Pina (2011). Wim Wenders

Por: Fatima Daia Bosch.
O filme Pina, de Wim Wenders, é um documentário em homenagem à bailarina e coreografa alemã Pina Bausch, falecida em 2009. Os dois se conheceram quando ela apresentou seu espetáculo Café Muller, e se tornaram amigos. O filme deveria ter sido uma realização em comum dos dois. Com a morte súbita de Pina pouco antes do inicio da filmagem, Wenders chegou a pensar em abandonar o projeto, mas mudou de ideia, encorajado pela família da coreografa e pelos dançarinos de sua trupe. No filme se intercalam coreografias e depoimentos dos bailarinos.

Uma coisa importante a saber sobre o filme é que ele foi feito para ser visto em 3D. Essa característica me desencorajou um pouco. Confesso que até então não tinha visto uma real serventia, ou melhor, nada que compensasse o desconforto do uso de óculos especiais. Dessa vez tive que dar a mão à palmatoria. A escolha se adaptou perfeitamente à visualização dos números de dança, permitindo ao público captar toda a dimensão criativa das coreografias. Também belíssima a solução encontrada para o uso das imagens antigas, portanto em duas dimensões, de Pina Bausch dançando.

Seria entretanto um erro falar apenas do lado técnico e coreográfico do filme. Fiquei extremamente impressionada com os depoimentos dos dançarinos falando dela, da forma com que ela se comportava com eles, do extremo respeito e sensibilidade que ela demonstrava ter. Uma coisa me chamou a atenção, desde o inicio: a idade dos bailarinos. Alguns eram muito jovens, outros bem mais maduros. As próprias imperfeiçoes dos corpos não eram de forma alguma obstáculo à beleza dos espetáculos, e o corpo de cada bailarino exaltava à sua maneira a coreografia. Essa mesma atitude respeitosa de cada indivíduo aparecia nas recordações de cada um, essa preocupação em fazer com que cada pessoa descobrisse ela mesma a sua verdade e a fizesse aparecer no palco.

Essa mesma preocupação com as pessoas aparecia na escolha temática das coreografias, que falavam de amor, de separação, e que mergulhavam profundamente na alma humana (eu ia dizer na alma feminina, porque embora esses temas sejam universais achei extremamente feminina a visao dela). Por motivos pessoais sou muito sensivel a esse tratamento respeitoso, e por isso o filme me tocou demais. Nao conheci Pina Bausch,apenas de ouvir falar, mas graças às danças e aos depoimentos fui embora do cinema sentido sua falta. Durante o tempo que o filme durou ela voltou a viver.

Fiquei pensando; quando o cinema apareceu, era considerado uma arte menor, comparada ao teatro, uma mera curiosidade. Quando o cinema falado surgiu, muitos custaram a aderir, pois o cinema de verdade era o outro, o mudo. Ver um verdadeiro filme de autor em 3D me fez perceber que na verdade eu estava sendo preconceituosa.

Rever meus conceitos, passar duas horas de puro deleite e voltar pra casa com saudades de uma pessoa que nao conheci. Balanço mais que positivo para uma tarde perfeita. Nao deixem de ver!

Por: Fatima Daia Bosch.

JUMPER (2008)

No filme “Jumper” o personagem David Rice é um adolecente que um belo dia descobre que tem a habilidade de se teletransportar, como o Noturno do famoso filme X-men, só que sem o azul. Descoberto seu poder especial ele resolve deixar para trás seu pai abusivo e frustrado e vai para Nova York e se torna um ladrão de banco.

Em sua jornada ele se transforma em uma anti-regras, fugindo de todos os padrões de uma vida “normal”.

No desenrolar da trama cinematográfica o personagem David descobre que ele não é o único Jumper, pois existiam inúmeros outros os quais viviam perseguições diárias. Roland era um paladino que realizava estas perseguições contra estes seres que ele considerava: “aberrações, seres que não merece viver”.

O filme proporciona aos telespectadores muita aventura, romantismo, emoção, suspense, ação. Mas diferente de outras produções cinematográficas que trabalham com mutantes, David vive na pele de um anti-herói. No entanto David começa sentir na pele a consequência de suas aventuras sem regras, iniciando uma longa corrida contras a perseguição dos paladinos. Envolvendo a vida de pessoas amada como Mary Rice uma paixão de infância e seu pai.

