E o OSCAR 2011 Vai Para?

Por: Karenina Rostov e Valéria Miguez (LELLA).
Ao longo da história, vários assuntos já receberam suas respectivas listas de melhores e piores. Com A Sétima Arte não poderia ser diferente, e foi a partir daí que surgiu a mais conhecida de todas as listas de premiação: o Oscar.

O Oscar foi criado em 1927 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, e desde então se tornou uma referência mundial para todas as demais listas que passaram a definir seus prêmios máximos. A primeira edição oficial de entrega da estatueta aconteceu no ano de 1929.

Cínéfilos do mundo inteiro aguardam ansiosamente por essa data que costuma ser no mês de fevereiro, e todos os meios de comunicação voltam-se nesse momento especial e único para não perder nenhum registro de seus astros e estrelas, e para confirmar suas apostas em todas as categorias de premiação.

Também há aqueles que criticam essa premiação. Uma das críticas seria por ser comercial demais. A esses eu costumo dizer que olhem além do prêmio, para o fato que muitos dos filmes nem chegariam às Salas de Cinemas em pequenas cidades, mas que com a indicação eles ultrapassam as fronteiras das grandes cidades. A simples menção de fazer parte da lista dará muito mais chances a mais cinéfilos de sentir todo o encantamento diante da Telona.

Além de não nos esquecermos do que houve com o filme “Guerra ao Terror”. Ele foi primeiramente lançado em Dvd, onde a divulgação é muito menor, fazendo com que muitos terminem nem sabendo da existência do filme. Por vezes, só numa pesquisa pela Filmografia de um Ator/Atriz, ou de um Diretor… Então veio a indicação. Eles recolheram os Dvds e o filme foi levado às Salas de Cinema. E como todos viram, Filme e Direção – Kathryn Bigelow -, foram premiados. Esse fato torna-se então um exemplo clássico da importância de receber uma indicação para a entrega do OSCAR.

Um outro fator que também recebeu críticas – porque também não pensaram que haveria um aumento das Salas de Cinemas -, foi que passaram de 5 (cinco) para 10 (dez) os que concorreriam na final ao prêmio de Melhor Filme. Fato esse que merece os nossos aplausos.

As premiações são para: Filme, Direção, Ator, Atriz, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Roteiro Original, Roteiro Adaptado, Maquiagem, Fotografia, Efeitos Especiais, Som, Edição de Som, Figurino, Edição, Direção de Arte, Animação, Filme Estrangeiro, Canção Original, Trilha Sonora, Documentário, Curta-Metragem, Documentário Curta-Metragem, Curta-Metragem Animado.

Neste ano de 2011 será a 83° edição da maior premiação, onde diretores, atores e todos que fazem parte deste mundo do cinema aguardam por uma indicação e claro, também pela premiação. E de nós, fica sempre uma torcida aquele que nos encantou mais. De minha parte, eu criaria mais uma premiação: aqueles que levaram um público maior ao Cinema.

O “Cinema é a minha praia!” não poderia ficar fora dessa festa. E com uma grande Equipe, entre Autores e Colaboradores, trouxemos vários dos que estão nessa final. Como também por sermos múltiplos há mais de uma crítica para um único filme. A seguir, com a listagem final ficarão os links que os levarão a elas, nossas Críticas, com o nome do autor.

A lista dos indicados ao Oscar 2011.

O Tempero da Vida. Entre Aromas, Sabores e Saberes

Primeiro quero falar do substrato que as raízes precisam para se desenvolverem. Como para deixarem frutos, também. Há quem se sinta tão ligado a terra onde nasceu que nem se imagina morando longe dela. Para uma criança, esse desprendimento fica mais fácil. O que irá levar na memória, será o que até então vivenciou ali. Mas para muitos adultos, se vê longe do lugar onde nasceu seria como ficar sem chão. Agora, o bom mesmo é ter a liberdade de ir e vir sempre que puder e quiser. Pois como na canção:

E assim, chegar e partir / São só dois lados / Da mesma viagem / O trem que chega / É o mesmo trem da partida / A hora do encontro / É também de despedida.”

Com isso, apresento-lhes os dois personagens principais dessa estória que uma guerra estúpida acabou separando-os. Um avô e seu netinho estimado. Que viviam felizes em Istambul. Entre Temperos e Planetas filosafavam sobre os mistérios da vida.

O Tempero da Vida” começa quase pelo finalzinho. Onde o netinho, Fanis (Georges Corraface) agora adulto, morando na Grécia, decide viajar até Istambul. Para rever seu avô, Vassilis (Tassos Bandis), e o seu primeiro amor. Iria aproveitar umas férias. É quando um dos amigos do seu avô o procura para lhe dizer que ele enfim resolveu vir para Atenas. Pedindo que Fanis preparasse um almoço de confraternização entre velhos amigos que também foram obrigados a deixarem aquela terra.

Assim, enquanto prepara o almoço, Fanis rever suas memórias dessa infância tão significativa. E nós vamos juntos nessa viagem. Desejando que nessa hora, o sentido do olfato também fizesse parte do contexto. Não sei quanto a vocês, mas eu amo o perfume e o sabor das especiarias. Em entrar num Empório, e se deliciar com todos aquele aromas; e colocar na comida que eu faço, também. A Turquia lhe era muito cara (estimada), e a sua Família também. Mas por conta de seu pai ter nascido na Grécia, foram obrigados a deixar Istambul. Seu avô ficou. A partir dali, o contato era mais por cartas. Fanis até tentou voltar, mas os militares o impediram. Dali a pouco, iria poder estar com ele novamente…

O pequeno Fanis (Markos Osse) do mezzanino do Empório de seu avô recebeu lições que foram sua bagagem nessa jornada chamada vida: Culinária e Astros; Sabor e Mistério; Aromas e Luzes; Sensações e Escuridão; Desejos e Medidas… Ele já sonhava em ser um Astrónomo quando crescesse. Com seu avô desenvolveu um outro Talento nato: iniciando no mundo da Gastronomia. Vassilis ia mostrando a sutileza de cada um dos temperos. A medida certa que aguçaria o paladar. Que daria vida ao prato. O que traria um despertar especial ao comensal. Assim, seu avô foi mostrando que seus dois dons estavam em harmonia: G-Astronomia.

Fanis até poderia ter se tornado um grande Chef. Adorava mostrar seus dotes culinário. Mas seu pai dizia que cozinhar era coisa de mulher. Um preconceito cultural. Mesmo assim, de vez em quando Fanis cozinhava escondido. Mas a pressão fora muita, até por parte do Colégio, que esse seu talento foi ficando mais como um hobbie. O que em parte o ajudou a temperar seus humores, amores, saudades… no correr da vida.

