Tropa de Elite 2 # O Inimigo Agora é Outro (2010)

Tropa de Elite 2: Dessa vez não fui à pré-estréia, não entrei na fila para assistir na estréia, não me estressei on line para ver na 1ª semana. Eu tive medo.

Tropa de Elite 2 não é um filme que se assista pura e simplesmente, pois a todo momento somos  sugados para dentro da tela… Ou seria a tela que insiste em pendurar-se nas nossas vidas? Lotado de referências tipicamente nacionais de um Rio de Janeiro que que está em toda parte do Brasil  a despeito da insistência de muitos em não perceber.

Não há como se sair indiferente dessa projeção, é um dedinho que nos toca no ombro, u’a mão que  nos dá na cara para logo após socar-nos o estômago e sem piedade, num golpe final,  olhar bem nos nossos olhos e cinicamente sorrir.  Saí do cinema espancada, abatida,  com sentimento de revolta, pronta a explodir  qualquer comício que passasse na calçada.

Desta vez José Padilha pôs o dedo na nossa cara e relembrou que nenhum de nós é inocente.

Mais de seis milhões e meio de pessoas viram o filme, o que mais se teria  a dizer? A minha visão de mulher que diante de um jornal, entre uma foto chocante de crime/tragédia e outra de políticos/sorridentes em campanha, recorre às cenas do próximo capítulo de uma novela qualquer como recurso para não enlouquecer  com a  impotência e letargia dos nossos tempos. Hoje a vida é  tão rápida! Os recursos tecnológicos nos deixam por dentro  de tudo e em tempo real… E justamente agora, encontramo-nos apopléticos, sem saber para onde ir e sem perceber para onde estão nos levando. Deixamo-nos enganar com gosto, só para não saltarmos  da condição de  vítimas  ou de  famosos “massa de manobra” para o papel de quem molda seu próprio destino. Nunca precisamos tanto evocar nossa porção Capitão Nascimento, nunca  ele foi tão ficcional…

Capitão Nascimento, envelheceu 13 anos, ganhou lindas mechas grisalhas, continua com aquele pescocinho ligeiramente entortado à direita, dedo em riste a repetir  pausadamente aquilo que ele quer que seja perfeitamente entendido.  Promovido a herói  (da promoção de patente todos já  sabemos)  é um homem cada vez mais sozinho, como sozinhos se tornam todos  os que insistem em trilhar rumo a um ideal de correção. Estão sós aqueles que pensam em ter vida limpa e  tentam livrar-se  dos entulhos à volta.  Estão irremediavelmente sós aqueles que insistem em manter suas cabeças e éticas acima da mediocridade  vigente em todos os escalões.

No princípio eram as drogas e o tráfico. E a polícia corrupta viu que tudo isso era muito bom!

Acharcou traficantes, elementos enriqueciam, arquivos eram queimados e no saldo das prestações de contas , não havia porque se importar com os inocentes…  A rede cresce e engrossa até criar contornos diante dos olhos do nosso herói que ervas daninhas se combate como pragas, eliminando-se! Surge a lenda e acaba o filme 1.

Tráfico dominado, traficantes engaiolados, Capitão Nascimento torna-se coronel Nascimento, comandante geral do BOPE. Torna-se também um homem separado, heróis não devem casar-se…  Na sua rotina, pela sua retina enxerga  3 tipos de polícia: corrupta, não corrupta e o BOPE. Na sua vida existe o seu trabalho, a sua família e o seu trabalho.
Vamos combinar que algumas coisas dão certo exatamente porque algo nelas deu errado. É  como se a partir de  um passo errado numa dança, pudéssemos  criar um  outro modo de dançar, porém alguns princípios básicos nos fazem errar  para sempre.
O que Tropa de Elite 2 tem de melhor, é a humanidade do seu herói, a babaquice dos seus cidadãos, a implicância com os intelectuais defensores radicais dos direitos humanos na base do  “é dando que se recebe”  e com aqueles que pensam ter mais direito aos direitos humanos  que suas vítimas e finalmente, a profusão de frases candidatas a bordões que alegremente continua.
Com uma fotografia funcional que participa como personagem da trama, a qualidade do filme é inquestionável  aliada a  um roteiro preciso, amarrado, coerente.

Rimos, quase choramos,  nos indignamos, prendemos a respiração, xingamos e quando saímos do cinema nos surpreendemos pensando.

