
AntiCristo – AntiChrist
Direção: Lars von Trier
Gênero: Complexo demais para defini-lo, mas … Thriller Psicológico, Terror
Dinamarca – Alemanha – França – Suécia – Itália – 2009
Von Trier, cineasta dinamarquês, não poupa esforços para fazer de sua obra a mais complexa amostra de cultura de 2009 no mundo. Mal compreendido no Festival de Cannes, onde fora questionado do por que fez esse filme, defende-se como pode e deve, entenda como quiser:
“Trabalho para mim mesmo. Não devo satisfação a ninguém. Não tive escolha (ao fazer o filme). Foi a mão de Deus, eu temo. E eu sou o maior diretor de cinema do mundo. Não sei se Deus é o melhor Deus do mundo”, completou.
Polêmico.
AntiCristo (nome também de uma bela obra de F. Nietzsche – Filósofo Alemão) foi realizado pelo diretor num momento em que tentava superar uma crise de depressão. Segundo ele:
“Não conseguia trabalhar. Seis meses depois, apenas como um exercício, escrevi um roteiro. Foi um tipo de terapia, mas também uma procura, um teste para ver se eu ainda faria algum filme”.
E fez bonito!
A Depressão não é um fetiche burguês, um piti nostálgico que liga nada a lugar algum. Não. A Depressão corrói o sujeito por dentro entre uma Melancolia faltosa e um vazio absoluto que vai aos cumes do desespero. No texto Luto e Melancolia, Freud conceitua Luto como um trabalho psíquico que diz respeito a reação à perda de objeto de investimento libidinal, onde uma de suas maiores características é a incapacidade de investimento em outro objeto. O momento do luto, portanto, é do sujeito se recompor de tal perda para então conseguir investir energia em outro objeto.
Sabedoria popular: Não dizem que cura-se um mau de amor com um amor mais especial? Exatamente. No momento em que “aparece” um amor mais especial é o momento em que o sujeito já dá conta de investir energia em outro.
E a Melancolia que é agente direta da Depressão? Conceitualmente é a mesma coisa do Luto, porém com nuances mais delicadas. Primeiramente, demora demais para cessar o tempo de reação à perda. Segundo, uma das maiores características é a Autodepreciação. A autodepreciação é importante para entender que na verdade quando o sujeito diz: “eu não presto pra você, sou chato, mau, idiota etc” ele está dizendo que o objeto de seu investimento libidinal que não presta
. Por isso, os suicidas escrevem cartas maravilhosas: “Eu não presto, o mundo é bonito demais pra mim” ou “Essa vida não me traz mais nada, não compensa ficar nela para te dar trabalho” e por aí vai, no fundo trata-se de um ódio absoluto que ao invés de ser dirigido pra fora é dirigido pra dentro, pra si próprio. Autoagressividade. O Suicida quando se mata está matando o objeto de amódio. Por isso, também, a carta. É preciso que ele culpe o objeto a ponto de deixá-lo – o objeto – com o máximo sentimento de culpa que ele puder.
Obviamente que o assunto não cessa aqui, é longo, vasto e in-tenso. Mas com essas premissas em mão é possível entender melhor a obra de von Trier que se divide em capítulos que pelos títulos já se tem uma noção do que virá.
Respeitar o Luto é de suma importância tanto pra quem sente, quanto para quem convive com um sujeito de e em luto. Explicações racionais não são alcançadas para quem sofre. Não adianta um médico dizer para um sujeito às raias do desespero: “Você tem depressão”. E daí? Saber disso não o cura!!! O diagnóstico serve mais para o profissional como forma de saber como vai trabalhar com aquela pessoa do que para a pessoa em si que nem sabe o que fazer com isso…
Além disso, o filme é uma crítica direta ao americanismo do fast food terapêutico, onde são pautados no Behaviorismo que privilegia apenas a consciência do sujeito. Mas, isso é um longo assunto que pode ser massacrante para um blog onde a pauta é cinema rsrsrs. Freud, felizmente, não morreu.
Paciência, silêncio e atenção são elementos básicos para assistir o filme. Ele lida com questões humanas densas, feridas, fraturas expostas. Segundo Freud, quando se abre uma caixa de escorpiões o que encontrará lá dentro? Escorpiões. Não se iludam.
Por: Deusa Circe, Vampira Olímpia (Vamp) e Morgana.