Narradores de Javé (2003)

Somente uma ameaça à própria existência pode mudar a rotina dos habitantes do pequeno vilarejo de Javé. É aí que eles se deparam com o anúncio de que a cidade pode desaparecer sob as águas de uma enorme usina hidrelétrica. Em resposta à notícia devastadora, a comunidade adota uma ousada estratégia: decide preparar um documento contando todos os grandes acontecimentos heróicos de sua história, para que Javé possa escapar da destruição. Como a maioria dos moradores são analfabetos, a primeira tarefa é encontrar alguém que possa escrever as histórias.”

No filme podemos notar um grande confronto de ideias um processo de formulação da história a partir de inúmeras histórias transferidas e contadas através da oralidade por vários sujeitos que vivenciaram a formação e construção da cidade de Javé.

No entanto percebemos a dificuldade do personagem “Antônio Biá” para a construção da história de Javé; se deparando com diversas histórias de um mesmo local, ou seja, de Javé, dificultando sua compreensão e assimilação de tal contexto.

Através da análise do filme nos deparamos com outra problemática com relação ao discurso, pois cada indivíduo queria contar a sua história com objetivo de retratar o que era importante para ele próprio, não se preocupando com a história propriamente dita de Javé.

O próprio título do filme nos leva a uma compreensão da função do historiador dentro do processo histórico, pois nós como historiadores devemos fazer uma narração dos fatos e acontecimento, buscando a veracidade de tais assim afirma Michelet, pois o historiador deve tem por base a investigação da “verdade” dos fatos.

Na aurora da análise podemos compreender que para construir a história de um local, cidade ou nação devemos analisar os diversos discurso.

O personagem “Antônio Biá” representa muito bem o papel do historiador, o qual deve ter como objetivo a narração dos fatos relevante do processo. Pois a história é um processo que parte do individual para a coletividade. No entanto a história de um local afirma-se a partir de uma memória coletiva de um povo ou nação.

No prisma da analise podemos afirmar que o historiador não deve ser parcial, buscando os vários ângulos de uma mesma discussão, pois a história pode ser narrada por vários vieses e por diferentes perspectivas.

Portanto o historiador deve promover um trabalho o seja um resgate da história, absorvendo os diferentes discursos de um mesmo acontecimento, chegando a uma conclusão onde se investiga o todo em uma perspectiva coletiva de diferentes versões de um mesmo fato; pois na história não há uma “verdade pronta e acabada” se pautando em um longo processo de transformação e renovação.

Dhiogo José Caetano

Narradores de Javé. 2003. Brasil. Direção e Roteiro: Eliane Caffé. Elenco: José Dumont (Antônio Biá); Matheus Nachtergaele; Jorge Humberto e Santos; Gero Camilo; Nelson Dantas; Luci Pereira; Nélson Xavier (Rui Resende). Gênero: Drama. Duração: 1o0 minutos.

PIRANHA 3D

O remake de Alexandre Aja é tudo o que o filme “PIRANHA” de Joe Dante tentou ser e não conseguiu.

Embora sem o charme característico e nostálgico das películas das décadas de 70/80, a nova realização brinca com clássicos e cults daquela época sem temer o exagero e o explícito. A começar pelo cartaz que remete imediatamente à pintura de Roger Kastel que realizou o famoso desenho de “TUBARÃO”. A citação ao filme de Spielberg não para aí e (pasmem!) o ator Richard Dreyfuss aparece na sequência inicial na pele de uma cópia do personagem que o consagrou. Matt canta a mesma canção (“Show me the way to go home”) entoada pelo trio de caçadores da fera naquele filme antes de ser devorado no rio. É como se o diretor quisesse dizer: O tempo de “JAWS” já passou. Abram caminho para o monstro do século XXI!

Christopher Lloyd revive o cientista louco de “DE VOLTA PARA O FUTURO” envolvido em cenas inacreditáveis com suas descobertas a respeito de um cardume de peixes carnívoros pré-históricos libertados de cavernas subterrâneas por um tremor até um lago onde acontece uma festa de adolescentes com os hormônios à flor da pele.

Nem “FOME DE VIVER” escapa ao escracho com “Flower Duet” de Lakme de Leo Delibes como música de fundo para um balé erótico submarino entre duas mulheres completamente nuas. Impossível também não lembrar os serial-killers como Jason (“SEXTA-FEIRA 13”) ou Michael Myers (‘HALLOWEEN”) quando surgem as mortes horripilantes e sucessivas punidas com os exageros da luxúria.

O efeito 3D ainda que convertido, funciona bem em várias sequências valorizando a carnificina e o sexo sem poupar carne dilacerada e peitos turbinados.

Quem for ao cinema sem esperar sutilezas e atuações de primeira linha ou um roteiro próximo ao verossímil e encarar o filme como uma brincadeira despretensiosa que homenageia de verdade os longas-metragens citados e seus clichês, vai se divertir bastante. Afinal, cinema ainda deveria ser a maior diversão.

Carlos Henry

Piranha 3D (Piranha 3D). 2010. EUA. Direção: Alexandre Aja.Elenco: Jessica Szohr, Elisabeth Shue, Ving Rhames, Christopher Lloyd, Adam Scott, Richard Dreyfuss. Gênero: Comédia, Terror, Thriller. Duração: 89 minutos.

Um Segredo (2007)

Por: Viviane Cavalcanti.

Sabe quando você senta para assistir a um filme, sem nenhuma pretensão, e ele é totalmente diferente do que imaginava? Pois é, Un Secret (“Um Segredo” – 2007) de Claude Miller, é desses filmes que surpreendem… Não apenas pela história que narra, mas pela fotografia impecável, pela situação vivenciada por cada personagem, pela sensualidade, pelo figurino e cabelos impecáveis.

