Um Homem Sério (A Serious Man. 2009)

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Um legítimo filme dos irmãos Coen, não há forma melhor de definir. E se tratando de um legítimo filme dos irmãos Coen, torna-se um excelente filme. E quando chega a esse ponto, a linha tênue que separam excelentes filmes de obras primas é quebrada, e os caras conseguem mais uma vez. Assistir a Um Homem Sério é assistir a algo que vamos levar pra frente. Não é apenas um filme de duas horas cativante e levemente divertido, é na verdade uma grande lição sobre a vida.

Autoral até o talo, em certos aspectos experimental – refinando o jeito dos irmãos de filmar – e absurdamente sincero na hora de narrar um pouco do que é a conturbada vida de uma pessoa. Uma coisa admirável no trabalho dos dois está no fato de que melhoram a cada filme, trazem mais bons gosto a seus enredos e sem a menor pretensão ou ganância, contam histórias tão próximas de nós que deixam seus filmes tão humanos e tão sublimes, que as vezes é inexplicável a sensação que vem depois de ver um filme deles.

Descartando O Amor Custa Caro e Matadores de Velhinha, que são algo mais passatempo da carreira deles, todos os outros vem com algo que os interliga: as questões humanas. Sempre com idéias e um estudo que se aprofunda cada vez mais, desde o humor nonsense de O Grande Lebowski até o uso da compaixão para falar de violência no mais sério Onde Os Fracos Não Tem Vez, o que fizeram em seus filmes foi por a prova o ser humano, testando suas limitações, seu comportamento e o seu psicológico. Chegam ao ápice com Um Homem Sério.

O ano é 1967 e o sistemático professor de física Larry Gopnick (Michael Stuhlbarg – ótimo) e ele vem tentando ser um bom homem.

Ele vive numa comunidade Judaica, cumprindo a risca os ensinamentos da religião e aparentemente vivendo sua vida sem perturbar ninguém. O problema é que na verdade ele limpou a sujeira e jogou debaixo do tapete, e essa sujeira acumulou.

Sua esposa, Judith (Sári Lennick) cansada dos problemas conjugais, encontra consolo nos braços de Sy Ableman (Fred Melamed) e decide deixá-lo; o irmão Arthur (Richard Kind) não teve tanta sorte na vida e está na casa de Larry como agregado e dando mais dor de cabeça que um filho birrento; o filho Danny (Aaron Wolff) é viciado em maconha e as rebeldias da adolescência estão refletindo na sua vida e pra completar, a filha rouba dinheiro da sua carteira para uma futura cirurgia plástica no nariz.

Não bastassem os problemas dentro de casa, no emprego, cartas anônimas ameaçam seu futuro na Universidade onde leciona, há um problema de suborno com um aluno Sul Coreano, uma dívida que ele não contraiu e que vem lhe dando dor de cabeça. Juntando as pressões do trabalho, com os problemas em casa, Larry começa a passar por uma fase turbulenta. Uma pessoa normal pegaria uma arma e atiraria na própria cabeça, mas Larry é um homem sério, e busca ajuda de três rabinos, que tentarão lhe aconselhar o melhor caminho a seguir e se ver livre de seus problemas.

E tudo o que os Coen gostam de tratar em seus filmes está aqui. Da fabulosa introdução ao desfecho maravilhoso, eles constroem uma cadeia de situações que levam a uma tragédia, e quando isso tudo termina e tudo volta a normalizar, a vida vem com novas surpresas e assim, colocando à prova os personagens mais uma vez.

Entram aí questões que envolvem a razão e a fé, não como coisas distintas, mas elas de alguma forma passam a andar juntas. Por exemplo, a cena que o irmão de Larry, Arthur, lamenta o azar que teve e põe a culpa em Deus, mesmo ciente de que quem constrói a vida não é Deus, mas sim cada um, ou as saídas encontradas por Larry para se ver livre dos problemas, seja espiando a vizinha gostosa, ou dividindo um cigarro de maconha com a mesma vizinha gostosa.

