O Aprendiz de Feiticeiro (The Sorcerer’s Apprentice. 2010)

O maravilhoso nesta história é a lição sobre pegar atalhos, fazer as coisas do jeito mais fácil, tentar realizar o desejo, que todos temos, de crescer um pouco rápido demais”, Jon Turteltaub.

Um antes…
Uma ideia, que leva a outra, e mais outra
Onde tudo começou a ganhar forma…
Ano: 1797. Johann Wolfgang von Goethe escreve o ‘Der Zauberlehrling’: “Narrado pelo próprio aprendiz, que, após ser deixado sozinho pelo feiticeiro, decide experimentar sua própria magia. Ele ordena a uma velha vassoura que prepare um banho para ele. A vassoura viva enche não só a banheira, mas tudo mais. Ele esquece a palavra mágica para fazê-la parar. O aprendiz ataca a pobre vassoura com um machado, partindo-a ao meio, mas que resulta em mais vassouras vivas. Por fim, ele é salvo, literalmente, com o retorno do velho feiticeiro, que rapidamente manda a vassoura de volta para o armário de onde ela saiu.” (Uma tradução para  ‘Der Zauberlehrling‘).

Décadas depois, o poema foi adaptado em uma obra sinfônica de 10 minutos intitulada “L’apprenti sorcier”, pelo compositor Paul Dukas. Sucesso imediato. Uma composição alegre, e memorável. Em 1940, Walt Disney une as duas obras num dos segmentos do seu grandioso longa de Animação: ‘Fantasia“. Com Mickey Mouse fazendo o papel de Aprendiz. Quem teve a oportunidade de ver na Telona, e num Cinema com som e acústica de primeira, não esquece, principalmente a marcha das vassouras. Eu mesma fui assistir várias vezes. Para quem não viu, um vídeo com ‘The Sorcerer’s Apprentice – em Fantasia’:

O agora… Ou seria: ‘Era uma vez…’ Porque o filme é como um livro de estória que ganhou vida.
Da ideia inicial, chegamos nessa nova versão de Jon Turteltaub, para ‘O Aprendiz de Feiticeiro‘. O próprio Turteltaub nos dá a ideia da qual ele partiu, na frase que inicia o texto. Ele não apenas cresceu o Aprendiz, como preferiu que tivesse chance de chegar a ser um Mestre. Assim, há uma passagem de 10 anos na vida desse Aprendiz. Nessa jornada temos como pano de fundo a luta do bem contra o mal. Mas também temos o amor, como as suas consequências por aqueles que não aceitaram terem sido preteridos. Tudo isso, num ritmo muito mais de Ação.

O personagem de Nicolas Cage, Balthazar Blake, é um homem triste e solitário. No passado, seu grande amor, Veronica (Monica Bellucci), sacrifica-se para salvar a vida de Merlin. Veronica engole, literalmente, Morgana (Alice Krige). Porque essa queria para si, o poder supremo. Tem como ajudante mor, Maxim Horvath (Alfred Molina). Mas Merlin não resiste, e antes de morrer, entrega a Balthazar o anel que terá como identificar o seu sucessor. E antes que Morgana pudesse matar Veronica, são aprisionadas numa urna.

Com o passar do tempo, Balthazar vai aprisionando os discípulos de Morgana em Bonequinhas Garimbold: a mais recente engole literalmente a anterior. Ele após percorrer vários continentes, se estabelece em Nova Iorque, com uma Loja de Antiguidades. Até então, ainda sem achar o sucessor de Merlin. E esse surge, como um menino ainda: Dave (Jake Cherry). Dave, curioso, derruba a bonequinha russa, deixando escapar Horvath.

Sabem aquele filme esquecívil? Pois é, esse é mais um. Eu confesso que não lembro mais como Balthazar e Horvath ficaram presos até Dave crescer. E nem como saíram depois. Foi algo providencial para a estória, esse sumiço dos dois. Um dia, quem sabe, ao passar na tv, eu o reveja, e tentarei ficar menos dispersa.

Dave, ainda menino, se mostra alegre. Bom desenhista. Com um olhar já voltado para a matemática. Como poderão ver num desenho que faz na janela do ônibus. Um momento muito rápido no tempo, que além dele, só uma outra pessoa que capta. Ela é Becky. É amor à primeira vista. Mas seu destino já estava traçado. E as circunstâncias não apenas o leva a afastar-se do seu primeiro amor, como também leva a alegria de Dave embora. Para fugir da pressão com as zombarias, ele se devota aos estudos: da matemática para a Física. Talvez numa de provar que aquilo que vivenciou na loja de Balthazar, tenha uma explicação científica.

Quando Balthazar volta na vida de Dave, ele, a princípio, declina do poder que lhe é oferecido. Mas como também Becky volta ao cenário, Dave decide experimentar um pouco dos tais poderes. É quando entra em cena a vassoura ajudante. Sim, tal qual como Mickey, em “Fantasia”, Dave usa de magia para arrumar seu laboratório para receber Becky. Tal como o outro, é salvo pela chegada do Mestre. Balthazar quer urgência em fazer de Dave um Mestre. Até para cumprir de vez a sua missão. Mas também, porque só o sucessor de Merlin, é que conseguirá destruir em definitivo Morgana.

Acreditando que Dave sabe onde está a bonequinha russa onde Morgana está, Horvath persegue Dave. O que o leva a duelar com Balthazar. Bem, duelo entre Magos, para mim, um memorável, foi entre o Merlin e a Madame Min em “A Espadada era a lei”. Com isso, mesmo nas cenas de ambos pelas ruas de Nova Iorque, me peguei a rir lembrando do outro duelo. O que me levou novamente perder a atenção do filme.

E para salvar o mundo de um mal maior, Dave irá usar da magia que ainda desconhece aliada com seus conhecimentos em Física. Mas não mais estará preocupado em provar a todos que não estava louco. Querendo sim recuperar o tempo perdido ao lado da mulher amada. Onde me levou a lembrar de outro filme, sendo que esse mais recente, o “Como treinar o seu dragão“.

