Sex and the City 2

Por: Medusa.

Tem umas partes bem divertidas. A confusão que elas se metem pra conseguir ir embora dos Emirados Árabes é hilária.

É mais legal que o primeiro filme, mas ainda fica bem aquém do pouco que eu vi dos episódios da série. Aqui parece que a futilidade é multiplicada por 10.

A Samantha, como sempre, é a parte mais divertida de tudo.

Já a Carrie é MUITO antipática, não sei como ela consegue ser a protagonista da estória. No filme ela tem um marido rico, que cozinha pra ela, mas ela quer jantar fora. O cara compra um presente pra ela, mas ela reclama porque queria jóias. (quem é que reclama de presente gente). Além disso a Sarah Jessica é FEIA e BARANGA. O que era aquela coroa no casamento gay? O que era aquele chapéu de papel crepom no avião? Não entendo como a acham tão elegante. A mulher é um tribufu. (além de chata).

O enredo é a parte mais problemática.

O casamento gay logo no início é totalmente estereotipado, com cisnes e Liza Minelli, e aparentemente não tem serventia alguma na estória. É um acontecimento deslocado de todo o resto. Elas resolvem ir pra o Oriente Médio, justo para o Oriente Médio!, e aí começa o festival de futilidade, elas fazendo compras sem parar e esbanjando toda aquela grana…fico preocupada com as pessoas que assistem e ficam encantadas com isso, como se fosse a realização suprema da felicidade. A complicação com o ex-namorado da Carrie é fraca e tosca. Também colocaram uma lição de moral contra pirataria quando o mordomo avisa para as moças não comprarem produtos contrabandiados no mercado, deliberadamente fazendo propaganda contra isso para os espectadores do filme, achei de muito mal gosto porque ficou forçado, ficou na cara o objetivo dessa cena.

E a cena então que mostra as mulheres de burca com roupas granfinas por baixo, e as amigas horrorizadas com toda aquela repressão…realçada pela frase final da Carrie chamando os EUA de “terra da liberdade”. Acho de extremo mal gosto essas comparações, estereotipação dos lugares. Por mais insana que seja a cultura do lugar, por mais que critiquemos ela, não gostei do jeito que o filme tratou isso. Como se a realização de toda mulher fosse ter acesso a roupas lindas e poder usar um decote.

A resolução dos fracos problemas que são propostos durante o filme também é fraca. Uma pena que, ao contrário do seriado, mais futilidade seja discutida que coisas úteis sobre relacionamentos.

Pelo menos dá pra dar umas risadinhas.

Por: Medusa http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=7203223179151260846 .

Sex and the City 2. 2010. EUA. Direção e Roteiro: Michael Patrick King. Elenco: Sarah Jessica Parker (Carrie Bradshaw), Kristin Davis (Charlotte York), Cynthia Nixon (Miranda Hobbes), Kim Cattrall (Samantha Jones), Minglie Chen (Bergdorf Salesgirl), Chris Noth (Sr. Big), David Eigenberg (Steve Brady), Evan Handler (Harry Goldenblatt), +Elenco. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 146 minutos.

Surpresa em Dobro (Old Dogs). 2009

Adoro Comédias. De nem me preocupar muito com o teor da estória, antes de assistir. É que por vezes a vontade é mesmo, de rir e muito, e só. Nessas horas, que venham os clichês, o pastelão… o que eu quero é que o filme me faça até gargalhar. Assim, as vezes, em vez de rever uma já Clássica, eu dou uma chance para os filmes mais recentes. Bem, alguns filmes eu até acerto: diversão garantida. Noutros… Decepção total. Agora, tem também os que pelo menos uma cena ficará memorável por um tempo. Mesmo ela não tendo mostrado algo novo. Mas que pela cara do ator, a cena até torna-se uma novidade. Falo dela mais abaixo.

O que me motivou mesmo a assistir ‘Surpresa em Dobro‘, foi a dupla: John Travolta (Charlie) e Robin Williams (Dan). No mínimo, algo inusitado. Pelo menos não lembro se já atuaram juntos em outro filme. Vê se haveria química… Bem, durante o filme, não pensei se um com outro ator sairia melhor. O que seria indicativo que a dupla deu certo. Mas não fizeram nada além de uma mediana atuação. Depois, outro lance me fez até ir conferir o ano em que nasceram. É que no filme, os personagens são amigos de infância, fazem dois quase sessentões. Um dos grande motes desse filme… Para mim, Robin Williams era bem mais velho. Mas a diferença entre eles são de três anos. Não há preconceito de minha parte, mas é que o semblante do Travolta aparenta ser bem mais novo. Pode ser que em outro filme, ambos batam um bolão como Nicholson e Freeman, em ‘Antes de Partir‘.

Seus personagens optaram por não terem filhos. Charlie, é bem mulherengo. Ou, já foi. Ambos estão sentido o peso da idade. Das dores que surgem… Preferindo uma gama de comprimidos diários, à prática esportiva. Até caminham pelo parque, mas quase perdendo o fôlego. Dan, mora num Condomínio onde é proibido a entrada de crianças. Eu já tinha visto de animais. Charlie, mora num apartamento moderno, e luxuoso. Gosta de objetos caros. Vive com seu velho cão. Dan, é por demais metódico, onde filhos só iriam estressá-lo. Diferente de Charlie, é bem tímido.

Lugar comum, ou não… o fato de uma longa amizade entre personalidades opostas, é digno de nota. Ambos se complementam. E não deixa de ser algo raro. Ainda mais nos dias de hoje, onde a vida atribulada acaba afastando as pessoas.

Além de velhos e grandes amigos, os dois são sócios. Perto de fecharem um grande negócio, com um grupo japonês, que viria como um prêmio aos trinta anos de carreira… têm suas vidas em xeque. Tudo por conta de terem que tomar conta de duas crianças por duas semanas. Elas são filhos de Dan, que ele toma conhecimento assim, de repente. Frutos de uma bebedeira… A mãe, Vicki (Kelly Preston), por conta de uma causa ecológica, terá que passar esse tempo na prisão. Quem ficaria com as crianças, seria sua amiga, Jenna (Rita Wilson). Mas o desastrado do Dan, a hospitalizou.

Assim, Zach (Conner Rayburn) e Emily (Ella Bleu Travolta), além de tentarem se aproximar do pai, farão com que Dan e Charlie reavaliem seus reais valores na vida. É, crianças não deixam de trazerem uma mudança na vida de alguém. Que naquela altura da vida, elas trariam era uma revolução para ambos. São até confundidos como avós das crianças.

Há filmes onde os coadjuvantes acabam roubando a cena. Quando não, salvam o filme. Nesse, até teve coadjuvantes com tradição nessas aparições. A Rita Wilson Wilson, que eu já citei, mais a Ann-Margret, Matt Dillon, Bernie Mac… Eles até que poderiam terem roubado a cena. Mas com certeza, esse filme é do Seth Green. Sua atuação sobressaiu-se aos demais. E a tal cena que eu citei no início, vem embalada por essa música, mas cantada por ele:

Ralph (Seth Green) é o estagiário da firma de Dan e Charlie. Quando vejo estagiários nos filmes, me pego a pensar se eles são uma “evolução” dos escravos. Os chefes abusam dele, como poderão ver também em ‘À Procura da Felicidade‘ e ‘O Diabo Veste Prada‘, só para citar dois exemplos. Em ‘Surpresa em Dobro’, Ralph está muito afim de comprovar a sua competência. E terá seu dia de libertação ao chegar no Japão… onde lembrei de uma cena em ‘Encontros e Desencontros’.