E eles vão desenvolvendo cada um, dando mais espaço para Larry e seu filho Danny, mostrando eles como a equação e o produto dela. Tudo na vida de Larry se baseia em física e matemática; tudo na vida de Danny é a própria física e a própria matemática. Os outros, mesmo que tratados como secundários, não perdem espaço e suas relações são de suma importância para o acontecerá quando chegar ao fim do espiral formado por essas frustrações.

Cada rabino significa um passo dado por Larry até que ele chegue à solução que precisa. E até ele chegar a essa solução, passará por provações que vão mostrar quão sério ele é, mesmo rodeado de tanta coisa chata. E no fim de tudo, o que temos é a mostra de que os problemas encarados e a forma como são encarados, definem o que você realmente é, se é covarde, se é normal, se é sério. O filme chega nessa conclusão e admiramos o que Larry faz como redenção para ele mesmo. Mesmo que seu desfecho não seja dos mais esperados, admiramo-lo como um grande homem.

Lindamente fotografado e com uma recriação belíssima dos anos 60, o filme é um charme só. A edição dos Coen (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes) é ágil e engrandece o trabalho deles na direção. E que trabalho soberbo.

Cada situação matematicamente planejada, dando um toque de humor, melancolia, tristeza e esperança. Eles levam a sério o papo de que a vida é uma grande comédia, e ainda que sempre acabássemos nos pondo no lugar de suas personagens (os Coen conseguem como ninguém fazer isso), estamos sempre rindo do óbvio, do que acontece debaixo de nossos narizes.

E acho que isso que torna seus filmes tão envolventes e fascinantes, ainda que esse se arraste em alguns momentos, os Coen brincam com a vida, parodiando ela e ao mesmo tempo nos fazendo enxergar que é assim que as coisas são. Cada personagem riquíssimo, o texto sempre inteligente e com as sutilezas características de seu trabalho e como tudo no filme é trabalhado só torna ainda mais prazeroso a assistida do filme. Eles conseguem fazer com que tudo em cena contribua para que cada uma delas seja única. Enquanto me emociono com um irmão abraçando o outro numa despedida, dou risada do filho chapado em pleno Barmitsva e é assim o filme todo.

Aqui os Coen chegam com tudo, mostrando que o prêmio que levaram por Onde Os Fracos Não Tem Vez só os tornou ainda melhores nessa grande arte que é fazer cinema. Um Homem Sério é um grande estudo do que é viver e como a vida, mesmo pregando suas peças, pode ser vivida. Sem dúvida, um dos melhores do ano, um dos melhores da dupla, um dos melhores da década.

Excelente.

Nota: 9,6

A Serious Man, França, Reino Unio, EUA (2009)

Direção: Joel Coen , Ethan Coen.
Atores: Michael Stuhlbarg , Richard Kind , Fred Melamed , Sari Lennick , Aaron Wolff.
Duração: 106 min.

O Fim da Escuridão (Edge of Darkness. 2010)

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Thomas Craven é um policial veterano, conhecedor de truques e que se define como homem perigoso quando porta uma arma. É também um bom pai, que tem uma filha mestre em engenharia nuclear pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e que vem passar uns dias com o pai. Lá chegando, começa a sentir os sintomas ruins de algum problema grave e na porta de casa é assassinada.

Enquanto todos da polícia e mídia pensam que o atentado era na verdade para atingir Thomas, o policial parte em busca dos verdadeiros culpados e descobre uma rede de chantagem, corrupção e segredos de segurança que podem comprometer todo o sistema político do país. Entra na jogada um misterioso grupo de contenção (com o pretexto de defender a segurança nacional) na pessoa do misterioso Capitão Jedburgh (a cena é impagável), que entra na jogada para calar quem sabe demais.