Sabem aquela estória gostosa de se ouvir? O filme nos leva a essa sensação. Sendo que estaremos vendo também. Há momentos tristes, que se intensificam ao pensarmos que se não fosse pela estupidez de uma guerra separatista, ambos poderiam ter tido uma convivência maior. Mesmo “O Tempero da Vida” sendo bom até de rever, preferi não contar mais, em não trazer spoilers. Deixar que quem ainda não viu, se delicie entre Aromas, Sabores e Saberes. Para quem já viu, que reveja os temperos para cada ocasião. O filme é muito bom. Sendo mais um a mostrar universos masculinos com delicadeza. E com certeza, esse filme merece fazer parte da nossa videoteca.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Tempero da Vida (Politiki Kouzina). 2003. Grécia. Direção e Roteiro: Tassos Boulmetis. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 108 minutos.

Bravura Indômita. Eis que nasce uma estrela…

Cheguei a cogitar por esse subtítulo enquanto assistia “Bravura Indômita“: Estórias para boi dormir. Mas eis que nele nasce uma estrela…

Sei que estou remando contra a maré. Um filme tão aclamado, mas que para mim ficou um tédio na primeira metade do filme. Essa nova versão de “Bravura Indômita” pelos Irmãos Coen se fosse para um Livro teria sido perfeita. Mas como filme, só com uns 20 minutos a menos. Ai sim eu concordaria com os demais: críticos e público. Não vi, ou não me lembro de ter visto o original de 1969, com John Wayne. Dai nem posso comparar os dois. Até porque eu nem gosto de fazer isso. Cada Diretor, e Roteirista, segue por caminhos diferentes, mesmo se baseando numa estória única. Fui olhar no IMDb e o original é mais longo. Sinal que enxugaram o filme. Eu que amava esse Gênero – Western -, ainda não me empolguei tanto com os recentes.

Mas será que no original o personagem Rooster Cogburn também alugava os ouvidos da personagem Mattie Ross com suas estórias nada empolgantes? E olha que ela nem suspirava um: Fala, que eu te escuto. Para um Agente à caça de bandidos, ele falava demais nas tocaias.

Bravura Indômita teve um bom início. Uma menininha que veio fazer a diferença. Mattie, a personagem de Hailee Steinfeld. Que a princípio me fez pensar numa certa semelhança com a Vandinha, da Famíla Addams: trancinhas e vestido fechado… Detalhes para uma caracterização do personagem. Desde o início do filme, sua Mattie promete. Até em achar que de nerd passaria para uma Calamity Jane. Hailee quase que carrega o filme todo nas costas. Só não o fez talvez por se sentir intimidada com os demais atores, ou quem sabe por não querer fazer frente aos Irmãos Coen. O que me levou a pensar se com uma outra direção teriam soltado as rédeas dessa pequena grande atriz. Nasceu uma estrela! Vida longa a sua carreira, Hailee Steinfeld!

O filme só voltou a esquentar, quando enfim apareceu o assassino de seu pai: Tom Chaney (Josh Brolin). Esquentou em Ação, mas esfriou em estória. Porque dai em diante era um querer resolver todas as estórias paralelas e foi uma correria só. O personagem do Brolin foi mal aproveitado. Gastaram muito tempo contando as aventuras de Cogburn. Ok! Eu até concordo que a estória desse Filme gira em torno desse personagem. Mas trazendo uma personagem bem jovem – 14 anos de idade -, e muito inteligente, para contracenar com ele, para mim o filme renderia mais não deixando-a apenas de ouvinte. E sim interagindo com ele num aprendizado de caçar um bandido. Ai sim, os vôos seriam inesquecíveis.

Jeff Bridges encarnou muito bem um cara do Velho Oeste. Seu Rooster Cogburn estava bem caracterizado. Assim como Matt Damom com o seu quase empertigado caçador de recompensas LaBouef. Acontece que não deu química entre eles. Sendo salvos pela presença sutil e firma de Hailee. Com discrição e elegância ela foi a ponte entre eles.

Para encerrar, a Trilha Sonora também não me empolgou. Ficou muito distantes da dos Westerns de antigamente.

Nota: 8,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

127 Horas (2010). Os louros vão para Danny Boyle

E no meio do caminho tinha uma pedra…

Às vezes gosto de saber dos filmes que entrarão em cartaz no Brasil. Por curiosidade mesmo. Como a lista é grande, vou olhando aos poucos as sinopses. Desse filme em especial, o título me chamou a atenção, dai fui ler uma sinopse:

127 Horas é a história real do alpinista Aron Ralston. Ele cai numa fenda num cânion isolado no Parque Nacional de Utah. Uma rocha prendeu seu braço. Nos dias seguintes, Ralston tenta ganhar coragem para sobreviver com os meios disponíveis, ao mesmo tempo em que é visitado pelas lembranças de amigos e familiares.”

Confesso que não me empolguei de pronto. Só mesmo quando meus olhos bateram no nome Diretor, e também Roteirista: Danny Boyle. É! Esse cara tira-leite-de-pedra. O que para mim a estória mal daria um Média Metragem, com ele já antevia um jeito de contar a estória nos deixando atentos. Ele foi além, pois o filme é ótimo. O ator até se sai muito bem, mas com toda a certeza “127 Horas” é de Danny Boyle. Os louros são para ele.

Porque o drama que se abate com o jovem Aron, interpretado por James Franco, ocorre nos primeiros quinze minutos de filme, talvez um pouco mais. E ai é o Aron, dentro de uma fenda profunda numa grande rocha, preso, no que para ele foram essas 127 horas – onde só tinha água e suprimentos para apenas umas horas de caminhada pelo cânion -, mas que para nós um pouco mais de uma hora de filme. Boyle nos deixa ligado na estória. Tem que ver para tirar a dúvida. Boyle não nos deixa tirar os olhos da tela.

O início do filme com uns clipes me já me encantaram. Numa tradução literal minha seria que há quem queira se aventurar longe das pessoas. Até por se sentirem sozinhos em meio a multidão. Ou em buscarem nesses momentos solitários em meio a natureza um tipo de recarregar as baterias. Até ai, tudo bem!

