Arca Russa (Russkij Kovcheg)

Arca Russa,de Alexandr Sokurov

Como não gostar de poesia, de arte, da literatura e da língua russa? Como não gostar de cinema russo? Esta última é a minha paixão incondicional, principalmente após assistir ao ARCA RUSSA de Alexandr Sokurov. Um filme diferente de tudo o que você certamente já viu, ou se ainda não viu, verá e concordará; ou se já viu algo parecido, creia que qualquer semelhança é mera coincidência. O filme é uma obra poética em versos.

A história de 300 anos de arte é contada em 97 minutos em um único plano-sequência, sem cortes, dentro de um dos maiores museus do mundo: o Palacete de Hermitage, em São Peterburgo, atravessando as 35 salas do museu, transformando a tela de cinema em um quadro vivo onde desfilam personagens importantes da história da Rússia: Pedro, O Grande; Catarina II, Nicolau e Alexandra.
O museu de Hermitage é tratado como um ser vivo e Sokurov empresta alma a ele, mesclando poesia, artes plásticas, literatura e sétima arte.

Arca Russa é uma experiência visual única e inesquecível.

Para contar essa história, o próprio diretor vaga pelo museu com a sua câmera no ombro, uma volta ao passado como se fosse uma das personagens do século XIX, saído das telas de um dos quadros, perdido e confuso, conversa com muitos que por ali passaram, pessoas importantes que o visitaram ou com os simples mortais visitantes do museu. As grandes festas que aconteciam lá nesse museu com grandes personalidades daquele século. Assiste-se ao filme e se tem aula de arte e história, além de um passeio panorâmico em todos os seus ambientes. E o tempo todo interage com os quadros, conversando com eles, se esbarrando com alguns personagens e se questionando “Onde afinal estou?” “O que está acontecendo?”

O diretor-protagonista dialoga com um único personagem (fantasma?) que aparece no museu e fala russo, com sotaque francês que será a partir desse encontro o seu guia pela excursão ao museu. Ele nada explica, pelo contrário, confunde mais ainda, apenas especula e tudo torna-se instigante e nada revelador. Caberá ao expectador desvendar alguns mistérios e as mensagens cifradas. O guia representa o conflito de identidade da aristocracia e da arte russa e ela insiste em dizer que “os russos estão sempre a copiar, não têm idéias próprias”. (Na vida nada se cria, tudo se copia). O expectador é que deverá fazer suas próprias descobertas e fazer parte desta viagem sem fim. O filme é matéria e essência; é todo o sentido da vida; morte e vida atuando juntos; presente e passado. Aqui não vale dizer a frase debochada “Quem vive de passado é museu”, pois o passado faz-se presente a todo instante, basta contemplar um dos quadros, basta se folhear um livro, abrir um álbum de fotos, reler uma carta amarelada…

O filme todo está em sintonia com a proposta do diretor de um único plano, mesmo assim, há quem diga que encontrou alguns cortes, como por exemplo, na cena em que ele fecha em um par de luvas, ou passa por trás de uma pilastra, importa mesmo? Só reparei nesses detalhes apontados por críticos na minha segunda sessão. Particularmente, acho irrelevante. Mas a crítica, sempre a crítica sutilmente invejosa…
Arca Russa abre portas em vez de fechá-las. “Estamos condenados a navegar sempre”, conclui o narrador ao final. Como em boa parte do cinema sokuroviano, fala de um navegar sem ter bússola como parâmetro, pois o passado, induz o diretor, não é necessariamente farol para o futuro.
Cotação: Excelente! Valeu “`a pena” desta poesia reler. Valeu a pena desta fonte beber.
Karenina Rostov
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Curiosidades sobre o diretor russo Alexandre Sokurov
* Sokúrov é considerado por Paul Schrader e Martin Scorsese, diretores que também atuam como teóricos de cinema, como o mais legítimo herdeiro do “estilo transcendental”, no qual inserem também o dinamarquês Carl T. Dreyer, o francês Robert Bresson e o russo Andrei Tarkóvski. O diretor também continua a tradição de mestres russos do cinema silencioso russo, como Serguei Eisenstein e Aleksandr Dovjenko. Seus filmes constituem experiências estéticas e intelectuais de impacto para platéias com atenções voltadas para algo além da velocidade e superficialidade oferecidas pelos grandes estúdios. Seu refinamento na construção visual das imagens, que o convertem em um “cineasta-pintor”, irritou os censores e poderes da antiga URSS, que proibiu todos os seu filmes de 1978 até 1987.
* A entrevista foi realizada em Cannes, em maio de 2002, nos dias subseqüentes à estréia mundial de Arca russa, uma produção ambiciosa, ambientada no interior do Museu do Hermitage (São Petersburgo) e registrada em uma única tomada sem cortes, de 96 minutos. Um feito técnico e artístico que deverá passar aos anais da história do cinema.
Gênero – Arte
Direção – Alexander Sokurov
Idioma – RussoAno de produção – 2002

País de produção – Russia, Finlandia, Dinamarca, Canadá, Alemanha

À DERIVA

A-DERIVA_posterHeitor Dhalia depois de Nina e o Cheiro do Ralo, vem como diretor e roteirista do filme À Deriva que  tem uma riqueza de detalhes digna de uma reconstituição arqueológica e também escarafuncha nossa alma através do drama alheio, ao nos colocar frente à uma realidade que de uma forma ou de outra  conhecemos, seja por termos vivido, seja por termos ouvido em comentários ou em tom de desabafo de algum amigo e por que não, amiguinha de infância?

