ZELIG

“A existência humana precede sua essência.” Jean-Paul Sartre

“Eu queria ser qualquer outra pessoa.” Woody Allen

A elegância, o charme, o carisma, a criatividade, o humor, são marcas registradas do artista Woody Allen.

Zelig é um dos filmes que ainda não havia assistido desse genial diretor, e depois da sessão senti-me premiada pois é uma obra-prima incontestável.

Woody Allen criou o personagem Leonard Zelig fora dos padrões, digamos, normais. Zelig é imprevisível, podendo aparecer em qualquer canto do mundo que quiser, tomando formas ou características humanas a seu bel prazer, transformando-se em chinês, índio, magro, gordo, negro, branco, pobre, rico… só não tomou forma feminina; e sob várias personalidades psicológicas. É um personagem-camaleão com essa habilidade de mudar de características mentais e físicas de acordo com o seu interlocutor.

Zelig foi realizado na década de 80, e é um dos 40 filmes de Woody Allen, um dos diretores mais ativos da atualidade, produzindo um filme por ano. Os cariocas foram contemplados pelo Centro Cultural Banco do Brasil com a retrospectiva completa desse ícone da sétima arte. De fato, alguns filmes são difíceis de se encontrar, até mesmo os dessa mostra, algumas preciosidades em película, uma das cópias que conseguiram na Espanha, infelizmente a alfândega não liberou a tempo, e tiveram que passar a em DVD para que o expectador não perdesse a viagem, óbvio.

Leonard ZELIG é um pseudo-documentário nada convencional que hora transita pelo mundo real, hora pelo ficcional, e é isso que torna a obra brilhante e especial. O próprio Woody Allen faz o papel-título  supracitado homem-camaleão, capaz de aparentar e agir como qualquer pessoa que estivesse por perto. Capaz de adquirir características físicas e comportamentais, idem. Zelig tira qualquer um literalmente do sério.

Cheguei à conclusão que somos um pouco Zelig, tanto no mundo real como no virtual. No mundo real, certamente adquirimos características comportamentais de acordo com o ambiente. Apesar de achar que o ambiente não influi no nosso modo de agir, mas nós é que influímos nele, pode acontecer o inverso, ou seja, agirmos de acordo com o ambiente que nos cerca, e somente naquele momento, depois voltamos pacato para a nossa rotina. Entenda-se que isso não é regra. Um fato interessante para ilustrar essa história de comportamento e que virou caso de polícia recentemente nos noticiários, são de pessoas se passando por profissionais da saúde (dando consulta, medicando): vide alguns pseudo-médicos e pseudo-advogados saindo algemados de seus respectivos “consultórios”.

No mundo virtual isso é mais freqüente de se constatar. Atrás de uma tela de um PC, o interlocutor anônimo pode tomar a forma que quiser, poder ir muito além de Zelig, transportando-se de uma anatomia física e mental masculina para uma feminina. Duvida? No mundo virtual quase nada é impossível.

Somos talvez uma ilha cercados de ZeligES por todos os lados.

Ele é a tentativa de construir a própria identidade a partir do outro e das relações sociais e o contexto em que está inserido. O modo de agir ou de se relacionar em cada espaço social podendo ser o familiar, na escola, trabalho, igreja, nem sempre é igual. Alunos agem de uma forma na escola e outra em casa, por exemplo… tornou-se algo corriqueiro no meio cultural. Também noticiário rotineiro, o quebra-quebra e o vandalismo nas escolas e ruas e a “santidade” em casa.

Há pessoas que mudam radicalmente de personalidade, preferências, gostos constantemente é fato. Constroem sua identidade ao longo da vida ou da noite pro dia.

Zelig conseguia essa façanha. Poderia ser quem bem quisesse e quando bem entendesse. Era o objeto de estudo de muitos. Até que apareceu uma psiquiatra, a Dra. Eudora Fletcher (Mia Farrow) que tentou “estudá-lo” e curá-lo, e assim resolveria seu próprio problema de auto-estima. Ao lado da médica, ele também se torna um psiquiatra. Mesmo assim, ele aceita ser objeto de estudo e tratamento dela. E em uma das sessões Zelig, sob hipnose, consegue-se algum início de tratamento. Ele diz que se sente mais seguro pegando formas emprestadas daqueles que encontra. Diz também que a ama que gostaria de dormir com ela e que ela é adorável. Acaba saindo verdades que talvez ela não quisesse ouvir; algo do gênero “Você cozinha mal; as suas panquecas são ruins, quando você não está olhando, eu as jogo fora”. A psiquiatra consegue desvendar o mistério aos poucos. Em uns dos diálogos isso fica evidente que ele adota esse mecanismo que lhe permite mudar de forma para se fundir com o seu ambiente imediato, a fim de se proteger, uma autodefesa do mundo que o circunda. Formidável!

Dra. Fletcher: “ O que você entende por seguro?”

Zelig: “É mais seguro ser como os outros.”

Dra. Fletcher: “ Você quer estar em segurança?”

Zelig: “Eu quero ser amado.”

A história acontece entre os anos 20 – 30, e ele é considerado um herói. Todos querem conhecê-lo e saber a sua história. É um filme grandioso, considerado excepcional pela crítica. Tem apenas 79 minutos de duração. Filme obrigatoriamente indispensável.

Karenina Rostov

*****

Como documentário, há presença de um narrador tipo cobertura jornalística completa a cada passo dado pelo personagem.

Zelig recebeu as melhores críticas no ano de lançamento e ganhou o Prêmio Pasinetti no Festival de Veneza.

“ Woody Allen harmonizou todos os seus talentos e fez um filme que finalmente merece a honra dos enciclopedistas e a condição de obra-prima.” Leon Cakoff, Folha de São Paulo, 1984.

SINOPSE

A história (fictícia) de um homem camaleão, Leonard Zelig, inseguro e neurótico, que se obriga a imitar física e mentalmente qualquer pessoa que esteja em sua companhia. Tenta um tratamento com a Dra. Eudora Fletcher, mas vira celebridade nacional e aparecem manchas do seu passado, como furto e bigamia.

FICHA DO FILME

Título original: Zelig
Diretor: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Woody Allen, Susan Sontag, Saul Bellow, Irving Howe, Garrett Brown, Michael Jeter
Gênero: Comédia
Duração: 79 min
Ano: 1983

Por: Karenina Rostov.  Blog: Letras Revisitadas.

Avatar

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O cinema passou por duas revoluções em sua história: o som e a cor. Representaram um grandioso passo para a sua história e com isso eternizaram a Sétima Arte.