Só que assim como Thomas, Jedburgh tem seus motivos para lutar por justiça, e ambos (um por vingança, o outro por redenção) buscam o fim da sua escuridão particular. O caminho que cada um percorre, é contado nesse filmaço, que marca o retorno do lendário Mel Gibson atrás das câmeras. Trata-se de um suspense policial bastante eficiente e inteligente, com subtramas interessantes e com um enredo que, por mais que seja batido em alguns momentos, consegue ser renovado com bons momentos e diálogos ácidos.

Desde 2003, quando atuou no delicioso Crimes de um Detetive, Mel Gibson apareceu na direção de dois filmes que fizeram bastante sucesso e foram um tanto controversos pelo conteúdo. Causou polêmica com A Paixão de Cristo e fez uma (mesmo que muito violenta) aventura bastante divertida na língua Maia Apocalypto. Em O Fim da Escuridão ele vem no papel que de certa forma o consagrou, o de policial.

Mas nada do motorizado Mad Max nem do impagável Martin Riggs de Máquina Mortífera. Aqui ele é um homem que age principalmente pela razão, sem se deixar levar pela emoção.

Ele começa querendo vingança (o que seria muito mais óbvio), mas a partir do momento que se depara com todas as implicações e perseguições políticas, descobre que é hora de lutar por um bem maior. Vendo assim até parece patético, mas o desenvolvimento dado ao seu personagem no filme é um estudo tão aprofundado que vale a assistida. Diferente de outros filmes, ele não sai por aí matando adoidado, nem perseguindo nem nada. Seu personagem torna-se rico em detalhes e torna-se tão fascinante que torcemos por ele até o fim. Não é qualquer um que faz com que o filme envolva tanto a platéia.

Creio que muitos vão esperando um movimentado filme de ação, mas não é bem assim. O filme tem um enredo louvável e bem fundamentado, sem contar o tratamento todo especial em nos fazer enxergar e compartilhar das dores e desafios daquele homem. E Mel Gibson arrasa. Seus olhos azuis são o espelho de sentimentos desconfortantes, e isso é o que mais chama atenção, pois acabamos criando uma simpatia e uma fé grande nas atitudes dele. O mesmo acontece com Jedburgh, mas como personagem secundário, não é tão trabalhado quanto o de Mel Gibson. Entretanto, perto do fim é impossível não elogiar e nem torcer pelo que ele faz.

E o homem por trás da direção, Martin Campbell (que dirigiu a popular e premiada – 6 BAFTA – minissérie “Edge of Darkness” (1985)) não aparece com as cenas de ação de tirar o fôlego de seus outros trabalhos, como A Máscara do Zorro ou o recente 007 Cassino Royale. Ele cria momentos de uma melancolia tão sincera que emociona sem soar piegas ou gratuito. Dirigindo muito bem e comandando o filme de maneira competente, ele garante cenas interessantes, que mesmo apelando para a fé e o espiritismo – que chega a forçar algumas cenas – não deixam o ritmo cair.

Um exemplo interessante para isso, é quando a filha do Thomas leva o tiro e ele lamenta, chorando e rezando, um dos momentos mais lindos e tocantes do filme. Só que em momento nenhum, ele apela para a emoção como ferramenta para envolver quem assiste, o que faz o filme subir mais ainda no conceito. Ele soube medir muito bem emoção e ação e trouxe um equilíbrio interessante ao filme. Nada é exagerado, nada é gratuito, tudo é racional, tudo é o mais verdadeiro possível.

Só que claro, não poderia desperdiçar os dotes justiceiros do Mel Gibson tão bem aproveitada em outros filmes, e com muita classe, cria momentos que chega a causar uma certa nostalgia, como uma cena que ele enfrenta um carro descarregando uma arma no seu condutor e depois desviando, sem a menor piedade, como fazia antigamente, ou quando entra no carro do vilão e o faz se borrar de medo. Vendo isso, tive a convicção de que Mel Gibson voltou, e tão bom quanto antes.

