
Thomas Craven é um policial veterano, conhecedor de truques e que se define como homem perigoso quando porta uma arma. É também um bom pai, que tem uma filha mestre em engenharia nuclear pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e que vem passar uns dias com o pai. Lá chegando, começa a sentir os sintomas ruins de algum problema grave e na porta de casa é assassinada.
Enquanto todos da polícia e mídia pensam que o atentado era na verdade para atingir Thomas, o policial parte em busca dos verdadeiros culpados e descobre uma rede de chantagem, corrupção e segredos de segurança que podem comprometer todo o sistema político do país. Entra na jogada um misterioso grupo de contenção (com o pretexto de defender a segurança nacional) na pessoa do misterioso Capitão Jedburgh (a cena é impagável), que entra na jogada para calar quem sabe demais.
Só que assim como Thomas, Jedburgh tem seus motivos para lutar por justiça, e ambos (um por vingança, o outro por redenção) buscam o fim da sua escuridão particular. O caminho que cada um percorre, é contado nesse filmaço, que marca o retorno do lendário Mel Gibson atrás das câmeras. Trata-se de um suspense policial bastante eficiente e inteligente, com subtramas interessantes e com um enredo que, por mais que seja batido em alguns momentos, consegue ser renovado com bons momentos e diálogos ácidos.
Desde 2003, quando atuou no delicioso Crimes de um Detetive, Mel Gibson apareceu na direção de dois filmes que fizeram bastante sucesso e foram um tanto controversos pelo conteúdo. Causou polêmica com A Paixão de Cristo e fez uma (mesmo que muito violenta) aventura bastante divertida na língua Maia Apocalypto. Em O Fim da Escuridão ele vem no papel que de certa forma o consagrou, o de policial.
Mas nada do motorizado Mad Max nem do impagável Martin Riggs de Máquina Mortífera. Aqui ele é um homem que age principalmente pela razão, sem se deixar levar pela emoção.
Ele começa querendo vingança (o que seria muito mais óbvio), mas a partir do momento que se depara com todas as implicações e perseguições políticas, descobre que é hora de lutar por um bem maior. Vendo assim até parece patético, mas o desenvolvimento dado ao seu personagem no filme é um estudo tão aprofundado que vale a assistida. Diferente de outros filmes, ele não sai por aí matando adoidado, nem perseguindo nem nada. Seu personagem torna-se rico em detalhes e torna-se tão fascinante que torcemos por ele até o fim. Não é qualquer um que faz com que o filme envolva tanto a platéia.
Creio que muitos vão esperando um movimentado filme de ação, mas não é bem assim. O filme tem um enredo louvável e bem fundamentado, sem contar o tratamento todo especial em nos fazer enxergar e compartilhar das dores e desafios daquele homem. E Mel Gibson arrasa. Seus olhos azuis são o espelho de sentimentos desconfortantes, e isso é o que mais chama atenção, pois acabamos criando uma simpatia e uma fé grande nas atitudes dele. O mesmo acontece com Jedburgh, mas como personagem secundário, não é tão trabalhado quanto o de Mel Gibson. Entretanto, perto do fim é impossível não elogiar e nem torcer pelo que ele faz.

E o homem por trás da direção, Martin Campbell (que dirigiu a popular e premiada – 6 BAFTA – minissérie “Edge of Darkness” (1985)) não aparece com as cenas de ação de tirar o fôlego de seus outros trabalhos, como A Máscara do Zorro ou o recente 007 Cassino Royale. Ele cria momentos de uma melancolia tão sincera que emociona sem soar piegas ou gratuito. Dirigindo muito bem e comandando o filme de maneira competente, ele garante cenas interessantes, que mesmo apelando para a fé e o espiritismo – que chega a forçar algumas cenas – não deixam o ritmo cair.
Um exemplo interessante para isso, é quando a filha do Thomas leva o tiro e ele lamenta, chorando e rezando, um dos momentos mais lindos e tocantes do filme. Só que em momento nenhum, ele apela para a emoção como ferramenta para envolver quem assiste, o que faz o filme subir mais ainda no conceito. Ele soube medir muito bem emoção e ação e trouxe um equilíbrio interessante ao filme. Nada é exagerado, nada é gratuito, tudo é racional, tudo é o mais verdadeiro possível.