Em 2009, o cinema consolidará a sua 3° revolução, a do 3D, e ela será representada pela nova epopéia cinematográfica de um dos maiores nomes dos Blockbusters do cinema, James Cameron. Eu chamo de revolução pelo fato de ele ter utilizado uma tecnologia que esperou 14 anos para dar suporte ao inventivo roteiro do cara. Tanto que só deu sinal verde para a produção depois de ver o personagem Gollum de O Senhor dos Anéis. Com a tecnologia desenvolvida necessária para criar o universo que é Pandora, James Cameron nos dá uma mostra de que a magia do cinema é imortal! Avatar é o próximo da rica carreira do canadense, que consta meus amados Aliens o Resgate, Exterminador do Futuro 1 & 2, True Lies, O Segredo do Abismo e o premiado e maior bilheteria da história Titanic. Mesmo sua filmografia ser relativamente pequena, James Cameron com pouca coisa conseguiu entrar pro rol de grandes diretores da história. Com muita imaginação e criatividade, eternizou jargões, criou cenas memoráveis e até emplacou um sucesso nas rádios (me refiro à grudenta My Heart Will Go On da Celine Dion).

Ficou entocado por 12 anos depois de Titanic desenvolvendo seu novo filme. Um filme futurístico, ambientado no planeta Pandora, onde vivem as criaturas gigantes Na’vi, que entram em choque com a presença humana em seu planeta.

O título Avatar, muito confundido com o desenho de mesmo nome (que ganhou uma versão cinematográfica dirigida por M. Night Shyamalan, com título porcaria “O Ultimo Guerreiro do Ar”¬¬), se refere à armadura usada pelos habitantes do planeta. Em seu novo, e por muito tempo misterioso, filme, Cameron utilizou uma tecnologia de computador mais detalhada, que precisou de empenhados e suados 13 meses só para captura de movimentos, e depois a pós produção.

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O resultado final é embasbacante. Para quem adora cinema, o filme será um deleite dos grandes. Cameron sabe e muito, fazer filmes carregados de um visual belo e muita ação. Não a toa, seus filmes sempre vieram acompanhados de seqüências de tirar o fôlego, como por exemplo a perseguição em Exterminador do Futuro 2, com moto e caminhão, inesquecível! Ou as cenas finais do meu amado True Lies, com Swarza pilotando um avião e arrasando na ação. Também sabe fazer coisas mais sensíveis, vide as belas cenas e passagens mais “maduras” de O Segredo do Abismo que pra mim é seu filme mais reflexivo. Titanic é o que há de mais conhecido em sua carreira e é onde está mais evidente a sua mão. A seqüência do navio afundando é coisa de mestre.

E pelo que se pode esperar, ele vai colocar tudo isso em seu Avatar, pelo que se pode ver no esperadíssimo trailer, lançado mundialmente em 21/08, o filme será um dos melhores do ano sem sombra de dúvida.

A Twentieth Century Fox destinou ao projeto U$300 milhões, e o orçamento milionário já envolveu 1000 pessoas trabalhando na mega produção. Filmado no mesmo hangar onde Howard Hughs construiu sei aeroplano de madeira. Todo filmado em “fundo azul” e o famoso cromakey, tudo que há de digital no filme foi gerado pela Weta Digital na Nova Zelândia, a mesma de Peter Jackson e O Senhor dos Anéis e King Kong.

“Jake Sully (Sam Worthington) ficou paraplégico após um combate na Terra. Ele é selecionado para participar do programa Avatar, onde poderá voltar a andar. Para tanto viaja a Pandora, uma lua extraterrestre onde encontra diversas e estranhas formas de vida. O planeta é também o lar dos Na’vi, seres humanóides que, apesar de primitivos, possuem maior capacidade física que os humanos. Os Navi têm três metros de altura, pele azulada e vivem em paz com a natureza de Pandora. Os humanos desejam explorar a lua, de forma a encontrar metais valiosos, o que faz com que os Navi aperfeiçoem suas habilidades guerreiras. Como são incapazes de respirar o ar de Pandora, os humanos criam seres híbridos chamados de Avatar. Eles são controlados por seres humanos, através de uma tecnologia que permite que seus pensamentos sejam aplicados no corpo do Avatar. Desta forma Jake pode novamente voltar à ativa, com seu Avatar percorrendo as florestas de Pandora e liderando soldados. Até conhecer Neytiri (Zoe Saldana), uma feroz Navi que conhece em batalha.”

Fonte: Adorocinema.com.br

Palavras do próprio James Cameron: “ é algo muito além do que já fiz até hoje e é por isso que está levando tanto tempo para ficar pronto. E ainda faltam sete meses. Pensem que Titanic levou dois anos para ficar pronto, então este é muito, muito grande. Desenvolvemos tecnologias novas para realizá-lo em 3-D estereoscópico com câmeras que levamos 9 anos pra projetar. O resultado é uma experiência 3-D totalmente imersiva que não será exatamente como ver um filme, mas participar de uma jornada, sonhar com os olhos abertos”.

Vindo de alguém do calibre do Cameron, estou aguardando um filme incrível, inovador em vários aspectos e claro, que revolucione a maneira de fazer filme.

Em 18 de Dezembro, em lançamento mundial, seja em 3D ou não, não perca!

Trailer oficial legendado:

Vídeos de bastidores: http://www.youtube.com/watch?v=io0NhU3L4qw

Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Lola Herrera, Joel David Moore, Giovanni Ribisi, Michelle Rodriguez, Stephen Lang, Wes Studi.
Direção: James Cameron.

Gênero: Ação.

Falando Grego – uma bela viagem pela Grécia!

Não dá para passar batido por esse filme. Não é um grande filme. Nem tampouco vai deixar saudades. Mas assim mesmo o indico para algumas pessoas. E quem seriam elas? De cara, para quem sonha conhecer a Grécia. A esses, esqueçam a história de “Falando Grego“, se vejam sentados numa poltrona, e embarque nessa viagem de turismo por belíssimos cenários grego. Só por conta disso, é que eu tornaria a ver esse filme. As paisagens são deslumbrantes.

Aqueles que lidam com turistas, ou até estejam estudando dentro dessa área, Turismo, também fica a sugestão. Embora por ser uma comédia, acentuam os esteriótipos dos turistas por nacionalidades, é sempre um dado relevante aos seus estudos. Dizem que aos turistas japoneses, fecham os olhos quando tiram fotos dentro de museus parisienses. Porque são os turistas que mais gastam dinheiro em viagens. Nesse filme, há turistas de várias nacionalidades. Que a guia, Georgia (Nia Vardalos), já os define como sendo:
- Australianos, bebuns.
- Americanos, irritantes.
- Canadenses, educados… Mas esses vão para um outro Guia da Agência…

Além, de classificar também por comportamento. E aqui entra alguém que citarei mais adiante. Por hora, o rótulo dado por ela: um chato que se acha o maioral do grupo. Forçando a barra em ser o mais engraçadinho. Ele é Irv Gordon (Richard Dreyfuss).

