Hotel Atlântico, de Suzana Amaral (2009)

Por: Fábio Montarroios.
Não dá para imaginar, ao certo, onde diabos a crítica internacional foi buscar paralelo com filmes de David Lynch e Michelangelo Antonioni [um longo suspiro] para explicar, justificar, talvez, o filme “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral. A falta de sentido, força, expressão dos atores (com exceção de Marcia Martins que eu suspeito não ser atriz profissional) não tem nada que ver com o cinema onírico do primeiro ou a “incomunicabilidade” do segundo. Mesmo por que estes são rótulos baratos e grosseiros de enquadramento do cinema de ambos. Não perguntem a David Lynch o sentido dos seus filmes, pois não há – mas, diga-se, não há propositalmente! Antonioni recusa essa bobageira de “incomunicabilidade”, só que, assim mesmo, as pessoas (os críticos, na verdade) insistem em tachá-lo. Bem, toda essa bronca é porque a referência aos dois cineastas consta no cartaz do filme, porque um crítico de um jornal americano, eu acho, e que não saca muito de cinema pelo visto, escreveu isso em sua crítica – daí o pessoal de marketing do filme vai e recorta essa frase e coloca ali como um selo de qualidade, sendo que se tivessem lido a crítica de Inácio de Arújo, na Folha, por exemplo, teriam tido mais trabalho, apesar da generosidade do crítico. O filme foi selecionado pelo festival de Toronto (como não me perguntem) e saiu de lá como chegou aqui: sem causar efeito algum na platéia, eu presumo.

Suzana Amaral fez um filme legal em sua carreira: “A hora da estrela” há muito, muito tempo. Adaptação do livro de Clarice Lispector. Macabéa ganhou vida! Os atores sustentam o filme! Era um filme que carecia de atores! Agora, “Hotel Atlântico” não precisava de atores profissionais (no máximo um ou dois) e, pelo visto, tanto Suzana Amaral quanto o crítico não devem ter lá prestado muita atenção aos filmes de Pasolini. Ele não usava atores profissionais em muitas de suas obras. Aliás, muitos diretores italianos apelaram para tal recurso (Visconti e Fellini, se não me falha a memória certamente operaram assim) e é bem provável que o próprio Antonioni aprontou algo do tipo. Repito, eu acho que a única atriz não profissional era a Marcia Martins, no papel de esposa do sacristão, e ela foi justamente a melhor em cena. Enfim, se este filme tem paralelo com algo eu diria que a sua pobre narrativa faz eco (quando ele já está bem fraquinho) a de Wim Weders em “No decurso do tempo”. Um Road Movie que também conta com uma personagem deslocada e errante. E, talvez, tenha algo que ver com o cinema de Sukorov, no que diz respeito ao tempo e andamento, especialmente com o primeiro filme dele, “A voz solitária do homem”, que mostra um homem devassado pela experiência da guerra e paralisado diante da vida que lhe resta viver com sua esposa.

So que a ruindade não tem limites: pois quem pôde ver “O invasor”, de Beto Brant, certamente se lembrará da interpretação ousada de Mariana Ximenes, mas ao vê-la novamente em “Hotel Atlântico” vai ter algo mais próximo e, ainda assim, piorado de sua personagem Clara em “A favorita”. Filme? Nada… novela mesmo e daquelas que fazem com que experimentemos os mesmos sentimentos de uma samambaia ao ouvir Wagner. Nem mesmo em uma cena de sexo do filme em que, diferentemente das propagandas dos Cartões Bradesco (em que você poderia escolher uma “celebridade” para um momento especial; no caso, fazer compras “num elegante shopping com uma das mais belas atrizes do Brasil”: Mariana Ximenes. A propósito, provavelmente deve ter sido o seu melhor papel depois de “O invasor”), a excitação/admiração vinha da escolha do fã por sua “celebridade” preferida. A personagem de Ximenes, Diana, não consegue excitar Alberto (uma personagem que é uma tentativa fracassada de materializar um fracassado), assim como a platéia ou sequer convencê-la de que ela “encarna” uma personagem. Talvez se ela também tivesse apelado a uma promoção do Bradesco ao invés de exibir os seios que não faziam páreo aos da esposa do sacristão não apenas em volume, mas também em tensão erótica, quem sabe não teríamos tido melhores resultados.

Bom, se estava aí uma metáfora para o próprio filme eu não sei, mas se a idéia de Suzana Amaral era nos dizer que o cinema brasileiro atual vive uma fase broxante eu a alço imediatamente à condição de genial, mas, sinceramente, não creio que tenha sido o caso.

Um filme aberto, abertíssimo, para infinitas combinações de entendimento é algo aceitável quando isto faz parte de um plano ou até mesmo do acaso, mas não do descaso ou do descontrole criativo. A platéia que, a meu ver, possui determinado grau de exigência, especialmente aquela habituada a ver filmes que não apelam às mesmas receitas de sempre do cinema norte-americano ultra-comercial, saiu cabreira da sala de projeção.

Outra marca patente do filme é a “crise” existencial em que embarca a personagem ao renunciar as imposições sociais. Alberto é abordado por um homem que o reconhece como artista e sempre que usa a palavra artista o faz com deboche e desdém. Sabemos que a função dos artistas foi maculada pela marca da “celebridade” que recai sobre os ombros de muitos: elevando ao estrelado pessoas sem o mínimo talento. Muitos bons atores são mal tratados com filmes ruins, roteiros idiotas, equipe técnica relaxada. Teremos aí, então, outra pérola escondida do filme? Ao menosprezar o artista estamos diante da inveja ou da inutilidade da função? Difícil saber se por trás de algo assim estamos vislumbrando uma nova crítica de Suzana Amaral ou apenas um pretexto para seguir com a narrativa em frente, porque o desenlace subseqüente é desprovido de sentido (o mesmo que fez parecer ao crítico americano estar diante de um filme influenciado por David Lynch).

Alberto, em dado momento do filme, leva um tombo que parece ter sido não planejado. Foi sem querer e ficou registrado, seguiu em frente. Depois, mesmo sujo de lama, se levantou e o filme rodando. Espero que o cinema brasileiro faça o mesmo movimento. Não importa a lama. Eu acho, que neste filme, Suzana Amaral apenas leu mal o texto de João Gilberto Noll, diferentemente do que fez com o texto de Clarice.

Hotel Atlântico. 2009. Brasil. Direção e Roteiro: Suzana Amaral. Elenco: Julio Andrade, Mariana Ximenes, João Miguel, Gero Camilo, Helena Ignez, Luiz Guilherme, Andre Frateschi, Lorena Lobato, Marcia Martins, Renato Dobal, Walter Breda, Esther Benevides, Tina Rinaldi, Jiddu Pinheiro e Tiago Pinheiro. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Baseado na obra de mesmo nome de João Gilberto Noll.