IRMÃS é da autoria do clássico russo Anton Tchekhov. É a história de Olga, Masha e Irina, mais um irmão que moram numa província na Rússia, mas sonham voltar a Moscou.
O interessante no filme é a bagunça generalizada. Os atores, ora ensaiam, ora representam, ora falam de si mesmos e de algumas lembranças de infância, de lugares e sensações, não se sabe ao certo quando é real e quando é ficção; a linha tênue que separa os dois lados se rompeu. E o ensaio do ensaio dos textos fica parecendo que nada foi ensaiado. Já foi a algum ensaio aberto ao público? Na verdade é isso que se passa no filme. Repassam o texto juntos ou separados, brincam, comem, namoram, alguém faz declaração de amor e não se sabe se é real ou não, e algumas coisas mais. Ficou incrivelmente bom; bem natural, exatamente os bastidores de um ensaio teatral.
Na verdade, Eduardo Coutinho fez uma proposta ao Grupo de ensaiar uma peça que nunca seria montada, seria apenas para realizar esse trabalho de documentário em cima de uma encenação pelo objetivo de mostrar essa linguagem investigativa entre a arte e a realidade à telona. Uma boa idéia, não? Adorei!
Adorei muito mais a escolha do texto de Tchekhov, não podia ser melhor, pois tem tudo a ver com o propósito do diretor de realizar. O sonho de consumo de uma família decadente é voltar para Moscou tentando realizá-lo a qualquer custo, mesmo sabendo que é um sonho quase impossível, uma utopia. Não é um simples documentário. De fato, não documenta como se monta uma peça teatral, as linguagens se fundem, as falas dos atores se misturam constantemente, às vezes não se sabe quem deveria falar o quê, quando e por quê? Fotos e fatos para trazer à tona lembranças pessoais.
Para quem gosta de originalidade, não deve deixar de apreciar esta obra de arte. Mesclar teatro ensaios, cinema, real, imaginário e finalmente Tchekhov, apesar de parecer que documentário é simples e fácil de se fazer, ledo engano, uma vacina nova, não deixe de tomar. Só pela idéia, TUDO já me fascinou, e o resultado me surpreendeu. É um filme sedutor.
Karenina Rostov
MOSCOU
By Eduardo Coutinho

E Buda Desabou de Vergonha (Buda as Sharm Foru Rikht)

E Buda Desabou de Vergonha

Queria mostrar o efeito da guerra sobre as crianças. Se vivem essa violência, a copiam e acham que é o correto.” (Hana Makhmalbaf)

Eu fiquei na dúvida em qual caminho seguiria para iniciar a falar de ‘E Buda Desabou de Vergonha‘. Se já do drama da pequena protagonista, ou se pelas brincadeiras de criança, que também estão na trama, mas por conta do que citaram nela… vi que os adultos influenciaram nisso…

Assim, parto da fala acima da Diretora. Que me fez pensar nas crianças de todo o mundo, já que a violência urbana não se restringe a poucos países. E mesmo dentro de um mesmo país há nichos que quando vemos alguma é muito mais pela mídia. Sendo que as crianças que convivem de perto com essa violência serão mais testadas na sua essência. Como nas favelas, enquanto algumas crianças brincam inocentemente, outras já tenderão para o lado do crime.

Dai, me pergunto se as brincadeiras na infância teriam mesmo grande influência na formação do caráter da criança?

Lembrei-me de quando quiseram impetrar um politicamente correto em simples cantigas de rodas. Cantei muito a ‘Atirei o Pau no Gato’, e nunca me vi motivada a machucar um.

Acreditar, ou melhor, creditar que todo o caráter já nasce com a pessoa, seria também dizer que não há recuperação para todos que seguem o caminho do anti-ético. Algo vem de berço sim, mas também uma parte é formada nesse início de vida: na infância. E é onde entra o adulto: em passar boas lições, como também observar as atitudes das crianças. Porque pode haver certos indícios na infância para um desvio comportamental futuro. Como pistas a seguir, mas que por vezes passam despercebidas.

afeganistaoA história do filme se passa no local onde a grande estátua de Buda foi destruída pelos talibãs, em Bamiyan, no Afeganistão. Onde uma população mais carente foram viver nas cavernas que ficaram após a destruição. Uma favela afegã. Um povo que convive, ou que vive num estado de guerra.

Dentro de uma dessas cavernas vive a pequena Baktay (Nikbakht Noruz), com a mãe e uma irmã ainda bebê. Com a ida da mãe até o rio para lavar roupas, Baktay fica tomando conta da irmãzinha. Algo tão comum em muitos lares no mundo inteiro.

Na caverna ao lado, vive o pequeno Abbas com a sua mãe. Abbas ao fazer o seu dever de casa, lê o texto em voz alta. Baktay, meio irritada porque se a irmãzinha acordar, lhe dará mais trabalho, o repreende. E nessa discussão, ela descobre que se aprender a ler, conhecerá muito mais histórias. Decidindo então a ir para a escola.