Acontece que Georgia que é chata. Não conseguindo disfarçar a sua frustração por esse emprego. Voltara a sua terra natal, querendo lecionar História Clássica na universidade. Como não conseguiu, quis então dar aulas aos turistas. Não percebendo que é entediante suas falas.

Viajar é mudar o cenário da solidão.” (Mário Quintana)

Essa frase de Quintana cairia bem para esses dois personagens: Georgia e Irv. Muito embora ela já estivesse passado da fase de ter um Mentor… até posso estar sendo preconceituosa, mas chegar na idade dela sem estar bem resolvida… fica parecendo que baixou uma adolescência tardia. E é até por isso que eu defini o Irv como um Mentor da Heroína desse filme. Aqui, no sentido mesmo de protagonista. Irv vai mostrando a ela o que está diante dela, e ela não está vendo. Por estar amarga demais.

Com Irv, a alegria quase forçada, vem para não sentir o peso da solidão. O peso de uma perda. Que o faz ressentir-se se não soube desfrutar, aproveitar, doar-se plenamente… enfim, se conseguiu ser especial para uma certa pessoa. Pesava-lhe o receio de não ter conseguido. Essa viagem à Grécia, foi para fazer esse resgate. Um longo mergulho em sua alma.

Por conta disso, tenta mostrar a Georgia que ela está desperdiçando seu tempo de vida. Falando grego para aqueles turistas. E nem vendo um deus grego vivinho ao seu lado…

Pausa para falar do ator Richard Dreyfuss. Primeiro, que num mundo onde dão mais destaque aos cada vez mais jovens, ver alguém que já passou dos sessenta anos de idade, ainda atuando, para mim, é uma grata satisfação. Meio redundante. Mas fico feliz em ver. Depois, que esse ator faz parte da minha memória cinéfila. Em cenas ainda guardadas com carinho de vários filmes seus. Em Tubarão, por exemplo, onde seu medo foi sentido pelo público. Mesmo que seja num filme como esse fica aqui o meu aplauso. Valeu, Dreyfuss! Vida longa a ti!

Então, é isso! Falando Grego é uma linda viagem pela Grécia! Com uma pitada de: abra os seus olhos porque a vida é bela, e curta.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Falando Grego (My Life in Ruins).2009. EUA. Direção: Donald Petrie. Elenco: Nia Vardalos (Georgia), Richard Dreyfuss (Irv), Alexis Georgoulis (Poupi Kakas), +Cast. Gênero: Comédia Romântica. Duração: 98 minutos.

Deixa Ela Entrar – Um dos melhores (e mais assustadores) filmes que já vi

É com surpresa que vimos o filme mais fascinante sobre vampiros surgir da Suécia. Desde “Nosferatu” do Murnau e “The Hunger” do Tony Scott não surgia nada tão original, hipnótico e assustador sobre o tema. Tomas Alfredson orquestra brilhantemente um elenco afiadíssimo (especialmente as crianças) calcado num roteiro preciso e envolvente sobre Oskar, um menino solitário que conhece uma vizinha estranha e noturna. A criatura o ajuda a ter mais autoconfiança para enfrentar seus agressores no colégio enquanto terríveis mortes acontecem no lugar.

A fotografia é um espetáculo à parte ajudando a compor um clima gélido e assustador com um enquadramento singular, cheio de contrastes e closes inéditos. A música também é perfeita e caminha junto com toda esta perfeição técnica compondo situações apavorantes que enchem a tela a cada instante com imagens de gelar o sangue sem abusar dos efeitos especiais. É preciso estar atento para não perder detalhes preciosos como sons de fome e a besta oculta pelas sombras ou subindo pelas paredes feito um inseto rastejante. Esqueçam os clichês óbvios como cruzes, dentes pontiagudos, alhos e caixões embora a essência da lenda esteja completa na estória. A releitura inteligente acrescenta elementos psicológicos e sexuais que impregnam a trama com uma verossimilhança impressionante tocando em temas delicados como a difícil transição para a adolescência, longevidade, ambiguidade, longevidade e luta pela sobrevivência. Tudo manipulado com habilidade, sensibilidade e sutileza raras para o gênero.

Em dias de crepúsculos e sanguessugas lésbicas, “Deixa ela entrar” será um marco para uma nova era de filmes sobre vampiros se as portas continuarem abertas para a qualidade.

Carlos Henry

Lua Nova

lua nova

Em novembro do ano passado, o Best Seller da americana Stephenie Meyer ganhava a sua versão cinematográfica. O filme Crepúsculo veio com um orçamento risível e feito apenas para acompanhar o sucesso do livro. O resultado foi excelente e entupiu as salas de cinema de todo o mundo. Crianças, adultos, todo mundo no cinema acompanhando as aventuras de uma garota que se apaixona por um vampiro.

A historinha de amor impossível ganhou o coração de todo mundo e as adaptações dos outros livros tornaram-se inevitáveis, e 1 anos depois, chega as telas de todo o mundo Lua Nova, o 2° episódio de uma saga com 4 livros. Agora com um orçamento mais gordinho e cheio de vontade de ser grande, a segunda aventura apresenta melhoras consideráveis em relação ao primeiro e já dá um lampejo de amadurecimento à obra.

Só que mesmo apresentando melhoras, o filme ainda se perde em falhas tolas em sua estrutura narrativa, ao tentar inserir uma abordagem mais clássica aos personagens, citando exaustivamente Romeu e Julieta de Shakespeare, acaba ficando confuso em alguns momentos e faz o filme virar uma montanha russa de sobe e desce que incomoda durante suas duas horas de exibição.

Tudo começa no aniversário de Bella Swan (Kristen Stewart ), que tenta manter as aparências com seu namorado vampiro Edward, interpretado ainda por Robert Pattinson. Os vampiros parentes de Edward fazem uma festa para Bella, e ela comparece, pois trata-se de vampiros bonzinhos que brilham no sol. Lá acontece um acidente: ao abrir um presente ela se corta e o sangue atiça os desejos mais primitivos de um deles, causando uma briga durante a festa.