Esse é daqueles filmes que já poderiam ir direto para uma sessão da tarde na tv. Para mim, o que valeu foi o fato de me transportar para dois Clássicos da Disney: “Fantasia” e “A Espada era a Lei”. Além claro da música de Paul Dukas. Como também da pesquisa que me levou ao poema de Goethe. Algo que pode motivar aos Professores, em introduzir esse autor no currículo escolar. Contar aos seus alunos, o real motivo da inundação: um teor político. E é só por ai, que eu recomendaria esse filme. Já que mesmo partindo de uma bela ideia, nesse filme, ela se perdeu.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Aprendiz de Feiticeiro (The Sorcerer’s Apprentice). 2010. EUA. Direção: Jon Turteltaub. Roteiro: Doug Miro, Carlo Bernard e Matt Lopez. Baseado em história de Matt Lopez, Lawrence Konner e Mark Rosenthal e em poema de Johann Wolfgang Goethe. Elenco: Nicolas Cage (Balthazar Blake); Jay Baruchel (Dave Stutler); Alfred Molina (Maxim Horvarth); Monica Bellucci (Veronica); Toby Kebbell (Drake Stone); Jake Cherry (Dave Stutler – jovem); Peyton List (Becky – jovem); Robert Capron (Oscar); Nicole Ehinger (Abigail); Jen Kucsak (Broom); Gregory Woo (Sun Lok). Gênero: Ação, Aventura, Comédia, Drama, Fantasia. Duração: 101 minutos.

Salomon Kane – O Caçador de Demônios (2009)

Por: Fabio Guastaferro.
Para quem não sabe Salomon Kane é um personagem criado pro Robert Ervin Howard, criador também do personagem Conan O Barbaro, este com mais expressão. Hoaward antes escrevia contos fantásticos para revistas que anos mais tarde foram adaptados em quadrinhos, e dos seus quadrinhos veio os filmes. Salomon Kane, ou Salomão Kane, como foi publicado aqui no Brasil na revista A Espada Selvagem de Conan é a mais um de seus personagens que ganha as telas de cinema. Para curiosidade, Kull o Atlante, também é uma de suas criações que virou filme.

Para quem não sabe sou um grande apreciador dos personagens deste escritor que morreu em 1936, e tenho orgulho de uma coleção de quadrinhos publicados pela Abril jovem com quase 400 exemplares, muitos destes com as historias de Salomão Kane.  Quando fiquei sabendo sobre o projeto de se fazer um filme de um personagem, digamos, pouco expressivo, já que acredito, poucos aqui devem conhecer os quadrinhos deste, eu fiquei primeiramente surpreso, e depois com o pé atrás, mas ainda assim feliz pela oportunidade de ver nos cinemas um dos personagens que mais me agradou ler.

Infelizmente, como havia previsto, o filme deu uma distorcida na historia do herói, ou melhor, anti herói, criando para ele uma origem, e em minha opinião mudando um pouco a essência do verdadeiro personagem. No filme Salomão é um guerreiro conquistador que lidera um exercito matando e saqueando tudo que encontra pela frente. Logo ele é punido sendo entregue ao diabo, mas busca redenção pelos seus pecados se tornando um servo de Deus.  Isso no contexto do século XVI, época das navegações, Idade Media e Inquisição. Neste mundo a maldade anda solta pela Europa em forma de demônios, bruxas, vampiros, feiticeiros, e toda a horda de amaldiçoados que povoam as aventuras fantásticas.

O problema do filme que apesar de ter um ótimo personagem em minha opinião e o seu excesso de clichês, ele já começa de forma previsível, tentando focar na ação, que alias até que vai bem neste quesito mas destoa muito do roteiro, fazendo deste apenas um pretexto para lutas coreografadas. Além claro, de um dos piores clichês que eu acho, o do mocinho invencível, que enfrenta um exercito sem nem mesmo despentear o cabelo. Outro ponto pitoresco do longa foi o demônio transformers.  Os CGs entram é sai nas cenas meio que sem muita razão. Mas ainda assim, mantém o clima de ocultismo que permeia as historias nos quadrinhos, com a ajuda de uma ótima fotografia, trazendo aquele universo de destruição e maldade mais para próximo das HQs.

Aproveitando que falei sobre o personagem nos cinemas, vou me estender um pouco mais e falar sobre o dos quadrinhos que tem historias geniais com um apelo dramático incrível fora a construção do personagem que diferente do filme, é um fanático religioso disposto a matar em nome de Deus. O próprio se auto-intitula “O Veiculo da Ira de Deus”.  Infelizmente Robert E. Howard não escreveu a origem do personagem, já partindo diretamente para suas aventuras, assim como fez com outras de suas criações, e até onde vai meus conhecimentos nunca se publicou nada sobre o passado deste guerreiro espadachim. Tudo que se sabe que ele foi criado e treinado na arte da esgrima, se tornando mestre, assim como doutrinado na igreja puritana inglesa, e partiu pelo mundo executando os inimigos do Senhor. Diferente do herói mostrado no filme, Kane enfrentava muitos homens comuns e sempre em nome de Deus os matava sem piedade,  porem não era um guerreiro invencível, pois foi escravo por 2 vezes que esteve no continente africano.  Alem de enfrentar mal feitores, ele também enfrentou bestas feras como lobisomens,  vampiros, demônios súcubos bruxas e feiticeiros. Sempre tentando defender ou vingar a morte de um inocente.

Acredito que se o filme tivesse focado mais nas HQs poderia ter um ótimo roteiro, fazendo proveito da intolerância religiosa que até hoje mata-se e muito em nome de Deus. Assim, superando  outros personagens que tem temática parecida como Van Hellsing e Constantine.  Ao mesmo tempo em que me decepcionei com o filme fiquei feliz por me lembrar deste personagem que tanto apreciei ler, e ainda gosto muito.  Espero que com o filme volte a publicar HQs do personagem,  como as antigas. Até então vou reler as que tenho o orgulho de ostentar na prateleira.

http://www.cronicasdacimeria.hpg.ig.com.br/kane.htm – Um ótimo texto sobre o personagem para quem quiser saber mais.

Por: Fabio Guastaferro.

Salomon Kane – O Caçador de Demônios. 2009. França. Direção e Roteiro: Michael J. Bassett. Elenco: James Purefoy (Salomon Kane), +Cast. Gênero: Ação, Aventura, Fantasia. Duração: 104 minutos. Baseado em HQ de Robert E. Howard.

