Bastardos Inglórios

Em 1992 ele surge adaptando uma linguagem cinematográfica em Hollywood. Em 1994 ele desenvolve essa linguagem e conquista o mundo definitivamente.
Em 2003 ele coloca essa linguagem no gosto de todos.

Em 2009 ele transforma essa linguagem e cria seu próprio jeito de fazer cinema!

bastardos

Quentin Tarantino, um rato de locadora que cresceu cercado das melhores influencias, explodiu no cinema e desde então tornou-se um dos mais influentes cineastas do mundo. Seu jeito de contar uma história transcende a originalidade, e mesmo passeando sobre seus próprios filmes (com referencias que vão desde as letras dos créditos a músicas) e fazendo referencias a outros tantos, ele tem um talento todo especial de fazer seus filmes serem os mais originais possíveis.

Agora ele sai do universo dos gângsteres, do crime organizado, das lutas e espadas orientais e das danças animadas, pra contar a história de ”bastardos inglórios”, título que não apenas se refere ao grupo de soldados americanos e judeus que tocam o terror na França dominada pelos nazistas. Mas sim, de todos os envolvidos em um plano mirabolante para matar Hitler.

Começam nos créditos iniciais sua molecagem, séria molecagem. Reparem nas letras dos créditos: umas lembram Kill Bill, outras lembram Pulp Fiction. Depois entra a rasgada e maravilhosa trilha do (G)Ennio Morricone, mais uma vez lembrando Kill Bill. E ao longo de toda a fita, ligações com seus filmes anteriores é o que não falta. Criativo? Sim. Original? Sim. Coisa de Gênio? Sim!

Uma garota, Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) foge da morte certa e do tiro do Coronel Hans Landa (o excelente Christoph Waltz) e desaparece. Essa mesma menina, Shosanna Dreyfuss, tem a chance de vingar a morte de seus familiares, quando os nazistas alugam seu cinema para a estréia de um filme de Joseph Goebbels (Sylvester Groth) – famoso por ser influente na propaganda do partido nazista – cerca de 4 anos depois.

Do outro lado, o Tenente Aldo Raine (Brad Pitt incrível e hilário – lembrando o personagem de sotaque engraçado de Snatch – Porcos e Diamantes) recruta 8 corajosos soldados americanos judeus que passam a ter uma dívida com ele: 100 escalpos nazistas cada um. O objetivo é claro: espalhar o terror no coração dos nazistas, “…fazê-los vomitar de si mesmos…”, como o próprio Aldo Raine diz no momento do recrutamento. Junto com ele, além dos americanos, há um alemão que matou vários oficiais da Gestapo e o terror dos prisioneiros, Sargento Donny Donowitz (Eli Roth bem a vontade), conhecido por matar seus prisioneiros usando com gosto um taco de baseball.

Aldo Raine e seus ”Bastardos”, como passam a ser conhecidos, descobrem após o fiasco de uma missão de espionagem da Inglaterra (com direito a um oficial interpretado por um irreconhecível Mike Myers) onde a atriz espiã Bridget von Hammersmark (a ótima Diane Krueger) está envolvida, que Hitler e todo o alto comando nazista estarão na estréia de um filme, em um cinema, onde poderão definir a guerra do jeito deles: …”matando nazistas!”

aldo raine

O plano entra em ação e os momentos finais do filme são de um bom gosto delicioso. Tarantino não brinca em serviço e nos brinda com um show de imagens que embelezam seu filme até os créditos subirem. Violência estilizada, um tiroteio de manter os olhos abertos, fogo pra todo lado, e um fim surpreendente para mais da metade dos personagens, incluindo Hitler e seus comandados.

Pouco mais de duas horas e meia que passam voando. Tarantino definitivamente não faz feio em nenhum momento do filme. Uma coisa que ele faz bem é manter diálogos longos sem torná-los maçante demais para o espectador. Sempre arranja um jeito de inserir uma surpresa nova, uma frase que te revela muita coisa, uma frase que te arranca risada, uma frase que te faz ver o filme por outro ângulo. Essa capacidade aliada a ótimas interpretações, cria um clima denso e ritmado, onde até o diálogo mais longo (e não são poucos), conseguem passar voando e deixando saudade.

A violência presente não é banal, tampouco está ali por estar. Outro ponto importante de se destacar nos filmes do cara é justamente o cuidado de dar uma justificativa racional à violência mostrada. E com muito bom gosto, claro. São bem filmadas, sem soarem gratuitas, e com aquele toque Tarantino de humor negro, bem evidente no final do filme.