Preocupado com o futuro de Bella, e sabendo que tudo pode dar errado, Edward decide sumir para protegê-la. Só e sentindo a falta do namorado, Bella tenta por a vida nos eixos, ainda mais quando fortalece amizade com o garoto Jacob (Taylor Lautner), que a ajuda a ser um pouco mais feliz na ausência do vampiro.

lua nova

Só que as coisas começam a fugir do controle de todo mundo. Jacob na verdade é um lobisomem que possui um trato com os vampiros amiguinhos de Edward, que quer se matar porque acha que Bella está querendo morrer (lembram de Romeu e Julieta?) e pior, Victoria, a vilã da história, está no encalço de Bella e vai querer dar trabalho pra todo mundo no filme.

A trama não é das mais diferentes, já vimos essa coisa toda em vários outros filmes, só que aqui, é apresentada com uma abordagem que atinja os jovens de uma maneira mis didática. Pregando a castidade e a boa conduta, sentimentos que todos nós sabemos, vão contra os princípios dessas criaturas lendárias, o filme segue fiel à obra e ao mesmo tempo tenta caminhar com as próprias pernas.

Uma coisa que a autora foi muito criticada, no que tange a mitologia envolvendo os seres fantásticos da história, está no fato de ela dar a eles características muito diferente do que foi dado ao Conde Drácula, por exemplo. Os vampiros deixam de ser sedutores, deixam de ser ameaçadores, andam tranquilamente durante o dia (a desculpa dada é que o lugar onde vivem é nublado o bastante para evitar a passagem de luz solar) e o que mais me incomoda, ficam brilhando de maneira muito homossexual na luz do sol. Para alguns é liberdade poética, pra mim é sacanagem.

E o mesmo vem com os lobisomens, que começam a sentir uma febre toda vez que um vampiro aparece. Preciso dizer que isso é meio “homo” também? Peço desculpas pelo machismo, mas cresci lendo e assistindo histórias onde essas criaturas tocavam o terror e faziam seus atos aterrorizantes por puro instinto e tal e coisa. É legal ver coisas diferentes? É, mas quando adiciona cimento ao invés de trigo na massa do bolo, é errado. É jogar poeira no ventilador.
Mas uma coisa que notei de diferente nesse segundo filme, foi o incomodo com esses detalhes. Obrigatoriamente o diretor teria que respeitar o livro que serve de base, mas ele tenta de todo jeito passar em cima desses detalhes constrangedores. Sem perder tempo tentando explicar porque os lobisomens ficam com febre, ele apenas cita essas coisas e tenta levar o filme pra frente. Erro cometido por Catherine Hardwicke em Crepúsculo, onde ela abusa dos detalhes constrangedores e fez um filme apenas para os Fãs, e não para o grande público. Lua Nova tenta reparar esse erro ao tentar levar o filme para outros públicos, e tentar perder os estigmas que a diretora do filme anterior criou.

Mas esse ponto a favor se perde quando o filme insiste em ser água com açúcar, criando momentos de um melodrama chato e desnecessário. Boa parta do filme fica nisso e acaba sendo maçante em boa parte. Quando entra na ação, na hora do “pau quebrar”, como sabiamente dizia o “Coisa” do Quarteto Fantástico, a coisa é pior do que se imagina. O uso de câmera lenta a lá Zack Snyder é um porre imenso e não cria clima nem clímax pra nada. São cenas monótonas e rápidas. Começam e do nada terminam. Possuem até um domínio bom de técnica, mas são tão apagadas que passam sem deixar saudade pelo filme. Se era pra fazer daquele jeito, era melhor nem ter feito. Concordam?

Mas a direção de Chris Weitz, o mesmo por trás do ótimo Um Grande Garoto, é bem competente.

Em muitos momentos do filme ele mostra uma segurança tremenda na hora de criar um clima de abandono que impera por boa parte. Por exemplo, uma seqüência onde Bella vê o tempo passar sentada na janela do seu quarto. É bem feita, bem montada e um dos poucos momentos do filme onde o melodrama funciona sem ser piegas. Outros momentos que achei bacana foi quando ele filmou a ação por cima e em câmera lenta, dando um efeito bonito pra alguns momentos do filme.

Só que a parte técnica pouco ajuda. Por mais que a fotografia seja até boa, os efeitos especiais pouco ajudam, sendo artificiais demais. Só que claro, apresentam uma melhora considerável em relação ao outro filme. O que me anima é que os ajustes estão sendo feitos e se o ritmo continuar, no próximo filme, que já está em finalização, a história pode sofrer uma mudança interessante e deixará de ser exclusivamente de um público restrito (fã) e atingirá um público maior. Essa pretensão pode ser sentida em Lua Nova e pode ser que em Eclipse, dependendo de quem assuma a direção, a coisa melhore mais.

O elenco ainda é apagado e é a única coisa do filme que não melhorou em nada. Vi cerca de 40 minutos de Crepúsculo (achei tão besta que nem cheguei até o fim), e uma das coisas que mais incomodaram foi o elenco. São rostos bonitos, usando aquele método picareta de chamar a atenção dos jovens, nada mais. Estão todos péssimos, ainda. Principalmente o trio principal: Bella/Edward/Jacob. Todos bem desconfortáveis no que fazem. Chega a ser bizarro ver o personagem Jacob com cabelo grande e cara de “que eu to fazendo aqui”.

lua nova

O mesmo acontece com Robert Pattinson. Será que ele só sabe fazer a mesma expressão?

No mais, alternando altos e baixos, Lua Nova não é uma perda total de tempo. Eu mesmo desfrutei da minha Companhia e dei risada o tempo todo das bizarrice que o filme mostrava. Ficava fazendo piadas durante a exibição e acabou valendo os R$ 6,00 gastos no ingresso. Mas se você tiver algo melhor pra fazer, vá fazer.

Nota: 4,5

The Twilight Saga: New Moon, 2009 (EUA)
Direção: Chris Weitz.
Atores: Kristen Stewart , Robert Pattinson , Taylor Lautner , Dakota Fanning , Michael Sheen.
Duração: 130 min

Porque odiei 2012

2012

Roland Emmerich é um cara engraçado. Surge em Hollywood com o interessante Stargate e insiste em entregar belas porcarias como 10.000 aC. Ele se consolidou como destruidor oficial do mundo, seguido por Michael Bay e seus filmes de qualidade equiparável aos do Emmerich. Pois bem, a primeira aventura do diretor no ramo destruição global que o povão curte assistir foi bem sucedida e Independece Day é um clássico da sua carreira. Eu particularmente só curto as cenas de ação mesmo e olhe lá… A sua segunda aventura ainda no ramo destruição já não foi tão bem sucedida. Godzilla por mais que eu adore de coração, não nego que é um grande equívoco cinematográfico. Só que Independence Day e Godzilla tem um ponto em comum: são divertidos porque não são tão levados a sério.