Agora, há de se preparar para os im-previstos. Como eu escrevi para o filme “Na Natureza Selvagem“, que a natureza mesmo selvagem também tem suas regras. Certos tipos de esportes, e em determinadas regiões deveria ser feito com companhia. Acidentes podem ocorrer. Tendo alguém para pedir por um socorro, denota de bom senso. Mas Aron mesmo ciente disso tudo, ignora até os pequenos sinais. Só dará atenção a eles, já bem combalido. E se foi miragem, ou visão trazida do seu subconsciente como se dissesse para ele não desistir da vida, o certo foi mesmo a sua injeção para continuar vivo, e pelo jeito, atrás de mais desafios a até contra sua própria natureza: sempre sozinho. Já que o Aron não se emenda…

Meus aplausos seguem quase na totalidade para o Diretor Danny Boyle! E ele fez mais, me levando lágrimas nos minutos finais. Não deixem de ver. Ah sim! A paisagem é deslumbrante.

Antes de encerrar, deixo mais uma impressão. É que me bateu uma curiosidade. Saber o que diriam os da Área Psi sobre o menino que aparece para Aron. Se diriam que foi mesmo uma previsão. Ou a sua criança interior pedindo para não desistir.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

127 Horas (127 Hours. 2010). EUA / Reino Unido. Direção e Roteiro: Danny Boyle. Gênero: Aventura, Drama. Duração: 94 minutos.

BURLESQUE. E o Lobo Mau sem querer mostrou o pulo do gato

Eu Amo Musicais! Dai assisto sem levar o menor preconceito. Acho mesmo que só deveriam assistir Musicais quem gosta desse Gênero de Filme. Ou quem gostaria de aprender a gostar. Um Musical traz a estória contada e cantada. Que me encantam!

Burlesque seria o Vaudeville numa roupagem Pop Rock. Até seria por ai que eu iria escrever. Por ser o que me veio a mente enquanto eu assistia o filme. Força de um hábito mais recente: já ir pensando no texto antes mesmo do término do  filme. Acontece que o filme trouxe uma novidade para mim. Que amei saber. Por ser talvez uma das soluções no mundo real e atual fazendo frente a especulação imobiliária desenfreada. Por conta disso mudei o subtítulo, trazendo o: E o Lobo Mau sem querer mostrou o pulo do gato. Detalharei mais para o final. E deixando aviso que terá spoilers.spoiler.

Burlesque vem a ser o nome de uma Casa de Show. Onde se dançam dublando Cantoras. Ou sejam, embalados por uma voz num playback, o público assiste belas dançarinas. Me peguei a pensar se esse tipo de entretenimento está em declínio. Aqui no Brasil, está. Até um tempo atrás virou mercado para Turistas, mas creio que muitas dessas Casas de Show viraram Bingos. É de se lamentar por ser lugares a menos para os Profissionais de Dança se apresentarem. Muitos têm formação no Balé Clássico, mas preferindo seguir por Dança mais Contemporâneas.

Talvez até para mostrar esse quadro real, a do filme está a beira da falência. Os donos, Tess (Cher) e Vince (Peter Gallagher), agora estão lutando em campos opostos. Com a separação matrimonial, cada um ficou com direito a metade desse bem. Que inclui o imóvel num ponto bem valorizado. Vince quer vender. Tess, não. Ela ainda não se deu por vencida. Linda a cena onde canta mostrando isso – You Haven’t Seen The Last Of Me :

Para lá, é onde a mocinha vai querer trabalhar. Ela é Ali (Christina Aguilera). Uma jovem como tantas que decide encontrar o seu lugar ao sol numa cidade grande. Por gostar de cantar e dançar escolhe Los Angeles como seu destino. Na busca por empregos, pinta em seu caminho The Burlesque Lounge. A princípio, abocanha uma não existente vaga de garçonete. Sua disposição encanta Jack (Cam Gigandet), músico e barman. Com o tempo devido, Ali mostra a Tess que também pode atuar no palco.

Além de Jack, Ali também ganha a confiança de Sean (Stanley Tucci), o coreógrafo e faz-tudo de Tess. Mas é deixada de lado pelas outras dançarinas. E ganha uma inimiga: Nikki (Kristen Bell). Pelo seu constante estado de embriaguez, Tess coloca Ali em seu lugar. Nikki não deixa barato. Mas ao puxar-o-tapete de Ali, termina por dar de bandeja a oportunidade que Ali esperava desde o primeiro dia. Ali faz um número cantando ao vivo. Encantando a todos. Inclusive, Tess.

Se antes as esperanças de Tess não tinham a menor chance de salvar sua casa de show, com Ali no palco elas se renovam. Para desespero de Vince. O único que não tinha pressa, era quem queria comprar o patrimônio. Ele é Marcus (Eric Dane). Um jovem com tino comercial. Que também comprava o que lhe dava prazer. Seu lema seria: ganhar muito dinheiro para aproveitá-lo muito bem.

Para muitos do Burlesque, Marcus era o Lobo Mau dessa estória. Mas para Ali, ele era um gentil cavalheiro que a divertia. Até porque Jack era noivo. A bem da verdade, nesse conto de fadas, a jovem já era bem grandinha, e porque não, escolada pela vida. Órfã desde a infância, teve que seguir em frente sozinha. A vida é uma escola! E Ali retira a lição convivendo com Marcus. De algo que ele fez, virá a solução para os problemas de Tess: sair da falência e comprar a parte do ex-marido.

Marcus, para continuar com a linda vista de LA em seu luxuoso apartamento, compra o Direito pelo Espaço Aéreo de um prédio cujo o proprietário estava falindo. Pagou uma fortuna. O cara saiu do atoleiro. Marcus então não teria um arranha-céu a cortar a sua visão. Numa rápida pesquisa, vi que existe também no Brasil – http://www.precisao.eng.br/fmnresp/aquisicaoaereo.htm . Muito bom saber! Como também em divulgar. Eu sei que precisa dispor de muita grana, mas que poderá beneficiar “os vizinhos sem grana” em não perder também um belo panorama da janela dos seus apartamentos.

No mais, o filme é muito bom! Cher continua com uma presença de palco incrível. Stanley Tucci, um camaleão entre o mulherio, sempre ótimo. Christina Aguilera tem futuro como atriz. Os demais atores também atuaram bem. Gostei também das músicas. Mais uma palhinha – Show Me How You Burlesque:

Por: Valéria Miguez (LELLA).

BURLESQUE. 2010. EUA. Direção e Roteiro: Steven Antin. Elenco: Christina Aguilera (Ali Rose), Cher (Tess), Cam Gigandet (Jack), Stanley Tucci (Sean), Kristen Bell, (Nikki), Peter Gallagher (Vince Scali), Eric Dane (Marcus Gerber). Gênero: Drama, Musical, Romance. Duração: 119 minutos.

