O Anticristo

willem-dafoe-and-charlotte-gainsbourg_anticristoVi na semana passada e fiquei pensando: qual é o critério usado pra se classificar um filme como de TERROR? Por que aterroriza quem o vê? Se for só isso, eu não classificaria ESTE filme como de terror. Diria que tem DUAS cenas terríveis e foi só. Como psicóloga que lidou com o inconsciente por mais de 20 anos, através de sonhos, mitos, lendas, símbolos, eu o classificaria como DRAMA PSICOLÓGICO.  Ou ser testemunha desse tipo de drama é que aterroriza qualquer um que desconheça seus próprios demônios? A mulher foi a culpada pela morte do filho? Nananinanum: sexo se faz a 2!

Vi este filme como quem vê um processo psicoterapêutico profundo, sem entender muito bem porque levou o nome de Anticristo. Viver o lado sombrio – no caso, 1º como todos, tentando fugir dele, mas depois deixando-o vir à tona – transformou-se numa inabilidade do terapeuta/marido em lidar com o seu próprio lado sombrio. Matar sua contra-partida sexual porque é inábil me pareceu a grande derrota de alguém que se diz terapeuta, mas que não faz a menor idéia do que venha a ser o inconsciente. Mexeu com o que não devia: não ‘salvou’ ninguém nem nada, como costuma ser a proposta dos que se dizem terapeutas sem serem psicólogos do inconsciente, entrando – inevitavelmente – em contato com seu próprio “buraco negro”: se contaminou. E por se contaminar, foi derrotado, não lhe restando outra opção a não ser eliminar sua própria proposta falida.

À parte das cenas ‘surrealistas’, pra mim este filme expressou os nossos próprios ‘monstros’ a serem reconhecidos e não, escamoteados como o filme mostrou: quer se acalmar –> uma boa trepada resolve… O PRAZER, a busca pelo prazer ACIMA de tudo? É a fuga, a eterna fuga de si mesmo. Vai ver que o ‘anticristo’ está nisso…

Este filme me lembra Os Idiotas, não por acaso do mesmo diretor.

Por: Eli@ne L@nger.

Próxima parada MOSCOU

E tudo o mais que as fronteiras do nosso imaginário permitir. O jogo de cena continua.
Eduardo Coutinho mais uma vez nos presenteia com o ótimo documentário MOSCOU. Para quem assistiu ao JOGO DE CENA, vai ter uma certeza: de que o diretor tomou gosto pela dramaturgia. Nota-se que ele se sente à vontade ao dirigir o elenco teatral. O elenco do Grupo Galpão recebeu de seu diretor Enrique Diaz o texto da nova peça somente no dia da filmagem. O texto a ser encenado, AS TRÊS IRMÃS é da autoria do clássico russo Anton Tchekhov. É a história de Olga, Masha e Irina, mais um irmão que moram numa província na Rússia, mas sonham voltar a Moscou.
O interessante no filme é a bagunça generalizada. Os atores, ora ensaiam, ora representam, ora falam de si mesmos e de algumas lembranças de infância, de lugares e sensações, não se sabe ao certo quando é real e quando é ficção; a linha tênue que separa os dois lados se rompeu. E o ensaio do ensaio dos textos fica parecendo que nada foi ensaiado. Já foi a algum ensaio aberto ao público? Na verdade é isso que se passa no filme. Repassam o texto juntos ou separados, brincam, comem, namoram, alguém faz declaração de amor e não se sabe se é real ou não, e algumas coisas mais. Ficou incrivelmente bom; bem natural, exatamente os bastidores de um ensaio teatral.
Na verdade, Eduardo Coutinho fez uma proposta ao Grupo de ensaiar uma peça que nunca seria montada, seria apenas para realizar esse trabalho de documentário em cima de uma encenação pelo objetivo de mostrar essa linguagem investigativa entre a arte e a realidade à telona. Uma boa idéia, não? Adorei!
Adorei muito mais a escolha do texto de Tchekhov, não podia ser melhor, pois tem tudo a ver com o propósito do diretor de realizar. O sonho de consumo de uma família decadente é voltar para Moscou tentando realizá-lo a qualquer custo, mesmo sabendo que é um sonho quase impossível, uma utopia. Não é um simples documentário. De fato, não documenta como se monta uma peça teatral, as linguagens se fundem, as falas dos atores se misturam constantemente, às vezes não se sabe quem deveria falar o quê, quando e por quê? Fotos e fatos para trazer à tona lembranças pessoais.
Para quem gosta de originalidade, não deve deixar de apreciar esta obra de arte. Mesclar teatro ensaios, cinema, real, imaginário e finalmente Tchekhov, apesar de parecer que documentário é simples e fácil de se fazer, ledo engano, uma vacina nova, não deixe de tomar. Só pela idéia, TUDO já me fascinou, e o resultado me surpreendeu. É um filme sedutor.
Karenina Rostov
MOSCOU
By Eduardo Coutinho