E o filme não precisava de grandes perseguições e tiroteios sem noção para ser bom. Tudo o que precisava (uma boa história) ele soube usar e analisando pelo conjunto de tudo, não deve em nada. Se apelasse para ação descerebrada, seria um filme bem aquém da capacidade do Gibson, e Martin Campbell não nos brindaria com algo diferente do que ele está acostumado a fazer. Mesmo com os produtores (o mesmo de Os Infiltrados)pedindo mais cenas de ação, o filme não seria um desperdício.

Outro ponto favorável do filme é a excelente trilha sonora, que também passou por um probleminha. John Corigliano teria feito uma trilha sonora, mas foi descartada porque queria algo melhor para atenuar a tensão e as cenas de ação do filme. No lugar dele foi escalado Howard Shore (a pedido do produtor de Os Infiltrados Grahan King, onde Howard havia trabalhado também), e o resultado foi fabuloso. A trilha é muito boa, atenuado as cenas de ação, tornado Thomas Craven é um herói, mas um herói mais humano. As cenas mais dramáticas são embaladas por acordes belos e que deixam as cenas com uma emoção mais sincera.

Tecnicamente é bem feito, tem uma fotografia diferente, onde tudo começa com um tom mais escuro e ao longo da fita, vai ficando mais claro. O grande parceiro de Martin Campbell, Phil Meheux acerta bem na sua fotografia. Martin Campbell brincou muito com a luz nesse filme e a jogada é bem válida, criando uma conexão interessante com o título – mesmo a tradução sendo o contrário da original.

O roteiro se perde em alguns momentos, na hora de resolver seus próprios subtramas, dando algumas soluções fáceis e previsíveis, o que de certa forma é sentido também na direção, que contém certas falhas narrativas, só que elas pouco incomodam.

A dupla Willian Monahan (vencedor do OSCAR por Os Infiltrados e talentoso para criar momentos tensos) e Andrew Bovell, deixaram a desejar apenas nisso. Mas acertaram em diálogos que soam politizados sem querer ser (o filme não tem pretensão nenhuma, que fique bem claro). Usando a indústria nuclear como pano de fundo, citando desde energia a armamentos (problemas vivenciado nos dias de hoje), eles abusam de possibilidades criativas para contar a sua história.

E pra fechar, porque não um elenco afiado?

Começo com Mel Gibson, equilibrado e atuando de forma convincente, ele não perdeu a forma, quem ver o filme pode até se incomodar com a aparência mais velha do ator, mas só vê-lo em ação e dirá “Mel Gibson voltou!”, e voltou mesmo. Tem também Ray Winstone, personificando o misterioso Jedburgh. Antes, quem interpretaria Jedburgh seria Robert De Niro, chegou a ser contratado e rodar algumas cenas, mas logo se desligou do projeto por conflitos criativos. No lugar dele entrou Ray Winstone, que mesmo não tendo a atuação mais estupenda da sua carreira, é muito competente e atua direitinho. Os outros coadjuvantes são bem colocados, também atuam direitinho, sem exageros nem nada. Destaque para Damien Young, que vive um senador bem falso. Pra mim, ele foi o melhor coadjuvante do filme.

Bem dirigido, com elenco afiado e um enredo bonzão, criativo e inteligente, O Fim da Escuridão é um presente para fãs de suspenses policiais, fãs do Mel Gibson e fãs de bons filmes. No fim de tudo, é algo que justifica seus meios, possui um fim lindo (sim, o final é lindo mesmo!) e que dá fim a escuridão de seus protagonistas. Tudo redondo e bem encaixado, um filmaço.

Eu recomendo.

Nota: 8,5

Edge of Darkness, Reino Unido/EUA (2010)

Direão: Martin Campbell.
Atores: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Caterina Scorsone, Shawn Roberts.
Duração: 111 minutos.

Quem Quer Ser um Milionário?

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“Quem quer ser um milionário?”