BIUTIFUL (Biutiful. 2010)

Por: Giovanni Cobretti – COBRA.
Um diretor que acerta em todos os filmes que já participou, deve ser respeitado. Sua característica maior de fragmentação de locações e histórias de outras empreitadas, agora se inverte. Ele torna-se único e uno. Uma cidade, Barcelona. Um ator principal, Javier Bardem. Um tema, a morte. Uma câmera, granulada. Um sentimento, a inevitabilidade – da vida. E a inquietude – da platéia.

Fala de despedida, rapaz na neve, Bardem e ele conversam em primeiro plano, ambos fumam. Apresentam uma certa nostalgia e familiaridade entre si. Cena inicial. Corta. Uxbal (Bardem) está com hematúria, consulta médica, revela seu passado de drogadicto. Close monumental no rosto do ator, que é embrutecido, traços grosseiros, barba por fazer, homem feio à primeira vista, mas sua masculinidade e conjunto; agradam.

Sua vida é coalhada de tragédias, pequenas e grandes. Seu irmão vivo é um idiota que precisa se afirmar (vide seus relacionamentos e profissão) como homem. Pais estão mortos. Filhos em idade escolar, no ensino fundamental em Barcelona. Não aquela da praia, das Ramblas, mas da Ciutat Vella, de Barri del Raval. Eles, apesar de tudo vão à escola todos os dias, fazem tarefa e comem nos horários certos. A mãe? Paciente psiquiátrica, medicada, mas não controlada. Carente e agressiva. Sorridente e triste. Magra e forte. Um poço de contradições, assim como Uxbal.

Ele é médium. Ouve os mortos. E o filme gira em torno dela, a morte. No seu inefável círculo. Ele ganha dinheiro com isso. Também agencia estrangeiros para trabalhar em condições subumanas. Os senegaleses, que ficam na rua vendendo bugigangas que ninguém quer e os chineses, que as fabricam em regime de semi-escravidão.

Um subtexto forte, pois eles também têm famílias, sonhos, dificuldades imensuráveis de sobrevivência, além da óbvia barreira da língua e racial. Uxbal se preocupa com eles, mas não deixa de ser culpado pelos infortúnios que ocorrem. E são muitos, e são graves.

Sua doença é terminal. Mas o diretor não alisa, as coisas pioram para ele. Onde ficarão meus filhos? E com quem? Não há redenção e nem saídas. A câmera que se movimenta mais do que o normal contribuindo para isso. Além das passagens de cena serem marcadas por mariposas no teto, por lagartixas, por um ambiente sempre degradado e degradante. Como se o tempo todo o filme estivesse suando, nervoso, abafado, tenso. Isso incomoda deveras.

O fim está chegando. Não há um momento de conforto, de cenas claras, de grandes externas, apesar de Barcelona ser linda, assim como toda a Catalunha. O círculo se fecha. Quase um réquiem. Os poucos e breves momentos foram quando ele tentou unir a família, que um dia existiu. As outras famílias apresentadas são todas quebradas, dissociadas, perecíveis, um aspecto de finitude e fragilidade. Não há felicidade, talvez paz. Talvez.

O que há de bom: habilidade de conduzir uma história rica e complexa e nos afetar
O que há de ruim: nenhuma esperança
O que prestar atenção: repare bem no personagem que está pregado no teto, ao final
A cena do filme: ele, a filha, o anel, e o pai

Cotação: filme ótimo(@@@@)

COBRA

BIUTIFUL.(Biutiful. 2010). EUA. Diretor e Roteiro: Alejandro González Iñárritu. Elenco: Javier Bardem, Blanca Portillo, Maricel Álvarez, Rubén Ochandiano. Gênero: Drama.Duração: 147 minutos.

Cisne Negro (Black Swan. 2010). Qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Indo assistir “Cisne Negro“  já estava ciente de que a personagem principal, Nina (Natalie Portman) passava por um distúrbio psíquico. A profundidade dele, só vendo o filme. Por ser eu uma cadeirante, logo com certas limitações, e até mesmo adequações frente a uma nova realidade, batia em mim também uma curiosidade em ver o que ela faria, já que galvava o papel principal na nova montagem do “Lago dos Cisnes“. Claro que estou ciente de que limitações motoras não dá para se comparar com as mentais. Diante disso, fui disposta a observar os maiores detalhes que eu pudesse, de Nina e todos em sua volta. E irei trazê-los para cá. Com isso o texto terá spoiler.. Ficando também a sugestão de que assistam primeiro esse filme. Que o considero uma Obra Prima da performance da Natalie Portman.

Durante as primeiras cenas, me veio a lembrança da Phoebe, personagem de Elle Fanning em “A Menina no País das Maravilhas“. Por ambas terem adentrado num mundo da fantasia. Um meio de escaparem das pressões do mundo real. Outro ponto em comum que também me chamou a minha atenção: foram o papel das mães. No sentido de quanto influenciavam na vida das filhas. No conflito interno que padeciam. A mãe de Phoebe retirou a filha das mãos de um Psiquiatra, por achar que o problema seria por não ter tido tempo para a filha. Já a mãe de Nina, Érica (Barbara Hershey), mantinha uma dedicação quase integral. Quando não podia estar junto da filha, tinha outros olhos a lhe informar dos passos da Nina no Teatro. Falando em olhar, o da Érica sobre a filha parecia vampirizar a me-Nina. Meio assustador! Excelente atuação da atriz. E até por conta disso, nem lhe passou pela cabeça procurar ajuda por Profissionais da área Psico.

Esse também é um ponto que irei abordar: da busca por uma Terapia. O termo é mais difundido como o de fazer um hobbie. Algo para desanuviar a mente ante a uma pressão, ou bloqueio… Enfim, até pode ser. Mas há de se pesar de que cada caso, é um caso. E só quem poderia avaliar com mais precisão seria alguém que estudou para isso. Sendo ele um profissional sério, saberá encaminhar para um especialista. Como leiga no assunto, me pareceu que o problema de Nina poderia ser pelo menos atenuado com medicação pescrita por um Psiquiatra.

