Não dá para imaginar, ao certo, onde diabos a crítica internacional foi buscar paralelo com filmes de David Lynch e Michelangelo Antonioni [um longo suspiro] para explicar, justificar, talvez, o filme “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral. A falta de sentido, força, expressão dos atores (com exceção de Marcia Martins que eu suspeito não ser atriz profissional) não tem nada que ver com o cinema onírico do primeiro ou a “incomunicabilidade” do segundo. Mesmo por que estes são rótulos baratos e grosseiros de enquadramento do cinema de ambos. Não perguntem a David Lynch o sentido dos seus filmes, pois não há – mas, diga-se, não há propositalmente! Antonioni recusa essa bobageira de “incomunicabilidade”, só que, assim mesmo, as pessoas (os críticos, na verdade) insistem em tachá-lo. Bem, toda essa bronca é porque a referência aos dois cineastas consta no cartaz do filme, porque um crítico de um jornal americano, eu acho, e que não saca muito de cinema pelo visto, escreveu isso em sua crítica – daí o pessoal de marketing do filme vai e recorta essa frase e coloca ali como um selo de qualidade, sendo que se tivessem lido a crítica de Inácio de Arújo, na Folha, por exemplo, teriam tido mais trabalho, apesar da generosidade do crítico. O filme foi selecionado pelo festival de Toronto (como não me perguntem) e saiu de lá como chegou aqui: sem causar efeito algum na platéia, eu presumo.
Suzana Amaral fez um filme legal em sua carreira: “A hora da estrela” há muito, muito tempo. Adaptação do livro de Clarice Lispector. Macabéa ganhou vida! Os atores sustentam o filme! Era um filme que carecia de atores! Agora, “Hotel Atlântico” não precisava de atores profissionais (no máximo um ou dois) e, pelo visto, tanto Suzana Amaral quanto o crítico não devem ter lá prestado muita atenção aos filmes de Pasolini. Ele não usava atores profissionais em muitas de suas obras. Aliás, muitos diretores italianos apelaram para tal recurso (Visconti e Fellini, se não me falha a memória certamente operaram assim) e é bem provável que o próprio Antonioni aprontou algo do tipo. Repito, eu acho que a única atriz não profissional era a Marcia Martins, no papel de esposa do sacristão, e ela foi justamente a melhor em cena. Enfim, se este filme tem paralelo com algo eu diria que a sua pobre narrativa faz eco (quando ele já está bem fraquinho) a de Wim Weders em “No decurso do tempo”. Um Road Movie que também conta com uma personagem deslocada e errante. E, talvez, tenha algo que ver com o cinema de Sukorov, no que diz respeito ao tempo e andamento, especialmente com o primeiro filme dele, “A voz solitária do homem”, que mostra um homem devassado pela experiência da guerra e paralisado diante da vida que lhe resta viver com sua esposa.
So que a ruindade não tem limites: pois quem pôde ver “O invasor”, de Beto Brant, certamente se lembrará da interpretação ousada de Mariana Ximenes, mas ao vê-la novamente em “Hotel Atlântico” vai ter algo mais próximo e, ainda assim, piorado de sua personagem Clara em “A favorita”. Filme? Nada… novela mesmo e daquelas que fazem com que experimentemos os mesmos sentimentos de uma samambaia ao ouvir Wagner. Nem mesmo em uma cena de sexo do filme em que, diferentemente das propagandas dos Cartões Bradesco (em que você poderia escolher uma “celebridade” para um momento especial; no caso, fazer compras “num elegante shopping com uma das mais belas atrizes do Brasil”: Mariana Ximenes. A propósito, provavelmente deve ter sido o seu melhor papel depois de “O invasor”), a excitação/admiração vinha da escolha do fã por sua “celebridade” preferida. A personagem de Ximenes, Diana, não consegue excitar Alberto (uma personagem que é uma tentativa fracassada de materializar um fracassado), assim como a platéia ou sequer convencê-la de que ela “encarna” uma personagem. Talvez se ela também tivesse apelado a uma promoção do Bradesco ao invés de exibir os seios que não faziam páreo aos da esposa do sacristão não apenas em volume, mas também em tensão erótica, quem sabe não teríamos tido melhores resultados.