Mas confesso que o que me encantou mesmo nesse filme, foi o cenário. Nossa! Paisagens deslumbrantes, assim como o urbanismo de Nova Iorque e Tóquio, idem. Além da ótima trilha sonora. O filme até me fez sorrir. Mas… melhor deixar o filme chegar na tv. Esse, parece mais que o Travolta participou para apresentar a sua filha – Ella Bleu Travolta -, a nós, e aos filmes. Aliás, ela também é filha da Kelly Preston fora das telas.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Surpresa em Dobro (Old Dogs). 2009. EUA. Direção: Walt Becker. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 88 minutos.

Alice # Lewis Carroll + Tim Burton + 3D

A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível.

Eu fiz questão de ver a ‘Alice no País das Maravilhas‘, de Tim Burton, em 3D. Para mim, que amo a estória de Lewis Carroll, batia uma curiosidade de ver quais seriam os efeitos com essa tecnologia. Comigo, já ia em como seria a queda na toca do coelho. E Tim não me decepcionou. Fez mais! Além da que me fez mexer da cadeira, a do final é um presente a nossa sensibilidade. Diria até, ao nosso lado romântico. Volto a essas cenas mais adiante.

Lewis Carroll era um contador de estória da sua época. Mas com as que ele mesmo inventava na hora. Foi assim que nasceu ‘Alice no País das Maravilhas‘. Ele a criou para entreter a pequena Alice e suas irmãs durante uma viagem. Depois, incentivado por amigos, imortalizou a estória colocando-a em livro. Sendo adulto, aproveitou a estória para criticar as convenções sociais. Também para homenagear amigos, e ironizar os inimigos com alguns personagens. O que leva a estória ter pelo menos dois tipos de leitura: uma, pelo olhar infantil, e a outra, por um olhar adulto.

Puxa! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem as coisas estavam tão normais! O que será que mudou à noite? Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é “Quem sou eu?” Ah! esta é a grande confusão!

Contando o porque de amar essa estória. Ela leva a criança a não perder a sua essência, a sua individualidade num mundo tão cheio de convenções. Por conta disso, aproveito sempre para incentivar os Profissionais com mais acesso as crianças, que levem-nas a conhecerem ‘Alice no País das Maravilhas‘. Ela também mostra de maneira ímpar o ser verdadeira, mas compreendendo que terá que controlar essa qualidade. Escolhendo bem as palavras antes de proferi-las. Porque as diferentes ocasiões, até mesmo as situações diárias, exigirá uma postura para cada uma delas. E é ai que terá que ter discernimento até para não perder a sua autenticidade. Mesmo que o momento leve a aceitar algo contrário a sua própria natureza, tendo ciência do que está se passando ali, não a torna cúmplice. Mais! A faz compreender que se há falha de caráter, é da outra pessoa, não dela.

Se a personagem Alice já possui uma grande importância no universo infantil, eu não vejo nada contra dela adentrar no universo mais adulto, deixando de ser uma menininha, tendo mais idade. E foi o que Tim Burton fez. Ele literalmente cresceu a Alice. Ele faz uma pequena ponte, logo no início, com a pequena Alice. Com ela e seu pai sendo confrontados a cerca da imaginação de ambos. Alice, pelos sonhos constantes. Seu pai, por possíveis sócios em seus negócios. Ela, criança, com receio de estar perdendo a razão. Enquanto o pai dela, quem o vê como lunático, são aqueles que tentavam desmotivá-lo a abrir seus horizontes. Enfim, pai e filha, são podados pela sociedade. O ‘Siga as regras, e seja feliz!‘, é algo cruelmente castrador.

Tim Burton depois dá um salto de 13 anos nessa sua versão. Alice, junto com a mãe estão a caminho de uma festa num palácio de um nobre da corte. Não sabendo do real motivo, intui que está entrando num túnel escuro. O que a faz ficar arisca. Ficando mais suscetível a captar os sinais que a vida nos dá, mas por conta de seguir tão cegamente as convenções, eles nos escapam. Mesmo que coincidentemente era procurada pelo Coelho Branco, só após pedir um tempo, é que Alice vai atrás dele.

Sem poder contar com os conselhos do pai, já falecido, Alice pede um tempo para pensar. Ela se vê brutalmente em confronto com o destino que escolheram para ela. Era castrador demais. Fútil! Falso… É quando mergulha fundo na sua inconsciência. Como um balanço da vida. Como um processo de Individuação, numa linguagem junguiana. Alice se deixa levar, indo atrás do Coelho Branco. Que lhe mostra as horas. Como a dizer que o tempo está passando. O tempo é outro fator salutar nessa obra de Lewis Carroll. Por mostrar como ocupar o tempo de vida. Fazendo o que gosta. Sendo você mesmo. Não mudando até sua aparência física, só para agradar alguém. A sociedade, ou quem se vê num tipo de trono, praticamente exige que todos percam a sua individualidade.

No filme, por conta da Rainha de Copas ter uma cabeça grande, seu séquito incorporam em suas próprias aparências, um aumento de uma parte física. Só para cair nas graças desse que se julga superior. Por outro lado, que prazer é esse em ter sempre em torno de si, um bando de bajuladores? De quase uma cópia de si mesmo. Quase, porque a eles nem é dado o direito de contestar, de terem opinião própria. Uma coisa é o respeito a uma hierarquia. Outra, é negar-lhes o direito de subir por seus próprios méritos. Se está capacitado, deve ter chance de mostrar o seu valor. É assim, em Família, numa Empresa, num Grupo, na vida como o todo.

A Rainha de Copas não admitia ser contestada. Sua arrogância, prepotência, a afastara até da sua irmã. Fez mais, roubou-lhe a Coroa Imperial. As duas irmãs, podem simbolizar algo inerente em nós. Mesmo exacerbando, mostram o lado bom e o mal. Como lidar com isso em si mesmo? Canalizando o poder destrutivo em ponderando mais, por exemplo. Pesando os prós e os contras. Fazendo um planejamento. Ter uma base forte, mesmo que seja por um caminho novo. Assim, a probabilidade de dar errado, diminui. E mais, ela pode ser atribuição do outro lado, o mais emocional. Mais romântico. É! Razão e Emoção lado a lado, e não em pé de guerra. Estão vendo como podemos colocar até os nossos “defeitos” contribuindo para o nosso engrandecimento? E sem perda de tempo.

Seria o Chapeleiro Maluco a nossa criança interior?

Fiquei pensando no porque desse personagem: um chapeleiro. Claro que na época de Lewis Carroll, o uso de chapéus era até exigido socialmente. Mas viajando um pouco… O chapéu possui várias referências simbólicas e reais. Uma delas, seria a do Mágico, que sempre tem uma surpresa vinda de dentro dela. Bem, surpresa para os outros. Porque se tirarmos algo de nosso cérebro, a surpresa estaria em, mais do que fazer, estaria em como fazer, como agir. O que vai depender do momento, do que exige a situação. Acontece que uma criança não vai muito pela razão, mas mais pela emoção.

O Chapeleiro gosta de criar chapéus, mais que um simples adorno, ele mostraria um pouco do que vai na mente de cada um. Independente se chocará ou não. Uma maneira de simplificar a vida. Como é feito pela criança. Ela só ficará preocupada com a opinião do outro, por gostar desse outro. Receber dele um bem querer. É quando exigirá de si mesmo seguir certas regrinhas. O Chapeleiro meio que cumpre o ritual do chá, mas subvertendo tudo. Ele até, passa por cima da mesa, para ir ao encontro da Alice. Feliz. Querendo-a ao seu lado.

