O FRACASSO DO ANTICRISTO

Por: Affonso Romano de Sant’Anna.

Acabei assistindo ao ANTICRISTO de Lars von Trier durante o Natal. Pura coincidência.

Fui ver as polêmicas que se seguiram ao filme quando apresentado em Cannes: parte do público, injuriado, saindo da sala, outros vaiando, e numa entrevista coletiva que vocês podem ver no site (http://www.festival-cannes.com/en/mediaPlayer/9902.html), Trier , aparece ao lado de Willem Dafoe e de Charlotte Gainsbourg. Quando lhe perguntam porque fez o filme diz que não tem satisfação a dar a ninguém. Que não tem porque explicar a obra.

Confessa, no entanto, que havia saído de uma crise de depressão, que estava perdidão e fez o que lhe deu na telha.

Vi o filme. Ali estão algumas de suas obsessões: ele (diretor) tem uma relação perversa e complicada com mulheres (ver  filmes anteriores, inclusive o maravilhoso Dogville). Neste a personagem feminina prepara uma tese inacabada sobre tortura de mulheres e sexo está sempre relacionado a sangue, violência e morte. Mas o que desagrada não é exatamente fato de a mulher não salvar o filho que se joga da janela, tentar matar o marido passar a tesoura no próprio clitoris ou jogar uma tora de madeira no sexo do marido, masturbando-o até sair sangue. Também não é o fato de no meio da discussão em Cannes ele dizer  publicamente que é  o maior diretor de cinema do mundo  e comparou-se a Deus. Todo mundo tem direito de alucinar.

O que dá a sensação de fracasso estético é outra coisa, que não passa pela moral. O diretor perdeu o leme da obra (ele sabe disto). O filme muito bem dirigido tecnicamente, vai indo com uma tensão psicológica e quase metafísica instigante, mas, de repente, vira filme de terror, terror de terceira. Não é uma fábula, não é uma alegoria, não é uma obra surrealista. O diretor se perdeu. E o expectador sente isto e se vê fraudado. Afinal, toda obra de arte é um pacto.

E aí surge uma questão: diferença entre obra de arte e neurose. Obra de arte é uma metáfora de utilidade pública. Neurose é um aprisionamento pessoal. Nem toda neurose (ou psicose) é obra de arte. Um simples e forte exemplo: Kafka: transformou suas neuroses  a alucinações em metáforas/símbolos de utilidade pública, uma coisa transpessoal. Lars von Trier não conseguiu isto. Dialogou para dentro e não para fora.

Tem ele o direito de fazer isto? Claro.

O mesmo direito do público em rejeitar  ou cobrar algo.

Essa coisa de que o artista é um “sujeito acima de qualquer suspeita” e pode fazer o que quiser, é um dos equívocos da arte do século XX.

Aliás, já que Trier andou se comparando a Deus, tem um detalhe. Até Deus erra. Errou naquela história do Eden, errou de novo ao tempo de Noé, por isto teve que mandar o dilúvio; novamente errou, daí a uns anos, e teve que mandar seu filho Jesus. Diante da situação atual vamos ver como ele vai tentar corrigir o que está aí.

Como dizia o poeta Rubens Jardim: HERRAR É UMANO!

Mas, como desde a Idade Média os teólogos afirmam que o Diabo é parte de Deus, então a gente vai botando a culpa dos erros no OUTRO.

Por: Affonso Romano de Sant’Anna.  http://www.affonsoromano.com.br/

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3 comentários em “O FRACASSO DO ANTICRISTO

  1. Affonso Romano de Sant’Anna!
    Nossa!

    Os bons ventos, primeiro o trouxeram a esse blog como um ilustre visitante. E que gerou uma conversa agradabilíssima por email. Que por sua vez, numa simplicidade ímpar, compartilha agora conosco um texto seu.

    Sejas muito Bem-vindo!
    Estou lisonjeada pelo seu apreço a esse espaço!
    Grata!

    Valéria,

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  2. Por esse post, encerrou de vez minha curiosidade sobre locar ou nao o filme. Dafoe é um ator q as vezes da sorte nos papeis, outras horas nem é uma vaga lembrança por onde atuou, incluindo as cenas de sexo q protagonisou

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  3. Compreendo a leitura, mas nao concordo com o ponto de vista abordado. Na verdade, o gosto eh algo bastante pessoal, e as vezes, um filme toca alguem de forma tao profunda em alguem, e nao faz o mesmo em outras pessoas.

    Sim, Von Trier nao eh Deus, e nem venho aqui em discurtir que ateh Deus fez algo errado. Nao vejo aqui uma razao para tal julgamento baseado no que Von Trier disse e deixou de dizer, porem, o acho o melhor director do cinema mundial desde Ingmar Bergman. Seus filmes sao intimistas e me faz refletir sobre a vida e sobre o ser humano. Sim, AntiChrist, Von Trier passou funda na pornografia para assim chocar, mas tbem para deixar marcado pontos relevantes sobre a culpa e ao sexo.

    Charlotte Gainsbourg eh uma boa atriz, e foi precisa ao si expor para lentes do magistral diretor de fotografia “Anthony Dod Mantle”, porem eh uma mulher feia e plastimamente terrivel na tela( se foi intencional, Von Trier conseguiu criar o proprio diabo na pele de Gainsbourg).

    Adorei o Dafoe. Uma atuacao sensivel de um ator que acho um pouco injusticado em termos de premiacao. Sim, ele eh feio, mas perto de Gainsbourg parece mais humano e ateh um homem interessante.

    Antichrist eh um filme que parece ser difil de ser engolido, mas ao passo que eh engerido eh dificil de esquece-lo. Um trabalho corajoso e simblime.Um dos melhores filmes do ano de 2009!

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