Você certamente ouviu muito isso quando Silvio Santos apresentava seu famigerado “Show do Milhão”. Claro, como todos sabem, os enlatados comerciais que nos fazem engolir, nada mais são que adaptações dos programas de sucesso do exterior. Sua influência é tamanha que atrai mais e mais telespectadores. Mas o que dizer de um cara, de 18 anos, de origem pobre (melhor, paupérrima), sem a mínima perspectiva de um dia crescer na vida.

Um rapaz sem estudo, sem futuro, sem nada. Ele vem, responde uma série de perguntas, é subestimado pela sua origem, e leva o grande prêmio, fica rico e surpreende o mundo. Essa é a história de Slumdog Millionaire, prefiro chamar assim, odiei a tradução em português “Quem quer ser um Milionário”. O título em inglês, se traduzido ao pé da letra seria algo como “Favelado milionário”, título que em minha opinião é o mais convincente.

Essa é a nova história contada por Danny Boyle, um dos meus diretores inglês preferido. Aqui ele conta a história do jovem Jamal, uma criança que desde cedo aprendeu a se virar. Junto com o irmão, vive no lugar mais pobre da pobre Índia, catam lixo para comer, correndo atrás de viver no céu, no meio do inferno. Após a perseguição religiosa, que é constante em muitos países da Ásia, ele perde a mãe, e fica a mercê da sorte, junto com o irmão mais velho, e uma coleguinha que ele decide ajudar (na boa, pobre tem coração, isso é fato!).E aos poucos a câmera nervosa de Boyle trilha a história de Jamal, até ele chegar à TV e conquistar seu prêmio.

O filme vai intercalando passado e presente, não de maneira clichê, do tipo que vemos em filmes que usam disso para atenuar ação. Aqui é diferente. Mostra 3 Jamal, um pequeno, um maiorzinho e o jovem. A cada pergunta do programa ele revive a infância, relembrando tudo. Ele mais grandinho é como se privilegiasse mais a história de seu irmão, Salim, e da menina, Latika. Ele jovem une tudo isso e cria o clímax do final.

A direção segura do competente Boyle dá um ritmo incessante ao filme. No começo, uma caçada nas entranhas da Índia, onde ficamos chocados com o descaso daquele pobre país, fica evidente a preocupação em mostrar a índia que realmente existe, não a índia que a novela das Oito idealizava. Ele nos conduz, no meio da podridão, a uma esperança que ainda existe no personagem, mesmo com ele comendo o pão que o diabo amassou com gosto.

O mais legal, é quando vai mostrando ele respondendo as perguntas, e entra um flash, e o que é mostrado no flash tem ligação direta com as respostas que ele tem que dar. Só que coitado, acaba vítima da suspeita, e é torturado por dois policiais que querem obrigar ele a confessar que está trapaceando. E vamos acompanhando tudo, ao longo do filme torcendo cada vez mais por Jamal. A emoção que Boyle cria é incrível, e mostra porque ele é tão cultuado mundo afora.

A parte técnica do filme é quase perfeita. A fotografia é linda, feia, borrada, suja, linda. Ela entrega uma veracidade desgraçada ao filme, em alguns momentos lembra Cidade de Deus. A trilha é incrível, ela lateja em nossa cabeça, ela cria o clima do filme, ela é parte do sucesso. Estou sem palavras, é só ouvindo pra entender.

A edição primorosa é um atrativo que vale a pena ser citado, cortes rápidos, idas e vindas, tudo aliado ao bom gosto das cenas, criando imagens que chocam (a morte da mãe…) e que encantam (eles ainda criança, na chuva…), que nos deixam fascinados (todos os enquadramentos possíveis de uma Índia bonita…), que nos deixam com pena (as crianças do Manoon…). Um estudo sobre os enormes problemas da Índia, mostrada de maneira verdadeira, sem esconder.