O filme não foge das outras produções cinematográficas com relação aos mutantes seres com poderes sobrenaturais que sempre tem um ponto fraco, ou seja, um pé de Aquiles que se destaca nas diversas produções ficcionais.

Em suma fica claro que mesmo possuindo poder nunca deixamos de ser “seres humanos” e o mesmo não é eterno ou imbatível. Poderosos Jumper, mas humanos iguais a qualquer outro que ama e sente as emoções de uma existência.

O Curioso Caso de Benjamin Button (2008)

No filme “O Curioso Caso de Benjamin Button” a história de Benjamim ganha vida com sua amada Deyse que guardava as lembranças na memória e no diário o qual o Benjamin registrou a sua história enquanto lembrou.

Uma história contada de trás para frente como o relógio do Sr. Gateau, um relojoeiro citado por Deyse na introdução do filme.

A história de Benjamim começa ser narrada no final da primeira Guerra Mundial, momento escolhido para seu nascimento. No entanto Benjamim nasceu velho, seu corpo já havia deteriorado antes mesmo dele envelhecer.

Um mistério onde uma criança é aprisionada em um corpo velho. Benjamin vivia uma raridade, pois as marcas das experiências chegaram antes mesmo de serem vividas
O seu caso é atípico, Benjamin vive a famosa inversão trabalhada em um dos textos de Charles Chaplin, onde nascemos velhos e seguimos uma caminha inversa se dirigindo até o principio da existência, ou seja, a juventude.

Benjamin fica órfão e sua tia o cria em um asilo de idosos. Benjamim na aparência não diferenciava daqueles que ali estavam. No entanto misteriosamente Benjamin não caminhava em direção da morte e sim da vida; vida que se renovava a cada dia.

Não havia lugar melhor para Benjamim crescer, um lugar onde as pessoas valorizavam o tempo, vivia a intensidade da vida em um único dia, pois para eles o amanhã era improvável.

Ele não entendia o que acontecia com ele. Por que ele era diferente. Inconformado ele se via triste, pois nunca podia brincar ou viver como uma criança da sua idade.
No processo de crescimento ele aprendia cada vez mais com aquelas pessoas que de uma forma ou de outro foram marcantes em sua vida. Os anos passaram todos envelheceram e Benjamin era uma criança que caminhava em direção da origem, do nada.

A produção cinematográfica nos leva a uma reflexão profunda do viver, pois mesmo vivendo de forma contraria a vida chegará ao fim e as luzes da lucidez de uma forma ou de outra se apagarão.

Afinal, devemos entender de forma clara e precisa que viver é um processo evolutivo em direção do nada ou do desconhecido.

Atração Perigosa. Como Fazer um Filme Ficar na Memória?

Por: Fábio Montarroios.

Andamento, máscaras e tags: como fazer um filme ficar na memória?

Ben Affleck faz mesmo o que quiser com um filme. Tanto que pode optar em fazer algo legal ou uma porcaria. Mas não se trata disso em mais um filme dirigido por ele: “Atração Perigosa“. Porque mesmo tendo uma história não muito original, especialmente depois de “O plano perfeito“, de Spike Lee, ou do remake “Os Infiltrados“, de Martin Scorcese, fazer de Boston personagem e conhecer os becos e travessinhas da cidade fazem toda a diferença pra quem foge com a grana no filme (também para quem assiste, claro), pois fugas espetaculares só estavam sendo vistas naquelas cidades européias com ruelas estreitas e cheias de caixas e gente vendendo frutas. Quem assistiu “Ronin”, de John Frankenheimer ou toda a sequência  Bourne: “Identidade Bourne”, de Doug Liman, “Supremacia Bourne”  e “Ultimato Bourne”, ambos de Paul Greengrass, sabe do que se trata.

Até um filme lento como “Um homem misterioso” proporciona emoção no embate entre um Punto e uma lambretinha. Basta saber fazer e Affleck soube no seu filme cheio de tiros e colisões. Mas ele foi além e incrustou o filme em nossa memória fílmica!