Nosso Lar (2010)

São surradas as comparações inevitáveis para qualquer filme baseado em literatura de sucesso, no caso especifico do filme Nosso Lar, há a dificuldade extra de condensar um conteúdo denso de ensinamentos e filosofias em  102 minutos, o que me deixou a impressão de a película ter sido digamos, um pouco didática demais. A opção de conduzir o filme na mesma sequencia do livro, com o recurso de narrativa em off reduziu o impacto dramático. André Luis (Renato Prieto) tinha mulher, 3 filhos, cachorro, boa casa era médico e tinha consultório, pacientes e empregados. Não era uma pessoa má, era egoísta e arrogante, vaidoso da sua profissão e viveu de forma a não desenvolver suas potencialidades de afeto, num ambiente que não favorecia isso. Ele era fruto dos valores, padrões e normas sociais de uma época  que davam aos homens formados academicamente e bem colocados financeiramente o status quase de super-herói, com direito a uma vida paralela. Sim, André Luis é mostrado como muitos pais de família que alguns de nós tivemos. Apesar de médico, não cuidava da sua própria saúde, era apreciador dos divertimentos glamurosos de uma época como bordéis, bebida e tabaco. Embora as cenas não nos mostrem excessos, os diálogos  tentam indicar isso.  Interessado pela família, mas não próximo dela, muito mais por um padrão de comportamento disseminado do que por  sua própria índole.

Creio que para os não espíritas e aqueles não familiarizados com o livro, faltou consistência  aos motivos da  ida de André Luis para o umbral, as cenas resumidas do crescimento da personagem e ilustrativas do  seu modo de vida na Terra não forma um link tão eficiente,  sendo necessárias várias voltas ao assunto através de explicações orais, válidas na literatura mas talvez não tão eficientes numa narrativa cinematográfica onde as imagens a substituiriam com mais impacto e apelo emocional. Para quem leu o livro, o filme materializa a imaginação que o texto original traz à mente, mas não sei exatamente o que ficaria retido na mente dos não leitores, valendo o mesmo para os não espíritas.

Existe algumas mensagens subliminares  no filme como:  que somos responsáveis por cada ação praticada e também pelas ações não praticadas advindas de uma falta de sensibilidade que nos levam à ignorância de seguir os ditames sociais por conveniência. Analisando-se por este lado, o umbral não seria um castigo para os maus, mas  uma ferramenta para uma tomada de consciência daquilo que se praticou, uma oportunidade de se encontrar  a essência, a sinceridade do nosso coração. Por outro lado a caridade (uma manifestação prática da nossa sensibilidade mediante às necessidades do próximo) renderá frutos ainda que praticada à revelia da nossa consciência.

Resumindo: a responsabilidade será sempre nossa e suas consequências serão mais ou menos dolorosas conforme o nosso grau de consciência daquilo que praticamos. Se isso fica claro para todos que assistem o filme tenho dúvidas, mas ficaria mais nítido a partir de uma outra interpretação do ator num contexto que priorizasse a carga dramática em relação ao tom didático e narrativo.

O primeiro e grande mérito do filme Nosso Lar, é o pontapé inicial na inclusão do Brasil no segmento dos efeitos especiais, que interagem muitíssimo bem com os elementos não digitais, os mesmos que podem ter deixado alguns atores tensos, pouco à vontade, sem naturalidade como por exemplo Renato Prieto -na pele de André Luis, assim como Fernando Alves Pinto na interpretação de Lísias. Helena Varvaki, a Zélia, esposa de André,  talvez tenha sido dirigida para uma interpretação mais contida que evidenciasse a diferença do seu comportamento  no  casamento com  André e posteriormente com – Ernesto (Nicola Siri)… Apenas especulações  para desempenhos que não me agradaram.

Uma dúvida que trouxe do cinema para casa foi a cena onde os desencarnados judeus na 2ª guerra, chegam ao Nosso Lar aparentemente sem passar pelo umbral, caminhando em grupos onde estavam outros poucos trazidos em macas… Teriam os seus sofrimentos nos campos de concentração os liberados desse estágio? Existe na prática judaica algo que isente o homem desse ambiente de expiação?

A direção é apurada e asséptica e tem alguns cuidados em mostrar a face ecumênica dessa colônia/cidade espiritual, onde visualizamos ícones de várias religiões, seja na decoração de ambientes ou no terço católico que Amélia personagem de Aracy Cardoso , o  tom economizadamente divertido que a trama carrega.  Essa mesma personagem que parece demonstrar a diferença entre ser bom e ser correto, afinal André Luis não era mau, não tinha compromisso de exercer de maneira efetiva a bondade e nos traz dúvidas quanto à sua própria correção, exatamente como nós que vivemos por aqui, o que sinaliza a plena empatia que essa  personagem poderia ter com o público e isso sobrou para  Rosanne Mulholland , vivendo Eloisa, uma  inconformada recém-desencarnada que não toma conhecimento  dos ensinamentos ministrados no Nosso Lar , não acreditando no que seus olhos vem, compreensivelmente,  investe naquilo que acredita,  em seus próprios desejos,  pois se ser bom é difícil, obedecer  o que não se entende pode ser muito complicado…  Ela é a personificação de uma diferença existente entre o espiritismo e demais religiões: o livre e pleno direito ao arbítrio, a ausência de proibições,  o que de certa forma confere ao espiritismo a aura mais de caminho filosófico do que propriamente religioso. Othon Bastos  (Anacleto, governador da cidade Nosso Lar)  Werner  Schünemann (que representa um Emmanuel  muito mais simpático que o apresentado no filme  Chico Xavier), Paulo Goulart (ministro do auxílio – Genésio) mostram muito talento e tem interpretações consistentes a despeito do pouco tempo na tela ou da proposta do filme. Também gostei muito das interpretações de  Lisa Fávero (Clarice, a filha mais velha)  e da menina Ana Beatriz Caruncho (a filha mais nova).