Pois bem, após o até regular O Patriota, com Mel Gibson em 2000, o alemão puxa saco número 1 dos Estados Unidos retorna com o péssimo O Dia Depois de Amanhã. O filme é cheio de fatores que atrapalham seu andamento, e essas falhas, tão repetidas a exaustão em seus filmes, comprometem toda a obra. Os clichês, o exagero nos efeitos especiais e o dramalhão barato, transformaram O Dia Depois de Amanhã num dos maiores purgantes da história do cinema. Mas foi em 10.000 aC que o diretor provou por A + B que precisa se aposentar.

A raiva que me consome é o fato de seus filmes renderem milhões. Por conta disso, os produtores ávidos por dinheiro, financiam qualquer coisa que ele quiser por no papel.

E com isso, Roland Emmerich e seus US$ 260 milhões trazem para o circuito comercial mais um equívoco, dessa vez com ares mais pretensiosos e de ”mamãe quero ser obra prima”.

Ele tinha a chance de ser feliz em fazer algo realmente bom, inventar uma história e contar algo que realmente convencesse. Só que o filme se perde na própria pretensão e vira uma cadeia de sentimentalismo barato e hipócrita, com cenas de ação que de longe empolgam ou causam algum impacto, e o mais chato: mais uma vez puxa o saco dos americanos, apresentando eles como a raça mais superior do mundo.

Nada de portal que nos leva a outra dimensão, nada de lagarto alterado geneticamente, nada de aquecimento global, nada de nada que ele fez antes. Dessa vez ele concretiza tudo na teoria do povo Maia, que diz que o mundo vai acabar (ou sofrer transformações permanentes – que seja) em 21/12/2012. Lá nos confins da Índia, o Dr. Satnam (interpretado com muito desconforto pelo comediante Jimi Mistry) descobre erupções no sol que tiveram impacto direto no planeta, fazendo o núcleo da terra se agitar e alterar o metabolismo do planeta.

Seu amigo americano Adrian Helmsley (um Chiwetel Ejiofor péssimo) chega para ver os resultados das pesquisas do indiano e leva as más notícias para o governo americano. Nas mãos do seu superior Carl Anheuser (um dos personagens mais horríveis do cinema, e interpretado com uma falta de competência gritante pelo sempre eficiente Oliver Platt), os resultados dessa pesquisa apontam o fim do planeta e obriga as grandes potencias a financiar um projeto megalomaníaco para salvar uma parte da população que será responsável pelo repovoamento do planeta. O presidente dos Estados Unidos, Thomas Wilson (Danny Glover igualmente ruim) leva o plano para as outras potencias e começam a trabalhar no projeto lá na China.

Essa é a parte política da história. Roland quer criar um enredo globalizado, só que ele não consegue mais se livrar de um estigma que ele mesmo criou para si: “eu vejo os americanos como os melhores seres do planeta”. Ele não chega a por o presidente para salvar o mundo como em Independence Day, mas o faz passar por situações bem mais constrangedoras e igualmente improváveis. Um presidente que abre mão de sobreviver para morrer ao lado do seu povo. Junto com ele o Primeiro Ministro da Itália, mas o filme foi tão infeliz em fazer isso que pra mim soou como deboche. Mas tudo bem. Roland não consegue fazer a coisa toda ser convincente e tudo vira uma grande piada.

Depois vem a grande solução: Arcas que levarão os sobreviventes para um lugar seguro para viver. Ok, mas porque cobrar 1 bilhão de Euros? Quantas pessoas no mundo tem a capacidade de pagar tudo isso? Acho que dá pra contar nos dedos. E porque cobrar se tudo vai acabar e não teremos no que gastar? As perguntas vão aparecendo e as falhas no roteiro capengamente mal construído só vão dando mostra da incompetência do diretor.

Mas ainda somos apresentados a personagens caricatos e pálidos, super deslocados na historia e que no final das contas, só estão ali pra fazer o filme render. Jackson Curtis (John Cusack implorando pra convencer) é um escritor sem sorte. Seus livros vendem pouco e sua família o odeia. Sem o amor dos filhos, com direito aquela frase chata e clichê até o talo ”porque você não me chama de pai?…”, ele tenta por a vida nos eixos. Num acampamento com seus rebentos, acaba conhecendo o lunático Charlie (pavorosamente interpretado por Woody Harrelson), que acredita em teorias conspiratórias sobre o fim dos tempos. Intrigado com as loucuras de Charlie, Jackson começa a acreditar no cara depois de ver sua cidade sendo destruída.

Na fuga mais mentirosa da história, ele consegue um mapa que leva até as tais arcas e parte para lá com a família que o odeia e o novo marido de sua ex esposa. E é aqui que se concentra o pior do filme. Enquanto a parte política tenta ser séria a todo custo, é na parte mais “cinema pipocão” que o filme descamba de vez. atolado de clichês que causam vergonha e de cenas improváveis e de um certo mau gosto em sua condução, são os momentos mais desgastantes e ruins de toda a fita.

2012

E como se não bastasse, os furos mais cabulosos se encontram aqui, como por exemplo perto do fim, uma cena em que alguns personagens do filme se separam por portas a prova de água e a parte que na teoria e na prática não inundaria, é a que inunda e a que inundaria, não inunda. Alguém aí disposto a me ajudar com essa questão? Outra boa está no fato de eles atravessarem a cidade num carro e ainda assim sair de avião com o mundo todo acabando atrás deles… Sem contar que, como o mundo está se acabando, ainda tem gente ameaçando pessoas de prisão…

Tecnicamente prometia ser deslumbrante, mas bom, esqueça, isso tudo fica só no Trailer. Os efeitos especiais são até caprichados, marca do diretor, mas a parte de som e fotografia deixam a desejar. A fotografia porque em alguns muitos momentos não se ajusta e fica confusa e o som porque é ruim mesmo e não tem nada em harmonia com nada. A trilha sonora também esperava que servisse de algo mas foi outra decepção, nem quero me prolongar muito.

Já a direção… O Roland é um cara que parece não evoluir, apenas regredir.

Usando os habituais clichês e uma montagem feita apenas pra causar alguma emoção e não atrair o espectador pra dentro do filme, são o que há de mais picareta na produção de um filme. Ainda mais em um que sonha em ser grande. Grande ele até é, putz grilo, que entediante ficar duas horas e meia sem clímax, sem picirica nenhuma que realmente valha o preço do ingresso.

