A Orfã

O cinema de terror já nos brindou com muita coisa boa. Obras Primas do cinema estão dentro desse gênero que tanto admiro e gosto. Mas de uns tempos pra cá, sem aquele tesão delicioso de conquistar fãs e sim encher cinema, os filmes de terror deram uma decaída monstruosa em qualidade. Vez ou outra aparece algo interessante e que realmente vale a pena, só que também, em proporção geométrica, me aparece ofensas que dão até raiva, ao invés de medo.

Jaume Collet-Serra deixa qualquer um duvidoso ao ver seus filmes. Ele primeiro aparece com A Casa de Cera que dispensa comentários. Mas conseguiu se redimir (ao menos comigo) com o divertido e eficiente Gol! 2. Com A Orfã, ele conseguiu ser bem mediano, mas nada que salvasse o filme do completo desastre.

Enquanto ele amadurece como diretor, a sua insistência em usar métodos medíocres e picaretas para conseguir a atenção do espectador compromete esse ponto quase positivo. Ainda bem que ele soube fazer uma ou outra coisa boa quando o assunto é drama (rendendo uma cena muito tocante no filme quando a mãe conta uma história para a filha que é deficiente auditiva), e é nas cenas mais dramáticas que o filme consegue mostrar certa qualidade.

Kate (a ótima Vera Farmiga) é uma mulher cheia de problemas. Ex dependente de álcool e que havia perdido uma filha de forma traumática, ela está se reerguendo aos poucos. Mesmo que pesadelos de sua ultima gravidez ainda aterrorizem sua vida. Casada com John (o péssimo Peter Sarsgaard), um designer pai coruja, e mãe de 2 filhos (Max, a filha deficiente e Daniel, o filho), ela sente que precisa doar o amor que daria para a filha que não nasceu, e depois de muito pensar, aposta na delicada decisão de adotar uma filha.

No orfanato conhecem a doce e amável Esther (Isabelle Fuhrman – que tem futuro no cinema), que em pouco tempo conquista a confiança de todos na família, mas aos poucos começa a cultivar a inveja e a desconfiança em todos, mas não contra ela, mas sim, uns contra os outros. Kate começa a perceber que Esther não é nenhuma santa, mas as suas tentativas de provar isso e tentar reparar o erro culmina na morte de pessoas, e a amável garota que conheceu no orfanato se mostra o diabo em pessoa.

orfã 1

Mas aí vem o melhor: a menina não é nenhum espírito ruim, não está possessa pelo tinhoso, não é nada disso que poderíamos esperar de um filme medíocre, mas sim algo até diferente, surpreso e acreditem inteligente. Só que ainda assim soa fantasioso, mas tudo culpa da produção do filme.

O clima de tensão é bom, mas cansa. As atuações são ruins, tirando Vera Farmiga, que segura as pontas e convence na maioria de suas cenas, exceto no fim, quando sua personagem ganha uma certa limitação e precisa virar uma super heroína, desvendando todo o mistério em menos de 5 minutos.

A pequena Isabelle Fuhrman também consegue se destacar. Ela também convence e tenho até a audácia de compará-la ao garoto Harvey Stephens que em 1976 fez minha espinha congelar com seu sorriso em A Profecia. Ela tem uma atuação tão convincente que fez toda a explicação de seu passado ser até plausível.
A parte técnica é esforçada.

O melhor foi o pesadelo que abre o filme, transformando a sala de parto no pior lugar do mundo.

Só que a adição de sustos pré fabricados, aquele efeito de “pessoa chegando perto” e todos os clichês possíveis que estão no manual “Como Fazer um Filme de Terror Ruim Nos Dias de Hoje” estão lá. O diretor tenta ser bom, mas a sua insistência nisso compromete o filme.

Em resumo, com todos os defeitos (que não são poucos), o filme tem para cada acerto, 2 erros. Contabilize isso em duas horas de duração e tenha a sua resposta.

Tinha tudo pra ser um bom filme, mas consegue ser mais um esquecível!

orfã 2

Nota: 2,0

Orphan, 2009
Direção: Jaume Collet-Serra.
Atores: Vera Farmiga , Peter Sarsgaard , Isabelle Fuhrman , CCH Pounder , Jimmy Bennett.
Duração: 02 hs 03 min

Distrito 9

Uma coisa que sempre apreciei no cinema é a originalidade e apostas em novas propostas para fazer um filme. Quando acontece uma surpresa assim, o filme sempre ganha seu destaque e quase sempre é bem aceito. Se todos fizessem isso, certamente gêneros como o terror ou as comédias estariam em melhor estado.

