Guerra ao Terror e Poesia

Por: Affonso Romano de Sant’Anna.
Nunca assisti a um filme com tanta tensão como esse GUERRA AO TERROR.

Que terrível obra prima, essa de Kathryn Bigelow!

Como é que essa mulher conseguiu entrar tão crua e tecnicamente na pele desses homens e na psicologia desses soldados?

Saí com a alma no barbante, por pouco não chamam uma ambulância para me levar.

Como é que alguém consegue fazer filme desses?

Me ocorre este poema no livro VESTIGIOS*, forma de dialogar com o filme:

O HOMEM BOMBA

Como se as tâmaras
e as palmeiras desistissem
do lento crescimento
e na semente da semente
- por não suportar o futuro -
o presente detonassem

como se as cabras
o leite das crias
na areia urinassem

como se no poço
a possibilidade
de água se esgotasse
e no deserto a sede
fosse tanta
que o sedento
o oceano incendiasse

como se a travessia
a nenhuma saída
levasse
como se a terra prometida
fosse estéril areia
que nenhum oásis
abrigasse

como o narrador
que pelo fim
sua estória contasse
e o autor
que pusesse o epílogo
no lugar do prefácio

o homem-bomba
não é um simples suicida
é aquele que pela morte
decide
inaugurar sua vida.

O homem-bomba
é o jardineiro
que arranca a planta
como se a plantasse
que apaga a própria luz
como se nele algo
se iluminasse.

Não bastasse
o homem-bomba
ejaculando estilhaços
apulhando-se a si mesmo
quando o amante
da mulher encontrasse

há nele outra face
-a mulher
grávida de bomba
que chega à rua ou praça
como se à maternidade
chegasse
de cujo útero explosivo
fecundada
-a morte nasce .

O que é preciso
para destampar o pino
de uma jovem bomba-viva?
O que no adolescente
já explodiu

quando nele
sob a primeira barba
a bomba entumece
ativa?

Noutras terras
diante da conjuntura
ninguém diz:
meu filho está se formando
e pretende explodir
na formatura.

Noutras terras
ninguém diz:
meu filho
decidiu formar-se
em arquitetura
mas seu projeto
é projetar-se pela morte
na utopia futura.

Noutras terras
ninguém diz:
meu filho sairá essa noite
para uma bela  aventura
vai dar tremenda festa
dentro e ao  redor
de sua sepultura.
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(*) VESTIGIOS, Ed.Rocco, 2005