A trilha sonora embora eficiente não me transportou ao ambiente que meus olhos viram, Philip Glass ficou  aquém  do que já demonstrou  em “Notas Sobre um Escândalo” e “As Horas”.  Inevitável não lembrar de Brasília diante das vistas aéreas da cidade, por sinal muito bem realizadas. O umbral me remeteu  nojo do que ao terror, mas passa bem a idéia do terror de encontrar por lá situações mal vividas,  pessoas a quem ficamos “devendo” e violência. Mais um lugar pra se viver pessimamente, sempre de acordo com as nossas opções ainda que não conscientes .

Melhor assistir a esse filme como obra de ficção, permitindo uma iluminação espírita conforme o nosso entendimento tanto do filme quanto da religião (e para estes é fundamental buscar o livro após o filme) Afinal são tantas as fábula que habitam o universo cinematográfico e são incontáveis as aventuras onde o irreal e o inusitado permitem que o mocinho saia vencedor ao final… Com relação aos críticos mais ferrenhos do cinema nacional gostariam de vê-los “pegar leve”, pois sendo um tema transcendental,  é mais uma alternativa às fórmulas pobreza-favela-violência-sexo-bobagens, somos criaturas em evolução sob qualquer aspecto e o nosso cinema também.

Para os leitores deste site que passam por aqui interessados numa nota para o filme, dou 8 pelo conjunto da obra.

ficha técnica:

título origina: Nosso Lar

direção: Wagner de Assis

atores: Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Othon Bastos, Paulo Goulart, Rosanne Mulholland, Ana Rosa, Aracy Cardoso,  Chica Xavier, Inez Viana, Werner Shünemann, Clemente Viscaíno, Helena Varvaki, Selma Egrei, Lu Grimaldi,  Rodrigo dos Santos, Nicola Siri, Lisa Fávero

duração: 103 minutos

gênero: drama

site oficial: www.nossolarofilme.com.br

BICHO DE SETE CABEÇAS, Rodrigo Santoro e algo mais…

Se vocês gostarem do filme, indiquem para os seus amigos. Se não gostarem, indiquem para os inimigos. Mas, por favor, indiquem. Rodrigo Santoro
BICHO DE SETE CABEÇAS, Rodrigo Santoro e algo mais…

Abro este espaço para  registrar a minha admiração e meu carinho ao jovem e talentoso ator brasileiro Rodrigo Santoro. Ele é o cara, como se diz na linguagem moderna  e não se pode deixar de elogiar quem é merecedor, ainda mais quando é um produto nacional tipo exportação.

A primeira vez que vi Rodrigo Santoro na telona, foi atuando em  seu primeiro longa, o BICHO DE SETE CABEÇAS, e me deixou impressionada, com a certeza de seu talento e apostando que ele teria um futuro promissor. Minha curiosidade de  fã levou-me a pesquisar a sua biografia. Rodrigo Junqueira dos Reis é de Petrópolis,   nasceu no dia 22 de agosto de 1975 e o ‘Santoro’ é sobrenome de fantasia. Estudou jornalismo na PUC do RJ e cursou  a Oficina de Atores da Rede Globo, mas em seu primeiro teste para a minissérie Sex Appeal ele foi reprovado, porém naquele mesmo ano conseguiu uma ponta na novela Olho no Olho, depois, entrou no elenco de Pátria Minha, e a partir daí não parou mais, e decolou para a carreira internacional.
Rodrigo Santoro atuou internacionalmente pela primeira vez no ano de  2005, em um comercial de um perfume ao lado da atriz Nicole Kidman. Depois se deu ao luxo de recusar  convite para protagonizar a novela Bang Bang da Rede Globo, aí ele já despontava  carreira mundial atuando na terceira temporada de LOST que estreou no Brasil em 2007, e mesmo sem tempo aceitou também o convite para a  minissérie  Hoje é Dia de Maria. No fim de 2006 foi indicado para o ranking dos homens mais sensuais do planeta, promovido pela revista norte americana People. Ele foi considerado o MELHOR ator no Primeiro Festival Iberoamericano de Cine “Cero Latitud” do Equador. Ganhou também prêmios de melhor ator em vários outros festivais de cinema do Brasil e do Exterior.
Quando a história é boa, o ator ótimo, e a direção maravilhosa, o resultado só podia ser uma obra de arte. O filme Bicho de Sete Cabeças é ficcional, mas pode-se assistir como um documentário, baseado em fatos reais do próprio autor do livro Canto dos Malditos,  o brasileiro Austregésilo Carrano Bueno, no qual ele  conta sua experiência nos hospitais psiquiátricos e denuncia os absurdos cometidos diariamente nessas instituições.

A expressão Bicho de Sete Cabeças tem origem na mitologia grega, mais precisamente na lenda da Hidra de Lerna, monstro de sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Matar este animal foi uma das doze proezas realizadas por Hércules.

A expressão ficou popularmente conhecida, no entanto, por representar a atitude exagerada de alguém que, diante de uma dificuldade, coloca limites à realização da tarefa, até mesmo por falta de disposição para enfrentá-la.

A adaptação e a história real, em certos momentos, fundem-se.  Austragésilo (autor) e Neto (personagem), adolescente de 17 anos, usuário de maconha e outros medicamentos de uso restrito, passa por maus bocados quando o seu pai depois que encontrou a erva  em sua mochila, resolve interná-lo em um  hospital psiquiátrico, sem ao menos comunicá-lo. O rapaz só descobriu ao chegar lá. O pai,  pensou que estaria fazendo o bem tentando curá-lo do ‘vício’, mesmo sabendo que o moço era apenas usuário. Neto foi transferido de um hospital a outro sem ao menos ter sido examinado, e foi submetido a muitas torturas e eletrochoques. Isso durou, aproximadamente, três anos, até que, desesperado, ele ateou fogo em sua própria cela, para chamar a atenção das autoridadess por tudo o que estava passando, e conseguiu. O ato despertou seu pai, que depois o tirou do manicômio. Neto acabou sofrendo muito, inclusive nas mãos da polícia, que lhe proporcionou doses extras de humilhação e espancamento. As conseqüências das torturas sofridas nos hospitais tornaram-se irreversíveis. O moço ficou impotente e meio idiota.