Claro que o Chapeleiro exacerba um ‘Não siga as regras, e seja feliz sendo você mesmo!’ Essa quebra da rotina, nos leva de volta a infância. Num jeito meio desnudo do que a vida adulta nos impõe. É o prazer de viver em plenitude. Alice junto a ele, vai aos poucos trazendo à tona a sua verdadeira essência. Mas ambos passarão por duras provas. Que em vez de afastá-los, reafirma o bem querer que sentem um pelo o outro. É o verdadeiro valor da amizade. E que é bem mais incondicional, quando se é criança. Onde, quando se tem uma essência pura, aceita-se as diferenças sem questionamentos. Sem exigência.

Vejam só, tantas coisas estranhas tinham acontecido ultimamente que Alice começara a pensar que muito poucas coisas eram na verdade realmente impossíveis.

Exigências! Desde que os homens se organizaram em uma sociedade, se fez necessário criar certas regras. Para coibir certos abusos. Não deixando de assim terem um certo controle do povão. Alguns, cumprem cegamente essas regras. Até por um certo egoísmo. Outros, por comodismo, por pensar que é o melhor a fazer. Há também quem siga as convenções sociais, mas sem querer envolvimento afetivos. Mas claro que, no geral, as regras tem como base o poder de punir quem cometa um crime. Nessa estória, a Rainha de Copas vem para mostrar os que, estando no poder, só pensam no seu próprio bel-prazer. Onde governam com dois pesos, duas medidas.

Bem, se Tim Burton resolveu contar essa estória em 3D… Na cena onde Alice toma chá com o Chapeleiro Maluco, e outros convidados, há um efeito que me fez mexer na cadeira. Foi um susto gostoso. De querer rever.

Quando eu assisti ‘Avatar’, vi, acredito eu, um dos primeiros trailers deste filme. Talvez por estar ainda em produção. É que deixou uma impressão de muita escuridão, de algo mais tenebroso. Confesso que ao vê o Gato de Cheshire, ele me assustou. Cheguei a pensar que o filme cairia um pouco para o Gênero Terror. Essa impressão só se desfez assistindo enfim ‘Alice no País das Maravilhas‘, de Tim Burton. Filme esse que eu amei! Mas ainda em relação aos Trailers, embora goste de chegar nas Sessões a tempo de vê-los, alguns nos leva a ter outras impressões. O que leva a não dar muito créditos a eles. E, assistindo “Alice’, além de ter gostado muito, eu gostei do Gato Risonho do Tim Burton, muito embora o que continuará eternizado em minha memória cinéfila, será o da Animação da Disney. E o filme nem é tão escuro como no primeiro Trailer.

Agora com esse outro importante personagem: o Gato de Cheshire, ou, o Gato Risonho. Ao estampar o sorriso dele, Carroll nos mostra que a sociedade exige muito essa postura. Dificilmente alguém está afim de ouvir o drama de outra pessoa. Dai, mesmo passando por um período triste, em frente a alguém, estampamos um largo sorriso. Há também quem use o sorriso por subserviência. Como também para agradar alguém, mesmo a contragosto. Com o poder de sumir desse Gato, ele mostra que em algumas ocasiões, é a sensação mais desejada. Pois há horas que queremos sumir. De sair sem ser notada. E fiquei pensando no porque Tim Burton colocou os dentes do Gato, metálico. Talvez para ressaltar a falsidade que tantos adoram a sua volta. Como também por ter um comportamento falso.

Como eu comentei, a Alice se deu um tempo para pensar no futuro que queriam para ela. Por vezes, se faz necessário parar para um balanço na nossa vida. Eu, gosto de pensar que a nossa jornada, é como uma espiral. Assim, em vez de fechar um ciclo, que deixa a impressão de fazer tudo de novo, se nessa parada, tiramos lições, se retiramos cargas inúteis, estaremos alcançando sim, uma oitava maior. Nesse filme, temos para exemplificar, que mesmo percorrendo o mesmo caminho, será com um outro olhar. Pensem numa espiral. Ela vai passando perto, o que deixa até a impressão de dejà-vú. Mas tendo consciência do que fez, ou até do que deixou de fazer, colaborará para como agir dessa vez. Para então seguir em frente.

O que não enfrentamos em nós mesmos, encontramos como destino.” (Carl G. Jung)

Também nessa parada, se faz necessário enfrentar aquilo que nos assombra. Se for o caso, matar, nos livrar de vez, de algo que não faz parte da nossa essência. De algo que nos foi imposto. Por outro lado, se é algo que está inerente a nós, essa morte vem para canalizar essa força destruidora numa benéfica ao nosso engrandecimento. São os defeitos e qualidades trabalhando juntos. Numa Individuação (Psicologia Analítica), se aprende a lidar com a própria Sombra.

Para Alice, matar o Jaguardart, era ir contra os seus próprios princípios. Para os seus amigos do País das Maravilhas, seria a libertação. Como o destino a elegeu para essa missão, para salvaguardar a vida deles, ela viu que não poderia abdicar. ‘Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.’ Ela não perpetuaria aquele círculo nefasto. Na quebra de um ciclo, renasceu.

Quem a incentivou mais, foi a Lagarta Azul. Sempre levando-a a pensar quem de fato era ela. Mostrando também a ela que não era fruto da imaginação essa morte. Essa passagem para uma nova fase de vida. Ela mesmo era um exemplo disso, ao encerrar um ciclo, renascia como borboleta. Se desde o início, questionou a verdadeira identidade da Alice, a Lagarta também cumpriu uma missão. Fazendo Alice crescer. Ver a vida com um novo olhar. Deixar de ser coadjuvante, passando a ser protagonista da sua própria vida.

_Poderia me dizer, por favor, qual caminho eu devo seguir?
_Isso depende muito de onde você deseja chegar.

Então, Alice volta a festa. Lá, todos a aguardavam. Segura do que queria fazer, ela se faz ouvir. E dessa vez, o seu recado – a sua verdade -, é dita mais nas entrelinhas. Mostrando maturidade. Pois seria perda de tempo tentar modificá-los. Alice, já sem medo da vida, vai para uma nova fase em sua vida. Levando como herança paterna, o idealismo, o lado aventureiro, o tino comercial. E uma fértil, e porque não, útil imaginação. Eram as bagagens mais preciosas que Alice levaria rumo ao futuro. Ou, até uma próxima parada…

E no final, Tim Burton nos presenteia com uma cena que entra para a História do Cinema em 3D, como o mais cativante Final. É emocionante! Um brinde a nossa sensibilidade. A nossa Alice interior. Grata, Tim Burton! Parabéns, por sua versão de ‘Alice no País das Maravilhas’. Eu amei.

As atuações estão ótimas. A Trilha Sonora é Perfeita. Não deixem de ver esse ótimo filme em 3D. Se dêem esse presente.

Por: Valéria Miguez (LELA).

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland). 2010. EUA. Direção: Tim Burton. Elenco: Mia Wasikowska – Alice; Johnny Depp – Chapeleiro Maluco; Helena Bonham Carter – Rainha Vermelha; Anne Hathaway – Rainha Branca; Matt Lucas – Tweedle-Dee e Tweedle-Dum; Alan Rickman – Absolem, a Lagarta Azul; Michael Sheen – Coelho Branco; Christopher Lee – The Jabberwock; Stephen Fry – Gato Risonho (The Cheshire Cat); Imelda Staunton – Flores com Rosto (voz); +Cast. Gênero: Aventura, Animação. Duração: 109 minutos.

Campeão (Swimming Upstream). 2003

E tudo o que ele queria era o amor daquele pai…

Passando pela banca de Dvds em promoções… meus olhos bateram logo nesse nome: Geoffrey Rush. Depois, o de Judy Davis parecia familiar. Ao ler a sinopse, gostei. E sendo baseado numa estória real, era o que faltava para comprar ‘Campeão’ (Swimming Upstream). Fora uma ótima compra! É daqueles filmes que deixam uma vontade de rever mais vezes.