Como eu fui com um olhar em buscar pelos sinais do distúrbio da Nina, o de se coçar até ferir, foi um deles. Sendo nas costas, seria outro já adentrando nos ensinamentos de Jung – a Sombra. Como também para quem gosta de Astrologia – a casa 12. A Phoebe também se autoflagelava como uma punição. No caso da Nina, a princípio, ela nem se dava conta disso. Era como se o seu outro “eu” que fizesse isso. Pode até ser que esse coçar… aos olhos de um Profissional, já se seria um sintoma. Para mim, seria um aviso de que minha filha estaria passando por um problema que a cabecinha dela não estava dando conta do recado. Um diálogo aberto me levaria a outros sinais.

No caso de Nina, sua própria mãe é quem nos fornece maiores detalhes. Que para ela eram todos contornados em tratando a filha como uma criança, ainda. Volto a destacar a atuação da Hershey: foi brilhante! Cheguei a ficar com raiva dela com a solução que ela deu. Conto? Contarei sim. Mas antes, já que a mãe via aquele coçar até se ferir como Compulsão, fui pesquisar por um significado. Trouxe esse do site do Dr. Dráuzio Varella:

O comportamento compulsivo se caracteriza por uma pressão interna que, em determinadas situações, faz com que a pessoa se sinta impelida, tomada por desejo muito forte de realizar uma ação que gera prazer principalmente nos estágios iniciais, mas que depois provoca sentimentos de culpa e mal-estar.”

Para mim, não se aplica no comportamento da Nina. Mesmo se tratando de uma compulsão, não seria cortando as unhas que iria resolver. Porque poderia se coçar com objetos que iriam ferir mais. Como a mãe veio com um – “Você voltou a fazer!” -, então era hora para procurar por uma ajuda. Na cena em si, cheguei a ficar com raiva dela, em tratar a filha como um bebezinho. E vendo o quarto de Nina, via-se ali os sonhos ainda da infância. Ainda uma adolescente. Achei-o sufocante.

Antes de prosseguir, deixo uma indagação: Por que ainda nos dias de hoje há tanta resistência em se procurar por um profissional da área psi? Hora desses profissionais retirarem esse ranço antigo. De que são só para “loucos”.

A mãe de Nina fazia tudo isso por projetar na filha aquilo que ela não conseguiu ser: uma bailarina de destaque. O fato de ficar sempre como pano-de-fundo, a levou a outros caminhos. No filme não faz referência de como se engravidou de Nina. Se foi algo do tipo: teste de palco. Também não há indícios se houve em algum momento uma figura paterna. Não que seja algo imprescindível, mas no caso de Nina essa ausência terá uma consequência. Conto mais adiante.

Essa transferência – o filho será o que não conseguiu ser -, é algo muito forte na cultura estadunindense. Por polarizar: ou se é um winner, ou se é um loser. Mas também está presente na relação – pais e filhos – de outros países. A mãe de Nina a responsabilizava de que com o seu nascimento teve que abandonar a própria carreira aos 28 anos de idade. Algo que me fez lembrar da personagem principal de “Comer Rezar Amar“, onde às vésperas de completar 30 anos, ainda não se via como mãe. Para muitas das mulheres, atualmente, e que querem ser mãe, deixam para ter filhos após os 25 anos. Até para se dedicarem mais esse novo papel em suas vidas. Por conta disso me peguei a pensar de que a gravidez de Érica fora algo indesejado.

Não sei o quanto pesa na vida de uma mulher o fato de tentar conquistar a posição de 1ª Bailarina numa Grande Companhia de Balé. Desconheço os meandros. Sendo assim parto de supor de que alguém tendo 28 anos de idade se ainda não “aconteceu”, ficará difícil alcançar esse posto. Assim, não há desculpas convincentes para as cobranças da mãe de Nina. E a filha ao soltar as primeiras amarras, diz a mãe que ela sempre faria parte do corpo de balé, nada além disso.

O Lago dos Cisne, ou melhor os dois personagens principais – o Cisne Branco e o Negro – pediam por alguém jovem. Que se tivesse condições, uma única bailarina faria os dois. Havia também o fato de que a Companhia passava por uma grande crise financeira. Dai, precisando de uma carinha nova; de sangue novo. Por conta disso aposentam a até então primeira bailarina: Beth. Grande atuação de Winona Ryder.

Nina admirava Beth. Aspirava ser perfeita como ela. Buscava pela perfeição em seus ensaios. Que não passou despercebido pelos olhos da Companhia, no caso, do Coreógrafo Thomas Leroy. Uau! Vincent Cassel me surpreendeu nesse papel. Foi brillhante! Não caiu em esteriótipo. Seu coreógrafo não me levou a pensar em seus outros papéis. Pode até ser que essa atuação não seja o seu divisor de água, mas está de parabéns.

Thomas fora um Mentor diferente. Ciente da capacidade de Nina, faltava ingressá-la na Sedução o qual o Cisne Negro exigia. Nina já possuia a candura necessária para o Cisne Branco. Um jeito menina de ser. Lhe faltava descobrir a mulher fatal dentro de si e trazê-la à superfície. Bem, poderia apenas aflorar o poder de seduzir, mas a pressão do momento exigia muito mais.

Thomas faz isso de um jeito encantador. Fica meio difícil acreditar que um Pai, mesmo hoje em dia, daria o mesmo conselho. Dai o vi como um Mentor. Indo além, como um cara de bom caráter que sabe esperar que a jovem também o queira para uma relação íntima. Um cavalheiro à moda antiga. Mesmo que as verdadeiras intenções de Thomas eram fazer dela – de fato e de direito - a 1ª Bailarina da nova versão do Lago dos Cisnes.

Seu conselho foi para se masturbar. O primeiro passo para sentir os prazeres do próprio corpo. E então poder exteriorizar essas sensações até para ajudar no processo de sedução. Pois o Cisne Negro teria que ser bem provocante com a platéia. De modo a surpreender a todos com as duas formas de sedução em cada um dos Cisnes. O angelical, do Branco. O de mulher fatal, do Negro.

Com isso a me-Nina cresce. Fazendo uma revolução em sua vida. Que até poderia ter vindo como uma consequência natural de vida: infância -> adolescência -> maturidade… Mas tendo a mãe lhe pressionando a não crescer, talvez para que chegasse ao estrelado ainda com o frescor da adolescência. Essa mãe também deveria fazer uma Terapia.