O título do filme vem da canção Bicho de Sete Cabeças interpretado por Zeca Baleiro na qual a própria letra é referência aos acontecimentos trágicos dessa história protagonizado  por  Neto (Rodrigo Santoro) e seus amigos moradores da periferia de São Paulo, onde a historia se passa. Sem recursos financeiros, o lazer e o entretenimento, dos jovens   era pichar muros e fachadas públicas, ou distrair-se fumando maconha nas madrugadas, até que um dia o rapaz cai nas mãos da polícia.  Maconha, por lei, é droga ilícita, considerado crime. Contrário do o cigarro, ainda dito charme da burguesia. O vicio da mãe do rapaz interpretado por atriz Cassía Kiss, é menos hediondo do vício de seu pai, vivido pelo ator Othon Bastos, bebedor de cervejas, vendidas livremente nos bares, mercados, praias, rotuladas como drogas lícitas. Hoje só considerado crime “SE dirigir, NÃO beba!” Assunto que daria muitas filosóficas defesas de teses.

No hospital psiquiátrico é que começa a tortura e a tragédia do moço; lugar que deveria salvá-lo, é que acaba destruindo-o aos poucos; um lugar horrivelmente real, verdadeira fábrica de loucos, sujo, pessoas maltratadas, sem alimentação, sem cuidados pessoais, em péssimas condições de higiene, e diariamente dopadas, deixando seqüelas para toda a vida.

A trilha sonora foi  composta por canções de diversos estilos, desde mpb, rock, rap e punk.
Bicho de Sete Cabeças
Zeca Baleiro


Não dá pé
Não tem pé, nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem nem talvez ter feito
O que você me fez desapareça
Cresça e desapareça…
Não tem dó no peito
Não tem jeito
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem pé, não tem cabeça
Não dá pé, não é direito
Não foi nada
Eu não fiz nada disso
E você fez
Um Bicho de Sete Cabeças…
Não dá pé
Não tem pé, nem cabeça
Não tem ninguém que mereça (Não tem ninguém que mereça)
Não tem coração que esqueça (Não tem pé, não tem cabeça)
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito (Não dá pé, não é direito)
Não tem nem talvez ter feito (Não foi nada, eu não fiz nada disso)
O que você me fez desapareça (E você fez um)
Cresça e desapareça… (Bicho de Sete Cabeças)
Bicho de Sete Cabeças!
Bicho de Sete Cabeças!
Bicho de Sete Cabeças!
(Repetir a letra)

Bicho de Sete Cabeças foi dirigido por Laís Bodanzky e  o autor do  roteiro é Luiz Bolognesi. Laís teve muita dificuldade para captação de recursos porque os patrocinadores  não queriam ver o nome da marca vinculado a um filme que falava de drogas, preconceito e hospícios. Mesmo com poucos recursos ela conseguiu fazer bonito, este maravilhoso filme.

Assisti a uma reportagem na tevê educativa falando do projeto Cine Tela Brasil sob a responsabilidade dessa cineasta e do seu marido Luiz Bolognesi,  cujo objetivo seria exibir  sessões gratuitas itinerantes em cidades dos estados brasileiros de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.  É claro que o projeto tem um patrocinador, mas estou comentando isso porque a ideia de levar o cinema aonde não chega e para quem não pode pagar é formidável. O Cine Tela Brasil funciona dentro de um caminhão que transporta todo o equipamento profissional,  necessário, além de cadeiras que são montadas e desmontada a cada exibição, (quatro sessões por dia) e para a minha alegria, sempre com exibição de um filme brasileiro.  Não sei se o projeto ainda existe, mas de uma coisa tenho certeza: por onde passou, fez muita gente feliz, gente que nunca havia assistido a um filme, viveu essa experiência única.
Rodrigo Santoro, Cássia Kiss, Othon Bastos, elenco de primeira, assim como a montagem o roteiro, a fotografia, a música, tudo nos conformes. Considero Bicho de Sete Cabeças um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Cenas marcantes, emocionantes, e a realidade de muitos jovens de maneira crua e real.
Penso que todo brasileiro deve se orgulhar do seu país e da sua gente quando alguém brilhantemente o representa mostrando que o Brasil é tão capaz quanto outras nações destacando-se na ciência, nos esportes, nas artes em geral, fazendo bem o dever de casa em qualquer área.

Desejo a Rodrigo Santoro tudo de bom, que continue brilhando em sua carreira e nos representando muito bem com todo o seu talento. Nota 10 para ele e para este filme!

Aplausos.
*
Para quem gostou de Bicho de Sete Cabeças deve prestigiar também “AS MELHORES COISAS DO MUNDO” que está na lista dos filmes nacionais pré-candidato ao Oscar 2011. Torçamos.

Karenina Rostov

Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009)

Coco Chanel era para mim, muito mais uma marca de Alta Costura. De uma moda Clássica. Que mais que uma roupa, a menção do seu nome, me vinha a mente Jackie Kennedy. Também era a de um Perfume, o Chanel 5. Que Marilyn Monroe imortalizou no imaginário sedutor de várias gerações.

Com o filme “Coco Antes de Chanel“, foi quando conheci de fato a mulher. A sua trajetória de vida até fazer o seu nome ser conhecido e respeitado mundialmente. E o fez de um jeito tão inovador, que eu coloquei como subtítulo ao escrever sobre esse filme, esse: Uma Mulher a Frente do Seu Tempo. Eu fiquei tão encantada com ela, que fui dura com a performance da Audrey Tautou. Porque eu queria me emocionar das lágrimas rolarem naquela cena final com ela na escada.

Em “Coco Chanel e Igor Stravinsky” temos uma fase seguinte. Nesse, é como se o grande diamante bruto fora lapidado nos mostrando todo o seu esplendor. Coco Chanel agora esbanja elegância. Mais amadurecida. Ciente do seu poder de sedução. E porque não, do seu poder de intimidação. Pela época, uma mulher que não seguia o padrão comum, com relacionamentos livres de papéis e igrejas, tinha que ser muito segura de si.

Não gosto muito de fazer isso, mas não deu para não comparar as duas atrizes: Audrey Tautou e Anna Mouglalis. Não deu para não pensar se essa também teria sido brilhante no filme anterior. Mas como Anna Mouglalis tem um porte de uma mulher já amadurecida – contrário da Tautou que parece uma menina travessa -, creio que não. E isso me fez querer rever “Coco Antes de Chanel”, para então ver se eu daria uma nota melhor para a performance da Tautou.