A frase do início foi o que motivou a estória de um jovem. E já desde a tenra infância. Não é um desejo tão raro assim. Em muitos lares há alguém ansiando ser amado por um dos pais. Por vezes, após uma terapia, ou com mais idade, passa a aceitar que aquele pai, ou mãe, nunca será como ele deseja. Mais! Mesmo com uma cicatriz na alma, compreende que é uma limitação dele(a). O filho preterido então segue em frente o seu caminho…

Mas por que um pai não ama um dos filhos?

Mesmo como a mãe dessa estória, exaurida por tentar mostrar a ele que teria todos os motivos para ser orgulhar desse filho. Numa cena que emociona, ela pergunta-lhe: ‘_Mas o que ele te fez?’ E é isso que fica na cabecinha da criança, o que ele teria feito de errado. Somente, muito mais tarde, é que descobre que o motivo está nesse pai.

Entrando no filme, e começando pelo título. Uma tradução para o título original, seria: ‘Nadando contra a correnteza‘… O dado no Brasil, entrega o filme. Mesmo assim, relevem. Pois é um drama familiar de nos prender a atenção. Até em procurar entender a personalidade de pelo menos cinco, dos sete membros dessa família: dos pais e três dos cinco irmãos. Onde o pai é o grande vilão, pois fez de tudo para desunir a família. E por que?

O filme se passa em Brisbane, Austrália. No início da década de 50. Recessão… Calor intenso… Alcoolismo por parte do pai. E suas mudanças bruscas de humor, chegando a ser violento… Não conseguem tirar a amizade, carinho entre quatro dos irmãos, mas mais tarde ele conseguirá. Com uma mãe tentando frear os impulsos do marido, tentando manter a união e o amor entre todos. Vou começar a traçar um 3×4 dos personagens, por ela.

Dora (Judy Davis) é a mãe amorosa, conciliadora, enérgica na defesa do filho preterido pelo pai, uma dona de casa exemplar, e além de amar os filhos, amava também o marido… Nem dá para julgá-la em ter feito o que fez… pela data da estória… porque Uma separação matrimonial, com cinco filhos menores… teria que ter muito tutano para tal feito. Mas afinal, por amor suporta-se apanhar do marido? Ou ficaria uma esperança de que um dia ele mudaria de atitude? De única amiga, Billie (Deborah Kennedy), uma vizinha que só ia até lá quando o marido não estava. Judy Davis continua linda! É tão bom ver uma atriz atuando de cara limpa, sem maquilagem, sem medo de envelhecer. E sua Dora é merecedora de aplausos.

Agora o pai, Harold (Geoffrey Rush), onde desde o início a atenção fica em querer saber porque ele não amava o filho. Ao longo do filme, vamos descobrindo que ele trazia um passado lastimável. Por aquilo que é dito. Por aquilo que fica nas entrelinhas. Agora, se ele pudesse canalizar toda a raiva, toda a mágoa trazida da sua infância, queimar essa energia presa dentro de si, em algum esporte, por exemplo, ai sim teria iniciado uma nova estória com a mulher e os filhos. Mas em vez de quebrar aquele círculo vicioso, ele alimentava ainda mais com o álcool. Uma herança maldita? Sim. Mas que ele poderia ter abdicado dela. Em vez disso, além de prejudicar sua família, estava passando para um dos filhos…

Pessoas como ele, não merecem ter filhos. Mas como para purgar o passado, os tem.

Harold, no fundo não aceitava que o filho, não apenas era alguém amoroso demais, mas por ter uma cabeça maravilhosa que não o deixava cair. Harold era uma triste figura de alguém derrotado. Logo, ansiava por filhos vigorosos, verdadeiros campeões. Que os levariam a brilharem por ele. Vou voltar a falar de Harold, mais abaixo.

Quem nos conta essa estória, é Tony (Jesse Spencer – o Dr. Chase, do seriado Dr. House). Tony conta todo o seu drama, desde a infância. Queria muito que o pai o amasse. Mas as atenções de Harold estavam voltadas para outro filho, por achar que esse outro seria um grande jogador de futebol. Paralelo a isso, Tony se divertia com os irmãos menores numa piscina pública. Com o desenrolar do filme, descobrimos que uma maldade do pai, fizera Tony aprender a nadar. Mas por sua trajetória na natação, o talento nato viera à superfície. Mas até o pai “descobrir” isso, ele e seus irmãos nadavam por diversão. Há uma cena de Tony numa tentativa de obter o amor do pai… ao fundo ouvindo ‘Adagio for Strings’… ficou difícil segurar as lágrimas.

Harold Junior (David Hoflin) era o irmão a quem parecia que o pai gostava muito. Mas no fundo sabia que se não sobressair-se no Futebol, também seria preterido. No início do filme, chega a dar raiva do que ele faz com os irmãos. Principalmente com o Tony. Com o avançar da estória, o sentimento passa a ser de pena. Era a má influência do pai. Era também o querer ter o amor daquele pai. Numa cena dele, com o Tony, dá um aperto no coração. Com ambos já crescidos.

Tony tinha como companheiro de natação, seu irmão John (Tim Draxl). Até as competições entre si, eram prazeirosas para ambos. Além de que havia entre eles uma linda amizade. Mas que o pai conseguiu destruir quando descobriu que eles eram excelentes nadadores. Acontece que Tony só descobriu depois que o seu talento era noutra modalidade. Mas até chegar ai, o pai jogou todas as fichas em John. Fez mais! Incentivou a rivalidade na cabeça de John. O que me levou a pensar que ele tinha um pouco da personalidade do pai. Primeiro, que se deixou influenciar. Depois, já crescido, não aceitou a amizade do irmão de volta. Algo que o irmão mais velho fez.

Sei que me estendi demais, contando até detalhes do filme. mas como falei no início, esse filme deixa uma vontade de rever. Porque o drama desses irmãos é muito denso. Triste, por vir do próprio pai, os conflitos. Que nos leva a várias reflexões.

Há nessa família, mais um casal de irmãos. A única irmã dos cinco, Diana (Brittany Byrnes), também é muito amorosa. O diferencial, é que não tem que brigar pelo amor do pai. Mesmo tendo, o que ela quer é a volta do tempo onde eram felizes nadando. E é com as trocas de cartas com o Tony que surge a ideia de que a estória pode virar um filme. É Tony que diz que têm um Roteiro em mãos.  Queria exorcizar de vez os velhos fantasmas.

Comprando o Dvd, ou locando, não deixem de ver. O filme é ótimo! Claro que para quem gosta desse tipo de enredo.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Campeão (Swimming Upstream). 2003. Austrália. Direção: Russell Mulcahy. Gênero: Biografia, Drama, Esporte. Duração: 102 minutos. Baseado numa estória real.

Atraídos pelo Crime (Brooklyn’s Finest). 2009

A ocasião faz o ladrão?

No início do filme, alguém conta que foi absolvido porque o juiz não interpretou o fato como certo ou errado, mas sim em mais certo ou mais errado. Numa de que mesmo fazendo algo ilegal, se o que levou a fazer isso fora por algo extremamente necessário reverte-se a questão. Desqualificando o crime. Complicado? É que vou seguir por esse caminho ao falar de ‘Brooklyn’s Finest’. É! Ficando, focando o título original. E quem seria essa fina flor do Departamento de Polícia de Nova Iorque?

