“Quinze segundos e minha vida mudou”… Para sempre.
Se Salve Geral merecia ou não ir à disputa do Oscar não consigo realmente avaliar. Mas que a dose de suspense que ele oferece é digna de prêmio é fato.
Estive em alguns debates onde alguns diziam que o filme promove um endeusamento da criminalidade. Que não deveria concorrer ao Oscar por denegrir a imagem do país. Que é mais um filme sobre violência e polícia corrupta… Bem, pelas possibilidades que temos de trazer para Brasil a estatueta, penso que este filme é tão bom para isso como qualquer outro e eu não sou uma pessoa pessimista.
Alguns comentam que fazemos filmes sobre miséria, pobreza e crimes e que lá vamos nós com um de já vu. Eu não tenho memória estatisticamente cinéfila que me permita dizer quantos filmes estadunidenses já assisti sobre Primeira e Segunda Guerras, Vietnam, judeus como coitados, Independência americana, ocupação do Oeste e assassinos em série. Não vejo porque o sangue americano jorrado ser mais cinematográfico que o latino, nordestino, brasileiro. Violência social não se esconde, se resolve. Se há vergonha de parte dos brasileiros dessa realidade de violência e corrupção ser vista, ela deveria ser revista aqui, deveria existir uma vergonha tão contundente que nos levasse não a esconder da visita a nossa louça lascada, mas ir às vias de fato para se ter algo melhor se não para apresentar ao mundo, para se viver no dia-a-dia.
Salve Geral tem o mérito de ter ótimas interpretações de atores em todo ou em parte desconhecidos (achei exagerado, caricato o personagem Pedrão, Guilherme Sant’Anna), um dos protagonistas que me lembrou muito Gael Garcia Bernal, não pela beleza mas pelo corte de cabelo e aquele ar entre o displicente e despojado. Tem um roteiro caprichado, bem amarrado e uma vez assistido sem os pré-conceitos por ser um filme nacional, é capaz de levar à reflexão sobre coisas que vão muito além do que a divisão maniqueísta entre mocinho e bandido, e que não há salvação para o cidadão incluído no sistema prisional vigente.
O que confere ao filme um tom documental é alem das inserções de imagens reais de conflito, o perfil das personagens, a direção não engana: o tempo todo em todo o filme vemos que ali não há santos nem heróis, há pessoas que chegam ao limite do certo e errado, entre o legal e o ilegal. Não há como evitar a sensação de que a qualquer momento algo de muito pior pode acontecer aqueles que por identificação, nos parecem terem ainda salvação…
Há pessoas que não nasceram para o crime, mas aprendem a se movimentar dentro de uma engrenagem criminosa, há pessoas que tem tudo para não delinqüir mas não saberiam viver sem uma mancha de sangue ou de qualquer outra sujeira nas mãos.
Lúcia (Andréa Beltrão) é uma professora de piano que ao ficar viúva perde prestígio e posição social indo morar num subúrbio distante. Ela tem um filho Rafael (Lee Thalor) que como todo bom adolescente não absorve bem a nova realidade. Rafael sai com um amigo mecânico num carro tomado emprestado sem permissão da oficina onde este trabalha, por capricho do destino no porta-luvas tem uma arma, por aquelas coisas que embora possamos ter feito um dia, jamais saberemos explicar, eles vão para um racha. É este jogo de vários erros que colocará Rafael em contato com os 15 segundos que mudarão sua vida para sempre, conforme ele mesmo diz e esta mesma combinação levará sua mãe a um mundo onde mesmo visto em filmes não podemos crer. Nas visitas ao filho ela conhece “Ruiva” (Denise Weinberg) advogada de um líder de uma facção criminosa, Bruno Perillo (Professor) que a usará para serviços ilegais. Lúcia entra num caminho sem volta e acabará por se envolver numa luta pelo poder da facção que ocasionará a paralisação de parte do país num dia de terror e pânico orquestrados pelo “partido” em represália às transferências dos presos, lideres da facção.