O filme nos remete a vários pensamentos e passa de uma forma se não contundente, muito tocante a mensagem de que não devemos julgar com precipitação, pois nem tudo o que nos parece é. Tudo isso embalado por belas imagens, fotografia linda, ângulos bonitos e uma trilha sonora eficiente. O filme se passa numa casa de praia, com uma família até então prefeita em temporada de férias. Mostra uma grande turma de adolescentes e suas descobertas, mas tem cenas internas escuras e algumas tomadas da praia tem um contraste do cinza dos rochedos e um certo tom pastel como que a mostrar que nem tudo é alegria nos momentos que deveriam ser felizes.

O bacana desse filme é que vamos descobrindo todas as coisas junto com as personagens. É surpreendente, por isso não dá pra achar chato, como alguns que o viram antes de mim comentaram.

Podemos nos questionar com relação até que ponto somos responsáveis pelo que nossas atitudes vão gerar em nossos filhos. Qual o limite das coisas que devemos dividir com eles. O quanto eles podem saber sobre nós sem que percebamos e o quanto eles idealizam sobre nós sem que saibamos.

Crescer dói e a história universalíssima deste filme nos informa que chega um momento na nossa vida que não dá para nos recusarmos a crescer e este processo uma vez iniciado, não terá fim jamais e nós, por mais que tenhamos uma idéia do que queremos ou de para onde desejamos ir, estaremos sempre à deriva. À Deriva é um filme emocionante, por ser verdadeiro.

a-deriva_laura-neivaFilipa (Laura Neiva, em seu primeiro trabalho – descoberta pelo diretor através do Orkut, flerta feroz e displicentemente com a câmera que ora mostra uma menina, ora mostra uma quase-mulher, sempre um rosto anguloso gostoso de ver) está se descobrindo como mulher. E nós sabemos que isso significa: Querer ao mesmo tempo que não se quer. Querer para não saber o que fazer quando conseguimos… Ela exercita seu poder e influência, sobre Arthur ainda que não saiba exatamente o tamanho da sua “autoridade”. Filipa julga seus pais a partir das suas descobertas, segue investiga, observa e se no início aparece apegadíssima ao pai, para o qual parece dirigir um olhar ligeiramente incestuoso, pouco depois  “compra o barulho” da sua mãe até perceber que precisa ter seus próprios problemas, até ouvir o chamado da sua própria vida. Não sei se intencionalmente, mas este filme parece dizer que existe mais de uma forma de ouvirmos este chamado.

a-deriva_debora-blochA mãe de Filipa, Clarice – na interpretação equilibradíssima de Débora Bloch afoga as mágoas em duas pedras de gelo e muitos dedos de whisky chegando a comover pela insanidade em que se move, apesar do mau exemplo que dá aos filhos. Ela tem a árdua tarefa de definir uma situação difícil, reveladora de sua natureza e que acaba por decidir  com o raciocínio pressionado pela emoção, sem se reconhecer na decisão. Clarice está à deriva boiando à superfície dos seus sentimentos e na expectativa de outros sentimentos não seus.

O irmão mais novo de Filipa faz um contraponto que mostra a total inexistência ou inutilidade do filho do meio, neste filme uma filha.

a-deriva_vicente-cassel Seu pai, Mathias (Vincent Cassel), um escritor francês nos aponta os  caminhos do nosso pragmatismo, do quanto podemos estar errados ao julgar a partir do que vemos. Do quanto a nossa cultura nos leva a preconceber julgamentos que jamais se concretizarão dentro de uma razoável razão. É ele quem vai nos mostrar o quanto podemos ser capazes de nos renovar mediante certas situações, o quanto isso pode ser inútil e quanto o aceitar uma opção na qual não estamos incluídos pode nos fazer  mudar nossos conceitos. É diante do inevitável fato consumado que Mathias entende o pensamento prático de Clarice vendendo os direitos do seu livro para um diretor de TV que não admira. A separação tem disso: Nos mostra uma força que não sabíamos que tínhamos e uma coragem que não sabemos de onde veio. Algumas descobertas  levam alguns  pelo caminho mais egoísta e tornam outros mais ternos.

Esse filme tem as tintas exatas de todo um cenário de revolução de sentimentos, desejos, interesses e costumes de uma época e de algumas fases que passamos ou poderemos passar. Tem um clima de mistério de quem está descobrindo o mundo, a vida, a morte, a violência, o corpo, amor. Com muitas cenas aquáticas, sempre temos a impressão de que algo de grave virá após tantos mergulhos e bater de pés. Tem figurinos perfeitos, muito bronze, cenários paradisíacos e atores excepcionalmente bem escolhidos. Dá pra ver se não a nossa vida, nossos medos passando na tela, de uma forma que deixamos de dar importância à gaveta revirada e arma desaparecida, afinal Mathias, está tão ausente da família exatamente por estar inteiramente submerso e flutuando nela.

Por: Rozzi Brasil.

p.s: Visitem o Flickr de Alexandre Ermel para ver muito mais fotos do filme.