O filme é baseado num romance autobiográfico do psicanalista francês Philippe Grimbert e mostra a história de François (o próprio Philippe), um garoto que vive feliz ao lado de sua família “perfeita” ambientada no pós-guerra, em meio às bombásticas notícias dos campos de concentração, perseguição e extermínio dos judeus. Seus pais são atletas e François, que nasceu abaixo do peso, não consegue satisfazer o sonho do seu pai em vê-lo treinar arduamente também.


Vivendo no seio de uma família judia, o pequeno François presencia brigas, mentiras e segredos. Ele próprio é possuidor de um desses: ele cria para si um irmão imaginário. Entre mergulhos perfomáticos e acrobacias fantásticas de ginástica olímpica, o alterego de François é capaz de fazer exatamente o que ele não faz – ou não tem coragem de realizar.

Com o tempo, já adolescente, acaba descobrindo um passado escondido e silenciado por todos, sendo ele o único a desconhecer: seus pais eram, na verdade, …


Trata-se de um filme belíssimo, que merece ser visto e revisto várias vezes, por sua abordagem incrível e realidade muitas vezes cruel. Nele, vemos que o nazismo não é o grande e único vilão da História, mas também os aspectos humanos e suas particularidades!

Por: Viviane Cavalcanti. Blog Uma Pessoa Comum.

A Lenda dos Guardiões (2010). Um 3D bem aproveitado.

Um dos pontos positivos nessa febre por versões em 3D, para mim, está em levar um público maior para os Cinemas. Depois, em se ele faz realmente toda a diferença em seu uso num filme. E nesse, “A Lenda dos Guardiões“, o 3D foi muito bem aproveitado. Sendo a estória ambientada no universo das corujas, assim grande parte das cenas se passa à noite, onde o 3D veio dar um maior destaque aos personagens com a escuridão por trás. Nos períodos diurnos, o 3D também teve boa aplicação. Os vôos das corujas é impactante, principalmente com as peninhas das aves ao sabor do vento. É de se perguntar o que mais teriam em tecnologia no Gênero Animação. Tudo fantástico. Então, fica já a sugestão de irem assistir em 3D. Vale o ingresso!

O grande motivador para que eu fosse assistir, fica por conta dos personagens: Corujas. As dos cartazes por si só já eram um convite para mim. Eu sempre gostei delas, desde criança, mais ainda quando fiquei sabendo que são o símbolo da sabedoria. Nos Zoos, só eu parava para vê-las… Uma delas, das Telas, que eu amei, é o Arquimedes, de “A Espada Era a Lei”. Agora terei outras para guardar com carinho na memória: Soren, Eglantine, Gylfie, Crepúsculo e Digger.

Eu assisti a versão dublada, e já disse em outros textos, que sendo em Animação, eu não ligo mesmo. Por gostar das vozes dos Dubladores Brasileiros escolhidos para esse Gênero de Filme. Mas preciso me dedicar um pouco mais nisso, até para ligar a voz a pessoa. Em “A Lenda dos Guardiões“, não foi diferente: as vozes escolhidas foram excelente. Assim, quis já deixar aqui os nomes: quem dublou quem. Fiz uma longa pesquisa pela net, mas não há muitos divulgando os nomes das vozes aqui no Brasil. Nessa pesquisa pela net, eu só encontrei o de quem dublou o Kludd (o irmão malvado do Sorem): Clécio Souto. O jeito foi usar o telefone… E cheguei ao Estúdio que fez a Dublagem: a Delart. Por telefone, me foi passado alguns nomes. Mais que divulgar, uma homenagem a esses Profissionais: alguns dos Dubladores Brasileiros de A Lenda dos Guardiões:
- Soren -> Gustavo Pereira
- Kludd -> Clécio Souto
- Gylfie -> Luisa Palomanes
- Digger -> Gustavo Mader
- Ezylryb -> Mauro Ramos
- Nyra -> Mariangela Cantú
- Echidna -> Isaac Bardavid
- Bico de Ferro -> Jorge Vasconcelos
- Grimble -> Alexandre Moreno
- Pete -> Iago Machado

Em ‘A Lenda dos Guardiões‘ temos nele a saga de um herói. Assim sendo, todo o caminho mítico de um herói, está presente. A saber: foi separado dos pais; não pediu pela missão, ela foi apresentada de forma abrupta, e sem chance de recusa; parte para a missão a princípio acompanhado, mas depois terá que seguir sozinho; se decepcionará por alguém a quem era muito devotado; a missão não apenas muda o universo onde vive, como também a si próprio. Sendo o filme baseado em três dos quinze Livros contando toda a sua saga, só parte desse caminho foi mostrado. Para quem amou ler todas as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, vai acompanhar toda essa estória com brilho nos olhos. E até ficar com vontade de que venha logo a continuação. Como também em ler todos os volumes escrito por Kathryn Lasky. O filme é altamente recomendado para quem traz o gosto pela leitura desde a infância.

Sobre a estória do filme, de início conhecemos a família e o lar desse pequeno grande herói. Uma família de corujas cujo lar foi destroçado numa certa noite. Enquanto os pais saíram para caçar alimentos, os três filhos – Soren, Kludd e Eglantine – ficaram aos cuidados da babá, Mrs. Plithiver, uma cobra-cega. Soren é um sonhador. Adora ouvir, como interpretar a sua estória preferida: Os Guardiões de Ga’Hoole. De tanto ouvir, acredita piamente que eles existem, assim como o lugar onde vivem: aos pés da Grande Árvore Sagrada. Eglantine, a caçulinha, nutre um carinho especial por Soren. Diferente de Kludd, que ressente não ter do pai, a mesma preferência: acredita que o pai ame muito mais Soren.