Agora, o próprio Affleck como bandido-herói e John Hamm (da série “Mad men”) dando uma de super agente do FBI fazem do movimento pendular da perseguição e captura ser frenético num momento para ser tolo noutro (a polícia geralmente faz papel de trouxa ante a malandragem do bando). Só que isto é próprio deste tipo de filme e não do repertório de decisões que o diretor tem que tomar. Alguém, nessas buscas tem que perder em algum momento para a trama avançar até o seu desenlace final – que geralmente é resolvido de maneira rocambolesca.

E tudo, a meu ver, tem relação com o andamento e ao invés de um diretor um regente, pois, fracamente, não existem mais diretores como Bergman em atividade, assim como não existe mais um Beethoven compondo. Agora, maestros… há aos borbotões.  Pois então, assim como na música clássica, o andamento define o que se pode esperar da peça musical e o que se poderá sentir com ela em dado momento. Daí, proponho até que ao invés da confusão com gêneros em que encaixam os filmes seria mais fácil e conveniente dividi-los em movimentos e dar a eles andamentos. Para que aquela sinopse que não diz nada com nada? Ora, poderíamos ter para a perseguição um prestíssimo e para as cenas de sexo um andantino e assim vai.

Repare bem: você sente quando o filme é ruim ou bom quando ele tem problemas no andamento. É batata: perceba o andamento das atuações e do roteiro. É uma peça que se não for bem escrita e executada… fica uma joça não só para os ouvidos, mas também para os olhos no caso.

Há também as tags para classificar os filmes, mas diante de tantas camadas de metadados e baboseiras só vai restar mesmo aquelas imagens acachapantes que ficam na nossa memória e aparecem repentinamente (se você, por acaso, lembrou de um certo escritor francês… esqueça, pois não vou falar dele e cair na vala comum das madeleines). Pô, quem não lembra de Bill Murray todo pintando de palhaço e assaltando um banco de maneiras esquisita ou do bando de Keanu Reeves e Patrick Swayze com máscaras de presidentes americanos? Bingo! Affleck achou como deixar na nossa memória o filme que, aparentemente, é tão banalizado e consumido como matérias do noticiário policial. Freiras de máscaras e uma cena incrível que se segue logo após a perseguição.

Querem ordenar a informação na internet, mas não adianta muito, pois sem um pedaço da informação, que muitas vezes é puramente afetivo, nada fica totalmente completo. E creio que Affleck responde melhor ao seu tempo e de maneira mais eficiente que muitos de seus colegas de profissão, já que encontrou meios de fazer com que seu filme fique colado como uma etiqueta mesmo na nossa lembrança em meio a exacerbada entulhação hollywoodiana. Mesmo com pouca bilheteria ou tendo aborrecido críticos velhacos à espera de um novo grande diretor, taí: um filme legal, mesmo que allegro ma non troppo.

Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010)

“Nada se cria, tudo se copia.” Chacrinha

“Cópia Fiel” é um filme com roteiro instigante, do iraniano Abbas Kiarostami, diretor do ótimo e premiadíssimo Gosto de Cereja e de  “Dez”. Cópia Fiel é o seu primeiro longa rodado fora de seu país, sendo atores e ambientes de múltiplas nacionalidades, inclusive o tema abordado no qual não há fronteiras entre origens e línguas, sem dúvida, todos os povos se reconhecerão.

É a história do escritor inglês James Miller (William Shimell) que vai para uma cidade italiana lançar o seu livro sob o título de Cópia Fiel. Entre os convidados no momento do lançamento está Elle (Juliette Binoche) dona de uma galeria de arte que se senta na primeira fila ao lado do tradutor do livro e ambos mantêm um diálogo íntimo, ao pé do ouvido, transformando o célebre momento em conversas paralelas, ora mostrando o casal, ora o escritor em sua explanação e logo a seguir a entrada de um garoto (Adrian Moore) que a cumprimenta e depois vai se encostar em um dos cantos do salão e de lá começa um diálogo não-verbal com a sua mãe.

Elle deixa um cartão com o tradutor para que ele entregue ao escritor e se retira com seu filho bem antes do término desse evento.