Agora, confesso que me decepcionei um pouco com essa continuação da vida de Coco Chanel. Não deveria, até pelo título que já denota que o filme traria os dois – Chanel e Igor -, como protagonistas. É que eu queria que mostrasse mais do trabalho dela. Do seu lado profissional. Dela vestindo grandes damas da sociedade da época. Entretanto, ao mesmo tempo, o filme me fez continuar encantada por Coco Chanel. Conto mais adiante.

Coco Chanel e Igor Stravinsky” dá um destaque maior a Igor Stravinsky. A sua crise existencial. A sua traição, já que mesmo casado com Katarina (Yelena Mozova), teve e manteve o romance com Chanel. Muito bem interpretado por Mad Mikkelsen. Mesmo assim não me levou a gostar desse músico. Para mim, o filme o mostrou como um autor de uma obra só, a “A Sagração da Primavera“. A Ópera onde foi vaiado em sua estréia em Paris. Onde Chanel colocou seus olhos nele. Igor, com mulher e filhos, pedira exílio à França, por conta da Revolução Russa.

Mais. No filme, vemos que Igor ganhou mais popularidade porque Chanel, secretamente, patrocinou suas viagens com a Ópera. Além de levá-lo, com a família, para morarem em sua casa de campo. Onde teria tranquilidade para compor.

Chanel só o procura como uma mulher, após retirar o seu luto por Arthur ‘Boy’. E é quando vemos o seu talento também para a decoração de interiores. O interessante foi que essa tomada em “dar um colorido a sua vida”, vem mesmo como um pequeno duelo com Katarina. Rivalidade entre duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem.

Aliás, Katarina mesmo parecendo ter saído da escola em “O Sorriso de Mona Lisa” – alguém que nasceu para ser uma perfeita dona de casa -, ganhou a minha admiração. No filme, se nota que ela tinha estudos, já que repassava, que revia os erros nas composições do marido. Como ela bem disse a Chanel, ela, Katarina, era a crítica mais sincera do trabalho do marido.

Katarina ainda mantém por um tempo, o papel de esposa que finge que não vê a traição do marido. Mas quando tal romance fica visível até para seus filhos menores, é chegada a hora de uma tomada de decisão. De Igor escolher com qual das duas ficaria.

Chanel diz a ele, que ele não merecia ter duas mulheres. E no caso em questão, as duas. Para Igor, as duas se completavam no papel de uma perfeita esposa para um homem bem egocêntrico, e inseguro. Elas eram suas colunas de sustentação. Igor não as respeitava como pessoas. No caso de Chanel, a considerava uma mera lojista. Quanto machismo! Eu amei quando Chanel diz a ele: “_Eu não sou sua amante!” E estava certa! Se ali, naquela relação, alguém estava traindo alguém, era ele, não ela.

Eu gosto de filmes biografias. Claro que Diretor e/ou Roteirista, tem a liberdade em contar a estória do seu jeito. Nesse filme, seria em mostrar um romance real entre duas personalidades tão distintas, tão antagônicas. Não posso dizer que não valeu ter visto “Coco Chanel e Igor Stravinsky”. Valeu sim. Como também me deixou vontade de ver um terceiro filme, e com a Anna Mouglalis interpretando Coco Chanel. Sendo que nesse outro filme, detalhassem mais Chanel em sua Maison. Esse realçou mais seu lado perfeccionista até com seus funcionários.

“Coco Chanel e Igor Stravinsky” é um bom filme. Mas o é para um público bem específico. Os adoradores dos de tipo blockbuster, melhor passarem longe desse. Eu até posso rever, mas será para rever a excelente atuação da Anna Mouglalis.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Coco Chanel e Igor Stravinsky. 2009. França. Direção: Jan Kounan. +Elenco. Gênero: Biografia, Drama, Romance. Duração: 118 minutos. Baseado no livro homônimo, de Chris Greenhalgh.

Curiosidades:
- A atriz Anna Mouglalis é umas das musas de Karl Lagerfeld. Sempre circula com vestidos da Maison Chanel, grife da qual é embaixadora desde 2002.

- Todo o figurino de Anna Mouglalis é assinado pela Maison Chanel e foi feito especialmente para o longa, em um processo de criação que envolveu de perto Karl Lagerfeld, no comando da grife desde 1983.

- Foi durante seu romance com Stravinsky que Chanel lançou seu icônico perfume Chanel Nº5.A

Uma Família Bem Diferente (Breakfast With Scot. 2007)

Não gostei desse título dado no Brasil: “Uma Família Bem Diferente”. Por acentuar, por enfatizar que há diferenças no tocante de uma relação casal com filhos formando de fato um Lar. Também porque assim continuam a propagar os preconceitos. Poderiam sim, terem traduzido literalmente o título original – Breakfast with Scot. Não apenas porque é parte do contexto da estória, e tem uma das cenas mais comoventes. Uma Família, no sentido de um Lar, primeiro não tem que vir de laços consanguíneos. Depois, não tem que ser como manda a tradição ocidental: um casal hetero com seus filhos de sangue.

Em “Uma Família Bem Diferente“, um menino, o Scot, perde a sua mãe de sangue. Como ela deixara como tutor seu namorado, Billy, que nem é o pai de Scot, ele é procurado. Enquanto o procuram, a juíza delega Sam, irmão de Billy, para cuidar do menino. A juíza merece aplausos por estar ciente da relação de Sam com Eric. Billy só se interessa pelo dinheiro deixado para Scot, por sua mãe.

Abro um parêntese para esse legado. É que, se a grana tem uma importância em quem ficará com Scot, ficou sem maiores detalhes. E Seguro, pelo o que eu sei, não é pago se quem o fez, morreu de overdose. Enfim…

Eric é pego de surpresa com essa decisão. Embora sabendo que não tem escolha, tenta argumentar com Sam. Fazendo um drama em terem uma criança em casa. Ele que primazia em manter uma conduta super discreta, com a chegada de Scot na vida deles, se verá tendo que enfrentar velhos fantasmas. Temores desde a infância, por bullyings sofrido por outras crianças. Sam já é mais desencanado.