No filme há todos ingredientes iguais a tantos outros. Mas creiam, em nada diminui esse. Até porque há um diferencial: serão três tiras postos em xeque. Tudo convergindo para uma cilada do destino. Se é que se pode chamar de um fato ocasional. Os três foram parar lá, de livre e espontânea pressão. Dos superiores? Não. De suas próprias cabeças.

Com o Tolerância Zero, tão decantado… ficou algumas indagações. Entre elas: A onda de crimes urbanos foi varrida de vez? Ou apenas mudou para outro local fora do circuito turístico? Eu gosto do Gênero Policial. Mas confesso não lembrar de nenhum com uma tomada aérea do Brooklyn como nesse filme. À primeira vista, seria logo identificado como um belo condomínio da Classe Média. Bem espaçoso entre um Bloco e outro. Bastante arborizado. Quadras de Esportes… Mas estamos falando de Nova Iorque. Do Brooklyn. Que pelo jeito, colocaram nesses prédios o núcleo pobre da cidade. Se dessasistidos pelos governantes, dá espaço para o narco-tráfico, a prostituição… Um governo paralelo.

Para tentar chegar no dono da área, Caz (Wesley Snipes), um tira se infiltrou entre eles. Iniciando a missão já na cadeia, para dar mais veracidade. Ele é Tango (Don Cheadle). Tudo ia nos conformes, até que um policial é morto por um jovem negro. Nas cercanias dos tais prédios. Então, o andar de cima pede algo mais a Tango. Esse, a princípio recusa. Já cumprira sua missão. Queria mais voltar a condição de tira, e com uma promoção. Acontece que o chantageiam, no seu ponto fraco. Tango, mesmo contrariado, vai em cumprimento do seu dever.

Mas que dever era esse? Um ato criminoso para acalmar aqueles que moravam fora daquelas cercanias? Mesmo que a tal pessoa fosse um criminoso, estaria mais certo pagar por algo que não cometeu? Agora, se era um traficante, se revendia drogas, ele alimentava uma cadeia de crimes. Aliciava jovens para esse mundo. Afinal, os superiores de Tango estavam com a razão? Qual era a ética seguida por Tango?

Ainda falando sobre as drogas… O filme mostra que jovens indo atrás de um “barato”… podem terminar ficando presas de uma rede de prostituição. Drogadas, algemadas… Só saindo dessa vida, se tiver alguém disposto a tirá-las dai. Pensem nisso!

Falando em ética própria… temos um outro tira. Ele é Sal (Ethan Hawke). Cheio de filhos, com a mulher grávida de gêmeos… Sonha alto. Como a maioria que em vez de dar um passo de cada vez, quer dar um bem maior que pode alcançar. Cansado de só prometer uma casa maior, e melhor para a família, vai em busca de dinheiro. Procura na Igreja a sua absolvição. Se vê como um bom ladrão. Tem como desculpa, perante aos outros tiras, que o dinheiro apreendido nas operações policiais, nos bunkers das drogas, que esse dinheiro fica nas mãos do alto escalão. Patrocinando seus luxos. Que nada é revertido para os tiras, que arriscam suas vidas nessas operações. Nem muito menos, numa ressocialização dos jovens infratores. Assim, para Sal, se eles podem, ele também quer o seu quinhão.

Por fim, temos Eddie (Richard Gere). Um policial a poucos dias de se aposentar. Tudo o que quer nesses últimos dias de Tira, é se manter vivo. Mas seu Chefe lhe dar como derradeira missão: ser instrutor de recém ingressos na Corporação. São jovens cheio de idealismo. Que acreditam que porão ordem no caos urbano. Mais. Querem ação, e não ficar só observando. Íntegro, mas cansado pelos anos já prestados, Eddie antevê que não será uma missão fácil. Pois falta a esses jovens, jogo de cintura. Para aguentar a pressão nessas rondas. Mas como diz seu Chefe, o Sistema o escolheu.

Eddie, Sal e Tango possuem, cada um, um grande amor. Sonham em lhes dar uma vida segura. A esposa de Sal, o ama sem lhe pedir nada. A do Tango, não suportou ser casada com um Tira Detetive. Tango quer reconquistá-la, com a promoção prometida. Eddie, é apaixonado por uma prostituta. Sonha com que ela largue essa vida, e vá viver com ele, após se aposentar, longe de Nova Iorque.

No meio do caminho tinha… Ronny (Brian F. O’Byrne), que mesmo na melhor das intenções, se precipitou… É! Todos foram parar naquele local, sem se preocuparem com a própria vida. Sem seguirem as normas de segurança que aprenderam na Academia de Polícia. E deu no que deu.

As participações femininas foram medianas. São elas: Lili Taylor, como a esposa de Sal. Shannon Kane, a prostituta amada pelo Eddie. E Ellen Barkin, a Agente que pressiona Tango. Essa, é a que ficará um pouco mais na memória.

O filme é lento na primeira metade, mas nem por isso perde o brilho. Por nos mostrar um pouco desses três tiras. A ação mesmo fica mais para a meia hora final. São tantas as informações, que me deixou com vontade de rever, para então apurar tudo. É um ótimo filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Atraídos pelo Crime (Brooklyn’s Finest). 2009. EUA. Direção: Antoine Fuqua. +Elenco. Gênero: Ação, Crime, Drama, Policial, Thriller. Duração: 132 minutos.

Mary e Max – Uma Amizade Diferente. (2009)

Para quem conhece meus textos já sabem que dependendo da estória do filme, minha preocupação maior é com o público infantil, e ou, adolescente. No caso, sendo o filme para maiores de 12 anos, o foco será neles. Gostaria muito que esse filme fosse levado à sala de aula. E que na presença de Professores, e até de um Psicólogo, fosse então debatido. Há vários temas em ‘Mary e Max – Uma Amizade Diferente‘ que carece desses jovens serem confrontados. Além de muitos acharem engraçado tripudiar de um coleguinha “diferente”… há no filme o bem que faz uma amizade verdadeira.

Para um público com mais… diria que com mais anos em Filmes, hão de se lembrar de ‘Nunca Te Vi, Sempre Te Amei‘. Detalhar muito, traria importante spoiler. Dai, fico com o que nos é contado na sinopse, de uma troca de cartas entre duas pessoas que não se conhecem. Com um Oceano de distância entre eles. E que atravessaram longos 20 anos.

Mas se naquele a diferença de idade nem era tanta, entre Mary e Max há sim. O filme começa na década de 70. Num tempo sem internet. Mas como atualmente os casos de pedofilia estão vindo mais a público, para uma galerinha Teen é sempre bom o acompanhamento de um adulto, para que não entre em nenhuma roubada caso resolva se corresponder com um desconhecido. Claro que sem um patrulhamento ostensivo. Se há liberdade entre você e esse menor, é bem provável que lhe conte o que anda fazendo. Esse é um dos motivos para um adulto assistir junto esse filme.

Começando com Mary. Filha única. De um pai ausente, e de uma mãe alcoólatra e cleptomaníaca. Na escola sofre com o bullying. Por ser gordinha; por usar óculos; e até por um sinal de nascença em sua testa. Tem por amigo, um galo. Seus brinquedos foram criados por si: como cópias dos personagens de seu desenho favorito. Sua pequena mesada vem de um serviço que presta a um vizinho que perdeu as pernas na Guerra, e que sofre de agorafobia. Com medo de sair de dentro de casa, ela pega para ele as correspondências. Esse vizinho, terá um papel fundamental na vida de Mary. Um outro vizinho também, um menino grego. Que também é um excluído pelos colegas, por ser gago. Mary tem uma sede de aprender. E além de chocolate, adora leite condensado. Gostaria de ter uma amiguinha com quem pudesse conversar e brincar.