Na verdade, o assunto instigante do filme é a própria idéia contida no livro recém-lançado, que vai tratar do valor da cópia em relação a um original. A partir daí tudo é uma viagem entre a obra cinematográfica e o expectador. O próprio Kiarostami deixa isso claro, justificando que a interpretação é livre. E o filme  transforma-se em um passeio entre o casal que na realidade parece se tratar de dois estranhos, e que podem ou não querer se conhecer.

Esse filme me conduziu a algumas viagens: lembrei-me do filme de Eduardo Coutinho o “Jogo de Cena” que já falei aqui em outra ocasião, quando o momento é mera encenação ou é fato, atores e anônimos transitando neste filme brasileiro declamando o mesmo texto, e ficamos sem saber quando é real e quando é apenas interpretação, como diz o próprio título ‘jogo de cena’. Lembrei-me também do polêmico diretor Orson Welles no maravilhoso filme “F for Fake” (aqui traduzido por Verdades e Mentiras). Cópia Fiel de Kiarostami e Verdades e Mentiras de Welles, são cópias fieis da ilusão, e ótima invenção. Na verdade o próprio cinema é pura invenção, o filme é imaginação onde nosso cérebro faz com que imagens paradas aparentem estar em movimento. O expectador faz parte desse jogo de cena que dura menos de duas horas.

O escritor diz que tudo é cópia da cópia e mesmo assim tem seu valor como o original. O homem é cópia da cópia do DNA dos pais dos pais de alguém. Andy Warhol deu nova roupagem ao produto Coca-Cola; repetimos frases e discursos que acreditamos ser nossos originais e que alguém já deve ter dito há milhares de anos antes.

O próprio filme que assistimos ou no cinema ou em casa é cópia fiel de um original. Orson Weles ficou famoso aos 23 anos de idade quando em 1938, transmitiu em cadeia de rádio nos EUA sua versão de Guerra dos Mundos e provocou pânico na população que achava se tratar de invasão alienígenas. Muitas obras de arte nos museus são cópias bem feitas de seus respectivos originais; muitos textos literários de autores anônimos passam tranquilamente dados como de grandes autores, Luiz Fernando Veríssimo que o diga; Elmir de Hory, famoso falsificador de quadros pintou telas que juramos ser da autoria de Van Gogh, Picasso, Matisse e muitos outros.

Já no desfecho deste filme Cópia Fiel, o escritor e Elle, passam tranquilamente a idéia de um casal que após 15 anos de casamento resolvem fazer uma segunda lua de mel. Quem não acreditaria nisso? Eu fiquei na dúvida. A obra de arte da sua essência à criação sempre foi reproduzível. Tudo o que fazemos pode ser imitado e copiado.

Mas de fato, existe Cópia Fiel? Uma foto é reprodução de outra foto, assim como irmãos gêmeos: olhe atentamente e diga se essas meras reproduções são cópias autênticas. Na segunda metade do filme o casal que parecia ser dois estranhos ganha intimidade, assumindo papel de marido e mulher, trazendo à tona muitas lembranças mútuas de sentimentos e emoções desgastados pelo tempo, por anos de matrimônio e vida em comum. Verdadeiro ou falso? Cópia ou original?

O essencial na arte e na vida é como fazer para incorporar aos anseios aquilo que será fiel ao nosso modo de sentir pensar e gostar, ao nosso relacionamento amoroso, a fidelidade no amor. Cópia Fiel toca em vários temas relevantes, principalmente sobre o que realmente é autêntico, relativo ou absoluto; real ou cópia.

E sempre o que se quer e se procura é ser fiel no amor, na vida, no sonho, no jeito de ser. Uma obra de arte única, original e exclusiva.

Vale a pena conferir este novo original de Kiarostami. Esse meu texto nada tem de original; é cópia da minha interpretação desse delicioso filme.

Recomendo. Veja cópia deste original de preferência num telão.
Karenina Rostov

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Copie Conforme

França / Itália , 2010 – 106 minutos

Drama

Direção: Abbas Kiarostami

Roteiro: Abbas Kiarostami

Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Adrian Moore

O Enigma de Kaspar Hauser (1974)

O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” promove uma linguagem histórica da construção de um homem enquanto indivíduo. Dirigido por Werner Herzog em 1974, o filme (baseado em livro homônimo) é tema de discussão na filosofia, ciências sociais e antropologia no mundo contemporâneo.