Por estar sempre cobrando o seu nascimento, me veio a impressão que ficou no subconsciente de Nina uma aversão a uma relação hetero. Nina passa isso quando um carinha em uma boate, a leva para um cantinho. Com o Thomas não foi um desejo carnal, mas em aprender rápido o que ele queria na interpretação do Cisne Negro. Como se não bastassem as pressões – uma doença em evolução, a mãe, a posição de Primeira Bailarina, o sentimento de culpa pela “aposentadoria” da Beth, o querer ser perfeita na carreira, não conseguir se enturmar, o coreógrafo lhe cobrando numa mudança para então fazer também o Cisne Negro… Enfim, se não fosse tantas pressões, o própio Thomas lhe traz mais uma: uma bailarina para ficar como substituta. Já que “o show não pode parar“… a Companhia precisava ter alguém à altura do espetáculo.

Ela é Lilly (Mila Kunis). Se Nina pudesse raciocinar com calma, veria que ali dentro não teria concorrência. Nem Lilly lhe tiraria a vaga. Já que ela não trazia o porte elegante de Nina. Lilly pendia mais para a vulgaridade. Tinha talento sim, mas para se encaixar na disciplina do Balé Clássico, Lilly precisaria de muito treinamento.

Inocentemente, Nina busca em Lilly tudo aquilo que não consegue ser por si mesma. A carência por uma amizade, a leva a se entregar de corpo e alma a Lilly. Onde realidade e fantasia se misturam em sua mente. Mas essa, por sua vez, cerca Nina de todos os modos. Esperando os momentos certos para atacar. A maldade em Lilly lhe era tão natural, que cegava a visão de Nina. Não vendo que o que Lilly pretendia mesmo era destronar Nina. Ela só descobrirá já um pouco tarde.

Nina, que antes tinha a lhe assombrar o Cisne Negro… direciona a sua limitação em aprender com essa nova amizade. Sem ter consciência da sua nova realidade, no caso, de ter uma outra personalidade, a faz também um objeto de desejo. Ao se masturbar, Lilly se materializa. Onde eu não vi como sendo a descoberta de uma homossexualidade. Era o seu outro “eu” querendo ser provocativa. Me fazendo lembrar de “Uma Mente Brilhante“, onde o “colega de quarto” do personagem principal, o Nash (Russel Crowe), também era o seu contraponto. Mas esse teve alguém que lhe amava e conseguiu ver a real situação do marido. Diferente de Nina que não teve ninguém que pensasse nela como uma pessoa, e que precisava de ajuda. Só pensavam neles. Quando a então notaram… já era tarde demais.

“Cisne Negro” também aborda uma outra mudança atual. Até um tempo atrás, era muito comum ver menininhas em uniforme de Balé. Fazia parte do sonho infantil: ser bailarina. Até as com tendências a engordarem, eram encorajadas numa tentativa em mudarem seus hábitos alimentares. Além disso, elas também ganhavam as primeiras noções dos Clássicos: Música e Dança. Eu não sei se a intenção do Diretor era em mostrar o total desconhecimento dos Clássicos pelos jovens de hoje. Muitos dos quais buscam em serem Celebridades sem o menor esforço, e com muito menos estudos. Um pouco de Cultura, não faz mal a ninguém. Aronofsky leva isso nos dois jovens que Nina e Lilly conhecem na boate. Ambos sequer tinham ouvido falar do “Lago dos Cisnes”.

E qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Para mim a grande vilã dessa estória foi a mãe de Nina. Que a conduziu até a borda daquele precipício. Final emocionante. Para ficar na História do Cinema.

Ao fechar as cortinas…

Bravo Natalie Portman! Sua Nina entrou para a Lista das Grandes Personagens Femininas! Aplausos também a todos! Desse excelente filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

“Sin Nombre” (2009)

No ano passado, quando fui convidado por Lella para escrever neste blog, fiquei um pouco inseguro porque não sou critico de cinema— apenas gosto muito de cinema— e, quando escrevo, sinto que não consigo ser neutro, isto é, coloco muito de mim nos textos.  Escrevo algo. Depois, passo dias longe do texto, e quando me reencontro com o texto, tenho que re-escrevê-lo. Outro dia, tive a ousadia de reler alguns dos textos que escrevi para o blog, e eles não me deixaram uma boa impressão!

Em 2009, assisti grandes filmes, mas apenas dois desses filmes eu considero marcantes: “Sin Nombre”— a estréia do Americano Cary Fukunaga na direção— e, “The Stoning of Soraya M.” — dirigido por Cyrus Nowrasteh, que escreveu e dirigiu o polêmico documentário “The Path to 9/11” (2006). São filmes distintos, e tentei escrever sobre eles, mas entre tantas revisões— cinco  ao todo!—me deixaram insatisfeito, e frustrado, e por tal razão deixei os textos de lado. A primeira revisão foi muito sobre a minha opinião sobre a imigração em “Sin Nombre”, e sobre Islãmismo em“The Stoning of Soraya M. Achei que não elaborei nada de legal sobre os filmes. A segunda revisão foi o contrário. A terceira revisão foi sobre como esses filmes foram feitos e para quem foram feitos — será que tenho esse direito? Praticamente cataloguei um filme para um determinado público. Me achei tão técnico, e tão arrogante, que resolvi deletar o texto. A quarta revisão foi muito pessoal—usando muito da minha esperiência de vida—, e aí, me envolvi tanto com os textos, que de uma forma, sofri para terminá-los e resolvi parar de revisar, pois tudo estava uma m*rda.

Se passou  alguns meses. Praticamente, esqueci dos textos por achar que não valeria a pena publicá-los.  Por acidente, lendo um livro do Roger Ebert, encontrei essa citação:

“Um filme não é bom porque ele chega a conclusões que você compartilha, ou ruim, porque isso não acontece. Um filme não é sobre o que ele se trata. É sobre como ele é: sobre a forma como ele considera o seu tema, e sobre como o seu verdadeiro tema pode ser diferente para a quem ele foi provido.”

Achei essa citação tão relevante, que me motivou a rever “Sin Nombre” e “The Stoning of Soraya M.” neste final de semana. Voltei aos textos e os terminei.

“Sin Nombre” começa num cenário lindo, a luz solar de tons dourados. Em seguida, se vê um jovem sem camisa— e, cheio de tatuagens—, segurando um cigarro. Depois, a camera se posiciona nas costa desse jovem—que depois ficamos a saber que o seu nome é Willy/ El Casper (brilhante atuação de Edgar Flores) —, onde podemos ver o cenário etéreo de dentro da casa para fora, e ficamos a saber que esse é o único momento de paz que Casper vai ter.