O elenco é espetacular. Sem muitas caras conhecidas, a galera arrasa. Primeiramente os que interpretam o trio principal (Jamal, Salim, Latika). Aquelas crianças estão incrivelmente ótimas. Suas atuações soam naturais, convencem e valem à pena. Os jovens roubam a cena. O que interpreta Jamal é o melhor deles, cara de sonso, mas muito esperto, de coração nobre, mesmo sendo tão pobre.

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Seu irmão, Salim, também convence bem, ele acaba lembrando os personagens de filmes brasileiros sobre a favela. Sua interpretação é tão verdadeira, tão convincente que arrepia. A que faz Latika, a mais fraquinha, porém ainda assim tão boa quanto, não é daquelas personagens que só tão ali pra preencher lingüiça, é como se sem ela não haveria aquela irmandade, ela é o 3° mosqueteiro, como sugere Jamal na linda cena da chuva.

Mas o grande ponto forte do filme, fica com a bela homenagem à Bollywood. Enredo bem redondo e enxuto, com seus clássicos usuais clichês (menino pobre ficando rico, amor da sua vida, conflitos com o irmão malvado e por aí vai) e sem contar a dança logo no final do filme, que é uma das marcas mais famosas desse cinema. Há ainda espaço para recortes e citações ao cinema e aos atores famosos por lá.

Juntando a isso todos os outros que ao longo da história aparecem, Slumdog Millionaire é um filme que vai além do entretenimento. Aliado a tudo de ruim mostrado na tela, ainda abre espaço para a reflexão sobre o 3° mundo que ainda existe, sobre a infância roubada nos países pobres, sobre a escravidão da TV e de seus Realities Shows que conquistam mais e mais adeptos. Os bastidores, a inveja, o submundo, tudo retratado sem subestimação de nossa inteligência, tudo mostrado como realmente é.
Indicado a 10 OSCAR e vencedor de 8, Slumdog Milionaire é uma mais que deliciosa surpresa. Um filmaço!

Nota: 10 (mais que merecido!)

Slumdog Millionaire, EUA/Reino Unido (2008)

Direção: Danny Boyle.
Atores: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Rajedranath Zutshi.
Duração: 120 min.

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Ilha do Medo. “…que bom é o amor, que ninguém partilha…”

Ilha do Medo (Shutter Island. 2010) não é um tipo de filme que eu tenho interesse em assistir. Por exemplo, se fosse dirigido por M. Night Shyamalan, eu jamais iria ao cinema (esperaria para ver o filme quando saísse em DVD). Entretando, assinado por Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, tive que ir ao cinema logo na estréia aqui, nos Estados Unidos.

Sabia que o enredo tinha como pano de fundo a tal ilha do título, que funciona como uma instituição mental. Logo na primeira cena, DiCaprio está lavando o rosto, e já dá uma noção que o clima do filme vai ser pesado. De repente, nota-se que ele está indo para tal nebulosa ilha, a qual me fez lembrar Alcatraz e logo me veio a mente: “Um estranho no Ninho.” Quando o “ferryboard” vai chegando no local ao som altíssimo da musica “Fog Tropes”- pensei que barco iria afundar a lá Titanic.

Na verdade, “Ilha do Medo” é um filme muito intenso, com algumas imagens muito preocupante, inclusive crianças afogadas, campos de concentração nazistas, pilhas de corpos, sangue, corredores escuros e bizarros da prisão, pesadelos e alucinações. Contém ainda forte, mas não generalizada, linguagem chula, e tabagismo. Com algumas surpresas e reviravoltas, nos lembra que as coisas podem se transformar drasticamente a qualquer momento.

Scorsese ainda adiciona personagens assustadores. DiCaprio, em outro excelente desempenho (e de vez, perdeu a cara de bebê, e parece um homem!), tenta resolver o caso do desaparecimento de um dos prisioneiros (paciente!) como é enfatizado pelo o médico chefe do hospital interpretado por Kingsley, enquanto é perseguido por seus próprios demônios horripilantes. O personagem tem momentos difíceis, mas DiCaprio habilmente carrega todas as dores nas costas. O resto do elenco também é muito bom, incluindo: Kingsley e Max von Sydow (a voz mais intensa do cinema mundial!), Ruffalo como o parceiro de compreensão suspeita, que concorda com tudo que o personagem de DiCaprio diz, e repete: “boss” a todo instante; Michelle Williams como a esposa maníaco-depressiva (em algumas cenas, não aguentei o olhar de “peixe morto”, que ela usou) e em breve, mas memorável aparições de Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Hayley e Ted Levine.