Então iremos acompanhar toda sua saga ao querer estudar.

Primeiro, ela terá que conseguir comprar o caderno. Não é nada fácil. Ela nos leva a acompanhá-la com coração apertado. Noutras, nos leva a sorrir. Ou que por conta dessa dificuldade na compra, nos entristece ao ver com o que fazem com o caderno dela.

Depois, o drama em conseguir uma escola que aceite meninas. A única que existe fica bem distante. E no meio desse caminho… um grupo de meninos brincando de talibãs. A fazem de refém. Mais tarde eles brincam de soldados americanos.

meninos-brincando_vovo-moinaAqui, temos algumas reflexões. Crianças, gostam de brincar de mocinho e bandido. Copiando filmes, livros, ou até o meio em que vivem. E isso não é indicador de algo ruim. O que irá pesar sim, será aquilo o que o adulto dirá sobre tais fatos. A criança será um mero repetidor. Nem estou contando com as que já mostram uma tendência sociopata.

Nesse filme, se vê uma população bem carente de recursos. Assim, esse grupo de meninos podem ter aprendido pelos livros escolares, ou mesmo por curiosidade, perguntando aos adultos do porque daquela destruição toda. Conhecendo a História mais recente do seu país. Mas a fala que faz referência ao Vietnã denota um peso maior, e que foi recebido por adultos. Então foi algo lido, ou ouvido, e não algo visto.

Se naquela região há um tipo de conflito, se nas nossas cidades o narcotráfico é que gera a violência, claro que quem mais irá sofrer as consequências serão as crianças. O direito de brincar nas ruas, ficará impraticável.

e-buda-desabou-de-vergonha_01Com tudo isso, para mim, o conflito maior em ‘E Buda Desabou de Vergonha‘, foi a dificuldade para a mulher estudar. É algo da cultura deles. Que são poucos os que permitem. No filme, se vê que há muitas mais turmas de meninos. Baktay teve também que disputar por um lugar para sentar. E com aquela professora… aquela turma de meninas não irão longe nos conhecimentos.

A atriz que faz a Baktay é um doce de criança. Não tem como não se apaixonar por ela. O que faz o Abbas, também. Ele será o pequeno grande herói para ela. Muito embora ela seja muito mais corajosa que ele, por ser mais destemida. Mas ele se mostra mais centrado. Mesmo que aos olhos de muitos possa denotar medo, era a solução mais acertada para escapar do cerco…

Na guerra, o único heroísmo é sobreviver“. (Samuel Fuller)

Eu gostei do filme. De querer rever. Mas o filme poderia ter sido muito melhor. Não sei se o vi com um olhar mais feminista, dai pesar contra esse tipo de cultura onde a mulher fica à sombra dos homens. Então, se o que a Diretora quis foi somente mostrar os malefícios das guerras perante as crianças, acabou se perdendo. Ou, eu me perdi por focar mais na dificuldade da menina em estudar. Nesse contexto sim, o filme foi excelente.

Bravo Baktay! Por ser uma criança que também gosta de brincar! Além da sede por querer aprender a ler e escrever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

E Buda Desabou de Vergonha (Buda as Sharm Foru Rikht). 2007. Irã. Direção: Hana Makmalbaf. Elenco: Nikbakht Noruz (Baktay), Abbas Alijome (Abbas), Abdolali Hoseinali (Talib boy). Gênero: Drama, Guerra. Duração: 84 minutos.

P.s: A ilustração dos meninos brincando, trouxe daqui: Histórias da Vovó Moina.
http://vovomoina.blogspot.com/2009/06/as-aventuras-da-dupla-dinamica.html

A Órfã (Orphan. 2009)

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Um dos filmes mais assustadores dos últimos tempos.

orphanA Órfã” (Orphan. 2009) de Jaume Collet Serra (de Casa de Cera) é um dos filmes mais assustadores dos últimos tempos. E o melhor de tudo, com um roteiro afiadinho a partir de uma estória já meio batida dentro do gênero: Um casal (os excelentes Peter Sarsgaard e Vera Farmiga) comum com dois filhos – Daniel (Jimmy Bennett) e Joyce (Lorry Ayers) -, resolve adotar uma terceira criança, a estranha russa Esther (Isabelle Fuhrman), uma menina enigmática e precoce que aos poucos cria um clima de insegurança, terror e discórdia entre todos os que a cercam.

isabelle-fuhrman_orphanA atriz Isabelle Fuhrman, com a ajuda da direção, elaborou uma órfã cheia de nuances, abundante em detalhes psicológicos que surpreendem o tempo todo. O conjunto de personagens tão completos e verossímeis como a macabra protagonista enriquece a trama até um clímax interminável de gelar o sangue.

Prepare-se para pular da poltrona num desfecho que realmente ninguém poderia prever.

Carlos Henry

A Órfã (Orphan). 2009. Canadá / EUA. Direção: Jaume Collet-Serra. +Elenco. Gênero: Drama, Horror, Mistério, Thriller. Duração: 123 minutos.