Entre os temas decorrentes da análise do filme estão a prática social condicionada, o convívio social como construtor da identidade psicológica do homem, o conflito entre indivíduo e sociedade, além de infinitos paralelos com correntes filosóficas e historiográfica de inúmeros e grandes pensadores.

No filme Kaspar Hauser é colocado em um celeiro, logo após o nascimento, o mesmo foi mantido em cativeiro por anos, privado de qualquer contato com o mundo externo até completar 18 anos, assim ele se tornou um sem disciplina, regras e comportamentos “não civilizado”. A perspectiva do filme se constrói em uma história exótica que se funde com reflexões de nível psicanalítico, religioso, antropológico, filosófico, poético, e etc.

O senhor que promove a experiência com Kaspar Hauser depois de anos de prisão o leva para ter contato com o mundo exterior, no entanto ele não sabe falar, nem andar, sendo assim impossibilitado de articular raciocínio e de interagir fisicamente com o mundo a sua volta. Ele o ensinado a andar, e a reproduzir inúmeras palavras.
O filme nos mostra a reação da sociedade ao lidar com um indivíduo nesse estado, possibilitando vários níveis subjetivos de leitura, análise e estudo referente o filme.

Kaspar Hauser se torna um homem sem história, ou passado. Pois o mesmo não havia desenvolvido o raciocínio e não havia vivido as experiências de uma existência.

No entanto podemos compreender que a influência da linguagem e do histórico cultural na percepção da realidade é fundamental na vida do homem. Isto é, as coisas que aprendemos ao longo da nossa história, nos possibilitam compreendermos os fenômenos que nos circundam.

Portanto, para produzir história, precisamos das experiências, fatos e momentos. A partir de então poderemos formular as idéias que passam a expressar dentro dos limites que construímos.

Ideias construídas, pois a nossa realidade vivida é parte da nossa memória, e assim conseguimos expressá-las em preto e branco, pois vivemos em uma realidade quase perfeita, ou seja, vivemos em uma copia quase perfeita de um mundo real. Assim, fica claro que mesmo possuindo um conhecimento nato é sempre essencial termos o conhecimento empírico, adquirido através do contato com o mundo a nossa volta.

Na aurora da análise entramos em contradição, pois não fica claro que a situação de Kaspar Hauser estaria relacionada com déficit intelectual para com a sociedade, já que o mesmo não teve a oportunidade de aprender sobre o mundo, tornando impossível o amadurecimento de conceitos em sua mente. Mas por outro lado a percepção dele poderia ser mais aguçada com relação a realidade de mundo, pelo fato de sua compreensão sobre as ideias não ter sofrido limitações, sendo ele livre dos conceitos.

Em suma, fica claro que mesmo a sociedade enxergando Kaspar Hauser como uma anormalidade, tentando até procurar em seu cérebro após sua morte uma resposta neurológica para sua condição; o filme nos leva a compreensão que o conhecimento é algo infinito e seu horizonte é inavistável. Portanto, nesta caminhada evolutiva precisamos aprender, refletir e registrar tudo em uma memória que não se limita as ideias ou conceitos do meio vivido.

Território Restrito – A América é uma vilinha.

Por: Fábio Montarroios.
As semelhanças com “CRASH, no limite“, de Paul Haggis, talvez estejam ausentes apenas na trilha sonora, pois, no geral, “Território Restrito“, de Wayne Kramer, lembra muito um filme que ganhou grande destaque na mídia há alguns anos ao explorar preconceitos latentes da sociedade americana.

Mas não deixa de ser irritante o entrelaçamento das vidas das pessoas envolvidas nas histórias que vão sendo elucidadas pouco a pouco com certo grau de previsibilidade. Se a aproximação da lente sempre mostra coincidências e a conexão entre todas as fendas (sem exceções) de uma sociedade… há algo sendo manipulado para que tudo seja assim: problemático, fodido… Daí a denúncia, a crítica, perdem força e um filme muito bem feito não vai muito longe.