O roteiro, escrito pelo dito cujo em parceria com Harald Kloser é bobo, forçado e que em muitos momentos do filme, subestimam quem assiste. Com muita coisa criada embasada em clichês, uma trama política pra lá de infantil e o surgimento de muitos personagens, cuja saída mais fácil é matá-los simplesmente do nada, o texto de 2012 é uma tremenda porcaria.

Depois o elenco que dispensa comentários. Por mais que esteja repleto de caras conhecidas, nenhum deles desempenha algo que desperte aquela identificação com o público. O carisma dos atores fica apenas nas revistas, porque no filme não tem absolutamente nada de nada disso. Uma pena. Desperdício total de atores ótimos.

Não me admiro ter odiado o filme. Vindo do Emmerich, coisa boa que não é. A premissa seria até interessante. Outros diretores fariam um show, mas Emmerich transformou em outra porcaria sentimentalista. Talvez se o filme não se levasse tanto a sério (como Independence Day ou Godzilla), seria até mais divertido.

Só que o erro maior está em querer ser o que jamais será: um bom filme.

2012

Nota: -1 (é tão ruim que nem merece ganhar um zero!).

2012, 2009

Direção: Roland Emmerich.
Atores: John Cusack , Amanda Peet , Danny Glover , Oliver Platt ,Thandie Newton.
Duração: 158 min
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A Emoção Reprimida em O Segredo de Brokeback Mountain

Neste texto busca-se analisar o filme ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a partir da reflexão do ‘lugar’ da emoção tanto na ciência como na sociedade. Sabendo-se tratar de um tema fundamental para o indivíduo que é obscurecido pela vida social, a emoção passa a ser uma das temáticas mais recorrentes na Arte – como no cinema. Ela (Arte) expõe e desenvolve temas importantes, e inconvenientes, sem a obrigatoriedade de ampliação de questionamento e busca de solução – já que o que é exposto pode ou não ser tomado para si, podendo-se pensar na Arte como importante instrumento dessa significação no mundo.

Porém, especialmente no cinema, é na própria maneira de se apresentar ao espectador que a obra impacta emocionalmente e mostra sua força comunicativa. Em ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a emoção é trabalhada e tratada de maneira refinada. Trata-se basicamente de um filme de amor – romance como convém à classificação do cinema – porém a dificuldade da própria sociedade em absorver um romance homossexual o faz ser classificado como drama – talvez o grande drama esteja na própria constatação desse amor pelo público e na obrigatoriedade em aceitar aquilo que ali é posto.

Essa questão poderia, inclusive, ser alvo de maiores investigações, já que a emoção é construção (ou constitutivo) social e, neste caso, o medo existente em lidar com determinadas emoções pode ser relevante para a compreensão de quais emoções são valorizadas para o homem do nosso tempo.

Este romance expõe a história de amor entre dois típicos cowboys do interior dos Estados Unidos. A tomada inicial do filme nos apresenta uma paisagem erma e desoladora, tamanha a potência natural e a pequenez do homem e de sua ocupação. Todas as imagens causam um grande impacto na ‘subjetividade’ do espectador, atingindo suas necessidades cognitivas (de leitura de imagem) e provocando suas emoções.

As paisagens naturais são recorrentes durante todo o filme, estão presentes como cenário dos momentos românticos ou de conflito do casal central, já que seus encontros são sempre escondidos entre as montanhas de Brokeback. Esse cenário tornasse incrivelmente versátil, o que inicialmente nos provoca uma leitura de solidão total, ao longo do desenvolvimento da história passa a nos provocar emoções variadas como aconchego, paz, esperança, como se fosse o único local no mundo a possibilitar a realização de necessidades fundamentais à existência, onde se pode ser o que é – assim como aos protagonistas.

Após a primeira tomada que nos torna pequenos diante do que está por vir, os protagonistas (Jack e Ennis) se encontram em uma procura por serviço, ambos se olham disfarçadamente, mas não se cumprimentam. Somente na saída, após o empregador (Aguirre) confirmar o trabalho para ambos cuidando de um rebanho de ovelhas em Brokeback Mountain, Jack toma iniciativa e se apresenta a Ennis que, sem muita energia, diz seu nome e retribui o aperto de mão.

Podemos observar já na vestimenta e na postura dos dois cowboys diferenças relevantes, Jack tem uma aparência mais sofisticada, combinando suas roupas e procurando reforçar um estilo de peão de rodeio, cheio de iniciativa e élan se expressa com maior desenvoltura. Ennis é mais simples no seu vestir, humilde e tímido mantém seu olhar sempre baixo e não toma iniciativa.

Pensemos então no corpo como vitrine da identidade, confunde e carrega o sujeito de preconceitos e conceitos de si mesmo. Sendo o corpo e a alma partes indistintas de mesma matéria é no corpo que estarão materializados as emoções do sujeito.

Portanto, as diferenças (entre eles) que aparece ao longo de todo o filme, como características de personalidade influenciarão na sua maneira de lidar com os sentimentos e com as situações apresentadas pela vida. É em Brokeback Mountain, durante a execução do trabalho que os dois passam a se conhecer. Após uma grande emoção de medo e de perda, imposta por um urso, Ennis recusa violentamente os cuidados de Jack, mas passa a falar mais sobre si.

Outro momento marcante é quando resolvem mudar de posto, pois um sempre tinha que passar a noite no alto das montanhas junto às ovelhas enquanto o outro permanecia no pé da montanha cuidando do acampamento e da alimentação, e Ennis passa a noite sozinho. O isolamento faz Ennis tomar uma postura mais falante ao retornar; Jack até exclama que ele nunca havia falado tanto, Ennis responde: “Falei mais agora do que em todo o último ano.”. O carinho, admiração, consideração de um pelo outro já atingira grandes proporções, sempre havendo, de ambas as partes, uma certa ansiedade pelo encontro.

Naquela noite Ennis não volta para o alto da Montanha, apesar do frio insiste em ficar fora da barraca de Jack, este acorda durante a noite e ouve os gemidos de frio do companheiro, o chama para dentro, este vem correndo cai no colchonete e dorme. Jack acorda novamente durante a noite, pega a mão de Ennis e tenta masturbar-se. Ennis se afasta violentamente, Jack tenta fazer carinhos no rosto de Ennis, colando seus rostos e permanecendo assim. Com respirações ofegantes e se contendo em emoção pura, Jack tira sua calça e Ennis o vira de costas, eles transam violentamente, essa cena lembra mais uma luta – a luta interna de Ennis frente a emoção que se escancarava naquela situação.