Momento para que os adultos com filhos, observem se um dos seus também se sente excluído do amor paternal. E após o filme, dialogar com ele. Durante o filme, um afago já é uma boa pedida.

Soren e Kludd, aproveitando-se da ausência dos pais, resolvem aprender a voar. Soren já demonstra que será ótimo em vôo. contrário de Kludd, que terá que aprende a arte de voar. O que o deixa mais furioso. Ao desafiar Soren, ambos caem da árvore. Sendo raptados e levados para uma espécie de Quartel. Lá, há outras corujinhas também raptadas.

Numa triagem, as corujinhas são separadas. As que tem potencial para serem soldados, são separadas das que serão trabalhadoras braçais, no caso: com os bicos. É onde Kludd e Soren se separam de vez. Kludd vê ali, onde aprender a ser superior a Soren. As outras corujinhas passariam por uma lavagem cerebral. É quando Soren conhece Gylfie, e ela lhe diz como escapar disso. Então fingem-se. Mas um dos guardas, percebe. Acontece que ele ajuda os dois a saírem dali.

Mas em vez de voltar para casa, Soren vai em busca dos Guardiões de Ga’Hoole. Para com isso, não apenas libertar as outras corujinhas, como destruir a arma secreta que os guerreiros Puros planejam dominar toda a Floresta. No caminho, se reúne a eles: Crepúsculo e Digger. Juntos, é diversão garantida.

O filme é muito bom! E como já comentei, toda a tecnologia empregada, é o que mais prende a atenção. Foram brilhante. Nota 10. Vale muito a pena ver em 3D.

Por: Valéria Migues (LELLA).

A Lenda dos Guardiões (Legend of the Guardians: The Owls of Ga’Hoole). 2010. Austrália / EUA. Direção: Zack Snyder. Roteiro: John Orloff, Emil Stern. Gênero: Animação, Aventura, Fantasia. Duração: 90 minutos. Baseado nos três primeiros volumes – A Captura, A Jornada e O Resgate -, da Série ‘A Lenda dos Guardiões’, de Kathryn Lasky (- 01: A Captura; – 02: A Jornada; – 03: O Resgate; – 04: O Cerco; – 05: The Shattering; – 06: The Burning; – 07: The Hatchling; – 08: The Outcast; – 09: The First Collier; – 10: The Coming of Hoole; – 11: To Be a King; – 12: The Golden Tree; – 13: The River of Wind; – 14: Exile; – 15: The War of the Ember.).

Como Esquecer (2010)

Como Esquecer” de Malu Di Martino tem Julia como personagem central, uma lésbica  de temperamento difícil que se fecha em barreiras intransponíveis após ter sido abandonada pela companheira Antonia. O caráter hermético se dá na forma de atitudes grosseiras e respostas corrosivas que fuzilam os que tentam se aproximar. No início, o espectador se aborrece com o mau humor exacerbado de Julia, mas aos poucos a atriz Ana Paula Arósio conduz o papel de forma mais humana e compreensível revelando nuances e detalhes delicados que justificam o comportamento.

O elenco é o ponto alto do filme com Murilo Rosa perfeito como a antítese de Julia: Hugo, um gay engraçado e otimista apesar de também ter perdido o amor de sua vida. Ele e Lisa (Natalia Lage) uma jovem que está grávida são amigos de Julia e todos se isolam no balneário afastado de Pedra de Guaratiba, um local propício às reminiscências e introspecções do grupo. Helena (Arieta Corrêa) e Carmen Ligia (Bianca Comparato) chegam até a praia e vão tentar penetrar no mundo fechado de Julia com as armas da sedução.

O resultado é uma interessante reflexão sobre a dor e a solidão amparada em diálogos inteligentes e naturais onde Virginia Woolf e Cassandra Rios são citados oportunamente.

Um desfecho um pouquinho mais elaborado poderia elevar a categoria de “Como Esquecer” a um grande filme.

Carlos Henry

Como Esquecer. (2010). Brasil. Direção: Malu Di Martino. Elenco: Murilo Rosa, Ana Paula Arósio, Natália Lage, Arieta Correia. Gênero: Drama, Romance. Duração: 100 minutos. Adaptado da história autobiográfica de Miriam Campello.

Coral de Tóquio (1931)

Coral de Tóquio (Tokyo no Korasu, Japão 1931)
Diretor: Yasujiro Ozu
Escolhi dia desses aleatoriamente para rever o filme O Homem que Sabia Demais de Hitchcock. Uma cena de uma das locações deste filme me remeteu ao cineasta Yasujiro Ozu. No desfecho, Hitch faz um breve passeio com a câmera, mostrando detalhes dos interiores da mansão, portas, escadas, mobília, corredores, lustres, até chegar ao quarto onde estava preso o filho seqüestrado do casal americano, exatamente como acontece ao estilo de Ozu filmar. Seria uma homenagem?

Conheço meia dúzia de filmes de Ozu dando perfeitamente para se concluir que seu estilo é inconfundível, reconhece-se como uma marca registrada pela poesia existente na fotografia, pelo assunto e costumes do cotidiano, temas triviais geralmente familiares, pequenos dramas, peculiaridades da cultura oriental, relações conflituosas entre tradição e modernidade. As imagens iniciais mostrando paisagens, crianças brincando, pessoas transitando pelas ruas, animais e residências transmitem paz e serenidade. Ele trata com carinho e especial sentimento os assuntos rotineiros e banais, o público se identificando constantemente pelos temas declinados, desde amor não correspondido, desemprego, saúde, miséria, educação, religião, família, até assuntos polêmicos como suicídio. Além de contar uma boa história, por mais simples ou rotineira que seja, Ozu nos presenteia com belas figuras de retórica e de estilo, principalmente a prosopopéia, personificando em belas imagens que dialogam frequentemente com o público, não se esquecendo de nenhum detalhe, tudo tem o seu valor, desde a chaleira e seu vapor num canto da sala, como também os corredores, as paredes, escadas, os chinelos e os cabides na entrada, a mesinha no centro da sala onde a família e os amigos se reúnem para uma habitual refeição e longas conversas, nada escapando ao olhar atento e cuidadoso de minúcias do diretor.