Um gênero que certamente luta sempre para renovar a si mesmo, e por que não renovar ao cinema também, são as ficções científicas. Por mais que tenham acontecido “coisas” como Independence Day e seus derivados, o gênero sempre apostou em coisa nova e em 2009 estamos presenciando mais um desses. Com seus humildes U$30 milhões e muita criatividade e idéias novas, Distrito 9 é um deliciosa e mais que bem vinda surpresa.

imagem 1

Há 20 anos atrás, uma nave extraterrestre parou literalmente no ar, e com a exploração seguida por contato humano, descobriu-se uma raça alienígena fraca e cheia de problemas. Sensibilizados com a situação dos irmãos de universo, foi delimitada uma área militarizada na periferia de Joanesburgo, capital da África do Sul, bem abaixo da nave. Lá os ETs habitaram e se virando como podiam tentaram viver.

Só que os problemas apenas começaram… A superpopulação de alienígenas, a chegada de bandidos comandando tráfico de “ração de gato” (luxo para os ETs) e de armas, transformou o Distrito 9 em uma grande e violenta favela. Um lugar projetado para abrigar apenas aliens, onde o submundo comanda e toca o maior terror, onde seu líder mata os aliens e os come acreditando receber a inteligência e força deles.

Foi criada a MNU (Multi-National United), uma espécie de ONU para os ETs, que recebeu a missão de dar um novo abrigo aos aliens, mas organizado, mais confortável e desculpem o trocadilho, mais humano (há uma crítica deliciosa ao intrometimento dos direitos humanos no filme). Só que a MNU não está apenas interessada em fazer o bem. Eles são também uma das maiores indústrias de armamentos do mundo e querem entender o funcionamento das armas alienígenas.

imagem 2

Mandam para lá o abobalhado e “não levado a sério” Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), que sofre um acidente. Ao invadirem um dos barracos para fazer a revista, ele acaba tendo contato direto com um líquido que o faz passar por uma mutação, fazendo com que ele aos poucos tome a forma de um ET. Agora, com seu DNA humano fundido perfeitamente com o dos aliens, Wikus torna-se a pessoa mais valiosa do mundo e os grandões da MNU começam a caçá-lo para fazer experiências e descobrir os segredos da raça alienígena.

Wikus vira um fugitivo e vai para o Distrito 9, onde se esconde e procura por ajuda.

Distrito 9 surge com uma proposta diferente, e isso me chamou muito a atenção. A começar que eles não pousam nos EUA e tampouco vieram causar destruição por motivos já batidos, como falta de recursos naturais e outros motivos óbvios, aliás, isso nem é tratado no filme. Outra coisa interessante é a narrativa da fita, contando a história de uma maneira documental, utilizando entrevistas e depoimentos de pessoas ligadas diretamente aos acontecimentos do acidente de Wikus e os problemas do Distrito 9.

O bacana é que essas mesmas entrevistas e o tom documental, dão uma impressão de que o roteiro quer tratar de temas sérios como favelas e violência, dentro de uma filme fantasioso. A sacada pode ser até óbvia, mas achei cabível comentar uma vez que esses temas são tratados com certa discrição e quase sempre sem atingir o espectador da maneira esperada. Distrito 9 falou de problemas sociais usando ETs como protagonistas.

Produzido por Peter Jackson e sua sempre eficiente Wingnut Films, e dirigido pelo novato Neill Blomkamp, o filme é bem ritmado e bem feito. Une o útil ao agradável e conquista do mais exigente paladar ao mais simples. Muito daquele efeito “câmera na mão” pode até ser indigesto no começo, mas é só a pancada começar e esse defeito vira um ponto a favor. Mesclado uma edição mais documental e depois cinema puro, o filme vira uma mistura curiosa de estilos. As referencias a gênios como Paul Verhoeven (em trabalhos como Robocop e Tropas Estelares) e outros filmes do gênero, como A Mosca, são notáveis e usadas para criar clima e não gratuitamente para roubar idéias alheias.

O filme é baseado num curta do próprio Neill Blomkamp, de 2005 chamado Alive in Jorburg, e assim como em Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (onde o diretor havia feito um curta com a história antes do filme), todas as propostas e saídas criativas e o resultado foi esse ótimo filme.

Um clima tenso é mantido durante toda a projeção e nem nos créditos finais ela termina. O filme acabou e continuei atônito. Acreditem, o fim não é esperado e a surpresa causada é só um dos vários bons efeitos que o filme causa. As cenas de ação bem filmadas e a técnica envolvida bem caprichada transformam o tal Distrito num campo de batalha cheio de surpresas e correria, o pior lugar do mundo.