No dia seguinte, Ennis olha ao redor, sai da barraca e monta em seu cavalo, não se dirige a Jack, ninguém saberá o que houve entre eles. Mas, ele viu, ouviu e sentiu, tem a certeza de que nunca mais será o mesmo. O seu julgamento interno e possível julgamento social é maravilhosamente representada por Ang Lee: Ennis sobe até a Montanha e encontra uma ovelha morta, dilacerada, com suas víceras reviradas, é assim que Ennis se sente?

Jack está olhando a paisagem, Ennis chega e senta em sua frente, não se encaram, o único comentário a ser feito: não são “veados”, e o que ocorreu só foi vivido ali e permanecerá ali em Brokeback Mountain.

A partir desse momento os dois se permitem viver o grande amor de suas vidas apenas naquele cenário. Os momentos que seriam os mais valiosos e verdadeiros de sua existência se passam ali, por 20 anos. Ambos constroem famílias, Ennis casa-se com Alma (como planejava antes de encontrar com Jack) uma mulher carinhosa, tímida, ‘caipira’, simples e com sonhos pequenos. Jack casa-se com Lureen, uma mulher forte, poderosa e cheia de iniciativa.

É interessante perceber como esses homens encontram mulheres que representam tão bem a sua própria personalidade, elas são seus alteregos mais perfeitos. Quando aparecem em sua vida cotidiana de homens casados, trabalhadores estão sempre infelizes, sozinhos – mesmo quando cercados de pessoas. Sempre aparecendo em ambientes fechados a solidão dos protagonistas é mais evidente e a pequenez de sua existência se faz mais clara do que na imensidão da montanha.

Desde o início Jack propõe a Ennis uma vida feliz em um rancho na montanha, porém o medo e a repressão social em Ennis são tão fortes que ele não vê esta vida como possível. Tornando a sua vida e a de Jack uma eterna espera por Brokeback Mountain. Os encontros são sempre curtos e inesquecíveis por sua potência.

Acreditando na ideia de que o bom é relativo ao sujeito – já que está ligado ao que é desejado e capaz de aumentar nossa potência de ação –, o único julgamento que caberia à sociedade é o do aproveitamento da potência de ser (ou do ser) e não o julgamento moral baseado em valores menores ligados ao medo do desconhecido e do diferente que atinja o conhecimento religioso vigente. Mas, no filme, é o medo do julgamento social que paralisa Ennis e o impede de ser e fazer feliz, sendo neste caso um mau sentimento, pois diminui a atuação do indivíduo e gera tristeza.

A questão central de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, que serve como questionamento até aos mais conservadores, é a dificuldade em expressar a emoção. Essa é uma questão essencial e, até agora, sem resposta já que a manifestação emocional é uma construção social e, em cada cultura, a possibilidade expressiva é diferente. Parte daqui, então, uma abertura para reflexões independentemente da compreensão e identificação com a história do filme. Ou seja, esta história não se finda com o aparecimento dos créditos finais.

Por: Carol Marola.

Hotel Atlântico, de Suzana Amaral (2009)

Por: Fábio Montarroios.
Não dá para imaginar, ao certo, onde diabos a crítica internacional foi buscar paralelo com filmes de David Lynch e Michelangelo Antonioni [um longo suspiro] para explicar, justificar, talvez, o filme “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral. A falta de sentido, força, expressão dos atores (com exceção de Marcia Martins que eu suspeito não ser atriz profissional) não tem nada que ver com o cinema onírico do primeiro ou a “incomunicabilidade” do segundo. Mesmo por que estes são rótulos baratos e grosseiros de enquadramento do cinema de ambos. Não perguntem a David Lynch o sentido dos seus filmes, pois não há – mas, diga-se, não há propositalmente! Antonioni recusa essa bobageira de “incomunicabilidade”, só que, assim mesmo, as pessoas (os críticos, na verdade) insistem em tachá-lo. Bem, toda essa bronca é porque a referência aos dois cineastas consta no cartaz do filme, porque um crítico de um jornal americano, eu acho, e que não saca muito de cinema pelo visto, escreveu isso em sua crítica – daí o pessoal de marketing do filme vai e recorta essa frase e coloca ali como um selo de qualidade, sendo que se tivessem lido a crítica de Inácio de Arújo, na Folha, por exemplo, teriam tido mais trabalho, apesar da generosidade do crítico. O filme foi selecionado pelo festival de Toronto (como não me perguntem) e saiu de lá como chegou aqui: sem causar efeito algum na platéia, eu presumo.

Suzana Amaral fez um filme legal em sua carreira: “A hora da estrela” há muito, muito tempo. Adaptação do livro de Clarice Lispector. Macabéa ganhou vida! Os atores sustentam o filme! Era um filme que carecia de atores! Agora, “Hotel Atlântico” não precisava de atores profissionais (no máximo um ou dois) e, pelo visto, tanto Suzana Amaral quanto o crítico não devem ter lá prestado muita atenção aos filmes de Pasolini. Ele não usava atores profissionais em muitas de suas obras. Aliás, muitos diretores italianos apelaram para tal recurso (Visconti e Fellini, se não me falha a memória certamente operaram assim) e é bem provável que o próprio Antonioni aprontou algo do tipo. Repito, eu acho que a única atriz não profissional era a Marcia Martins, no papel de esposa do sacristão, e ela foi justamente a melhor em cena. Enfim, se este filme tem paralelo com algo eu diria que a sua pobre narrativa faz eco (quando ele já está bem fraquinho) a de Wim Weders em “No decurso do tempo”. Um Road Movie que também conta com uma personagem deslocada e errante. E, talvez, tenha algo que ver com o cinema de Sukorov, no que diz respeito ao tempo e andamento, especialmente com o primeiro filme dele, “A voz solitária do homem”, que mostra um homem devassado pela experiência da guerra e paralisado diante da vida que lhe resta viver com sua esposa.

So que a ruindade não tem limites: pois quem pôde ver “O invasor”, de Beto Brant, certamente se lembrará da interpretação ousada de Mariana Ximenes, mas ao vê-la novamente em “Hotel Atlântico” vai ter algo mais próximo e, ainda assim, piorado de sua personagem Clara em “A favorita”. Filme? Nada… novela mesmo e daquelas que fazem com que experimentemos os mesmos sentimentos de uma samambaia ao ouvir Wagner. Nem mesmo em uma cena de sexo do filme em que, diferentemente das propagandas dos Cartões Bradesco (em que você poderia escolher uma “celebridade” para um momento especial; no caso, fazer compras “num elegante shopping com uma das mais belas atrizes do Brasil”: Mariana Ximenes. A propósito, provavelmente deve ter sido o seu melhor papel depois de “O invasor”), a excitação/admiração vinha da escolha do fã por sua “celebridade” preferida. A personagem de Ximenes, Diana, não consegue excitar Alberto (uma personagem que é uma tentativa fracassada de materializar um fracassado), assim como a platéia ou sequer convencê-la de que ela “encarna” uma personagem. Talvez se ela também tivesse apelado a uma promoção do Bradesco ao invés de exibir os seios que não faziam páreo aos da esposa do sacristão não apenas em volume, mas também em tensão erótica, quem sabe não teríamos tido melhores resultados.