A estória de “Sin Nombre” se passa em Tapachula, no sul do México. Casper vai levar o seu novo amigo Benito (Kristyan Ferrer, que tem a mais expressiva presença cênica na tela, desde Ravi Ramos Lacerda, em Abril Despedaçado), que inicia sua vida como membro da gangue “Mara Salvatrucha” — gangue criminosa transnacional que se originou em Los Angeles e se espalhou para outras partes dos Estados Unidos, Canadá, México e América Central. O menino de 12  anos de idade é logo “batizado” de Smiley, depois de levar uma surra dos membros da gangue, e soltar o sorriso através das lágrimas.

Nesse meio termo, temos outra enredo: em Honduras, conheceremos Sayra (Paulina Gaitan, também em excelente atuação). Sayra reencontra com o seu pai e um tio distante. Eles se preparam para ir ao Mexico e, atravessar a fronteira e imigrar para os Estados Unidos. A estória de Casper e Sayara vão se mesclar durante uma tentativa de estupro no topo de um trem. E assim, ficamos no meio de duas jornadas: a de Sayra que  é  de chegar ao seu destino ( Os Estados Unidos), e a de Casper que, é de tentar escapar de seu destino.  A  amizade deles se aprofunda ao longo do caminho e os problemas de Casper com os seus “amigos” da gangue  também. Por um lado temos um estudo de uma cultura de gangues e da corrupção da juventude, por outro lado, “Sin Nombre” é sobre imigração e sobre a dolorosa jornada através da fronteira.

O filme é tão intenso e corajoso como “Cidade de Deus” e em outros pontos, é o oposto do filme de Fernando Meireiles. Cary Fukunaga disse que “uma vez que teve imigrantes reais,  não precisou falar nada para eles- eles sabem como sentar no topo de um trem!,” e assim enriqueceu o seu filme, fazendo o espectador esquecer que esteja assistindo um filme. Ao tratar de um tema delicado como a imigração ilegal, o diretor nos presenteou com uma uma tragédia grega, que é ao mesmo tempo comovente e dolorosa de observar: a mistura de dois mundos obscuros, a viagem para atravessar a fronteira, e os bastidores da cultura de gangues Mara.

Fukunaga também escreveu o roteiro, unindo suspense, e ilustrando a vida de muitos pessoas que se perderam do outro lado da fronteira, o que achei nada menos que chocante! O que é ainda mais chocante é que nós raramente ouvimos falar desses imigrantes, que geralmente são esquecidos, “sem nome.” O fotografo  brasileiro Adriano Goldman me impressionou com as lindas imagens. As cenas dos imigrantes em cima do trem, ou abandonados nos trilhos me pareceu em constante movimento. E, em vez de equipamentos digitais, Goldman fez uma escolha crucial estética que contrasta a miséria gráfica com muitas cores vivas, além da mensagem de documentário impressa na tela. Outro brasileiro que contribui para a riquesa de “ Sin Nombre” foi o musico Marcelo Zarvos— o impacto emocional da sua trilha sonora, que mistura uma orquesta completa, e o som adcional de violão e, acordeão, é nada mais do que perfeita!

Não pude deixar de sentir pena dos personagens do filme. Primeiramente, por ser brasileiro, e por ter vivido fora do Brasil por tanto tempo. Calma gente, eu não cheguei aqui atravessando a fronteira ilegalmente, e nem estou ilegal !. Quando vou ao Brasil sou perguntado por amigos como é a terra do tio Sam, pois eles apenas conhecem os EUA dos filmes, e dos noticiáros. Quando morei na Tailandia, e na Birmania, eu era visto e tratado como um rei, pois para muitos, eu era “americano” e eles tinham a idéia que paraíso na terra, era ir “viver” a cultura “rica” dos EUA, sem querer aceitar a verdade que eu não era, e nunca fui rico, e que nos EUA têm sim, os seus miseráveis. Milhões de pessoas só conhece os EUA, através do que vêem em filmes. Eles não sabem de Nova York, San Francisco, LA ou mesmo a linda Washington D.C como elas são, mas as cidades através dos olhos da cultura dominante. A única imagem dos Estados Unidos para eles é o resultado de uma combinação de uma ilusão, que os americanos podem entender, mas nunca vão sentir.

Tudo que expresso no ultimo parágrafo, não vem do filme “Sin Nombre. Tudo isso eu trago para o filme, porque eu vivi em 3 paises, e convivi com miseria—principalmente, no campo de refugiados na Tailandia, onde todos os birmaneses continuam sem nomes, e sem nacionalidades —, que nunca vão ver os locais que eles um dia viram  através do cinema. O que é ainda mais interessante é que todos esses pensamentos foram desencadeados em mim por um filme: “Sin Nombre”. Aqui está um filme de estréia, dirigido por um americano que apresenta os fatos como eles são. “Sin Nombre” injeta no espectador  a realidade de passar por aquilo que muitos emigrantes experimentam.

Mas, o filme não é sobre imigração e gangues (como uma questão política). É sobre a busca de um lugar melhor. É sobre a natureza humana de buscar um ambiente mais saudável e um melhor ambiente. Não é sobre ir para os Estados Unidos, mas em ir para um lugar mais seguro!

Nota: 10

Diretor: Cary Fukunaga

Elenco: Marco Antonio Aguirre, Leonardo Alonso, Karla Cecilia Alvarado, Juan Pablo Arias Barrón, Rosalba Belén Barrón, Sixto Felipe Castro, Rosalba Quintana Cruz, Marcela Feregrino, Kristian Ferrer, Edgar Flores, Giovanni Florido, Paulina Gaitan, Ariel Galvan, Diana Garcia, Gabriela Garibaldi

Produção: Gerardo Barrera, Pablo Cruz, Gael García Bernal, Diego Luna

Roteiro: Cary Fukunaga

Trilha Sonora: Marcelo Zarvos

Duração: 96 min.

Ano: 2009

País: México/ EUA

Gênero: Drama

Cor: Colorido

Estúdio: Canana Films

“O Apedrejamento de Soraya M.” ( The Stoning of Soraya M.) 2008

“O Apedrejamento de Soraya M.” narra a estória angustiante de uma mulher condenada à morte depois de ser acusada pelo marido por ser infiel. Soraya, na verdade, era regularmente abusada, insultada e espancada pelo marido, que queria se casar com outra mulher, 19 anos mais jovem. O filme é baseado no livro do jornalista Friedoune Sahebjam, que vale a pena ser lido antes ou depois do filme.