Fiquei emocionada e feliz pela oportunidade de ter assistido ao CORAL DE TÓQUIO, esse filme mudo, em preto e branco produzido em 1931, uma sessão especial assim, que eu me lembre, só vi no MAM (Museu de Arte Moderna), o clássico O Nascimento de uma Nação de D.W. Griffth com acompanhamento improvisado ao piano, e em outra ocasião um filme russo no Festival do Rio com tradução simultânea, os atores dublando ao vivo, foi um momento mágico e inesquecível.

A história de Coral de Tóquio começa dentro de um quartel onde um professor dá instruções aos subalternos, pedindo que marchem, verificando postura e obediência a ele como mestre, seus súditos fazendo tudo o que era pedido. O prólogo é uma comédia pastelão, ninguém no cinema consegue segurar o riso, principalmente quando estão em cena dois soldados trapalhões, sendo motivo de gargalhadas dos outros colegas recrutas e pelo fato de o professor mal conseguir manter a ordem e a disciplina do batalhão. Comentaram que Ozu era fã de Chaplin.

A história dá um salto, mostrando aquele que foi o soldado trapalhão, hoje um pai de família com três filhos: O mais velho era um menino aparentando ter uns seis anos; depois uma menina de cinco anos e um bebê. Okajima, o soldado hoje é um funcionário de uma empresa, e ele encontra-se em seu ofício ao lado de seus colegas de trabalho. Todos estão felizes porque é o dia do pagamento. O filho dele sabendo disso pediu-lhe de presente uma bicicleta, e o pai prometeu que lhe compraria. Acontece que nesse dia o patrão resolveu demitir um funcionário e este pai de família, para defender o colega foi falar com o patrão que acabou também o despedindo. Tempos difíceis no Japão, em plena depressão, e agora o jovem pai de família ficou desempregado. O que ele poderia fazer? Tinha formação superior, era professor, mesmo assim emprego não havia, era artigo de luxo, e Okajima começou a enfrentar dificuldades. Certo dia ele encontrou na cidade o seu ex-professor que também estava desempregado e ele lhe fez uma proposta. O professor estava abrindo com a esposa um restaurante e precisava de um ajudante para fazer propaganda, distribuindo panfletos nas ruas de Tóquio para conseguir clientes. Ele imediatamente topou. Só que não contou nada para a sua orgulhosa esposa porque não entenderia nem aceitaria ver seu marido com a formação que tinha, trabalhando como entregador de papel pelas ruas.
Okajima chegando em casa era só cobranças: o filho pedindo a bicicleta, a esposa, dinheiro para fazer compras, o bebê chorando e a menina adoeceu, precisando de dinheiro para ir ao médico e comprar medicamentos.

Um dia ela vai à cidade com os filhos e presencia a seguinte cena: o marido marchando pelas ruas, ao lado do seu ex-professor, carregando uma bandeira e distribuindo panfletos, a propaganda do restaurante. Em casa, foi um Deus nos acuda. A esposa não aceitou de jeito nenhum que ele continuasse naquela situação que considerava constrangedora para a família. Foi trabalhoso e penoso para ele convencê-la que era necessário porque ele não tinha outra escolha. É claro que para Okajima era apenas uma situação provisória até ele conseguir algo melhor. O ex-professor gostava muito dele e tinha muitos contatos de autoridades e pessoas influentes, e o ajudou sigilosamente enviando o curriculum dele para o ministro da educação indicando-o para o cargo de professor de literatura na universidade.

O dia da inauguração do restaurante, o seu ex-professor era ‘só sorrisos’, porque o local lotou; muita gente foi conhecer o novo point da cidade e foi o maior sucesso.

Nesse mesmo dia chega uma correspondência para o seu ex-professor. Adivinha o que era? A resposta do governo aceitando a indicação do professor Okajima para lecionar na universidade. Cinema também é uma escola, e neste filme aprendi muita coisa nova e agora compartilho aqui. Esta delicada comédia mostrando o cotidiano de Okajima um pai família em plena depressão e que acabou sendo despedido exemplifica o estilo de filmar e dirigir de Ozu e peculiaridades de seus primeiros filmes.

Coral de Tóquio é uma verdadeira obra de arte. Sem som e sem trilha sonora, como os primeiros filmes mudos e em preto e branco que ainda eram considerados uma curiosidade aos japoneses que diziam ser “coisa de ocidental”, e nesta sessão especial que tive a oportunidade de assistir e aprender coisas do mundo oriental que desconhecia, foi apresentado ao público a presença de uma narradora no idioma japonês, como se o filme fosse estrangeiro. Esse tipo de “tradução” ao vivo recebe o nome de Benshi que deriva de Ben (narração) e Shi (mestre, samurai), que servia para complementar o entendimento da obra cinematográfica. Formidável a tradução simultânea, ao vivo e em cores, com músicos e seus instrumentos orientais. Os benshis eram mais reverenciados que as próprias estrelas dos filmes.
O benshi continuou sendo uma parte muito importante na exibição de filmes até 1937. Fora do Japão o espanto nem era tanto pela manutenção do benshi. E sim porque frequentemente estes narradores tinham liberdade de acrescentar sua própria interpretação e dava explicação pessoal para cenas não filmadas, seu entendimento e impressão sobre o filme. Não necessariamente a versão pretendida do diretor. A narradora Ângela Nagai é ótima, fazia o público compreender um pouco mais o filme com um toque de humor imitando o choro do bebê, por exemplo, as brigas entre os irmãos por coisas banais, expressões fisionômicas etc, foi sensacional, e ilustrando constantemente com informações sobre o país, sobre a situação sócio-econômico-cultural, desemprego, família entre outros temas; e os músicos Felipe Fiani Veiga (tocando o instrumento okoto) e Tamie Kitahara (tocando o instrumento shamisen) fazendo o espetáculo mais bonito que a sétima arte já é. Tudo maravilhoso. Quem tiver oportunidade de ver um show como esse aconselho não perder. Assista!