Bom, se estava aí uma metáfora para o próprio filme eu não sei, mas se a idéia de Suzana Amaral era nos dizer que o cinema brasileiro atual vive uma fase broxante eu a alço imediatamente à condição de genial, mas, sinceramente, não creio que tenha sido o caso.

Um filme aberto, abertíssimo, para infinitas combinações de entendimento é algo aceitável quando isto faz parte de um plano ou até mesmo do acaso, mas não do descaso ou do descontrole criativo. A platéia que, a meu ver, possui determinado grau de exigência, especialmente aquela habituada a ver filmes que não apelam às mesmas receitas de sempre do cinema norte-americano ultra-comercial, saiu cabreira da sala de projeção.

Outra marca patente do filme é a “crise” existencial em que embarca a personagem ao renunciar as imposições sociais. Alberto é abordado por um homem que o reconhece como artista e sempre que usa a palavra artista o faz com deboche e desdém. Sabemos que a função dos artistas foi maculada pela marca da “celebridade” que recai sobre os ombros de muitos: elevando ao estrelado pessoas sem o mínimo talento. Muitos bons atores são mal tratados com filmes ruins, roteiros idiotas, equipe técnica relaxada. Teremos aí, então, outra pérola escondida do filme? Ao menosprezar o artista estamos diante da inveja ou da inutilidade da função? Difícil saber se por trás de algo assim estamos vislumbrando uma nova crítica de Suzana Amaral ou apenas um pretexto para seguir com a narrativa em frente, porque o desenlace subseqüente é desprovido de sentido (o mesmo que fez parecer ao crítico americano estar diante de um filme influenciado por David Lynch).

Alberto, em dado momento do filme, leva um tombo que parece ter sido não planejado. Foi sem querer e ficou registrado, seguiu em frente. Depois, mesmo sujo de lama, se levantou e o filme rodando. Espero que o cinema brasileiro faça o mesmo movimento. Não importa a lama. Eu acho, que neste filme, Suzana Amaral apenas leu mal o texto de João Gilberto Noll, diferentemente do que fez com o texto de Clarice.

Hotel Atlântico. 2009. Brasil. Direção e Roteiro: Suzana Amaral. Elenco: Julio Andrade, Mariana Ximenes, João Miguel, Gero Camilo, Helena Ignez, Luiz Guilherme, Andre Frateschi, Lorena Lobato, Marcia Martins, Renato Dobal, Walter Breda, Esther Benevides, Tina Rinaldi, Jiddu Pinheiro e Tiago Pinheiro. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Baseado na obra de mesmo nome de João Gilberto Noll.

FAMA (2009)

Fama_2009_posterA releitura de Kevin Tancharoen daquele musical de sucesso dos anos 80, FAMA, até que surpreende pela qualidade do elenco e da trilha sonora. Kevin usou a mesma receita do filme de Alan Parker: artistas talentosos e desconhecidos, música caprichada e envolvente e alguns espinhos e frustrações na escada do sucesso, tudo razoavelmente bem adaptado para os nossos tempos.

Lá estão os divertidos testes para entrar na escola de artes, o improviso animado no refeitório, o tarado se aproveitando da atriz ingênua, o grande show final e até versões novas de “Out here on my own” (lembra das lágrimas de Irene cantando na festa do Oscar?) e “Fame” (faltou a inesquecível festa nas ruas de Nova Iorque); infelizmente as duas únicas músicas pinçadas do original que também tinha uma trilha muito especial.

Falta, é claro, aquela emoção e sensibilidade que impregna o conhecido estilo do primeiro diretor.

Quem sabe desta vez não surgem verdadeiras estrelas, como era a intenção (frustrada) daquela época?

Naturi Naughton não é Irene Cara, nem Kevin Tancharoen é Alan Parker, mas no fim, dá quase tudo na mesma e uma vontade danada de rever o original. Ô saudade!

Carlos Henry

Fama (Fame). 2009. EUA. Direção: Kevin Tancharoen. Elenco: Kay Panabaker (Jenny Garrison), Naturi Naughton (Denise Dupree), Kherington Payne (Alice Ellerton), Megan Mullally (Ms. Fran Rowan), Bebe Neuwirth (Ms. Kraft), Debbie Allen (Ms. Angela Simms), Asher Book (Marco), Cody Longo (Andy Matthews), +Cast. Gênero: Comédia, Drama,  Família, Musical, Romance. Duração: 106 minutos.

Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers)

bluebrothers

Comédia cult, que não foi aquelas coisas no cinema. É o primeiro de duas produções.

Elwood (Dan Aykroyd) vai buscar seu irmão Jake (John Belushi) depois que este tem “alta” da cadeia subcondicional. Ambos são mal humorados, mas sempre tem resposta para tudo e raramente tiram seus óculos escuros.

The Blues Brothers_Dan Aykroyd and John BelushiPrecisam recomeçar a vida. Vão procurar o orfanato onde foram criados.
Conseguem reencontrar o orfanato, mas tomam um choque ao descobrir que o local será fechado por causa de uma dívida de US$ 5 mil com a prefeitura, que o orfanato não consegue pagar.
Tentam bolar um golpe com a melhor das intenções de não ter seu lar de ser fechado. Só que não podem. O dinheiro ilícito é pecado, principalmente para quem dirige o orfanato, a freira (Kathleen Freeman).

Jake e Elwood decidem retomar a The Blues Brothers Band, na intenção de realizar um grande show e arrecadar a quantia necessária para pagar a dívida do orfanato. O problema é para remontar a banda eles terão muitos problemas, porque aprontaram todas com tudo e todos no passado – e por isso serão alvo de vingança dos inimigos.

Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers). 1980. EUA.
Direção: John Landis
Elenco: Alem dos atores ja citados, tem Ray Charles, Aretha Franklin, Cab Calloway, James Brown, John Lee Hooker, Chaka Khan…. (precisa mais?)
Gênero: Comédia, Musical. 134 minutos.