Preciosa não é um filme para se assistir…

Preciosa tem 16 anos, é uma gorda com obesidade mórbida e negra. Mora no Harlem. Seu pai lhe engravidou duas vezes, na 2ª gravidez é expulsa da escola que não lhe ensinou a escrever nem a se comunicar. Teve sua primeira filha aos 12 anos, ela é chamada de “Mongo” em referência à Síndrome de Down da qual é portadora, a criança é criada pela avó. Sua mãe é algo que só vendo para saber, mas recebe os cheques da Assistência Social. Ela sonha ter um namorado mas os meninos a odeiam. Sua vida é um inferno e algo acontece quando vai para uma escola alternativa onde conhece Blu Rain (Paula Patton). Além das estrelas Mariah Carey despida do invólucro de diva glamourosa, de um belo Lenny Kravitz e do show de falta de humor daquela que aprendemos a ver fazendo humor, Mo’Nique (Mary, a mãe infeliz de tanta infelicidade) temos muito o que perceber neste longa de temas indigestos e baseado em história real.

Preciosa não é um filme para se assistir, é um filme para se observar, perceber e cenas como as da sua chegada da maternidade nos convoca a participar.

Saí do cinema, a princípio pensando que o roteiro deixou a desejar, aos poucos concluí que não é um filme denúncia. O roteiro funciona como um mapa onde as situações são caminhos que nos levam a maiores ou melhores (tanto faz) reflexões. Achei o início meio engasgado, até perceber que a ótica mostrada não é a do espectador fora do problema, mas da personagem mergulhada inteira num problema do qual ela não tem plena consciência. Em alguns momentos faltou-me ar. O filme vai crescendo à medida que Clareece Precious Jones (Gabourey Sidibe) cresce através das suas observações nas suas novas experiências, superando suas limitações impostas por uma vida miserável e uma mãe que deixa as madrastas dos contos de fadas com vaga no céu.

O filme critica um Sistema de Assistência Social que assiste sem conhecer quem é o assistido, financiando a desgraça de quem pretensamente fornece subsídios para uma condição melhor. Mostra que um funcionário que goste do que faz cria toda a diferença nos serviços fornecidos e que “casos perdidos” são aqueles que em vez de encontrarem dedicação espremem-se no meio das omissões.

Surpreendente perceber que atos percebidos podem transformar pessoas. Não basta educar, precisa ser educado, mostrar para que serve a educação através do exemplo. A atitude que não se toma pode ser tão veemente quanto uma ação praticada. Alguns valores podem estar perdidos para sempre por detrás dos nossos olhos, se não tivermos um mundo novo para apresentar a quem em fase de crescimento, pareça não ter condições de crescer e muitas vezes é o descrédito e o julgamento que sepulta todo um potencial.

Preciosa é o filme sobre pessoas que aprendem a partir daquilo que vivenciam e de outras que vivendo nada aprendem. Mostra a fuga pelo sonho, pela ilusão, pelo jogo e pela TV. A fuga pela porta da tirania, quando percebendo-se fracassado é imputado  a outro os motivos do próprio fracasso.

O amor pode ser interpretado como desrespeito e se não encontrarmos quem o expresse de alguma forma digna, passaremos a vida inteira achando que desrespeito é uma forma de amor e a violência sua expressão. Quando o seu filho praticar uma ação violenta, observe as suas próprias atitudes…

Confesso que esperava um final mirabolante, animado e colorido como os sonhos da personagem principal, contudo o que assistimos sobre as suas descobertas se torna muito mais grandioso que qualquer sucesso que ela pudesse ter… Afinal, que diabos! Não é uma versão negra e pobre de Hair Spray e ao mesmo tempo que parecem surgir alguns clichês, fica longe o clichê de auto ajuda. A cena final que pode deixar a desejar talvez assim esteja por mostrar que a vida é feita de um dia após o outro e que muitas das nossas vitórias não são comemoradas por acontecerem exatamente num dia como qualquer outro de nossas vidas. Deixa um espaço vago, pois afinal nossa vida não termina…

Preciosa é uma adolescente com vida de adulta que vive numa desgraça sem fim e que ao final de tudo recebe como prêmio uma desgraça maior ainda e que aprende a viver com ela ou apesar dela. Aprende  a ser útil sem ser subjugada. Aceita um destino que jamais supunha e ao final, ao ver perdido pra sempre sua ilusão, seu sonho de menina, descobre todos os grandes motivos para viver.