Para quem achou estranho num primeiro momento, a técnica Benshi era muito usada nos primórdios do cinema no Japão, quando assistir a um filme era pouco para os espectadores, e os narradores eram, na verdade, considerados as grandes estrelas como os próprios atores. O filme só começava após uma palestra do Benshi; antes da narração dava-se explicação sobre o tema. No Japão existe até hoje sessões com benshi que também eram conhecidos como katsuben – abreviação de katsudoo shahin benshi (narradores de imagens em ação).

Fica aqui a dica para uma sessão de cinema divertida e leve. Esplendido!
Karenina Rostov
*
Elenco: Tokikiko Okada, Emiko Yagumo, Hideo Sugawara, Hideko Takamine, Tasuo Saito, Chouko Iida, Takeshi Sakamoto, Reiko Tani, Kenichi Miyajima, Isamu.

COMER REZAR AMAR. Um Mergulho no Universo Feminino.

_Sabe quando reformou a cozinha, comprou um livro de receitas, e disse que iria aprender a cozinhar? Pois bem! Isso é o mesmo que ir meditar na Índia. Só que em cultura diferente.” (*)

Deixo um convite a Todos, não importando o sexo, e quase para todas as faixas etárias – para os adolescentes também. Que vão assistir esse filme – “Comer, Rezar, Amar“. Para que conheçam, entendam, sintam o que é ser mulher. Porque nele não é mostrado apenas a cabeça da personagem principal, mas de muitas. Desde a cabeça de uma menina aos quatro anos de idade, até de mais idosas. Aos homens, fica um convite especial. Verão qual é o limite que leva a uma mulher a dar um basta numa relação. Mesmo ainda sentindo amor por ele.

Assim, após assistirem, o convite é para uma troca de impressões. O porque disso? É que a partir daqui, o texto terá spoiler. Hesitei um pouco se traria ou não, mas senti uma vontade intensa em destacar vários trechos desse filme. O que ficaria complicado sem contar os detalhes.

Não li o livro, mas fiquei com vontade de ler. Como também, de ter o dvd. Até porque nele há várias falas que eu gostei. Clichês ou não, elas traduzem uma cabeça comum: livre de um certo pedantismo advindos de muitos estudos. Mas também sempre gostei de colecionar Citações, que para mim segue junto na composição de um texto. Gosto tanto, que até abri uma comunidade no Orkut de Frases de Filmes. Em “Comer, Rezar, Amar“, essas frases, a maioria delas, são como peças de um quebra-cabeça para se chegar a mente feminina. São várias reflexões que na montagem final temos o universo singular e particular de cada uma delas. E porque não, de cada uma de nós.

A fala com que iniciei o artigo, a escolhi, primeiro por mostrar um dos propósitos da protagonista, depois pela sapiência contida nela. Pela Liz (Julia Roberts), surgiu nela uma busca espiritual. Pela frase como um todo, em mostrar que essa busca não depende muito do lugar, mas sim da ferramenta usada. Mais até, em desligar a mente da questão maior fazendo outra coisa até fora da rotina diária. O que me lembrou de uma frase que ouvi num filme (Layer Cake): “Meditar é concentrar parte da mente numa tarefa mundana para que o restante encontre a paz.“ Também por mostrar que cada pessoa agirá de um jeito próprio, quando se dispõe a se conhecer por inteiro. Alguns levarão anos, outros, o farão num tempo menor. Outros nem terão esse desejo, e nem por isso serão infelizes. O que a estória mostrará, é um encontro com a religiosidade.

Ter um filho é como fazer uma tatuagem na cara. Você precisa realmente ter certeza de que é isso que você quer antes de se comprometer.”

A Liz encontra-se às vésperas de completar trinta anos de idade. Que seria uma data marcada para uma mudança radical em sua vida. Algo decidido num passado recente, por ela e o então marido, Stephen (Billy Crudup). Talvez uma promessa feita no calor da paixão. Haviam decidido que ela sossegaria, teriam filhos, que se dedicaria mais ao lar. Tudo já planejado. Num processo depressivo, em vez de remédios, decide rezar. Pedir a Deus que lhe mostre um caminho. E é quando se houve: se sua mente estava conturbada, seu corpo, cansado fisicamente, clamava por uma boa noite de sono.

Acontece que Liz não se via como mãe. Não ainda. Diferente de sua grande amiga Delia (Viola Davis). É Delia quem tenta convencê-la a não partir, a não abandonar a casa que ela, Liz, participou ativamente da reforma à decoração, e principalmente a não se separar de Stephen. Delia sempre quis ser mãe, dai não entendia muito o fato da amiga não querer. O que me fez lembrar de um fórum recente. São escolhas que em nenhum momento denigre uma mulher. Aliás, um dos pontos positivos que esse filme trouxe, é o fato da mulher se libertar daquilo já imposto pela sociedade. Uma liberdade que ainda pesa quando parte da mulher. Um largar tudo e botar o pé na estrada ainda é um território masculino. Assim, quando uma jornada dessa é feito por uma mulher: recebe a minha benção.