O livro de Sahebjam é Testimonio — de narrativa de teor coletivo, isto é, o autor descrever o drama de Saraya a partir do ele ouviu de Zahra (tia da vitima), vivida no filme, pela atriz iraniana Shohreh Aghdashloo. Zahra fala de Soraya, e sobre Soraya, assim como representa a cultura da sua comunidade, mas será que tudo escrito por Sahebjam, é autêntico?. Tanto no livro quanto no filme de Cyrus Nowrasteh, Zahra é vista sobre um ponto de vista politico, isto é, ela fala e representa todas as mulheres  abusadas moral, fisica, e psicologicamente, sendo elas muçulmanas ou não. Ao representar Soraya, Sahra não abandona a sua responsabilidade contra a injustiça que a sua sobrinha foi vitima, pois segundo os fatos, Soraya era inocente.

Dividido pela crítica, “O Apedrejamento de Soraya M.” foi pouco visto nos cinemas, mas é acima da média. O elenco é muito bom,  destacando rostos conhecidos como o de Aghdashloo, e James Caviezel, que faz o jornalista Freidoune Sahebjam. Além disso o filme tem um lindo trabalho de fotografia assinado por Joel Ransom e, John Debney escreveu uma emocionate trilha sonora. Mas a força do filme, está  no seu tema: “crimes de honra,” embora para muitos seja sobre o papel dos extremista islamiscos, e o papel na mulher.

Foi difícil para eu assistir esse filme. Diria que por ser baseado numa história verdadeira, o diretor Cyrus Nowrasteh exagerou na crueldade, que muito me fez lembrar da violência que Mel Gibson usou e abusou em “Paixão de Cristo”(2004)— nãopor acaso, ambos os filmes foram produzidos por Steve McEveety. Quase não consegui dormir depois das cenas mostrando Soraya ser parcialmente enterrada viva, e brutalmente apedrejada até a morte por uma multidão de homens, que incluiu seu próprio pai, marido e dois de seus filhos. Depois, me perguntei o porque um filme como este, com 20 minutos de violência que retrata a morte lenta de uma mulher “real” não é considerado tão violento? Os retratos de atos brutais de violência baseados em casos reais me vem como uma verdadeira catarse— quando o filme terminou, me senti purificado por causa da descarga emocional que essa história me provocou, e ao mesmo tempo com um vontade de gritar, de expressar a minha revolta.

Vamos a trama: Ali, o marido abusivo, pede ao mulá (nome dado ao lider da mesquita, mas também é como o prefeito da comunidade) a convencer Soraya a lhe conceder o divórcio. Ela se recusa. Em seguida, o mulá propõe que Soraya se torne amante de Ali, em troca de proteção e apoio financeiro para cuidar dos filhos. Em meio termo, após a morte súbita da esposa de um vizinho, o mulá pede a Soraya para trabalhar na casa do viúvo. E, assim, Ali articula algo para se livrar da esposa: acusando-a de dormir com o vizinho. Entre chantagem e mentiras, o destino de Soraya foi traçado.

Tem uma cena de “tribunal”, onde os homens da lei, baseado no sharia—  a lei sagrada do Islã—,  decidem o destino de Soraya: Ser condenada a morte por apedrejamento. É perturbador vê como os radicais islâmico subvertem o Alcorão para justificar assassinatos torturosos, pois em nenhum lugar no livro sagrado do Islã, é mencionado o apedrejamento como uma punição. É sabido que poligamia  é parte da cultura islâmico, por exemplo:

“E se tu ficares apreensivo por não seres capaz de fazer justiça aos órfãos, podes se casar com duas ou três ou quatro mulheres da tua escolha. Mas compreendes que talvez não sejas capaz de fazer justiça a elas, então se case apenas com uma mulher…” (Sura 04:03, minha tradução)

O Alcorão ensina que o homem dever ser responsável pelas suas mulheres, mas a destaca que haja a desigualdade de sentimentos, então o homem  não é obrigado a ter 4 esposas. Allah fortemente proíbe o sexo fora do casamento, afirmando que os crentes não deve cometer adultério ou fornicação (17:32, minha tradução). A maioria dos muçulmanos acreditam que o Sharia estabelece as revelações divinas encontradas no Alcorão, e nos exemplos dados pelo profeta Maomé. Mas a lei do Sharia diverge quanto ao que exatamente ela implica. Os modernistas, os tradicionalistas e fundamentalistas todos têm opiniões diferentes do Sharia, indo além do que está no Alcorão.

A partir do topo a esquerda: a lapidação iraniano real, o apedrejamento na Somália. Embaixo à esquerda: a lapidação na Somália, o apedrejamento do Oriente Médio. Centro: a verdadeira Soraya Manutchehri aos 9 anos de idade.

No Código Penal iraniano, uma mulher casada não tem direito ao divórcio, que é um privilégio reservado para o marido. As mulheres não têm direito da guarda dos filhos após sete anos de idade, como resultado, as mulheres podem obter o divórcio se provar que seus maridos sejam abusivos ou viciados, mas optam a não se separar, temendo a perda de seus filhos. Um homem pode casar com até quatro esposas ao mesmo tempo, e pode estabelecer um relacionamento sexual com outra mulher por meio de um único casamento temporário sem as exigências de registro de casamento. Assim, se um homem está sexualmente insatisfeito, e num relacionamento infeliz, ele tem muitos caminhos abertos para dissolver o casamento.

É inaceitável que alguém seja condenado a ser apedrejado até a morte, mas é ainda mais inaceitável que este castigo seja dispensado às mulheres. E, mesmo se Soyaria tivesse sido infiel ao marido, seria justo apedrejá-la?  O filme ainda  assim seria cruel. Não se justifica a crueldade das leis do sharia.  Triste que a poligamia, ou o adultério clandestino em outras religiões e civilizações, ainda reduzem a mulher a uma posição subalterna, sendo violentadas e mortas pelos nojentos “crime de honra.”

Se você é como eu, que sofre com filmes que retratam o sofrimento humano, especialmente aquelas baseados em uma história verdadeira, vejam “O Apedrejamento de Soraya M” e aproveite para assistir esse video no youtube com Mozhan Marnò, e o director Cyrus Nowrasteh: 

Nota: 7

“O Apedrejamento de Soraya M.” ( The Stoning of Soraya M.) 2008. Alemanha / Inglaterra. Direção Cyrus Nowrasteh; Roteiro: Betsy Giffen Nowrasteh ; Elenco: Shohreh Aghdashloo ( Zahra), Mozhan Marno( Soraya), James Caviezel ( F. Sahebjam), Ali Pourtash ( Mula). Gênero: Drama. Duração: 116 minutos.