Uma coisa que sempre apreciei no cinema é a originalidade e apostas em novas propostas para fazer um filme. Quando acontece uma surpresa assim, o filme sempre ganha seu destaque e quase sempre é bem aceito. Se todos fizessem isso, certamente gêneros como o terror ou as comédias estariam em melhor estado.
Um gênero que certamente luta sempre para renovar a si mesmo, e por que não renovar ao cinema também, são as ficções científicas. Por mais que tenham acontecido “coisas” como Independence Day e seus derivados, o gênero sempre apostou em coisa nova e em 2009 estamos presenciando mais um desses. Com seus humildes U$30 milhões e muita criatividade e idéias novas, Distrito 9 é um deliciosa e mais que bem vinda surpresa.

Há 20 anos atrás, uma nave extraterrestre parou literalmente no ar, e com a exploração seguida por contato humano, descobriu-se uma raça alienígena fraca e cheia de problemas. Sensibilizados com a situação dos irmãos de universo, foi delimitada uma área militarizada na periferia de Joanesburgo, capital da África do Sul, bem abaixo da nave. Lá os ETs habitaram e se virando como podiam tentaram viver.
Só que os problemas apenas começaram… A superpopulação de alienígenas, a chegada de bandidos comandando tráfico de “ração de gato” (luxo para os ETs) e de armas, transformou o Distrito 9 em uma grande e violenta favela. Um lugar projetado para abrigar apenas aliens, onde o submundo comanda e toca o maior terror, onde seu líder mata os aliens e os come acreditando receber a inteligência e força deles.
Foi criada a MNU (Multi-National United), uma espécie de ONU para os ETs, que recebeu a missão de dar um novo abrigo aos aliens, mas organizado, mais confortável e desculpem o trocadilho, mais humano (há uma crítica deliciosa ao intrometimento dos direitos humanos no filme). Só que a MNU não está apenas interessada em fazer o bem. Eles são também uma das maiores indústrias de armamentos do mundo e querem entender o funcionamento das armas alienígenas.

Mandam para lá o abobalhado e “não levado a sério” Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), que sofre um acidente. Ao invadirem um dos barracos para fazer a revista, ele acaba tendo contato direto com um líquido que o faz passar por uma mutação, fazendo com que ele aos poucos tome a forma de um ET. Agora, com seu DNA humano fundido perfeitamente com o dos aliens, Wikus torna-se a pessoa mais valiosa do mundo e os grandões da MNU começam a caçá-lo para fazer experiências e descobrir os segredos da raça alienígena.
Wikus vira um fugitivo e vai para o Distrito 9, onde se esconde e procura por ajuda.
Distrito 9 surge com uma proposta diferente, e isso me chamou muito a atenção. A começar que eles não pousam nos EUA e tampouco vieram causar destruição por motivos já batidos, como falta de recursos naturais e outros motivos óbvios, aliás, isso nem é tratado no filme. Outra coisa interessante é a narrativa da fita, contando a história de uma maneira documental, utilizando entrevistas e depoimentos de pessoas ligadas diretamente aos acontecimentos do acidente de Wikus e os problemas do Distrito 9.
O bacana é que essas mesmas entrevistas e o tom documental, dão uma impressão de que o roteiro quer tratar de temas sérios como favelas e violência, dentro de uma filme fantasioso. A sacada pode ser até óbvia, mas achei cabível comentar uma vez que esses temas são tratados com certa discrição e quase sempre sem atingir o espectador da maneira esperada. Distrito 9 falou de problemas sociais usando ETs como protagonistas.
Produzido por Peter Jackson e sua sempre eficiente Wingnut Films, e dirigido pelo novato Neill Blomkamp, o filme é bem ritmado e bem feito. Une o útil ao agradável e conquista do mais exigente paladar ao mais simples. Muito daquele efeito “câmera na mão” pode até ser indigesto no começo, mas é só a pancada começar e esse defeito vira um ponto a favor. Mesclado uma edição mais documental e depois cinema puro, o filme vira uma mistura curiosa de estilos. As referencias a gênios como Paul Verhoeven (em trabalhos como Robocop e Tropas Estelares) e outros filmes do gênero, como A Mosca, são notáveis e usadas para criar clima e não gratuitamente para roubar idéias alheias.
O filme é baseado num curta do próprio Neill Blomkamp, de 2005 chamado Alive in Jorburg, e assim como em Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (onde o diretor havia feito um curta com a história antes do filme), todas as propostas e saídas criativas e o resultado foi esse ótimo filme.
Um clima tenso é mantido durante toda a projeção e nem nos créditos finais ela termina. O filme acabou e continuei atônito. Acreditem, o fim não é esperado e a surpresa causada é só um dos vários bons efeitos que o filme causa. As cenas de ação bem filmadas e a técnica envolvida bem caprichada transformam o tal Distrito num campo de batalha cheio de surpresas e correria, o pior lugar do mundo.
O elenco é outro destaque interessante. Sharlto Copley segura o filme todo. Sua atuação é convincente e incrivelmente realista. Incrível como ele soube passar todos os perrengues do personagem com uma dose de humor negro fantástica e uma dramaticidade fabulosa. Ele é quase como uma tragédia de Shakespeare. E óbvio, rouba a cena o filme todo, deixando os coadjuvantes apenas como peça pra completar a coisa toda.
Os efeitos especiais magníficos e muito realistas dão uma dimensão da inventividade do roteiro. ETs, naves, armamentos, tudo criado com um realismo impressionante, passando aquela visão mais crua de tudo. É realmente um show a parte.

O defeito maior ficaria talvez por conta do roteiro. Em certos momentos é pouco desenvolvido e deixa algumas coisas soando forçado. Ou quando fazem os acontecimentos passarem voando literalmente, sem dar tempo de o espectador absorver as informações que o filme passa. Mas contando com diálogos interessantes e crus, crítica social implícita e a criatividade em montar bons momentos fazem esses detalhes passarem despercebidos. O ruim é que o filme vem com uma proposta e acaba terminando como mera diversão.
Pra quem curte uma boa diversão, para quem curte algo mais maduro, para quem curte cinema, Distrito 9 pode não ser genial nem nada, pode não ser revolucionário nem nada, pode não ser essa coca-cola toda, mas só por ser diferente, já vale a assistida.
Recomendadíssimo!
Nota: 8,5
District 9, 2009
Direção: Neill Blomkamp.
Atores: Sharlto Copley , Jason Cope , Nathalie Boltt , Sylvaine Strike , Elizabeth Mkandawie.
Duração: 01 hs 52 min






Nossa, esse filme deve ser mto legal!
Muito bom o comentário sobre o filme. Não conhecia o blog, vc está de parabéns..voltarei muitas vezes..tudo de bom e sucesso!!!
Oi Marcos!
Agradecendo em nome de todos!
E caso queiras ter um texto seu, aqui, é só dizer.
trocaremos os detalhes por email.
Beijo,