Só que claro, não poderia desperdiçar os dotes justiceiros do Mel Gibson tão bem aproveitada em outros filmes, e com muita classe, cria momentos que chega a causar uma certa nostalgia, como uma cena que ele enfrenta um carro descarregando uma arma no seu condutor e depois desviando, sem a menor piedade, como fazia antigamente, ou quando entra no carro do vilão e o faz se borrar de medo. Vendo isso, tive a convicção de que Mel Gibson voltou, e tão bom quanto antes.
E o filme não precisava de grandes perseguições e tiroteios sem noção para ser bom. Tudo o que precisava (uma boa história) ele soube usar e analisando pelo conjunto de tudo, não deve em nada. Se apelasse para ação descerebrada, seria um filme bem aquém da capacidade do Gibson, e Martin Campbell não nos brindaria com algo diferente do que ele está acostumado a fazer. Mesmo com os produtores (o mesmo de Os Infiltrados)pedindo mais cenas de ação, o filme não seria um desperdício.
Outro ponto favorável do filme é a excelente trilha sonora, que também passou por um probleminha. John Corigliano teria feito uma trilha sonora, mas foi descartada porque queria algo melhor para atenuar a tensão e as cenas de ação do filme. No lugar dele foi escalado Howard Shore (a pedido do produtor de Os Infiltrados Grahan King, onde Howard havia trabalhado também), e o resultado foi fabuloso. A trilha é muito boa, atenuado as cenas de ação, tornado Thomas Craven é um herói, mas um herói mais humano. As cenas mais dramáticas são embaladas por acordes belos e que deixam as cenas com uma emoção mais sincera.
Tecnicamente é bem feito, tem uma fotografia diferente, onde tudo começa com um tom mais escuro e ao longo da fita, vai ficando mais claro. O grande parceiro de Martin Campbell, Phil Meheux acerta bem na sua fotografia. Martin Campbell brincou muito com a luz nesse filme e a jogada é bem válida, criando uma conexão interessante com o título – mesmo a tradução sendo o contrário da original.
O roteiro se perde em alguns momentos, na hora de resolver seus próprios subtramas, dando algumas soluções fáceis e previsíveis, o que de certa forma é sentido também na direção, que contém certas falhas narrativas, só que elas pouco incomodam.
A dupla Willian Monahan (vencedor do OSCAR por Os Infiltrados e talentoso para criar momentos tensos) e Andrew Bovell, deixaram a desejar apenas nisso. Mas acertaram em diálogos que soam politizados sem querer ser (o filme não tem pretensão nenhuma, que fique bem claro). Usando a indústria nuclear como pano de fundo, citando desde energia a armamentos (problemas vivenciado nos dias de hoje), eles abusam de possibilidades criativas para contar a sua história.
E pra fechar, porque não um elenco afiado?
Começo com Mel Gibson, equilibrado e atuando de forma convincente, ele não perdeu a forma, quem ver o filme pode até se incomodar com a aparência mais velha do ator, mas só vê-lo em ação e dirá “Mel Gibson voltou!”, e voltou mesmo. Tem também Ray Winstone, personificando o misterioso Jedburgh. Antes, quem interpretaria Jedburgh seria Robert De Niro, chegou a ser contratado e rodar algumas cenas, mas logo se desligou do projeto por conflitos criativos. No lugar dele entrou Ray Winstone, que mesmo não tendo a atuação mais estupenda da sua carreira, é muito competente e atua direitinho. Os outros coadjuvantes são bem colocados, também atuam direitinho, sem exageros nem nada. Destaque para Damien Young, que vive um senador bem falso. Pra mim, ele foi o melhor coadjuvante do filme.
Bem dirigido, com elenco afiado e um enredo bonzão, criativo e inteligente, O Fim da Escuridão é um presente para fãs de suspenses policiais, fãs do Mel Gibson e fãs de bons filmes. No fim de tudo, é algo que justifica seus meios, possui um fim lindo (sim, o final é lindo mesmo!) e que dá fim a escuridão de seus protagonistas. Tudo redondo e bem encaixado, um filmaço.
Eu recomendo.
Nota: 8,5
Edge of Darkness, Reino Unido/EUA (2010)
Direão: Martin Campbell.
Atores: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Caterina Scorsone, Shawn Roberts.
Duração: 111 minutos.