Por conta disso, a estória do filme coloca Sam como o pai mantenedor, e que só intervém numa impor uma autoridade em meio ao caos. Embora Eric também trabalhe fora – comentarista de hóquei para um canal de tv -, ficará aos seus cuidados, levar e buscar Scot para a escola; comprar roupas; alimentá-lo… Enfim, seguindo uma tradição… será uma mãezona para o menino.

Como citei antes, pela postura discreta, Eric acreditava que em seu trabalho, só quem sabia da sua homossexualidade era uma amiga. Por Scot, irá se confrontar com seu chefe preconceituoso.

Para surpresa de Eric, Scot é totalmente desencanado da sua sexualidade. Deixando aflorar seu lado feminino, no vestir, no cuidado com a pele, gostando de se maquiar… Se antes de vê-lo, Eric já sofria por um futuro gavião-no-pedaço… ao conhecê-lo, ficou apavorado. Mais. Com Scot ao lado, para ele era também contar ao mundo que era gay. A grande questão, era que Eric não digeria bem o preconceito das pessoas.

Scot acaba trazendo uma revolução na vida de todos. O que levará a essência de cada um deles, demarcar um caminho a seguir. Como com o menino briguento, da casa vizinha, que sem o Scot, seria um forte candidato à prática do bullying. Scot, de um único “t” veio como uma criança frágil, mas mostrará uma grande força interior…

Breakfast With Scot” não é um filme para descobrir o final, mas sim para acompanhar todo o crescimento, ou não tão amadurecimento assim, dos personagens. Para refletir que enquanto se olhar com preconceito para aquele que quer assumir a sua homossexualidade, ficará intimidado. Tendo até quem sofra por isso. Por vezes,  a pressão é tanta, que vestir uma armadura não basta, se fazendo ver o em torno com lentes cor de rosa. E não é fuga, é se dar esse privilégio.

Eric, Sam e Scot vieram nos mostrar que também podem ser uma família mais que perfeita. Não percam! O filme é ótimo, para ver e rever! Até por ser mais um a mostrar que um casal homo também serão excelentes pais/mães, como o “De repente, Califórnia“.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Meu Malvado Favorito (Despicable Me). 2010

Não faço parte da corrente de que o meio influencia negativamente uma pessoa. A Lei da Ação e Reação dependerá da essência. A resposta dela até pode levá-la por um tempo a cometer mal feitos, mas seu interior fica quase a clamar por uma mão amiga que o faça mudar de vida, de lado.

Em ‘Meu Malvado Favorito‘ temos dois exemplos de reações contrárias ao meio. De um lado, Gru, o malvado em questão. Do outro lado, três menininhas órfãs: Margo, Edith e Agnes.

Ao longo do filme, em flashback temos um pouco da infância de Gru. Uma criança que clamava pela atenção, carinho, elogio da indiferente mãe. Essa, muito mais preocupada com as manchetes das Revistas e das Tvs. Naquela época, a Corrida Espacial era um dos assuntos em evidência. Com isso, os astronautas tornavam-se os heróis de algumas crianças. E Gru era uma delas. Gru, se não conseguiu chamar a atenção da mãe sendo um bom garoto, cresceu como um cara fechado para o mundo. Sendo que as maldades feitas na fase adulta, não passavam de maus feitos de um meninão.

Ser motivo de orgulho para a sua mãe ainda era forte em si. Só deixaria de dar tanta importância a isso, quando finalmente amadurecesse de fato. E Gru passou por essa transformação, por algo inesperado.

Ainda por esses flashback, creio que o autor ao colocar um ritmo musical do momento, preferiu a Bossa Nova. É quando Gru ouve Garota de Ipanema. Não deixou de ser uma bela homenagem. Mas poderiam ter escolhido outra música mais apropriada com o contexto da estória. A menos que quiseram dar um caráter homossexual ao personagem. O que estaria errado. Primeiro, que paternidade/maternidade independe de sexo. Depois, é sempre benvindo o ato de adotar alguém, pela quantidade de crianças abandonadas.

Gru, nas suas tentativas frustradas de mostrar que era um grande vilão, como também de mostrar a mãe que estaria numa grande manchete… tenta pedir um empréstimo a um certo banqueiro. Enquanto espera a sua vez, é importunado por um jovem nerd, Vector. Gru quer a grana para criar uma arma que lança um raio encolhedor. Como não consegue o dinheiro, rouba uma de outros cientistas. E Vector rouba dele.

Vector é fissurado pelo mundo marinho. Sem sofrer tanto por uma rejeição paterna/materna como Gru, ele quer mais é brincar de ser um menino mau. De se isolar do mundo em seu QG com tudo que a tecnologia pode lhe dar em conforto, segurança, e como não poderia deixar de ser, muita, mais muita diversão.

Diferente de Gru, que se cercou de vários serezinhos, Vector prefere ficar sozinho. Para Gru, os amarelinhos eram mais que servos diante de um rei. Eram como uma grande platéia ovacionando um grande astro.

Carência, rejeição, solidão, são os principais temas dessa estória. Mas não vivenciadas apenas por esses dois vilões. As três órfãs também o sentem. E como já vacinadas por conta da malvada dona do orfanato, eles dois serão fichinhas para elas. Com um porém, é que elas não sabem do caráter criminoso deles.

E como elas entram no meio dessa contenda? Desses dois mostrarem ao mundo quem é o grande vilão.

Tudo começa por acaso. Após várias tentativas de entrar no QG do Vector, Gru vê que elas tem passe livre. Por serem  obrigadas a venderem biscoitos, e mais, por terem uma cota diária a ser vencida, as três são persistentes. Vector, como uma criança grande, quer mesmo é comer os biscoitos. Não fica freguês por caridade, mas sim por comodidade. A princípio, pareceu que era por ter companhia de pessoas no eu QG, mas com o desenrolar, isso não foi adiante. Eu teria gostado mais que assim fosse. Até pelo teor da estória – adoção -, elas não se veriam diante do impasse de escolher por um pai entre os dois, já que Vector ainda era bem infantil para isso.