O elenco é outro destaque interessante. Sharlto Copley segura o filme todo. Sua atuação é convincente e incrivelmente realista. Incrível como ele soube passar todos os perrengues do personagem com uma dose de humor negro fantástica e uma dramaticidade fabulosa. Ele é quase como uma tragédia de Shakespeare. E óbvio, rouba a cena o filme todo, deixando os coadjuvantes apenas como peça pra completar a coisa toda.

Os efeitos especiais magníficos e muito realistas dão uma dimensão da inventividade do roteiro. ETs, naves, armamentos, tudo criado com um realismo impressionante, passando aquela visão mais crua de tudo. É realmente um show a parte.

imagem 3

O defeito maior ficaria talvez por conta do roteiro. Em certos momentos é pouco desenvolvido e deixa algumas coisas soando forçado. Ou quando fazem os acontecimentos passarem voando literalmente, sem dar tempo de o espectador absorver as informações que o filme passa. Mas contando com diálogos interessantes e crus, crítica social implícita e a criatividade em montar bons momentos fazem esses detalhes passarem despercebidos. O ruim é que o filme vem com uma proposta e acaba terminando como mera diversão.

Pra quem curte uma boa diversão, para quem curte algo mais maduro, para quem curte cinema, Distrito 9 pode não ser genial nem nada, pode não ser revolucionário nem nada, pode não ser essa coca-cola toda, mas só por ser diferente, já vale a assistida.

Recomendadíssimo!

Nota: 8,5

District 9, 2009
Direção: Neill Blomkamp.
Atores: Sharlto Copley , Jason Cope , Nathalie Boltt , Sylvaine Strike , Elizabeth Mkandawie.
Duração: 01 hs 52 min

Apocalypse Now

”Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos… De novo
Você pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente… De alguma… Mão de estranho
Numa terra desesperada?”

The End, The Doors.

imagem 1

O fim.
Como a Guerra transforma um homem? Porque ele se perde na ilusão de lutar por algo que ele nem ao menos está envolvido? Porque estar lá quando você não precisava estar? Porque estar lá quando você queria não estar lá? O começo da obra prima Apocalypse Now não é para ser assistida, é para ser sentida.

Numa seqüência primorosa, Francis Ford Coppola não economiza em doses exageradas de tensão e medo, no olhar já cansado do Capitão Benjamin L.Wilard (Martin Sheen) que mesmo sendo um produto da guerra, está farto dela. Mesmo sabendo que vai se arrepender, ele aceita a missão de adentrar a floresta, encontrar o Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando – monstro máximo do cinema) e matá-lo. O pobre Coronel enlouqueceu dentro da floresta, e planeja o fim de tudo na surdina. É dever do Capitão Benjamim evitar o pior.

Num barco capenga, acompanhado de três jovens soldados (entre eles um magrelo e iniciante Laurence Fishburne, com apenas 14 anos de idade) que passam o tempo fumando seus baseados, ouvindo rock’n roll no rádio e sonhando com o doce regresso ao lar. Junto deles ele começa a ver a guerra de outra forma, e verdadeiramente se sentir um produto dela, tornando-se algo perturbador consigo mesmo.

A trajetória de loucura e horror dentro do Vietnã é o foco de um dos filmes mais arrebatadores da história.

imagem 2

Os anos 70 definitivamente pertenceram à Francis Ford Coppola. Vindo de 3 grandes filmes (O Poderoso Chefão I e II, A Conversação), ele pode finalmente levar as telas a adaptação do livro Heart of Darkness. Ele queria ter levado a história para o cinema dez anos antes, mas só pode ter o voto de confiança que precisava após os magníficos dois episódios da saga dos Corleone.

Gravado nas Filipinas durante 16 meses (vários problemas na produção quase comprometeram o filme, como por exemplo furacões que destruíram cenários, um ataque cardíaco sofrido por Martin Sheen, investimentos do bolso do próprio Coppola entre outros empecilhos), o filme não se omite em nenhum momento. Marca maior do Coppola é a verdade que ele consegue passar para o espectador. Todas as imagens que ele pode nos proporcionar, ganha uma digestão diferente sempre. Impossível assistir esse filme sem sair chocado, se sair pessimista com o mundo, sem sair com aquela sensação de ”putz, que merda.”, e o principal: sem ser enganado.