Bom, se estava aí uma metáfora para o próprio filme eu não sei, mas se a idéia de Suzana Amaral era nos dizer que o cinema brasileiro atual vive uma fase broxante eu a alço imediatamente à condição de genial, mas, sinceramente, não creio que tenha sido o caso.
Um filme aberto, abertíssimo, para infinitas combinações de entendimento é algo aceitável quando isto faz parte de um plano ou até mesmo do acaso, mas não do descaso ou do descontrole criativo. A platéia que, a meu ver, possui determinado grau de exigência, especialmente aquela habituada a ver filmes que não apelam às mesmas receitas de sempre do cinema norte-americano ultra-comercial, saiu cabreira da sala de projeção.
Outra marca patente do filme é a “crise” existencial em que embarca a personagem ao renunciar as imposições sociais. Alberto é abordado por um homem que o reconhece como artista e sempre que usa a palavra artista o faz com deboche e desdém. Sabemos que a função dos artistas foi maculada pela marca da “celebridade” que recai sobre os ombros de muitos: elevando ao estrelado pessoas sem o mínimo talento. Muitos bons atores são mal tratados com filmes ruins, roteiros idiotas, equipe técnica relaxada. Teremos aí, então, outra pérola escondida do filme? Ao menosprezar o artista estamos diante da inveja ou da inutilidade da função? Difícil saber se por trás de algo assim estamos vislumbrando uma nova crítica de Suzana Amaral ou apenas um pretexto para seguir com a narrativa em frente, porque o desenlace subseqüente é desprovido de sentido (o mesmo que fez parecer ao crítico americano estar diante de um filme influenciado por David Lynch).
Alberto, em dado momento do filme, leva um tombo que parece ter sido não planejado. Foi sem querer e ficou registrado, seguiu em frente. Depois, mesmo sujo de lama, se levantou e o filme rodando. Espero que o cinema brasileiro faça o mesmo movimento. Não importa a lama. Eu acho, que neste filme, Suzana Amaral apenas leu mal o texto de João Gilberto Noll, diferentemente do que fez com o texto de Clarice.
Por: Fábio Montarroios.
Hotel Atlântico. 2009. Brasil. Direção e Roteiro: Suzana Amaral. Elenco: Julio Andrade, Mariana Ximenes, João Miguel, Gero Camilo, Helena Ignez, Luiz Guilherme, Andre Frateschi, Lorena Lobato, Marcia Martins, Renato Dobal, Walter Breda, Esther Benevides, Tina Rinaldi, Jiddu Pinheiro e Tiago Pinheiro. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Baseado na obra de mesmo nome de João Gilberto Noll.









Quem és pra falar mal da interpretação da Mariana Ximenes? A menina é das melhores atrizes do Brasil!
Lea, foi nesse comentário que tinha um palavrão. Onde xingava diretamente o autor do texto. Que no caso é o Fábio. Como sendo a administradora do site, tenho o direito e o dever de guiar para um bom nível do debate.
A critica é do Fábio né? Gostei da critica. Acrescento ainda uma observação feita pelo critico da Folha, Inácio Araujo. De que o filme é desinteressante. E que o espectador ganha ao tentar entender os personagens coadjuvantes, já que o protagonista ” um vagabundo” nas palavras de Araújo, não desperta simpatia, tão pouco interesse. Quanto a Mariana Ximenes, não a acho grande atriz como dito no comentário de cima. Acho que há uma diferença enorme entre ousar, e ser reconhecida por isso, e ser boa naquilo que faz. Cito o exemplo de Jim Carrey, reconhecidamente bom como comediante e que ousa em papéis dramáticos. Ximenes tem ousado no cinema nacional, daí a provar-se boa, são outros 500.
Grande abraço!
Então você não deve ter visto o trabalho da moça concerteza…
Mas não importa, a maioria do Brasil, sabe, reconhece e parabeniza o talento imenso desta grande atriz.
Respeito a sua opinião mas não concordo em nada.
vocês estão equivocados…. é o melhor filme do ano!
Ah isso é que é Rodolfo!! Enfim uma pessoa inteligente!!
Pois é, Lea.
Pessoas inteligentes discutem idéias, e não ficam xingando as pessoas. Deve ter visto que eu retirei um xingamento seu, a pessoa do Fábio.