Emociona quando ela deseja transmitir ao seu filho coisas que ela não conhece e não entende mas percebe que é bom justamente por nunca ter conhecido nada de bom. Conviver com pessoas de um nível melhor pode ensinar mais do que comportamentos, pois se aprende a partir do que não se entende mesmo que talvez seja um pouco tarde demais para se obter, mas não custa tentar e aí dá-se a substituição do sonho-fuga-pela-imaginação pelo sonho possível.

Ter sido vítima de violência não  é necessariamente um motivo para tornar pessoas eternamente violentas, mas estar constantemente em estado de violência e de amor completo, é fatal. Sim, é óbvio, eu sei… Tão óbvio quanto o fato de que não adianta dar um mundo físico melhor se nele não houver a sensação de importância.

Preciosa é capaz de concluir a partir do que observa no seu novo mundo. Se antes nele só havia o aspecto do romance entre homem e mulher, tudo muda vertiginosamente na medida em que percebe o amor que nunca existiu no seu mundo.

O maior gueto está dentro dos que habitam os guetos.

A pior realidade está nos que tem pena de si mesmo e não olham à sua volta.

Aqueles que tendo amor dentro de si, jamais encontraram quem pudesse fazê-lo desabrochar, não encontrarão motivos para buscar uma vida verdadeira e digna.

Clareece Precious (Gabourey Sidibe), em sua limitação fornecida pela vida e família, descobre o que muitos declaradamente sensatos e de mente aberta não são capazes de perceber.

Está tudo ali, mas é bem possível que muitos não vejam.

Sim, havia outros personagens no filme, mas e daí? Algumas performances são magistrais, outras no mínimo interessantes. Como a comediante Mo’Nique consegue chegar àquela carga de drama, bruxa, despertando ódio e asco é algo que só especialistas em talentos poderiam talvez explicar.

O fato é que não se está nunca livre de uma desgraça, mas temos várias formas de passar por ela e que aquele que nunca teve algo de bom para viver pode passar a ter desde que esteja esperto para descobrir que tenha

Está tudo ali, esforce-se para ver!

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25 comentários em “Preciosa não é um filme para se assistir…

  1. Oi.

    Sou estudante de Letras e Comunicação Social e estou fazendo uma pesquisa sobre Psicologia e Cinema.

    Fiquei muito interessada em ler sua análise sobre Donnie Darko, mas não consigo acessá-la, no link diz que não há página correspondente.

    Você poderia enviar a análise para o meu e-mail?

    Desde já, agradeço.

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    • Oi Rafaelly,

      você poderia ter deixado esse comentário lá no filme. Pois o autor iria ser avisado por email. Todos os autores são notificados automaticamente.

      Aqui, é um da Rozzi. Uma outra autora.

      Minha internet está muito lenta. Mesmo assim, eu fui no blog do Evandro para atualizar. A parte II já está ok aqui no blog. Mas ao ir na III e na IV, os links também deram no antigo blog dele.
      Deixei um comentário/pedido para ele aqui:

      http://www.evenancio.com/2008/06/donnie-darko-uma-analise-parte-ii.html

      Agora é aguardar por um retorno dele.

      Mesmo que um filme tenha sido publicado há mais tempo, o comentário que deixarem nele, será atual. Iremos ver.

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  2. Criz,
    Obrigada pelo comentário!
    Aceito o seu ponto de vista. Coloco apenas que já vi filmes mais animadinhos que me deprimiram, este, contraditoriamente não me jogou pra baixo não.