Ao invés de um imenso país, um dos maiores e mais populosos do cosmo, a impressão que fica é que estamos diante de uma pequena vila e seus dilemas. Se o mundo passa pela América ele resolveu subitamente habitar um condomínio fechado ou ter se tornado um grande episódio de CSI (com direito àquelas aproximações de imagens de câmeras de seguranças de motéis de quinta, mas com altíssima resolução) já que tudo desemboca nas agências americanas de investigação com siglas que competem apenas com as grandes marcas: FBI e Nike, DEA e Apple, etc.

Poxa, devemos estar diante de uma vaga de filmes assim, pois até mesmo “Código desconhecido”, de Michael Hanake, apresenta dificuldades em registrar e formular o problema dos encontros de estrangeiros com pátrias que mesmo carentes de mão de obra barata para serem exploradas até a última gota relutam em reconhecer que a contribuição dos imigrantes é fundamental e que não bastam salários ordinários… ora, é preciso reconhecer direitos e dar a eles status de cidadão.

Sim, Europa e EUA vivem dilemas parecidos e mesmo lidando com eles de formas diferenciadas na vida real, a experiência fílmica resultante desses fatos raramente gera algo perturbador o bastante para demover espíritos ou até mesmo deslocar sobrancelhas da placidez contemplativa de quem assiste algo já pensando nas dificuldades de tirar o carro do estacionamento ou qual será o jantar. Bem, “Cache“, do mesmo Hanake detonou com aquela cena do suicídio e com aqueles tapes perturbadores… E o que mais?

Há algum humor judaico em “Território restrito“, há um atordoado Harrison Ford vagando entre as fendas que separam a América do México (drama real explorado em imagens no livro “Êxodos, do fotógrafo Sebastião Salgado) com seu passe livre natural, ser americano, fazendo-nos crer que há alguma humanidade mesmo na Gestapo (como sugere uma das personagens). Bastou o rosto sofrido de Alice Braga (fazendo as vezes de mexicana) para convencê-lo de que aquele processo todo é desumano? Ah… tenha dó!

Uma salada, na verdade, é o que temos. Porque além das rusgas entre nativos e imigrantes ilegais, também a sombra do 11 de setembro alimenta a paranóia que faz com que uma simples redação escolar se transforme numa espécie de carta-ameaça. A anteposição a um país que diz preservar sempre a liberdade de expressão esbarra facilmente em leis de segurança que parecem serem destinadas aos mais extremistas. Pô, não há burocratas moderados? Parece que não…

E quando um burocrata resolve violar o sistema… não é que ele é pego com as calças nas mãos por conta das coincidências? Não há chance para deslizes nesta sociedade plenamente vigiada, pois se uma estudante é alvo de investigação dirigida a terroristas de verdade e se um funcionário Zé Ninguém resolve manipular o sistema é como se todos os anti-corpos morais do grande corpo da América entrassem automaticamente em ação para livrá-los de todo o mal.

Personagens vivem e não vivem: quando vivem veem suas vidas interrompidas pelo governo ou pelo moralismo familiar. Quando não vivem são compelidos a viverem em busca de algum sentido. Com tantas ligações não só o território é restrito, as ambições cinematográficas também parecem ter encontrado restrições severas: de imaginação e de virulência, por exemplo.

Cisne Negro (Black Swan, 2010)

Em nome da arte morrerei para dar vida ao personagem. É com está frase que inicio a análise de um dos maiores filmes de todos os tempos “Cisne Negro”.

Desde o início é possível deduzir no que o filme se tornará no decorrer de sua trama: um pesadelo. Ambientado nos bastidores do prestigiado New York City Ballet, a trama gira em torno de Nina, uma bailarina que se vê diante da chance de interpretar o papel principal em uma montagem de “O Lago dos Cisnes”, de Piotr Ilitch Tchaikovsky.

O filme em sua abordagem traz uma linguagem expressiva e corporal presente na dança, na arte de falar com o corpo. Insegura e sem amigos, Nina vive exclusivamente para a dança, sempre limitada à superproteção de sua mãe.