Se é fã da Ximenes, poderia descrever as atuações dela.
E por curiosidade, você viu esse filme, Hotel Atlântico?
pessoal, a idéia não é atacar ou ofender a diretora ou qualquer pessoa especificamente. eu reparo na obra (é o q realmente me interessa) da suzana amaral, q, como disse, fez “a hora da estrela”, um filme belíssimo (dá pra compará-lo tranquilamente com o “lavoura arcaica”), mas q neste, especificamente, deixou bastante a desejar, na minha opinião. luiz carlos merten, crítico do estadão, disse q o filme “não o pegou pelas bolas”… faz sentido, pois o filme não vai, não segue com força e energia.
bem, as interpretações dos atores, a meu ver, tb foram ruins de um modo geral. teve gente q achou q foram justamente as interpretações q “salvaram” o filme: foi o caso do inácio de araújo, na folha de são paulo.
de todo modo segue um link para uma entrevista bacana com a suzana amaral falando deste filme e da dificuldade de fazê-lo e viabilizá-lo: http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/11/09/suzana-amaral-lanca-seu-terceiro-longa-em-20-anos-diz-que-ancine-favorece-filmes-comerciais-914671530.asp
fazer cinema no brasil não é fácil e, sinceramente, eu acho q todo filme brasileiro merece ser visto, independentemente dele ser bom ou ruim, ser tosco ou genial ou ser simplesmente mais um filme comercial. apesar dos pesares, qualquer filme nacional vai dialogar mto melhor com as “nossas questões brasileiras” (caso isto de fato exista) do q qualquer outro tipo de filme. não importa dizer o quanto é importante ver filmes q tratam de temas universais (e nós, brasileiros, teríamos o dever de fazer filmes assim para ingressar num clube seleto)… sei lá, certas coisas só cabem na explicação de quem mora ou viveu aqui. se vc leu guimarães rosa, por exemplo, vai ver o quão difícil seria entendê-lo senão pela língua portuguesa e pela cinematografia brasileira. assista “a hora e a vez de augusto matraga”, de roberto santos e depois leia o texto do guima (ou vice e versa). é o caso do texto de clarice e tb de joão gilberto noll. nunca li nada denso do joão, exceto aquele livro “preguiça”, de uma coleção sem pretensões da editora objetiva e achei o texto dele realmente mágico. talvez a leitura da suzuna não tenha sido tão boa qto a q ela fez com o texto da clarice. vai saber?
e tb tenho certeza q se a mariana ximenes se envolver tanto qto se envolveu em “O invasor”, ela teria feito melhor.
me parece q a suzana amaral tem q apelar a este tipo de elenco para viabilizar o seu filme tb, pq, de certo modo, “celebridades” são chamarizes. nada contra celebridades, contanto q elas tenham uma obra consistente…
abs!
Não estou entendo?!?!?!? Como assim à pessoa do Fábio??
Eu não xinguei nenhum Fábio, é fácil alguém poder vir aqui e colocar o mesmo nome que eu não?? Já agora queria saber o que dizia esse tal xingamento que, sinceramente, não faço idéia do que seja!?!?! Mas já agora que passei por ofender as pessoas e passei, cá vai: você deve ter muita dor de cotovelo da Mariana só pode!!! Descrever as atuações? Mulher, veja o filme primeiro, mas tirando essa invejinha à toa, veja esse e outros filmes, mas agora falar que ela não é boa atriz?? Ah, faça me rir!!! By by!!
Sobre seu xingamento, dei retorno agora diretamente onde você tinha escrito, e eu depois o retirei.
Se não foi você, então sua homônima também está usando seu email.
Eu não vi esse filme, logo, não estou gabaritada para falar da atuação da Mariana Ximenes. Como também não vejo novelas, nem dela nelas, eu posso falar. E não falei.
O Fábio que viu o filme, e me parece uma novela onde ela atuou, foi que descreveu a atuação dela.
E repito a pergunta: Você viu esse filme?
Sério nem lembrava que tinha! Por acaso nem é meu costume isso mas talvez tenha sido na hora…
E sim, eu vi o filme e gostei.
Nossa o clima tá quente. Paz gnt, vamos falar de cinema.
Lella, seu blog já está linkado lá no meu. Agora é para sempre. Bjs
Esse até que foi leve