A sociedade a qual as instituições deveriam servir, delas se servem.
Os políticos, cargos para o serviço e satisfação da sociedade, dela se servem.
A polícia que existe para servir e proteger a sociedade nela tem seu maior antepasto.
O poder se alimenta da desgraça das pessoas.
O sistema precisa fomentar desgraça para para que suas manifestações de poder sejam inquestionáveis.
O cidadão, desculpa para tantas ações e legislações, é no fundo apenas aquele que irá manter com sua ignorância, ingenuidade e fruto do seu trabalho formal ou não,  todo o peso de um  sistema faraônico que arrogantemente irá lhe roer até os ossos e pagará cada vez mais caro por isso.

Repare bem a cena em que Russo (Sandro Rocha) faz seu ritual de passagem entre acharcador do tráfico e chefe da milícia: Ele vai “tomar” dinheiro do vapor que só tem R$500,00 que foram  ganhos com o “gatonet”, ali a gente percebe qual a saída que temos, tanto nós sociedade,  quanto aqueles que se encontram encurralados nas vielas.
Ali entendemos exatamente o que é a lei do mais forte e que evoluir não faz o menor sentido. A marginalidade diante da polícia só tem um destino que certamente não é a reabilitação…

Não há defesa pra ninguém.
Ninguém é inocente, numa sociedade onde se vive por alianças para fortalecimento individual e as possibilidades de ganho sempre passam a existir e ter importância por si só. A ganância não olha para ética e o poder existe  para deleite de todos aqueles que pensam estar um milímetro acima do que  é chamado de povo. (O brasileiro tem um dificuldade de se ver como povo, como todo, não? As críticas são sempre feitas em 3ª pessoa).
Todos ali naquela película, tem um preço e a política não olha para nada nem ninguém que não seja suas próprias vaidades.
Não importa o que o herói possa fazer, o sistema existe e se reinventa e se alimentará das necessidades que se não existirem, ele criará. Osistema se reinventa, daptando-se e lançando mão do que teoricamente seria ferramenta para sua própria mudança ou destituição.
Coronel Nascimento vira subsecretário. O sistema ignora que algumas pessoas são fieis à sua essência e tenham em si valores inegociáveis (princípio do Coronel Nascimento). Para alguns o que impede que se corrompam não é apenas a falta de oportunidade de se corromper, não basta trocar a planta de lugar para que se tomem de amores por condições  mais leves e vida confortável. A grande coerência deste roteiro, é justamente o tempo que Nascimento leva para se adaptar à troca de suas armas: de pistola para palavra, microfone, boca-no-mundo.
Por sorte, por piedade jamais por acaso,  no início do filme somos avisados que é uma obra de ficção, o que nos faz rir das referências tão claras do jornal que manda profissionais para morte; Cúmplices de autoridades políticas orquestradoras de candidatos políticos, financiados pela grana de uma nova modalidade de crime;
Do apresentador de TV invejado pelo governador pelo número de opinião capaz de formar;
Do agente carcerário que não vê nada demais no inferno que se desenha dentro dos presídios;
Do intelectual defensor dos Direitos Humanos que vê tudo demais nos infernos prisionais ignorando que entre mauricinhos de faculdade e bandidos nas unidades prisionais existe o segmento que dever-se-ia denominar cidadão para o qual todos os esforços das autoridades, serviços e servidores deveriam ser direcionados e não exatamente o contrário como nos mostra  o soco na cara de José Padilha.
Temos a chance de perceber como é a política de governar  para si mesmo e percebemos que jamais tivemos outra forma de política…
E quando o policial subordinado descobre negócio novo virando líder comunitário,  percebemos que contra a ganância a covardia talvez seja uma arma definitiva para a sobrevivência e revela a grande onda das nossas autoridades: “fifty to fifty” –  a “taxa do eu sei”…  Quem sabe recebe, quem deve paga e quem não sabe paga também só que um preço mais caro por acreditar  que é votando que se resolve as questões populacionais…
Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro – sua exibição deveria ser indicada a passar nos próximos horários eleitorais gratuitos, apenas isso.
No mais,  foi um alívio ver no filme de ficção, que num país onde se apregoa que milhares de empregos são gerados a cada momento, existe um herói desempregado, humilhado, incompreendido. Alívio, porque conheço pessoas reais nessa condição e elas não serão ouvidas enquanto não puderem apresentar vantagens, o que pode nos dar um alento de esperança no futuro.
Não sabemos de onde vem o tiro. mas ainda podemos de certa forma ter esperança!
Nota 10, sobre tudo pela coragem da cena final, o rasante panorâmico por sobre a origem e finalidade dos problemas  mostrados no filme, que é a sua própria razão de ser,  podendo  também ser  a solução. Não se deve assistir a este filme pensando em tratar-se de uma história fictícia numa determinada cidade, pois que  cidade e governos locais nada mais são que miniaturas de um país…  Afinal, nem mocinho nem bandidos disparam o gatilho sozinhos muito menos por nada…
Tropa de Elite 2. 2010. Brasil.
Direção: José Padilha
Roteiro: Braulio Mantovani e José Padilha
Elenco: Wagner Moura (Nascimento); Irandhir Santos (Fraga); André Ramiro (Mathias); Pedro Van-Hel (Rafael); Maria Ribeiro (Rosane); Sandro Rocha (Russo); Milhem Cortaz (Fábio); Tainá Müller (Clara);  Seu Jorge (Beirada); André Mattos (Fortunato); Jovem Cerebral (Braço)