“Salve” na gíria dos bandidos de São Paulo é “recado”.
Salve Geral é um filme “de ficção baseado em fatos reais” onde nada, nem ninguém é o que parece ser na primeira vez em que aparece na tela.
Podemos refletir que se algumas autoridades simplesmente fizessem seu trabalho em vez de brincar de mostrar para a mídia que trabalham, teríamos menos problemas, muitas soluções, menos mortos, menos margem à corrupção e alguma fé de que as coisas pudessem dar certo. É a vaidade, até mais que a ambição que levam as personagens desse filme a uma miséria moral para a qual o dinheiro é apenas um pretexto.
Por:Rozzi Brasil. Ong Casa da Vida.
SALVE GERAL!. Brasil. 2009. Diretor e Roteirista: Sergio Rezende. Elenco: Andréa Beltrão, Denise Weinberg, Lee Thalor, Bruno Perillo, Guilherme Sant’Anna, Chris Couto, Eucir de Souza, Kiko Mascarenhas, Michel Gomes, Giulio Lopes, Taiguara Nazareth, Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição, Julio Cesar (5), Otávio Martins. Gênero: Drama. Duração: 119 minutos.
Rozzi, continuo sua fã
Parabéns pelo texto, pela reflexões… Depois que eu assistir, volto aqui.
E com ele fiquei sabendo o porque do título: Salve Geral!. Desconhecia esse significado: salve = recado.
Valeu!
Beijão,
Obrigada, Val!
Confesso que me imaginei incapaz de escrever sobre esse filme. Saí do cinema meio tonta. Minha amiga de debate comeu todas as suas unhas francesinhas de porcelana… Havia a efervescência do Fest Rio e o burburinho da representação no Oscar. E eu atônita.
Porque filme é nacional, no geral as pessoas vão armadas pro cinema (isso, não é um trocadilhos rs). Por ser representante do Oscar todos os comentários focaram-se em fatores ao meu ver de menor importância e, afinal, que importância terá esse Oscar pra nós? Mais uma vitória para alimentar o desdém “dos contras”como a Olimpíada e fomentar o delírio dos “a favor”…
Percebi num debate com tanta gente culta-muito mais do que eu – discutindo a respeito de algo que ocorrerá num país distante. Pensei mas que tipo de filme eles querem que se faça pra se levar para as competições internacionais? Bossa Nova? A Vida e obra de da família Guinle? Eike Batista um homem e seu sonho? O EUA não fazem filmes violentos? O que podemos apresentar ao mundo se não temos nenhum presidente herói salvador da humanidade? Fazer um Diamantes de Sangue, quem sabe a miséria da África poderá ser mostrada sem constrangimento cinéfilo-brasileiro?
Céus nesse filme a mocinha se envolve com bandido, o mocinho é um mimado arrogante, os bandidos são bandidos a polícia é polícia bandida também, todo mundo é errado, isso deve ser muito feio de se ver.
Eu tentei mostra a minha ótica de apreciadora do filme nacional e crítica da realidade de avestruz que insistimos em viver… A gente tem que gostar do que tem e procurar ter sempre o melhor é o jeito de gostar do que é bom e isso é um longo caminho…
“Eike Batista um homem e seu sonho?”
Não dê idéias
vai que ele goste!
Sério, agora!
Falou algo que eu assino embaixo! Isso:
“ir às vias de fato para se ter algo melhor se não para apresentar ao mundo, para se viver no dia-a-dia.”
É o que temos que fazer. E até aglutinando mais pessoas. Exemplo disso, foi um grupo se unir, eu entre eles, criar a Ong Transparência Magé para tentar pelo menos frear a corrupção em Magé.
E falando em Ong… Linke a Casa da Vida ao lado da sua assinatura
hahahah! Puxa, será que eu poderia escrever o roteiro???!!! rsrsrsrsr [:p]
E se chamar a Criz como co-roteirista… Ele eu não sei se iria gostar. Agora, nós sim iremos gostar muito desse filme