Sobre os pais de Mary. Primeiro, fica a ideia de que grande parte do caráter de uma pessoa, é nato. Depois que, mesmo que o meio em que vive lhe é desfavorável, sendo alguém moralmente ética será difícil corrompê-la. Mary é um doce de ingênua, mas possui uma intuição que lhe mostra o que é certo, do que está errado. Assim, mesmo vendo a mãe roubando mercadorias no comércio local, pressente que é algo errado. Numa dessa saídas com a mãe, ela vê um catálogo telefônico dos Estados Unidos. Sua cabecinha curiosa em saber cada vez mais, fica pensando, enquanto folheia, até que para num nome… É quando entra em cena o Max… Mary decide escrever para ele. A princípio, achando que ele também é uma criança.

Mas ainda com os pais dela. Além de cleptomaníaca, sua mãe passa o dia a beber, a fumar, ouvir rádio… Nem um simples botão, costura. Em vez disso coloca pregadores de roupas nas roupas. O pai quando chega em casa se tranca num galpão onde se dedica ao seu hobbie: taxidermia. Transparece no filme que tiveram Mary tardiamente. Mesmo ela sendo um encanto de menina, eles não levam o menor jeito para pais.

Sozinha em casa, sozinha na escola. Mary acredita que pelo menos por cartas conseguirá um amiguinho de verdade. Gentil, além da carta, envia uma barra de chocolate para Max. E fica contando os dias pela resposta. Que vem, mas é interceptada pela mãe. Acontece que o destino estava a seu favor… Ciente de que não mais poderia receber as cartas do Max em sua própria casa, pede que Max envie para a do seu vizinho.

Com a primeira carta de Mary, Max entra em pânico. Mas devido ao seu problema… Um pouco do perfil de Max: tem 44 anos de idade. Vive sozinho na companhia de um periquito, um gatinho que perdeu um dos olhos por maldade de crianças, alguns caracóis e um peixinho que devido ao pânico de Max… Bem, peixinho morto, peixinho posto. Além de uma vizinha que é cega, mas não está nem ai para isso. O problema é que não admitindo ser cega acaba não se adequando a sua realidade. Ocasionando certas situações… Max padece de Síndrome de Asperger. Mas um problema ainda desconhecido na época. Dai era tido como maluco.

Eu passei a ter conhecimento dessa Síndrome, vendo ‘Ben X – A Fase Final‘. Onde podemos ver o quanto sofrem, mas com a zombaria e até agressões físicas dos colegas de classe. Para Max, além do bullying por conta disso, também por ter sido judeu.

Devido ao Asperger, tudo que saia da sua rotina o deixava em pânico. Dai, com a carta de Mary, não foi diferente. Mas devido a um quase ‘seguir as regras’, pelas visitas ao psiquiatra, depois ele deu retorno. Do pânico para a ansiedade de enfim ganhar um amigo humano fora um pulo. Agora, dá para imaginar os tipos de perguntas de uma criança!? Se por vezes embaraçam a nós, que dirá para a cabeça de alguém como Max. Que preferia questões sobre lógicas. Mas isso não fazia parte do imaginário de Mary.

Max tinha um outro problema: um comedor compulsivo, e de coisas doces. Chocolate, era o seu ponto fraco. E nas reuniões dos Comedores Anônimos, era assediado por uma das participantes. Acontece que, mesmo sendo um quarentão, também era como um menino ingênuo. Só passando a perceber algumas coisas, com as indagações da Mary.

Assim, com muita ingenuidade de ambas as partes, um foi ajudando o outro naquilo que o machucava mais. Era um olhar com óculos-cor-de-rosa!? Até pode ser, mais era o olhar de um amigo. Que entendia mais a fundo o drama de cada um.

O tempo foi passando… Muita coisa foi acontecendo para os dois… O desejo de Mary conhecer o Max continuava… A amizade teve até uns abalos. Ora, por conta do destino. Noutra, por querer “consertar” o amigo. Mesmo que a intenção fosse boa, o melhor a fazer é aceitar a “diferença” do outro. A menos que a pessoa procure por amigos meras cópias de si.

Mary e Max – Uma Amizade Diferente‘ é um filme que deixa uma vontade de uma análise mais detalhada. O que traria spoilers. É daqueles filmes que machucam, mais ainda por ser baseado numa estória real. É lento. Indicado também para quem gosta de ouvir a estória de vida de uma pessoa. Embora triste, nos leva a amá-los.

Num tempo onde o 3D virou uma febre, talvez uma animação com personagens de massinhas, e meio toscas, não irá atrair o grande público. Pena! Pois estarão perdendo um excelente filme! Com um final emocionante! Assistam!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mary e Max – Uma Amizade Diferente. 2009. Austrália. Direção e Roteiro: Adam Elliot. Elenco/Vozes. Gênero: Animação, Comédia, Drama. Duração: 92 minutos. Filmado com a técnica stop motion, em que cada cena é fotografada quadro a quadro. Baseado numa estória real.

O Que Resta do Tempo (The Time That Remains. 2009)

Pode existir um filme muito chato que também é muito bom?Acho que é o caso deste último filme de Elia Suleiman – “O que resta do tempo”. A inevitável comparação com Jacques Tati e Buster Keaton justifica-se pela melancolia de um humor silencioso e sutil que economiza nas palavras e abunda em sugestões ainda que aqueles diretores trabalhassem com argumentos bem mais ingênuos.

O tema aqui é triste: A eterna invasão da Palestina representada pela cidade de Nazaré vista em vários períodos, todos repletos de violência e barbárie.

No entanto, Elia consegue extrair uma graça bizarra daquele conflito infinito numa narrativa incômoda e sem linearidade filmada com rara sensibilidade e competência pontuada de momentos geniais.

Mas é um filme difícil e infelizmente o diretor conseguiu fazer um filme desagradável de ver porque a maioria da plateia suspira aliviada quando se ouve o adequado hit de Bee Gees “Stayin’alive” (irreconhecível remixado por YAS) musicando os créditos finais selando uma irreversível desesperança. Como é uma obra política, talvez seja esta a intenção.

Carlos Henry

O Que Resta do Tempo (The Time That Remains). 2009. Reino Unido. Direção e Roteiro: Elia Suleiman. Elenco:  Elia Suleiman (ES), Ali Suliman (Amigo da Eliza), Saleh Bakri (Fuad), Samar Tanus (Mãe), Shafika Bajjali (Mãe – 80 anos), Zuhair Abu Hanna (ES, criança), Amer Hlehe (Anis), Lotuf Neusser (Abu Elias), Tareq Qobti (Vizinho), Yasmine Haj (Nadia), Ziyad Bakri (Jamal), +Cast. Gênero: Drama, Guerra. Duração: 109 minutos.

Curiosidade: Versão ficcional de quatro episódios que marcaram a família do diretor desde 1948. Inspirado pelos diários de seu pai, combatente da resistência palestina, e pelas cartas de sua mãe aos familiares expatriados, ele reconstitui o cotidiano dos chamados árabes-israelenses a partir do momento em que escolheram permanecer em sua terra natal e passaram a viver como minoria. Memórias íntimas que se confundem com a história coletiva de um país em desaparecimento.

O Livro de Eli (The Book of Eli. 2010)

Mas agora, assim diz o SENHOR, que te criou, o Jacó, e que te formou, ó, Israel : Não temas, porque Eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. (Isaías 43:1)

O que torna um filme especial é a mensagem formidável que ele traz, ou o que torna um filme formidável é a mensagem especial que ele traz. O primeiro do ano de 2010 que assisti e constatei isso foi o dos irmãos gêmeos Allen e Albert Hughes O LIVRO DE ELI, e ouvi boatos que este é o candidato a cult do momento, mas isso é assunto para outra conversa.