Diferente de outros diretores que fizeram filmes sobre o Vietnã, ele não quer emocionar e mostrar um EUA que sempre vence. Ele na verdade mostra um exército que se engana, um exército que se diverte, um exército de cowboys que querem se sentir em casa e nem sabem o que estão realmente fazendo ali.

De grosso modo, Coppola apenas mostrou o seguinte: foi assim que eles perderam essa guerra.

imagem 3

Com uma maestria e total domínio do psicológico tanto dos personagens quanto de seus espectadores (ele não mostra o que você quer ver, mas sim o que ele sabe que vai te chocar e te prender a narrativa), Coppola nos insere num drama claustrofóbico, que piora a cada instante, com diálogos ferrados sobre horror, sobre o medo, sobre a solidão, sobre o fim. A sinceridade do filme é o que mais chama atenção.

Diferente de filmes como Platoon (curioso que quem protagonizou esse filme foi o filho do protagonista de Apocalypse Now, Charlie Sheen ) ou o equivocado e açucarado Fomos Heróis, é que em nenhum momento ele aponta heróis ou vilões, em nenhum momento ele te enche de comentários esperançosos, de que a guerra leva a total soberania do seu país, em nenhum momento ele quer te fazer refletir sobre os danos, mas o que ele quer na verdade é expor corajosamente quão difícil e complicado é viver no meio de tiros e pressão freqüente.

Seja na versão original de cinema, com 155 minutos de duração, ou a versão Redux, com cenas estendidas e cenas novas e 200 minutos, fica claro a mensagem de anti-guerra do filme. Fica claro a subversão do diretor em defender que isso não leva nada a lugar nenhum.

Como num diálogo do filme, entre o Coronel Kurtz e o Capitão Willard:

- Você é um assassino?
- Sou um soldado.
- Não é nenhum dos dois. É apenas um mensageiro, enviado para coletar uma dívida.

O objetivo não é ser político, não é ser informativo tampouco entretenimento, é pra ser anti-guerra, e explicitando tudo de ruim que ela pode proporcionar, mostrando que para quem a vive plenamente (sejam soldados ou vítimas), a guerra é o fim, e o fim pra eles está sempre mais próximo a cada dia.

E vindo de Coppola, não se pode duvidar de que haverá uma qualidade técnica e artística tremenda. Que fotografia incrível! Que direção de arte magnífica! que figurinos fiéis e impecáveis! Que atuações muito acima de qualquer nível! Que direção histórica!

Coppola é um dos maiores nomes do cinema. Seus filmes estão sempre envolvidos de uma áurea inexplicável. Só de assisti-los e já nos sentimos presos a uma narração que certamente nos levará a ver as coisas de uma forma diferente. Primeiro ele nos convence de que bandido tem família e não a mistura com negócios, depois escancara para o mundo todo os horrores da guerra, depois fez viagens experimentais sobre a juventude e o cotidiano, definitivamente um diretor corajoso e completo. Os anos 70 realmente ficam marcados pelo que ele representou em seus filmes.

imagem 4

Mas um de seus maiores legados, justamente está nos talentos que ele apresentou ao mundo. E em Apocalypse Now não é diferente. Harrison Ford, Laurence Fishburne entre outros, e claro, a consolidação de veteranos como Robert Duvall, Martin Sheen e do dinossauro Marlon Brando. Cada um deles tem seu momento no filme, e nenhum deles puxa o tapete um do outro.

Trilha sonora do fim do mundo, a Valsa das Valquírias eternizou uma seqüência de ação e entrou para a história. The End do The Doors marcou todas as intenções do diretor e a trilha de Carmine Coppola e do próprio diretor vai além daquelas músicas que te deixam mais vidrado na emoção, como é feito hoje em dia. São músicas vicerais, músicas que incomodam, mas acima de tudo, músicas que criam o clima perfeito para o que o filme vai mostrar.

O domínio técnico, aliado a uma boa história, e as mensagens que o diretor nos faz enxergar ao longo do filme, fecham um ciclo perfeito. Como disse anteriormente, Apocalypse Now não deve apenas ser assistido, mas sentido. Quem captar as mensagens que Coppola quer nos dizer, certamente, saberá quão ruim e desastroso pode uma guerra ser, na vida de quem a sente, na vida de quem diretamente participa, na vida de todos nós.

Obra de arte cinematográfica!

Nota: 10.