Postado por Rozzi Brasil

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10 comentários em “Tropa de Elite 2 # O Inimigo Agora é Outro (2010)

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  2. Rozzi,

    olha que coincidência, vimos o filme no mesmo dia e tivemos as mesmas impressões. Eu senti vontade de falar sobre o filme, de escrever sobre ele, mas fiquei envergonhada. Senti mal estar. Eu moro na zona oeste. Aqui sofremos de forma muito próxima e assistimos o nascimento, desenvolvimento e toda a atuação da milícia. Aqui vemos todo o assistencialismo político bem de perto. Aqui, em alguns bairros, temos ainda gatonet, ainda temos falsas blitz, ainda temos “currais” eleitorais.

    Lançar esse filme em ano eleitoral ainda ampliou minha frustração de ter visto na campanha política muito do que vi no filme, muitos sorrisos falsos.

    Ainda estou impressionada por, de certa forma, estar naquela história, de ser figurante nessa história tão bem mostrada.

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  3. Olá, Dani!
    Nasci e me criei em Jacarepaguá, um bairro gigante da Zona Oeste e se as estatísticas que tenho conhecimento não estão superadas, esta é a maior zona eleitoral da América Latina. Percebe que isso é um motivo para aumentar nossa tristeza, não?

    Essa região realmente é muito peculiar, costumo de dizer que Jacarepaguá é uma província e pelas suas informações Bif Field também…
    O filme teve locações na comunidade do Rio das Pedras, berço da milícia na ZO. Portanto entendo muito bem o que você fala e talvez por isso tenha tido essas impressões sobre o filme… Coisas que alguém da Zona Sul poderia ver como mais uma informação ou detalhes enriquecedores da ação no filme, pra nós é muito evidente e a gente se sente muito otário e impotente e figuração nessa película que “pagamos” para figurar…
    Eu gostaria muito que o filme tivesse um outro tipo de repercussão, essa de fazer pensar e gostaria mais ainda que os políticos como nós se envergonhassem ao ver que as máscaras são de conhecimento público. Enfim, felizmente não somo da mesma materia que essa gente escrota…
    Obrigada pelo comentário e desculpe pela amargura da resposta, mas um dia isso adoça, né?

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  4. Claro que lembrei, Val!
    Sempre comento no blog dela (nos ótimos posts do diário da desempregada) e nos seguimos no twitter.
    De certa forma estamos sempre juntas daí não vi necessidade de falar de como nos conhecemos

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  5. Excelente a sua análise, Rozzi. Te lembra de Elis cantando “o Brazil não conhece o Brasil”? É mais fácil a gente se convencer de que é tudo ficção e dar “uns tapas” pra esquecer o “problema dos outros” (especialmente esquecer de onde vem a “Joana” e a quem nossos simples prazeres ajudam a financiar).

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  6. Verdade, Guilherme. Sou tentada a dizer que não é à toa que nossa sociedade elegeu o capitalismo como sistema por ele sustentar-se do apelo do individualismo inerente à natureza humana. Tipo: enquanto é problema para os outros, o problema não é nosso, então não existe. Enfim… La nave vá. Beijo e muito obrigada pelo comentário e elogio!!!

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