Gosto de me preparar psicologicamente lendo a sinopse para ter uma idéia do que se trata, qual o gênero, a nacionalidade, diretor, atores e por último a crítica do júri, o que para mim nada significa, não tem nenhuma importância, o interessante é saber o que cada um pensa. Os formadores de opinião de um jornal do RJ rotulados de Superjúri, em peso condenaram esta obra que considero prima. Cabe a cada um ser crítico da arte que seleciona para apreciar, e julgar conforme suas expectativas.
Mas o que o Livro trata? Aliás, o filme é sobre o quê?
Vivemos num mundo onde há excesso de informação; muitos modos e alguns instrumentos para isso; chove convite a todo momento de drogas tecnológicas viciantes, para ser um seguidor, disto ou daquilo, tanto que chega a dar náusea. Depois do advento da Internet, pode-se escolher com quem se quer falar, de onde,  quando e por qual canal se comunicar: skype, twitter, e-mail, orkut, facebook, e outras maneiras à escolha do freguês. Mundo globalizado, comunicação ao alcance de todos. Mesmo assim, sempre haverá alguém desinformado, e por tantos motivos: ou porque se seleciona o que se quer saber, que seja apenas de interesse do próprio, ou porque é impossível ao ser humano dominar e saber TUDO.
Recentemente o diretor palestino Elia Suleiman do filme ‘O que resta do Tempo’ (na minha lista de espera) talvez por contar de forma bem-humorada o conflito entre palestino e israelenses a partir de uma visão autobiográfica, por essa razão foi comparado ao comediante francês Jacques Tati, do qual, não estranhem, ele confessou nunca ter ouvido falar. Don,t worry. Ninguém é obrigado a saber tudo.
Mas o que isso tem a ver com o filme O Livro de Eli? TUDO.
Eli (Denzel Washington) é uma pessoa que vive num mundo futuro de um pequeno grupo que restou da humanidade, totalmente destruído, reduzido a cinza, poluído, sem outra espécie de vida; água é um líquido muito precioso e caro, quem possui faz escambo porque já não existe dinheiro, e o que resta da população faminta só praticando o canibalismo para não morrer de inanição. Os poucos sobreviventes mendigam… brigam entre si para continuarem vivos.
Dos sobreviventes, Eli se sobressai, e pode ser considerado um ser especial escolhido por Deus, já que teve em sonho uma revelação e recebeu a missão divina de levar o único exemplar que restou na face da Terra do Livro Sagrado para a direção oeste. Sem mapa, só mesmo seguindo a própria intuição ou guiado, talvez, por um anjo para chegar à terra prometida. Pode ser porque tenha muita fé e boa vontade, cumpre à risca e muito bem seu propósito. A jornada é longa e pelo caminho, cruza constantemente com inimigos que tentam roubá-lo ou exterminá-lo, ele, porém, sempre consegue se desvencilhar de todas as ciladas e armadilhas. No passado, o tempo era contado pela lua; no futuro pelo inverno rigoroso. “Eli perambula há 30 invernos, num cenário tristemente devastado”.
Na sua jornada, evita meter-se em encrenca; nesse mundo agora, cada um por si, manter-se vivo é um privilégio e ele então foge dos perigos e constantemente se vê desafiado por situações inóspitas.
Para abrandar a solidão, o andarilho, além do seu livro, carrega um aparelhinho de som com fones e constantemente ouvindo música, e se distraindo, até que um dia a bateria falha, ficando ele apenas com as leituras diárias do Livro Sagrado. Ele chega no que sobrou de um lugar, onde existe uma espécie de xerife, sendo o ‘dono do pedaço’ Carnegie (Gary Oldman) homem culto e letrado, e sempre lendo um livro, e dando ordens aos empregados que saiam e lhe tragam sempre mais e mais, em especial ‘um livro especial’ que ele ainda não tem e seus empregados não conseguem encontrar. O único exemplar que restou na face da terra está com Eli. É o livro mais precioso, o da sabedoria que ele quer e diz ser capaz de mudar e transformar o homem, expandir sua dominação e seu poder.
Nesse povoado Carnegie é também dono do que sobrou de um tipo saloon, típico do velho oeste americano, onde se serve bebidas e mulheres, e descobre que o livro que ele procura está com Eli, o forasteiro que acabou de chegar na ‘sua cidade’. Eli acaba entrando no local porque fica sabendo que lá tem água e ele precisa para continuar a sua jornada.
Carnegie, por interesse lhe oferece estadia e a companhia da filha da sua companheira cega a fim de roubar dele o tão sonhado livro.
Mais uma vez Eli consegue se livrar da situação e a jovem o segue por um bom tempo. Ela em alguns momentos o atrapalhou e em outros o ajudou. Quase chegando ao Oeste para cumprir o seu destino ele perde o livro para Carnegie. Mesmo assim não deixou de cumprir a tão sonhada missão. Muito mal, mas chegou. Venceu essa batalha. Talvez a contagem de tempo fosse mais do que 30 invernos pois foi suficiente para decorar a Bíblia toda que é um conjunto de 66 livros: 39 V.T. e 27 N.T., e ele a ditou ao escriba que o aguardava, Capítulo por capítulo; versículo por versículo, até o ponto final do Apocalipse.
“GÊNESIS
A Criação dos céus e da terra e de tudo que neles há
1 No princípio, criou Deus os céus e a terra.
APOCALIPSE
A benção
21 A graça do Senhor Jesus seja com todos.”
Quando Carnigie consegue abrir a Bíblia, constata que a mesma está em Braille. Para a sua sorte, conseguiu o que almejava, objetivo alcançado, e muito mais que isso. Poderia começar a se regenerar, ser mais humilde e generoso; compartilhar e reconstruir um novo mundo e um novo tempo, uma nova cidade pela palavra, pelo VERBO, com a sua companheira que domina a linguagem, a grafia Braille.
Só de ter decorado a Bíblia toda, conclui-se que Eli é um homem especial. O filme é recheado de metáforas, cabe ao espectador tentar interpretá-las.
Eli sempre de óculos escuros. Seria ele cego? O seu livro está na linguagem Braille. Coisas se aprendem por necessidade ou não. O filme não é uma receita de bolo, não tem resposta pronta. Tem os seus mistérios e é isso o torna excepcional, interessante. Eli tinha mais de uma missão: decorar a Bíblia (“Guarde AS Minhas Palavras”); perdê-La para que alguém a encontrasse e fizesse bom uso (“Ide e Pregai o evangelho a todas as criaturas”) conhecessem, ditá-Las e praticá-Las (“Pratique a Minha Palavra, Orai e vigiai”).
O Livro do conhecimento de Eli, difícil de digerir, pode ser o mesmo de Humberto Eco em O Nome da Rosa, só que em momentos e situações divergentes: um está antes da reforma religiosa (protestante), século XIV, e o outro está num século pós-apocalíptico. O primeiro é um tratado da idade média, quando a igreja católica tinha o domínio e o poder sócio-político-econômico-cultural sobre todas as coisas, e influenciava o modo de pensar e agir das pessoas, e somente Ela julgava e decidia. E o Livro Sagrado era guardado a sete chaves, inacessível a fim de monopolizar os seus dogmas e manter uma fé obediente e cega da população. E o último, todos podem tem acesso à sua leitura, só que, por se ter apenas um exemplar é quase impossível.
E voltando ao assunto do diretor palestino, ele não sabe tudo, nem você nem eu nem ninguém nunca saberá, deter todo conhecimento, mesmo com a Internet e a chuva de convite para seguirmos aqui e acolá, mesmo assim, muitos são os que não ouviram falar, por exemplo, desse Livro Sagrado, de Jesus, e que vivem na escuridão. Foi preciso um exemplar na linguagem Braille, um desafio, a fim de lhe (ao inimigo de Eli) mostrar que a Bíblia, o livro do conhecimento e da vida é a VERDADE e sem Ela o homem está perdido. Então, pesque mais mensagens nas entrelinhas deste brilhante filme.
O Livro de Eli cumpriu muito bem a sua missão. *****
Karenina Rostov
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Sinopse
Em um futuro pós-apocalíptico, um herói solitário protege um livro sagrado que pode conter o segredo para a salvação da humanidade.
Ficha Técnica
Título Original: The Book of Eli.
Origem: Estados Unidos, 2010.
Direção: Albert Hughes e Allen Hughes.
Roteiro: Gary Whitta.
Produção: Broderick Johnson, Andrew A. Kosove, Joel Silver, David Valdes e Denzel Washington.
Fotografia: Don Burgess.
Edição: Cindy Mollo.
Música: Atticus Ross.
Elenco
Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Ray Stevenson, Jennifer Beals, Evan Jones, Joe Pingue, Frances de la Tour, Michael Gambon, Tom Waits, Chris Browning, Richard Cetrone, Lateef Crowder, Keith Davis, Don Tai, Thom Williams, Lora Cunningham, Scott Wilder, Heidi Pascoe, Jennifer Caputo, Eddie Perez, Spencer Sano, Karin Silvestri, Mike Gunther, John Koyama, Mike McCarty, Scott Michael Morgan, Sala Baker, Arron Shiver, Justin Tade, Mike Seal, Richard A. Smith, Paul Crawford, Edward A. Duran, David Wald, Jermaine Washington, Kofi Elam, Clay Donahue Fontenot, Al Goto, Brad Martin, Tim Rigby, Luis Bordonada, Robert Powell, Angelique Midthunder, Todd Schneider, Darrin Prescott, Laurence Chavez, Brian Lucero, David Midthunder, Malcolm McDowell e Frank Powers.