Martin Scorsese mexe com o cérebro do espectador – em todos os níveis. Ele não trata de resolver um mistério como em alguns instante, pensei que “Ilha do Medo” fosse um primo-irmão de “O Sexto Sentido” ou “ Os Outros.” Apenas no final, notei que o filme é mais sobre a resolução da loucura, mas também não é como “Um estranho no Ninho” (fazendo uma crítica sobre os maltratos dos pacientes nos hospitais psiquiátricos!). O horror do filme intriga sem enganos, sem sobressaltos, sustos, e tece uma leitura sobre o assombro da insanidade. Os ângulos que Scorsese ilustra o filme são maravilhosamente impactantes, que vão se encaixando nos detalhes no decorrer da narração. Cada quadro é bem articulado pela surpreendente fotografia de Robert Richardson e a edição sempre perfeita de Thelma Schoonmaker.

Quando saí da sala de cinema, fui perguntado por meu amigo: “o que achou do filme?” Tive que parar e pensar no que iria dizer, pois ainda estava na minha mente a pergunta feita por Teddy Daniels (Dicaprio), no final do filme, algo como: “É melhor para se viver e ser um monstro, ou morrer como um homem bom?.” Eu, em vez de responder sobre o que tinha achado do filme, repeti a pergunta do personagem de DiCaprio para o meu amigo. Ele disse: “esse filme é uma loucura, e pode ter certeza que vai ser um fracasso!.” Ele, norte americano, já foi logo justificando que o povo daqui (Estados Unidos) não vai apreciar um filme como “Ilha do Medo.” Apreciando ou não, o filme toca em feridas (acho que eles não vão nem prestar atenção), tais como as sugestões de vários medicamentos experimentais, e anti- depressivos. Um exemplo simples, pode ser visto nas escolas públicas do país, onde alunos, (já tão jovens, vivem na base de anti-depressivos). O transtorno bipolar aqui já é algo tão comum quanto ser de credo ou raça diferente. Ainda, não sei dizer o quanto gostei da “Ilha do Medo.” O filme me fez refletir em tantas coisas, principalmente pelo fato como as drogas (legais!) tem tomado conta do dia-a-dia das pessoas daqui.

Muitos elementos fortes são ilustrados por Scorsese ou pelo roteiro de Laeta Kalogridis. Por tanto, esse filme é não uma diversão para um final de semana! Não me importo em repetir que esse não é tipo de filme que gosto de ver. A primeira hora é tão perturbadora como qualquer filme de terror que evito assistir. No final, me senti perdido sem saber o porquê. Então ontem a noite, fui rever o filme querendo realmente saber se Teddy Daniels (DiCaprio) é vítima de uma conspiração elaborada, é esquizofrenico ou ele está apenas enganando os médicos e ao mesmo tempo, nos enganando. A loucura perturbadora illustrada neste filme me deixou a sensação, que ela é sim, contagiosa!.

Ah, tenho que admitir que a trilha sonora do filme é espetacular !. Não é um trabalho orIginal, mas Robbie Robertson selecionou um material extraordinário para o filme. No fim, temos a voz da Dinah Washington cantando “This Bitter Earth” “entrelaçada” com a linda música de Max Richter “On The Nature Of Daylight,” em que ela canta algo como:

…que bom é o amor
que ninguém partilha…
Senhor, esta terra amarga
Sim, ela pode ser tão fria
Hoje você é jovem
Em breve você é velho
Como minha vida fosse como um pó…