”Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos… De novo
Você pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente… De alguma… Mão de estranho
Numa terra desesperada?”
The End, The Doors.

O fim.
Como a Guerra transforma um homem? Porque ele se perde na ilusão de lutar por algo que ele nem ao menos está envolvido? Porque estar lá quando você não precisava estar? Porque estar lá quando você queria não estar lá? O começo da obra prima Apocalypse Now não é para ser assistida, é para ser sentida.
Numa seqüência primorosa, Francis Ford Coppola não economiza em doses exageradas de tensão e medo, no olhar já cansado do Capitão Benjamin L.Wilard (Martin Sheen) que mesmo sendo um produto da guerra, está farto dela. Mesmo sabendo que vai se arrepender, ele aceita a missão de adentrar a floresta, encontrar o Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando – monstro máximo do cinema) e matá-lo. O pobre Coronel enlouqueceu dentro da floresta, e planeja o fim de tudo na surdina. É dever do Capitão Benjamim evitar o pior.
Num barco capenga, acompanhado de três jovens soldados (entre eles um magrelo e iniciante Laurence Fishburne, com apenas 14 anos de idade) que passam o tempo fumando seus baseados, ouvindo rock’n roll no rádio e sonhando com o doce regresso ao lar. Junto deles ele começa a ver a guerra de outra forma, e verdadeiramente se sentir um produto dela, tornando-se algo perturbador consigo mesmo.
A trajetória de loucura e horror dentro do Vietnã é o foco de um dos filmes mais arrebatadores da história.

Os anos 70 definitivamente pertenceram à Francis Ford Coppola. Vindo de 3 grandes filmes (O Poderoso Chefão I e II, A Conversação), ele pode finalmente levar as telas a adaptação do livro Heart of Darkness. Ele queria ter levado a história para o cinema dez anos antes, mas só pode ter o voto de confiança que precisava após os magníficos dois episódios da saga dos Corleone.
Gravado nas Filipinas durante 16 meses (vários problemas na produção quase comprometeram o filme, como por exemplo furacões que destruíram cenários, um ataque cardíaco sofrido por Martin Sheen, investimentos do bolso do próprio Coppola entre outros empecilhos), o filme não se omite em nenhum momento. Marca maior do Coppola é a verdade que ele consegue passar para o espectador. Todas as imagens que ele pode nos proporcionar, ganha uma digestão diferente sempre. Impossível assistir esse filme sem sair chocado, se sair pessimista com o mundo, sem sair com aquela sensação de ”putz, que merda.”, e o principal: sem ser enganado.
Diferente de outros diretores que fizeram filmes sobre o Vietnã, ele não quer emocionar e mostrar um EUA que sempre vence. Ele na verdade mostra um exército que se engana, um exército que se diverte, um exército de cowboys que querem se sentir em casa e nem sabem o que estão realmente fazendo ali.
De grosso modo, Coppola apenas mostrou o seguinte: foi assim que eles perderam essa guerra.

Com uma maestria e total domínio do psicológico tanto dos personagens quanto de seus espectadores (ele não mostra o que você quer ver, mas sim o que ele sabe que vai te chocar e te prender a narrativa), Coppola nos insere num drama claustrofóbico, que piora a cada instante, com diálogos ferrados sobre horror, sobre o medo, sobre a solidão, sobre o fim. A sinceridade do filme é o que mais chama atenção.
Diferente de filmes como Platoon (curioso que quem protagonizou esse filme foi o filho do protagonista de Apocalypse Now, Charlie Sheen ) ou o equivocado e açucarado Fomos Heróis, é que em nenhum momento ele aponta heróis ou vilões, em nenhum momento ele te enche de comentários esperançosos, de que a guerra leva a total soberania do seu país, em nenhum momento ele quer te fazer refletir sobre os danos, mas o que ele quer na verdade é expor corajosamente quão difícil e complicado é viver no meio de tiros e pressão freqüente.
Seja na versão original de cinema, com 155 minutos de duração, ou a versão Redux, com cenas estendidas e cenas novas e 200 minutos, fica claro a mensagem de anti-guerra do filme. Fica claro a subversão do diretor em defender que isso não leva nada a lugar nenhum.
Como num diálogo do filme, entre o Coronel Kurtz e o Capitão Willard:
- Você é um assassino?
- Sou um soldado.
- Não é nenhum dos dois. É apenas um mensageiro, enviado para coletar uma dívida.
O objetivo não é ser político, não é ser informativo tampouco entretenimento, é pra ser anti-guerra, e explicitando tudo de ruim que ela pode proporcionar, mostrando que para quem a vive plenamente (sejam soldados ou vítimas), a guerra é o fim, e o fim pra eles está sempre mais próximo a cada dia.
E vindo de Coppola, não se pode duvidar de que haverá uma qualidade técnica e artística tremenda. Que fotografia incrível! Que direção de arte magnífica! que figurinos fiéis e impecáveis! Que atuações muito acima de qualquer nível! Que direção histórica!
Coppola é um dos maiores nomes do cinema. Seus filmes estão sempre envolvidos de uma áurea inexplicável. Só de assisti-los e já nos sentimos presos a uma narração que certamente nos levará a ver as coisas de uma forma diferente. Primeiro ele nos convence de que bandido tem família e não a mistura com negócios, depois escancara para o mundo todo os horrores da guerra, depois fez viagens experimentais sobre a juventude e o cotidiano, definitivamente um diretor corajoso e completo. Os anos 70 realmente ficam marcados pelo que ele representou em seus filmes.

Mas um de seus maiores legados, justamente está nos talentos que ele apresentou ao mundo. E em Apocalypse Now não é diferente. Harrison Ford, Laurence Fishburne entre outros, e claro, a consolidação de veteranos como Robert Duvall, Martin Sheen e do dinossauro Marlon Brando. Cada um deles tem seu momento no filme, e nenhum deles puxa o tapete um do outro.
Trilha sonora do fim do mundo, a Valsa das Valquírias eternizou uma seqüência de ação e entrou para a história. The End do The Doors marcou todas as intenções do diretor e a trilha de Carmine Coppola e do próprio diretor vai além daquelas músicas que te deixam mais vidrado na emoção, como é feito hoje em dia. São músicas vicerais, músicas que incomodam, mas acima de tudo, músicas que criam o clima perfeito para o que o filme vai mostrar.
O domínio técnico, aliado a uma boa história, e as mensagens que o diretor nos faz enxergar ao longo do filme, fecham um ciclo perfeito. Como disse anteriormente, Apocalypse Now não deve apenas ser assistido, mas sentido. Quem captar as mensagens que Coppola quer nos dizer, certamente, saberá quão ruim e desastroso pode uma guerra ser, na vida de quem a sente, na vida de quem diretamente participa, na vida de todos nós.
Obra de arte cinematográfica!
Nota: 10.
Apocalypse Now, 1979
Direção: Francis Ford Coppola.
Atores: Marlon Brando , Robert Duvall , Martin Sheen , Frederic Forrest , Albert Hall.
Duração: 02hs 35 min
Quem não viu o Apocalypse Now excelente filme da epoca. Lebro-me da primeira vez que vi o filme com o meu pai ainda era um garoto bem pequeno e não me deixaram ver o filme todo. Só passados uns anos enfim vi o filme completo e percebi poruqe não me deixaram ver o filme qd era garoto.
Valeu
Marlon Brando tem uma presença flash no filme, mas éantologico. Classicão.
Recomendo a crítica feita por Glauber Rocha sobre Apocalypse Now.
http://books.google.com.br/books?id=XIQSnRbfyusC&lpg=PP1&pg=PA153#v=onepage&q&f=false