As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho: a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo, para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não! Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesma, e depois vão embora.

Liz não entendia ainda o porque do desconforto sentido em seu relacionamento com Stephen. O amava, mas seu interior estava sufocado. Ao se separar, apesar do litígio, se sentia culpada pelo rompimento. Só se libertaria desse peso, em sua passagem pela Índia. Uma cena emocionante, que me levou às lágrimas. É que meus olhos já estavam marejados pela anterior a essa. Quando a vida apresenta que não podemos nem esperar muito de alguém, nem que esse alguém, também espere muito de nós, vem como uma libertação. Para alguém com o pé no mundo, cada dia era de fato um novo dia.

Liz após esse rompimento, conhece David (James Franco). Um jovem ator. Com esse romance, era mais uma tentativa de se encaixar nas tradições. Mas por ser alguém muito Zen, David leva Liz a conhecer um lado religioso. Por ele, indiretamente, lhe vem a vontade de ir a Índia. Conhecer de perto o Templo, e a comunidade da Guru. Mas isso só se concretizou, quando viu que com David também levaria um casamento tradicional. O acorda veio com uma observação de um amigo. Com David, o rompimento em definitivo, vem num email.

Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados.

Liz se dá conta de que passou grande parte da vida sem um tempo só pra si. Tão logo saia de um relacionamento, entrava em outro. Então resolve fazer a sua jornada. Como era alguém que queria sempre ter controle da sua vida, mesmo querendo fugir de tudo planejado, traçou uma rota. Ficaria um ano longe de família, amigos, carreira, NY… Passaria quatro meses em cada um desses países: Itália, Índia, Indonésia. Ela vê uma curiosidade na escolha dos três: começam com “I”, que em sua língua, é “Eu”. Faria um encontro com ela mesma; com o seu self. Algo que eu adorei nessa sua peregrinação foi o fato de não fazer um caminho solitário. Mesmo indo sozinha, não se isolou do mundo, das pessoas.

Seu período na Itália veio como puro prazer. Quase como o alimentar o corpo. Transgredindo o pecado da gula. Primeiro, ou melhor, a escolha por esse país partiu porque sempre quis aprender a língua italiana. Mas chegando lá, descobriu também o prazer em comer. Ela tinha fome! De comer sem culpa. Comer sem se preocupar em engordar. De comer até se fartar. Afina o seu paladar entre sabores, aromas e saberes.

A cena da Julia Roberts saboreando um espaguete – e do jeito que eu amo: com muito molho de tomates -, ficará na memória. Sabe aquele prato que te leva a esquecer do mundo? Que lhe vem à mente – Não quero que nem Deus me ajude!? A cena em si, nos leva a pensar nisso. E regada ao som de: Der Hölle Rache Kocht In Meinem Herzen.

Mas esse período não ficou só em comilanças, e conhecendo a cultura e o jeito de levar a vida dos italianos. Liz faz uma descoberta de si mesma. A de que há partes da sua personalidade que ficarão para sempre. Que se adaptarão a cada nova realidade que a vida lhe trouxer. O que me levou a pensar nessa frase da Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Liz aprenderá a canalizar essas forças dentro de si, nos períodos passados nos outros dois países.

Ainda na Itália, lhe vem o desejo de encontrar a sua palavra: aquela que a definirá. Que será o seu norte. E a palavra vem na Itália, mas só terá consciência dela em Bali. Voltarei a ela mais para o final.

Galopamos pela vida como artistas de circo, equilibrados em dois cavalos que correm lado a lado a toda velocidade – com um pé sobre o cavalo chamado ‘destino’, e o outro sobre o cavalo chamado ‘livre arbítrio’. E a pergunta que você precisa fazer todos os dias é: qual dos cavalos é qual? Com qual cavalo devo parar de me preocupar, porque ele não esta sob meu controle, e qual deles preciso guiar com esforço concentrado.”

Na Índia, antes de chegar ao Templo da Guru, fica assustada com o trânsito local. Numa de se perguntar em como do caos chegam ao equilíbrio zen. Já no Templo, constata que tal como o de NY, não há a presença física da Guru, mas sim um retrato. Depois entenderá que a busca é para dentro de si.

Essa sua passagem pela Índia, nos leva do riso às lágrimas. A diferença cultural, mais que deixá-la em choque, a levará a se por em xeque. Ela quis aprender a se devotar a algo maior. A encontrar a espiritualidade em si.

Duas forças amigas serão o peso em sua balança. De um lado, uma jovem indiana, Tulsi (Rushita Singh) que sonha seguir carreira como Psicóloga. Que gostaria de se rebelar com o seu destino: um casamento arranjado. Tradição familiar e cultural. Liz vai a cerimônia de casamento, e dá um belo presente a jovem. Algo não material. E que também fez com que Liz descobrisse mais de si. Que fazemos parte de uma engrenagem, não somos, não devemos nos ver como peça isolada o tempo todo. Há vários momentos que estaremos em contato com alguém. Então, é saber a arte de uma boa convivência. Mais! Que há vivências que não teremos como escapar. Assim, o melhor a se feito é tirar um proveito da situação.

Do outro lado, estava Richard (Richard Jenkins), o seu James Taylor. Richard ficava levando-a a conhecer seus limites, para então ultrapassá-los. Além do ex-marido, do jovem ator, ele foi mais um personagem masculino a mostrar que não basta só um querer manter a relação a dois. No caso dele, o desrespeito chegou aos extremos: bebidas, drogas, relações extra-conjugais… Ao contar a sua estória, dá um aperto no coração. Principalmente quando pessoas como ele, fazem parte do nosso ciclo, ou familiar, ou de amizade. Certa vez, eu perguntei a uma pessoa se fora preciso mesmo abraçar uma religião, para então dá valor a linda família que possuía, e ele disse que sim.

