O Tempero da Vida (2003). Entre Aromas, Sabores e Saberes

Primeiro quero falar do substrato que as raízes precisam para se desenvolverem. Como para deixarem frutos também. Há quem se sinta tão ligado a terra onde nasceu que nem se imagina morando longe dela. Para uma criança esse desprendimento fica mais fácil. O que irá levar na memória será o que até então vivenciou ali. Mas para muitos adultos se vê longe do lugar onde nasceu seria como ficar sem chão. Agora, o bom mesmo quando se tem a liberdade de ir e vir sempre que puder e quiser. Pois como na canção:

E assim, chegar e partir / São só dois lados / Da mesma viagem / O trem que chega / É o mesmo trem da partida / A hora do encontro / É também de despedida.”

Com isso, apresento-lhes os dois personagens principais dessa estória que uma guerra estúpida acabou separando-os. Um avô e seu netinho estimado. Que viviam felizes em Istambul. Entre Temperos e Planetas filosofavam sobre os mistérios da vida.

O Tempero da Vida” começa quase pelo finalzinho. Onde o netinho, Fanis (Georges Corraface) agora adulto, morando na Grécia, decide viajar até Istambul. Para rever seu avô, Vassilis (Tassos Bandis), e o seu primeiro amor. Iria aproveitar umas férias. É quando um dos amigos do seu avô o procura para lhe dizer que ele enfim resolveu vir para Atenas. Pedindo que Fanis preparasse um almoço de confraternização entre velhos amigos que também foram obrigados a deixarem aquela terra.

Assim enquanto prepara o almoço Fanis rever suas memórias dessa infância tão significativa. E nós vamos juntos nessa viagem. Desejando que nessa hora o sentido do olfato também fizesse parte do contexto. Não sei quanto a vocês, mas eu amo o perfume e o sabor das especiarias. Em entrar num Empório e se deliciar com todos aquele aromas; e colocar na comida que eu faço também. A Turquia lhe era muito cara (estimada), e a sua Família também. Mas por conta de seu pai ter nascido na Grécia foram obrigados a deixar Istambul. Seu avô ficou. A partir dali o contato era mais por cartas. Fanis até tentou voltar, mas os militares o impediram. Mas dali a pouco iria poder estar com ele novamente.

O pequeno Fanis (Markos Osse) do mezzanino do Empório de seu avô recebeu lições que foram sua bagagem nessa jornada chamada vida: Culinária e Astros; Sabor e Mistério; Aromas e Luzes; Sensações e Escuridão; Desejos e Medidas… Ele já sonhava em ser um Astrônomo quando crescesse. Com seu avô desenvolveu um outro Talento nato: iniciando no mundo da Gastronomia. Vassilis ia mostrando a sutileza de cada um dos temperos. A medida certa que aguçaria o paladar. Que daria vida ao prato. O que traria um despertar especial ao comensal. Assim seu avô foi mostrando que seus dois dons estavam em harmonia: G(A)stronomia.

Fanis até poderia ter se tornado um grande Chef. Adorava mostrar seus dotes culinário. Mas seu pai dizia que cozinhar era coisa de mulher. Um preconceito cultural. Mesmo assim de vez em quando Fanis cozinhava escondido. Mas a pressão fora muita – até por parte do Colégio -, que esse seu talento foi ficando mais como um hobbie. O que em parte o ajudou a temperar seus humores, amores, saudades… no correr da vida.

Sabem aquela estória gostosa de se ouvir? O filme nos leva a essa sensação. Sendo que estaremos vendo também. Há momentos tristes que se intensificam ao pensarmos que se não fosse pela estupidez de uma guerra separatista ambos poderiam ter tido uma convivência maior. Mesmo “O Tempero da Vida” sendo bom até de rever preferi não contar mais, em não trazer spoilers. Deixar que quem ainda não viu se delicie entre Aromas, Sabores e Saberes. Para quem já viu, que reveja os temperos para cada ocasião. O filme é muito bom. Sendo mais um a mostrar universos masculinos com delicadeza. E com certeza esse filme merece fazer parte da nossa videoteca.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Tempero da Vida (Politiki Kouzina). 2003. Grécia. Direção e Roteiro: Tassos Boulmetis. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 108 minutos.

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4 comentários em “O Tempero da Vida (2003). Entre Aromas, Sabores e Saberes

  1. E um filme delicado e emocionante, que fala do amor entre dois seres que foram separados por questoes político religiosas, mas permaneceram emocionalmente ligados por detalhes delicados e subjetivos.

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  2. Este filme é de uma delicadeza ímpar, de uma sensibilidade rara. Eu, que amo cozinhar, diria que é o melhor filme a que já assisti. É para ser visto e revisto muitas vezes. Não sei como não foi indicado a um Oscar, realmente. Para quem ouse pensar sobre o sentido da vida, vai encontrar ali muitos caminhos.

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  3. Um filme para se ver sempre, comovente e delicado; que tem como ponto de vista, a guerra entre Trkia e Grécia, e as subjetividades poéticas e filosóficas, a partir da arte de cozinhar. Um dos melhores filmes que já vi.

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