Depois da vida me apaixonou também porque o vi depois de o A Partida. Em A Partida, aprendemos a respeitar os mortos antes de serem cremados, como é de costume no Oriente. Nos ensina que nossa verdadeira ‘vocação’/missão é respeitar a vida, acima de tudo, de todos e de nós mesmos e de nosso ego tão imponente; honrar o morto tal como foi em sua melhor fase no plano físico – ou torná-lo melhor. O carinho e respeito como é tratado por especialistas ao embelezar a figura do morto, faz com que o respeitemos e dá a noção de uma vida vivida (mesmo que nossos egos e os dos outros não a tenham aceito) aos parentes e amigos presentes nos funerais. Ressuscita o que há de melhor em cada um e não, os momentos infelizes – seja pela tristeza que causou a nós e/ou aos outros; seja pela ignorância em si e inconsequência sobre nossos atos.
Depois da Vida nos mostra que, por mais dificuldades que possamos ter passado, haverá algum momento feliz que merece ficar registrado para a eternidade. A proposta é a de relevar todo o resto: assim deveríamos ter feito em vida. Depois da Vida nos dá a chance de nos vermos como alguém que pôde ser feliz, nem que seja por uma fração de segundos e que esta fração é o que realmente conta. É a felicidade o que conta e não, as mazelas mas que, diante delas, acabamos não registrando na memória que algumas vez, pelo menos uma, pudemos nos sentir bem dentro de nós mesmos, dentro de nossos corpos.
É um filme otimista, acima de tudo; muito intimista, pois vasculha a vida pessoal de cada um, entre mortos e vivos, não mais à procura das dores e dos sofrimentos, mentiras, omissões, faltas e falhas humanas. Este vasculhar as cenas vividas nos dá a sensação de um documentário, já que é exatamente isto o que NÃO fazemos conosco (relevar nossas manias e/ou defeitos), mas que poderíamos, a fim de pararmos de lamentar por todo o ‘mal’ que passamos. Pobres ou ricos, cultos ou não, inteligentes ou inábeis, todos merecemos ter uma boa imagem de nós mesmos, agora despojados de nossas ambições e/ou frustrações. Todos podem, ao menos por uns segundos. Sem isto, passar pra outro estágio de vida, nos torna como que ‘gavetas’ de mágoas: todo o resto será deletado da memória pra que possamos recomeçar com o que houve de melhor e não, de pior. Esta noção reafirma a crença reencarcionista, presente na cultura oriental.
Além disso, também o vi exatamente como o faria um diretor de cinema, até chegar às cenas ideais pra serem gravadas e exibidas aos futuros espectadores, no caso, os mortos. Pois que assistir a um filme é, por algumas horas ou minutos, morrer um pouco ou, em palavras melhores, deixar com que outro estado de consciência – onde o tempo/espaço se tornam relativos – nos transporte, como deveria ser, por outro enredo, como se ali estivéssemos e fôssemos os protagonistas.
Um cineasta me disse pessoalmente: ‘Ser cineasta é ser um eterno sonhador, que tem o olhar pro futuro. Eis porque não envelhecemos” – são eternos. Pois que agora compreendi o fundo dessa mensagem. São nossos melhores sonhos os que nos tornam eternos…
Por: Eli@ne L@nger.
Depois da Vida (Wandafuru Raifu). 1998. Japão. Diretor e Roteiro: Hirokazu Kore-eda. Gênero: Drama. Duração: 118 minutos.
Elenco:
* Takashi Mochizuki – Arata
* Shiori Satonaka – Erika Oda
* Satoru Kawashima – Susumu Terajima
* Takuro Sugie – Takashi Naito
* Kyoko Watanabe (Ichiro’s Wife) – Kyoko Kagawa
* Kennosuke Nakamura – Kei Tani
* Ichiro Watanabe – Taketoshi Naito
* Gisuke Shoda – Toru Yuri
* Yusuke Iseya – Yusuke Iseya
* Kana Yoshino – Sayaka Yoshino
* Nobuko Amano – Kazuko Shirakawa
* Kenji Yamamoto – Kotaro Shiga
* Kiyo Nishimura – Hisako Hara.










[...] Depois da Vida nos mostra que, por mais dificuldades que possamos ter passado, haverá algum momento feliz que merece ficar registrado para a eternidade. A proposta é a de relevar todo o resto: assim deveríamos ter feito em vida. Depois da Vida nos dá a chance de nos vermos como alguém que pôde ser feliz, nem que seja por uma fração de segundos e que esta fração é o que realmente conta. É a felicidade o que conta e não, as mazelas mas que, diante delas, acabamos não registrando na memória que algumas vez, pelo menos uma, pudemos nos sentir bem dentro de nós mesmos, dentro de nossos corpos. *CINEMA É A MINHA PRAIA [...]