Quanto aos personagens, outra coisa que Tarantino é craque: desenvolver seus personagens. Por mais que tenha muitos personagens, ele dá a cada um a chance de aparecer e fazer o que tem que fazer. Sem tirar nem por, podemos dizer que todos são peças chave/fundamentais na trama. Ninguém é mais estrela do que ninguém e cada um desempenha sua função da melhor maneira possível. Imaginem uma máquina onde todos os seus componentes trabalham na mesma sintonia? Isso é Bastardos Inglórios.

E por falar nos personagens, todos estão perfeitos.Christoph Waltz rouba a cena e arrasa em toda vez que aparece.

hans landa

Poliglota e frio, ele é um misto de ameaça com uma graça angelical impecável, e na hora de patinar sobre esses sentimentos, ele se sai muito bem. Pode valer uma merecidissíma indicação ao OSCAR ano que vem. Brad Pitt só me fez ter certeza de que minha teoria é certa: quando ele não interpreta um galã, ele arrasa! E aqui não é diferente, com um sotaque pra lá de engraçado, uma cicatriz cabulosa no pescoço e um jeitão durão impagável, ele interpreta um dos melhores personagens do filme. Aldo Raine é o cara!

Diane Krueger me surpreendeu e ganhou uma presença mágica no filme. Por mais que seja uma aparição curta, ela consegue deixar sua marca e a importância de sua personagem. O mesmo vem com Eli Roth que pra mim, tem mais talento na frente das câmeras do que atrás. Com 15 kg a mais, suas aparições rendem bons momentos no filme, principalmente nas cenas finais, com aquele olhar insano de matador de nazistas que é perfeito.

Com a sempre provocativa montagem irregular, marca de seus filmes, ele constrói a trama de maneira não linear. As historias dos personagens são contadas de maneira aleatória e depois vão se encontrando em momentos chave do filme, até atingir o clímax dentro do cinema. A fotografia é linda, a direção de arte idem, mas o que mais me deixou feliz foi a trilha sonora… Mais uma vez!

Tarantino sabe o que usar para criar o clima de seus filmes. Aqui ele usa e abusa do Morricone e suas lendárias músicas de filmes faroestes.

Há até David Bowie rendendo uma das minhas cenas preferidas do filme todo, com a vingativa Shosanna Dreyfuss preparando-se para o momento mais importante da sua vida: o acerto final com os nazistas. Sem contar que tudo parece ter sido construído já pensando em cada música. É incrível como cena e música se encaixam perfeitamente, e pra mim, quando um diretor consegue isso, ele está sendo antológico a cada minuto do filme.

Responsável pelo roteiro e pela direção, Tarantino não brinca em serviço e entrega um de seus melhores trabalhos, top 3 com certeza. Mas ele vai além de um filme de guerra. Ele na verdade presta uma homenagem ao cinema. Com todas as citações possíveis de clássicos que vão dos americanos aos franceses, ele inclui nos diálogos comentários e debates deliciosos sobre cinema, diretores, atores e tudo mais. Sem contar que ele usa a linguagem que o deixou famoso pra criar uma linguagem própria.

Seu roteiro não tem a prentenção de apontar mocinhos nem vilões, todos são anti-heróis que lutam pelo que querem. Isso é interessante num gênero que se preocupa em fazer aparecer vilão e mocinho e defender sempre o lado de um. Aqui acontece o contrário, todos mudam, ninguém vale nada e isso deixa o filme intenso e cheio de surpresas. Ao acertar nisso, o clímax criado ao longo do filme é o que há de melhor. Depois vem o humor impagável que toma grande parte dos diálogos bem construídos, sendo o melhor deles, Hans Landa descobrindo os intrusos bastardos se passando por italianos no cinema.

hitler

Dirigido com muita maestria, Tarantino cria um dos melhores filmes do ano, e um dos mais espetaculares filmes de guerra já feito. Além de fazer uma declaração de amor ao cinema e inventar momentos antológicos protagonizados por seus personagens peculiares e em alguns pontos diferentes. Bastardos Inglórios, acredito eu, é um novo clássico do cinema. E se você tem dúvida do talento cinematográfico do Quentin Tarantino, assista o filme e reveja seus conceitos.

Nota: 10

Inglourious Basterds, 2009

Direção: Quentin Tarantino.
Atores: Brad Pitt , Mélanie Laurent , Eli Roth , Christoph Waltz , Michael Fassbender, Diane Krueger.
Duração: 02 hs 33 min