Liz, Richard e Tulsi foram parar ali por motivos diferentes, mas igual no que buscavam: depurar o passado, se adequarem ao presente, para então seguirem mais confiantes para o futuro. Inconscientemente, um ajudou o outro nessa busca. Dos três, o fardo maior trazido do passado, era o de Richard. Perdera um tempo enorme de não ver o filho crescer, por não o ter colocado antes em sua vida. Voltando ao tema do início. De que maternidade e paternidade tem que querer de fato. Até pela responsabilidade que terá com a criança. E quando Liz consegue perdoar a si própria… minhas lágrimas desceram. Leve. Por me levarem a pensar num momento meu.
Eu quero vê-la dançar novamente“… Livre, era chegada a hora de seguir em frente. Próxima parada: Bali.

Imagine que o universo é uma imensa máquina giratória. Você quer ficar perto do centro da máquina – bem no eixo da roda -, e não nas extremidades, onde os giros são mais violentos, onde você pode se assustar e enlouquecer. O eixo da calma fica no seu coração. É aí que Deus reside dentro de você. Então, pare de procurar respostas no mundo. Simplesmente retorne sempre ao centro, e sempre vai encontrar a paz.”

Da vez anterior, que estivera a trabalho em Bali, Liz conhecera um Xamã: Ketut. Uma figuraça! Então, o procura. Gostei muito mais de Ketut – até pelo seu jeito irreverente de ser -, do que da Guru da Índia. Ketut, mesmo com todo o peso de ser um Xamã, é alguém mais objetivo. Ligado com o que há por vir. Por conta disso, propõe uma troca a Liz: ela transcreveria seus manuscritos – que com a ação do tempo estavam se esfarelando – e ele a ajudaria nesse seu vôo em sua alma. Ah! A companheira de Ketut mostra-se uma mulher de grande sapiência.

Se na Índia, Liz se livrou de bagagens inúteis para seguir em frente, em sua passagem por Bali iria aprender de fato a adequar sua personalidade com tudo mais a sua volta. A ter um equilíbrio, até quando a vida lhe tirasse dele.

Em Bali, Liz conhece uma Doutora da Floresta: alguém que cura pelas plantas. Ela é Wayan (Christine Hakim). Tem uma filha, Tutti (Anakia Lapae). Uma menina que aos 4 anos de idade, dá um sábio conselho à mãe. Que mesmo sendo penoso, até por conta da cultura local, Wayan aceita. As três ficam amigas. E por elas, Liz entende que há mais religiosidade num ato, do que passar horas num templo. Seu ato, faz um resgate a uma vida condigna a essas duas amigas. Mãe e filha não precisariam mais ficarem peregrinando. Ganham de Liz, e de seus amigos, um porto seguro. O mundo carece de atitudes como essa.

Ao longo dessa sua peregrinação, Liz convive com várias mulheres. De culturas diferentes. Algumas, como ela, nadando contra a correnteza, ou pelo menos, tentando. Mas mesmo as que seguem como reza a tradição, não estão infelizes. Esse é um dos pontos altos desse filme. É um verdadeiro ode a alma feminina.

Quando tudo parecia seguir por um caminho certo, Liz se vê literalmente jogada para fora da estrada. Bagunçando o seu equilíbrio novamente. Seria o destino testando-a? O autor dessa proeza seria o homem que Ketut viu nas linhas de sua mão? Aquele com quem teria um longo relacionamento? O que sustentaria essa ligação por anos? É quando entra em cena o personagem de Javier Bardem: Felipe. Alguém que trazia também um peso do passado.

Pausa para falar do ator, ou melhor, do homem: Javier Bardem. Ele está um tesão nesse filme. A maturidade o deixou mais sedutor. Lindo demais! Mesmo eclipsado pela performance da Julia Roberts, eu gostei dos dois juntos. Deu química.

Seu personagem é um brasileiro que adotou Bali como Lar. Tal como Liz, é alguém que ama viajar. O prazer nisso, até por força da profissão. No momento da estória, ele é um Guia Turístico em Bali. Leva Liz a conhecer aromas e sabores da cultura local.

Fazendo ele um brasileiro, fica difícil não comentar duas coisas:
- o filme passa a ideia de que pais brasileiros beijam seus próprios filhos na boca. De que isso é algo cultural. Como eu não li o livro, não sei de onde tiraram isso. Não há esse costume aqui.
- o lance dele dizer muito “Darling!”. Se é como “Querido(a)!”, também o costumeiro por aqui, ganha a conotação de algo superficial. Mas o seu personagem passa a ideia de um tratamento afetuoso, de intimidade com a pessoa.
É o único ponto negativo em todo o filme. Nem a longa duração do filme, me fez perder o brilho nos olhos. Até porque, sendo bem contada, eu gosto de uma longa estória.

Como citei anteriormente, “Comer, Rezar, Amar” traz várias falas reflexivas, e uma delas vem com a palavra que Liz então escolhe para si. Que para mim, é a que melhor traduziria como deveria ser uma relação a dois: attraversiarmo. É, ela a escolheu na língua italiana. Ela faz a ponte para a união de dois seres distintos. Donos de suas particularidades, um não anulará isso no outro. Saberão encontrar o ponto em comum, e respeitando as diferenças. Mas principalmente, respeitando o parceiro, a união, o porto seguro que farão com essa relação.