Apocalypse Now, 1979

Direção: Francis Ford Coppola.
Atores: Marlon Brando , Robert Duvall , Martin Sheen , Frederic Forrest , Albert Hall.
Duração: 02hs 35 min

This Is It

Michael Jackson

Em 25 de junho de 2009, o mundo dava o adeus a mais um de seus grandes nomes: Michael Jackson. Foi com grande tristeza que fãs do mundo todo, choraram e testemunharam sua dramática partida para o além. O legado do MJ fica até hoje. É mais fácil achar coovers dele por aí, do que qualquer outra coisa. Crianças o imitam exaustivamente nos programas dominicais, seu moonwalké marca registrada, o seu ”Who’s Bad?” é dito com fervor e suas músicas cantadas e apreciadas por todos.

Só que antes da sua partida, o astro queria encerrar a carreira de outra forma, fazendo uma maratona de shows na Inglaterra, onde segundo ele, “tocaremos o que meus fãs pedirem!”, e dito isso, dirigido por Kenny Ortega (famoso por dirigir musicais, como o recente High School Musical e por cenas dançantes em filmes como Dirty Dancing e Footloose) e contando com uma equipe invejável, o cantor preparava o show da sua vida. Seriam 50 shows empolgantes, maravilhosos, iluminados e megalomaníacos, coisa que só o Rei do Pop poderia proporcionar.

No auge dos seus 50 anos, ainda com o gás do garotinho que cantava ABC e do marmanjo que fazia todo mundo bailar com Don’t Stop Til You Get Enough, ele dança, canta, usa e abusa de efeitos especiais, exige de seus músicos e participa ativamente do processo criativo do seu show. Diferente daquele MJ recatado e mais excêntrico que o normal, como infelizmente ficou estigmatizado. Ele se mostra atencioso, ouve, discute, aprende, assume erros e se mostra humano. A realeza é modesta e iria agradar todos os seus súditos.

As 100 horas gravadas para o arquivo pessoal do astro, foram cuidadosamente condensadas em pouco mais de 100 minutos, e renderam um documentário interessante, que não apenas mostrava os bastidores do show que nunca aconteceu, mas mostrava também as facetas de um ídolo que planejava retornar com tudo. Particularmente não colocava muita fé, achava que seria daqueles documentários maçantes, sem graça, movido a depoimentos de pessoas próximas a ele. Mas com 5 minutos de projeção, mudei de idéia e por quase duas horas, fui agraciado com cenas belas, com passagens interessantes, um This Is It fora do comum, digno do Rei!

Começa com entrevistas dos bailarinos do show, do processo de seleção deles, e da emoção de estarem tão pertos de quem tanto os inspirou. O filme não tem a pretensão de divulgar o show, mesmo isso sendo inevitável, mas quer na verdade, nos fazer ver o homem que ninguém via. Em nenhum momento ele é o Michael Jackson que as câmeras flagravam, fraco, doente, feio, mas sim, um Michael Jackson ativo, feliz, animado, e com vontade de dar a volta por cima (por cima de todo furor que tanto lhe atrapalhou a carreira).

Os minutos seguintes são embalados por ensaios animados, e musicas que fizeram história. Smoth Criminal, Beat It, I’ll Be There, Billie Jean (ele ficou devendo o Moonwalk ¬¬), Thriller entre outros sucessos embalam o filme de ponta a ponta. Mas o mais bacana fica guardado para os bastidores das músicas. O processo de criação dos cenários, as coreografias, os efeitos especiais e as filmagens extras que eles fizeram para enriquecer mais ainda o show, tudo deixa o filme mais interessante a cada momento.

Só que de repente, o filme foge da sua proposta (ou pelo menos vi assim), quando insere uma crítica não ácida, mas que incomoda a quem assiste, sobre o meio ambiente.
Os minutos finais giram todo em torno da música Earth Song e ainda conta com palavras do próprio Michael sobre o meio ambiente e a preservação do mundo. Não que eu esteja discordando do sonho do astro, mas apenas acho que usaram de forma errada essa parte e acabaram deixando as coisas meio confusas.

Mas tirando esse pequeno detalhe citado acima, é um filme mais que obrigatório para os fãs. Vi gente chorando no cinema, vi gente cantando no cinema, vi gente dançando no cinema e vi gente gritando ”Michael I Love you!” o tempo todo. Não fiquei incomodado, pelo contrário, acho que ele deve ter ficado feliz com as demonstrações de carinho mundo afora.

E pra quem não curte muito, fica a dica pra conhecer melhor o trabalho que ele deixou para as futuras gerações apreciarem.

O fim do filme deixa uma mensagem clara: o show deve continuar!

Não percam!

Nota: 9,0

This Is It, 2009

Direção: Kenny Ortega.
Duração: 112 minutos.

This Is It