    Uma viagem minha muito pirante: Avatar deixou-me meio triste pois levou-me ao pensamento que ser humano não dá. É preciso deixar nossa natureza de lado pra ser feliz e como isso não é possível, fiquei ligeiramente nublada, a importência diante das situações me deprime.

    Como filme, dos que vi até agora, é Avatar que deveria levantar a estatueta com o sem deprê.
    Beijo grande!

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  3. Rozzi,

    Vc deveria ser premiada, adorei sua visão sobre este filme, que muito me emocionou, fui com uma amiga, que queria me presentear, pois eu estava reclamando de tudo ao meu redor, vivendo meu mundinho…Fiquei uns 5 minutos chorando depois que terminou, pensando como ela faria dali pra frente, como sobreviver a tantas desgraças, me sentido péssima por ser egoista e mesquinha…
    Pois é; vc é sensacional. Parabéns!!!

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  4. Puxa, Márcia, suber obrigada!
    Penso que goísmo faz parte do ser humano, aqueles sem uma dose de egoísmo são catapultados ao status de santos e provavelmente sublimam essa característica, gente como Chico Xavier ou Irmã Dulce, Madre Teresa e como saber não é mesmo? O importante é que você se tocou de repente de um comportamento que não e legal o que já eliminou a mesquinhez de você.
    Também a mim o filme fez bem, principalmente por perceber que não há limitação diante do conhecimento, sempre há evolução possível, pessoas do nosso círclo podem funcionar como nuvens nublando nossa porção de sol…
    Beojo grande e bola pra frente. Como preciosa, encare que é apenas somente um começo.
    Abraço e mais uma vez obrigada pelo carinho e gnerosidade!

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  5. Adorei o Filme!!!! É quase uma versão mais moderninha de “A COR PURPURA”. Realmente o filme é muito emocionante, assisti duas vezes!!! Gostei bastante do texto sobre o filme. Parabens! Um abraço a todos.

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  6. adorei sua análise sobre Preciosa, vc deixa calro que ela não tem nenhum transtorno, mas sim muita dor psiquica em sua vida, so precisava de amor para ela ter um novo recomeço.

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    • Oi, Geralda!
      Que bom que gostou da análise. Obrigada!

      Bem, hoje em dia o termo transtorno ganhou ênfase, consistência e passou a nomear uma grande quantidade daquilo que num passado recente era abrigado na terminologia de algumas doenças, concorda?

      Eu lembro por exemplo, queno passado, quadros de PMD (Psicose Maníaco depressiva), hoje recebem o diagnóstico como Transtorno Bipolar do Humor.
      No entanto não sou da área Psi ou Neurológica.

      O filme Preciosa mostra que ela tinha uma grande dificuldade de lidar com as letras, aprender a ler e facilidade para matemática.
      Dedução minha: Processos didáticos e pedagógicos incorretos ou inexistentes, inibiram o seu desenvolvimento cognitivo a despeito do qualitativo da sua capacidade de pensar, articular e aprender. Também ela não recebia nenhum estímulo pedagógico em casa…

      Uma visão apurada, paciência, métodos personalizados, permitiram que ele aprendesse a escrever e se expressasse através da linguagem escrita, o que me pareceu desencadear uma sequência de articulações mentais, que a fez perceber o mundo das pessoas à sua volta.
      Articulada ela era, lembra da cena do frango empanado na lanchonete? rsrs Porém, nas questões que não eram práticas, ela não possuía a mesma articulação.

      Transtorno comportamental oriundo dos seus problemas domésticos? Ou alguma limitação potencializada pelo ambiente? Sobre isso que você fala? Abraço e obrigada pelo cometário

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  7. Olá, tenho que fazer uma avaliação multiaxia do DSM V, sobre a personagem preciosa, mas ainda estou em duvida em quais dos eixos ela se enquadra, vc poderia me ajudar? obrigada tem como vc me responder por e-mail?