E é Ketut que leva-a a descobrir que estava pondo tudo a perder, ao voltar aos velhos hábitos. Deveria se entregar de corpo e alma a esse universo que chegara à sua porta. Isso, se colocava fé nessa relação. Até porque, os relacionamentos certinhos demais, de outrora, nunca a deixara satisfeita. Também, algo como o jovem Ian (David Lyons) propunha não era o que queria. Então, por que não vivenciar o que Felipe lhe propôs? Uma ponte entre NY e Bali… Em sua despedida ao Ketut, minhas lágrimas desceram…

A estória, ou as estórias, a Fotografia, a Trilha Sonora, as atuações… tudo em harmonia para um filme nota 10. E que entrou para a minha lista de que vale a pena rever. Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love). 2010. EUA. Direção: Ryan Murphy. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 133 minutos. Baseado no livro homônimo e autobiográfico de Elizabeth Gilbert.

(*) Foram tantas as Citações, que essa logo no início, me fugiu um pouco a lembrança palavra por palavra. Quando eu encontrar a transcrição literal, eu trarei para cá. Por hora, fica o sentido da fala.

Banquete de Amor. Você tem fome de que?

Oh! Tristeza me desculpe
Estou de malas prontas…Pela presença cênica de Alexa Davalos em “Defiance“, fui pesquisar a sua filmografia… Então, cheguei a esse: “Banquete de Amor“. E  tendo Morgan Freeman no elenco, foi um incentivo maior para querer assistir. Mas após um tempinho, eis que passa na Tv. Embora dublado, assisti. Até porque eu gosto também da voz de quem dubla esse ator no Brasil. Numa rápida pesquisa, eis o nome do Dublador: Márcio Seixas. A voz dele combina bem com o perfil do Morgan.

Embora o filme siga pela lenda contada pelo personagem do Freeman (Harry Stevenson), era a música que cito no início desse texto, que me veio logo a mente, e durante todo o filme. Por mostrar que alguns acham que “É impossível ser feliz sozinho…” Agora a lenda: Harry conta que os deuses gregos por estarem entediados inventaram os humanos. Como o tédio não passou, criaram o amor. Como gostaram do resultado, eles resolveram experimentar a paixão. Mais tarde inventaram o riso, para que pudessem manter esse amor.

Antes de ver o filme, minha curiosidade maior foi com o título. Banquete, dá a ideia de variedade; de diversos tipos de alimentos. Mais que a quantidade de cada uma das iguarias, há uma variedade de sabores que irão agradar ou não aos paladares dos convivas. Sendo um Banquete de Amor, pode-se pensar em diversas formas de amar, como também, nas várias emoções sentidas. Principalmente em como passar por uma perda.

Enquanto se vive um amor, enquanto se está saciado, vive-se o amor na plenitude. É costumeiro só prestar de fato atenção nesse amor, quando se pressente que irá perdê-lo, ou quando o perdeu de fato. Com o desenrolar da estória, vamos acompanhando os diversos tipo do amor: do superficial ao mais profundo. Mas quem dará mesmo tempero a eles, são os temperamentos de cada um dos personagens.

O persopnagem do Morgan Freeman (Harry Stevenson), fica se perguntando em porque não percebeu quando começou a perder o filho para as drogas. O filho buscou um alimento para o mundo da loucura. Mesmo que alguns defendam que é para encontrar o nirvana, é um passo num abismo. Mas isso é assunto para outro filme. Nesse, e pelo Harry, o acompanhamos nessa dor. Acontece que enquanto ele vivencia isso, também começa a observar as pessoas em sua volta. Em como vivenciam o amor.

O personagem de Greg Kinnear (Bradley Smith) mostra aquele tipo de pessoa que não sabe viver sozinho. Precisa ter alguém mais que para amar, em lhe fazer companhia. Estando saciado, não percebe se quem está ao seu lado também está sedento. Harry percebeu de pronto que ele perderia sua esposa Kathryn (Selma Blair), e para outra mulher, Jenny (Stana Katic). Ela não apenas gostou de se sentir desejada, como também queria ser o centro da relação. E ambos, Bradley e Kathryn, não estavam preparados para dividir o trono. Assim, era uma relação fadada a não durar muito.

Bem, Bradley logo estava receptivo a um novo amor. Mas novamente atraiu um amor não duradouro. Dessa vez encontrou Diana (Rhada Mitchell. Ela tentava se livrar de uma paixão por um homem casado, David (Billy Burke). Talvez numa de “curar-se de um amor com um outro“. A questão seria, se queria de fato curar-se. E David não estava disposto a deixar o banquete principal – seu casamento -, nem muito menos perder a iguaria externa.

Relacionamento entre pais e filhos por vezes é bem conflitante. Se de um lado tinha Harry sofrendo pela morte do filho, do outro, tinha um pai (Fred Ward) que pelo egoísmo, prepotência, arrogância… iria acabar perdendo o seu filho, Oscar (Toby Hemingway), não para a vida, mas sim para a morte. Mesmo sem saber, poderia viver em paz com o filho.

No caso de Oscar, se a morte o levaria, o destino colocou nesse seu tempo de vida, a jovem Chloe (Alexa Davalos). Ela recebera o aviso por uma cartomante. Ainda sem saber que seria ele. Quando o conheceu, a princípio quis fugir. Mas depois, como na poesia – “que seja eterno enquanto dure“, resolveu viver esse amor. O pai de Oscar quis estragar esse amor, só não contara com a presença invisível de Harry. Ele, junto com a sua esposa, Ester (Jane Alexander), seriam a família que ela, Chloe, não teve.

É assim que se segue em frente na vida. Haverá sabores que jamais esqueceremos. Mas se os saberes fizerem parte, não haverá desperdício em nenhum banquete.

Eu gostei do filme. Bom para ver e rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Banquete de Amor (Feast of Love). 2007. EUA. Direção: Robert Benton. Roteiro: Allison Burnett. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 101 minutos. Baseado em livro de Charles Baxter.