Gru então se candidata para ser o pai delas. Trapaceia na ficha, para conseguir levá-las logo para a sua casa. Consegue. E ai variamos do riso a emoção com esse quarteto: Gru, Margo, Edith e Agnes. Eles conquistam o nosso coração. Contar mais, é tirar o prazer de ver o desenrolar dessa bela e divertida estória de adoção. Mas que fica também a reflexão: quem adotou quem?

Não deixem de ver. O filme é muito bom. E nem faz diferença em ver sem o 3D. Pois só irá perceber que vem com essa tecnologia, com as cenas já na subida dos créditos, no final do filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Uma noite em 67

Por: http://notobviouscinema.wordpress.com/

Há quarenta e tantos anos boa parte da população brasileira deixou de lado a dureza de viver na ditadura e se encantou pela estória de um rapaz que, oprimido por uma namorada que só pensava em casar, saiu pelas ruas pensando na vida e acabou descobrindo a alegria na liberdade. Transmitida ao vivo pela televisão, a estória foi contada por um narrador que com seu sorriso sedutor arrancou aplausos de uma plateia que no início não parecia disposta a um assunto tão frívolo para aquela época de passeatas e discussões politizadas.

Esta cena é um dos pontos altos do documentário Uma Noite em 67 que chegou aos cinemas: Caetano Veloso trouxe um conjunto argentino (Beat Boys) com guitarras elétricas a um festival de música popular brasileira- quase um sacrilégio na época. Tinha tudo para dar errado. Mas ao contar do rapaz com uma namorada monotônica (“se eu tomo uma Coca-Cola ela pensa em casamento”) que descobre a beleza ao sair andando pelas ruas sem “nada no bolso ou nas mãos” e decide seguir vivendo com o “peito cheio de amores vãos”, Caetano surpreendeu e cativou a plateia que lotava o teatro – e a nós que assistíamos pela televisão – fazendo com que todos se juntassem a ele perguntando: “por que não?” [*]

Uma noite em 67 retrata um momento único na história: numa época ainda não monopolizada pelas emburrecedoras telenovelas, a televisão dedicava um espaço nobre à música. E naquele ano um grupo de intérpretes mal saídos dos vinte anos e ainda sendo descobertos pelo povo se viu reunido em um festival que havia se tornado um dos maiores eventos daqueles dias. Afinal, passados 43 anos, os nomes soam familiares: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Rita Lee (na época meramente uma integrante dos Mutantes), o quarteto MPB4, Edu Lobo, Elis Regina e o ainda Jovem Guarda Roberto Carlos.

Não espere nada de inovador no formato de Uma noite em 67: o filme é uma sequência de depoimentos dos sessentões que fizeram aquele evento e cenas do festival. O ponto positivo é que a maior parte dos depoimentos (de jurados, intérpretes e especialmente do produtor) é interessante, com boas revelações – algumas surpreendentes, como o que aconteceu com Gilberto Gil nos minutos que antecederam sua apresentação final, e um motivo pelo qual Chico Buarque teria ficado fora da Tropicália.

As músicas que se destacaram no festival são mostradas sem muitos cortes, e isso é uma das virtudes do filme: os depoimentos te deixam curioso para ouvir a música depois que você fica sabendo de alguns detalhes. E a vencedora Ponteio, de Edu Lobo, tem até direito (merecido) a um bis que não é repetitivo.

Tudo isso é ótimo, mas se eu tiver que escolher um motivo para recomendar o filme fico com outra coisa: as cenas que mostram as entrevistas feitas nos bastidores do Teatro Paramount. Você poderá ver os entrevistados sessentões ainda jovens, poderá se deliciar com as perguntas dos repórteres Reali Jr. (que chama Caetano de Veloso) e Cidinha Campos (com pelo menos um momento constrangedor). Mas o melhor é ver a absoluta confusão da cena: enquanto rola uma entrevista, captada por uma câmera que parece estar alguns andares acima, uma multidão de cantores e músicos que esperam sua vez de ir ao palco e de fotógrafos e repórteres atrás de notícia se mistura a uma multidão de pessoas que se movimentam sem que se possa ter a menor ideia do que fazem ali.

Estou me segurando para não escrever mais sobre o filme sob risco de entregar alguma cena importante e estragar a surpresa. O que não me impede de escrever um pouco sobre o que eu acho deste festival.

O festival de 67, como diz seu nome, foi um festival de música – e teve realmente ótimas músicas com arranjos inovadores. [**] Para mim, no entanto, o que chamou a atenção foi que os cinco primeiros colocados tinham letras fantásticas. A poesia de Ponteio, o livre fluxo de pensamento de Alegria, Alegria, a metáfora complexa mas facilmente decifrada de Roda Viva e, coincidentemente, duas letras que começam eufóricas e mergulham no fundo do poço: a esperança que se transforma em dor em Maria Carnaval e Cinzas, a camaradagem que se banha em sangue em Domingo no Parque.

Quanto ao resultado do festival, descobri surpreso que o jurado Sergio Cabral [***], apesar de ter votado em Ponteio, pensou melhor e acabou preferindo a música que por mim deveria ter vencido o festival.

O site do filme, por sinal, é muito bem feito.

[*] Alegria, Alegria traz o que provavelmente é a mais rica e poética descrição de bancas de jornais jamais escrita. É nelas que “o sol … me enche de alegria e preguiça”, que “o sol de reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas” e em “Cardinales bonitas”. Evidentemente que a letra de Caetano não é assim tão literal – pra início de conversa O Sol era o nome de um jornal não alinhado. E a namorada, afinal, pode ser outra coisa: naqueles tempos em que se cobrava uma postura política com a mesma insistência de uma solteirona desesperada, a letra pode também mostrar que o jovem não quer marchar (ao contrário, ele caminha, e contra o vento) nem abraçar ideologias (decide ficar “sem livros e sem fusil”).

Alegria, Alegria é figurinha fácil no YouTube. Escolhi este clip por ter imagens de Caetano no Festival e – principalmente – por mostrar O Sol.

[**] destaque para o arranjo orquestral de Domingo no Parque e os arranjos vocais de Ponteio e Roda Viva.

[***] trata-se do SC e não do filho dele.