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    • Posso sim responder por e-mail, mas receio não poder ajudar, como viu na resposta acima não sou desta área. Avaliação Multiaxial é do universo psiquiátrico, não?
      Sou pedagoga…
      Mas se servir trocar figurinhas, nenhum problema.
      Bj

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  8. oi,tudo bem?
    me chamo sabrina te tenho 17 anos vi ese filme na minha escola e adorei esse filme me emocionei muito é mesmo um filme chocante .adorei sua analise sobre o filme ,parabéns pelo seu trabalho .!!

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    • CineIndiscreto,
      Houve alguma falha no sistema… Não recebi o e-mail avisando sobre o seu comentário, que pena.

      A minha nota para o filme fica entre 8 e 9 (como disse porque inicialmente é um pouco arrastadinho e 9 pelo desempenho dos atores, o enfoque até mais do que o assunto em si e por em determinados momentos ser um thriller.
      Imagino que já tenha visto o filme, mas fica aí a resposta.
      Abraço

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  9. Sabrina, querida, parabéns pra você pela sua sensibilidade, como você disse é um filme chocante mas gostar dele mostra que você é sensível sem frescura!
    Agradeço o comentário e o elogio. Obrigada mesmo!

    Agora me conta:
    Passou na escola para alguma prova? O que você estuda? Foi para alguma matéria específica? Dá mais detalhes pra gente adoramos saber dessas iniciativas educacionais que dão certo e do interesse dos jovens!

    Beijo grande

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  10. Rozzi, legal tua crítica…

    Eu não gostei do filme. Não que ele seja ruim, bem pelo contrário, ele é ótimo. Mas eu fiquei triste. “Sabe, no fundo sou um sentimental” [Chico]. Sou daqueles que sabe que isso existe mas, às vezes, prefiro não saber.

    Filme chocante, ótimo – mas que eu preferia não ter visto… Sabe, no fundo eu sou um sentimental…

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  11. João, prazer “ver” você por aqui!

    É eu tive sorte de rt ido assistir a este filme num dia que estava esperta, naqueles dias que eu “prefiro saber”!!!
    Por isso entendo.
    Sentimentais se aborrecem com a impotência e ineficiência que levam à dor e preferem não saber.

    Sou solidária contigo, por também ser uma sentimental – uns dias menos ou mais que outros… E aí dei sorte hehehehe
    Abraço, amigo!

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  12. Belíssima análise.

    O que eu mais gostei desse filme é que apesar de ser a “verdade nua e crua” não há justamente as pretensões denunciosas das quais você sentiu um pouco de falta, a princípio.

    O filme é duro de digerir, mas é de uma sensibilidade pura, sem transformar nem caricaturar a personagem.

    Acredito que a sensação de impotência é o que menos importa no final das contas… existem várias facetas da realidade que não podemos simplesmente fazer sumir.

    Abrir os olhos para essa realidade é importante, e não há porque se sentir culpado de não viver nessa total miséria material e emocional… há pessoas que vivem nela, o importante é, caso se julgue possível “arrumar primeiro sua gaveta para depois arrumar o mundo”. Não somos todos tão monstruosos quanto as pessoas do ambiente familiar da Precious, mas podemos ser mais atentos aos que estão ao nosso redor, pois esse tipo de violência não escolhe onde se instala, apesar de predominar nas classes mais socialmente abandonadas.

    Importante ressaltar também que é um filme que mostra a falência do modelo universal de assistência social, onde se dá o peixe. Mais importante é fortalecer o assistido para a vida como um todo, coisa que os cheques não fazem.

    Parabéns pela resenha….

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  13. Gostei do filme que retrata dois modelos de instituições de ensino: no inicio a escola tradicional que faz do aluno um depósito bancário, apenas receptor de conhecimento, e a escola moderna que faz do aluno um ser pensante e capaz de expor suas ideias.

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