Pecado da Carne

Através de uma comunidade muitíssimo ortodoxa ficamos de frente para a realidade de muitos aspectos que a nossa sociedade moderninha mantem…

Esse é o filme perigoso para se demonstrar opinião, pois que o mínimo que se revele poderá ser um inconveniente spoiler. O andamento é lento e torna-se tenso por nos deixar nas cenas iniciais em expectativas. Algumas vezes pensei: não isso não vai acontecer, não com ele, não com este… Não será agora… Ai, meu deus vai chegar alguém…
Então vou contar para vocês, assistindo a este filme de Haim Tabakman eu assisti 3 filmes: O filme propriamente dito mais o filme que a minha expectativa criou ; o inevitável filme que surge do insistente link filme x realidade: Vida numa locação distante x vida nossa de cada dia. Na minha ignorância quanto aos hábitos dos judeus ortodoxos, houve ainda o filme que não percebi.
Confesso que permaneci estática diante da constatação que criticamos todo um modo de viver e seus valores retrógrados e estamos convivendo com eles e muitas vezes alimentando-os.

Como é viver, uma vida que não se escolhe, abraçando realizações que se tivéssemos conhecimento de outras opções não abraçaríamos?

Como é descobrir de uma hora para outra que não somos o que pensamos que somos?

Como é descobrir que se viveu por algo que no fundo não era o que queríamos?

Como é depois de um fato que mostra uma vida nova, descobrir que se estava morto? E perceber que a nova vida é impraticável dentro de todos os valores que com sinceridade creditávamos?
Como será saber-se infeliz e incompetente para seguir o que nos faz feliz?
Pecados da carne, mostra que o pecado da carne está na alma, no sangue, no desejo. Podemos viver toda uma vida mergulhados em preconceitos sem que sejamos preconceituosos. A falta de horizonte nos levará a sobrevivermos mortos, com atitudes que não perceberemos jamais…
Aaron é um judeu que vive sossegadamente num bairro kosher de Jerusalém. Vive sua vidinha, tem uma esposa e 4 filhos. Herda o açougue do seu pai e quando tudo estaria na mais santa paz, surge Ezri. Um jovem bonito, também judeu cujo lado ortodoxo é apenas o lado de fora. Ezri, estudou e sabe desenhar. Aaron daria a vida para ter estudado. Se estamos num dia de sensibilidade aguçada, aí já perceberemos que Aaron sente coisas que não entende por falta de oportunidade, pelo estreitamento de horizontes que as tradições fabricam. Exatamente como qualquer um de nós.

Nesse bairro, existe uma “patrulha da decência”, um grupo de jovens, que observam e vigiam a vida alheia e uma vez que esta não esteja de acordo com os valores do seu admirável mundo antigo, eles invadem casas, espancam pessoas com a finalidade de fazer valer sua moral e bons costumes. Assim, interferem no relacionamento de um casal com a mesma propriedade que interferem em qualquer outra coisa que não esteja em sintonia com as tradições. Ezri é um proscrito, um sem lar, sem família, sem teto, sem nadam mal falado e ainda abandonado pela pessoa que fora encontrar. Essa pessoa, um rapaz, a mim pareceu ser simplesmente a personificação do que pode se transformar alguém numa sociedade atrasada, sem respeito individual, onde um ser humano deveria se comportar assim como os bichinhos da “Marcha dos Pingüins”…

Quando encontramos algo que nos atrai e fascina é certo que iremos colorir com qualquer tinta a fim de se evitar a perda. O desejo tem o fascínio dos grandes abismos!

Foi assim com Aaron. O rabino na sinagoga diz que deus não quer que o homem sofra, por isso nada deve ser proibido. Aaron entende que o sacrifício é agradável aos olhos de Deus e quando ele se vê frente à uma nova realidade está certo de que tem os recursos necessários para vencer a tentação e transformá-la numa aquisição lícita – provavelmente uma forma que ele inconscientemente encontrou de não cumprir a norma ditada por sua “casta”. Mas repito e acredito: o pecado da carne está na alma e no coração também… Isso me lembra os jesuítas com a missão de levar as almas indígenas para Deus através da imposição religiosa o que muitas vezes resultou em abusos e índias grávidas; me faz recordar os cruzados defendendo o pensamento divino na ponta da espada … Até que ponto defendiam seus ideais? Até que ponto uniam o útil do cumprimento dos seus deveres vigentes, as regras de um pensamento num determinado contexto social com a oportunidade de alimentar seus latentes desejos?

Pecado da Carne” é um filme que mostra o lado frágil de quem encontra a sua verdade e não acha um meio termo conciliatório.

Desaconselhável para homofóbicos de qualquer idade. Os judeus já tem o seu “Broback Montain”, embora o diretor Eytan Fox (Bubble, Delicada Relação, Walk on Water) use sempre a homossexualidade como plano de fundo em seus filmes, O pecado da Carne é contundente por ir diretamente ao ponto: religião X homossexualidade

Não assista se as situações de injustiças lhe causam náuseas, pois entristece ver o que o pensamento externo pode fazer com o que se tem por dentro, mas certamente é um filme para ser assistidos por todos, embora muitos , se reconhecendo, não aceitarão, acostumados que estão a não aceitar o que por motivos diversos não vivem, certamente dirão que não é um bom filme, o que não é verdade.

Pecado da Carne . Einaym Pkunhot (título original) Eye wides Open (título internacional). Israel. 2009. Drama. Direção: Haim Tabackman. Roteiro: Merav Doster. Elenco:Zohar Shtrauss, Ran Danker, Tinkerbell, Tzahi Grad, Isaac Sharry, Avi Grainik.
Trilha Sonora: Nathaniel Mechaly