Pressionada por seu mentor e coreógrafo, Nina terá sua competência posta em xeque; sua fragilidade comprometeria a interpretação do papel que almeja a Rainha dos Cisnes, visto que teria que interpretar simultaneamente o cisne branco (símbolo da pureza e ingenuidade) e o cisne negro (metáfora para a malícia, sensualidade e maldade). O pesadelo da bailarina toma forma na figura de duas colegas de profissão.

Expressivamente o filme mantém um suspense ilusório o qual perpassa todo o filme e nos leva as diferentes interpretações. Nina nos mostra que a arte em sua plena interpretação pode levar a morte do artista.

Na busca pela perfeição e na tentativa de provar a Thomas que é capaz de expor seu lado mais selvagem, Nina é conduzida de tal forma pelo papel que interpreta que não consegue perceber os limites entre sonho e realidade, que começam a definir sua vida. Aos poucos, seu destino se sobrepõe ao enredo de “O Lago dos Cisnes”. Seu lado negro, exemplificado pela essência de sua feminilidade, aflora e toma conta de sua personalidade sem que ela consiga controlá-lo. Dá-se inicio a uma metamorfose física, mental, imaginativa, real, ou todas ao mesmo tempo e isto que conduzirá a protagonista ao conflito.

No decorrer do filme notamos em inúmeras cenas uma linguagem comportamental de Nina tontamente estranha e neurótica. É possível sentir na pele cada arranhão, cada sangramento, cada ferida a cicatrizar no corpo da personagem. À medida que cresce a paranóia de Nina, cresce o interesse do espectador pelo desfecho da trama.

Para fazer uma belíssima interpretação Nina deixa de viver a realidade. Um sacrifício, martírio em no nome da ganância, superação, arte e do esforço intenso em conhecimento, aprimoramento e domínio das técnicas de dança.

Na trama, notamos que a mensagem é transmitida através das imagens e não das palavras, o diretor convida o público a apreciar a loucura e a sensatez de sua protagonista sem propor julgamentos. “Cisne Negro” é construído sobre a ambiguidade que faz da produção cinematográfica, um filme atrativo e misterioso. E isto se relaciona com as imagens que podemos ver nos espelhos, ilusões materializadas que promovem excitação, curiosidade, medo, angústia e mistério a quem se propõe fazer um mergulho analítico da história de Nina.

No filme encontramos cenas em que Nina se mostram inofensivas revelam-se brutal estruturando momentos de extremo impacto psicológico que inspira a obra; uma perspectiva que trabalha pessoas com dupla identidade.

O filme é uma obra de arte que nos inspira a faz com que a memória refute as ideias e a partir daí, possamos realizar uma análise que caminha para diversas interpretações. Mas podemos concluir que a arte de encenar se tornou um vicio, algo patológico na vida de Nina que desejava a perfeição em a qualquer custo.

Afinal, o filme possui um poder de elucidar os telespectadores, seja pelo impacto do desfecho da história, seja pela pressão psicológica compartilhada com os personagens, no entanto o lado branco ou o lado negro do cisne interior que possuímos será convidado a se manifestar. Pois só fazendo um mergulho profundo na trama que entenderemos que a perfeição é propriamente dita inimiga da perfeição e no mais a rivalidade é um devaneio que leva o indivíduo a própria morte.

A Bússola de Ouro (The Golden Compass. 2007)

O filme “A Bússola de Ouro” é baseado na obra de Philip Pullman, chamado de “His Dark Materials”, cuja tradução é: “ Seus trabalhos das trevas”. Na Inglaterra seus livros são mais populares do que o famoso “Harry Potter”, a série sobre o menino bruxo que ganhou destaque como o filme campeão em bilheterias vendidas, o qual se tornou símbolo de sucesso e popularidade nós quatros cantos do mundo.

Ao analisar o filme “A Bússola de Ouro”, notamos que o mesmo segue a história original, retratando um fantástico mundo paralelo onde às almas das pessoas se manifestam como pequenos animais chamados de “daemons” ou demônios em português.

Pullman em sua obra tem a ousadia de trabalhar a morte de Deus e na essência do filme notamos que ele deseja que todas as crianças deixem de acreditar em Deus. Creio que o filme não é uma ameaça e sim uma porta para fortalecer ainda mais a fé que temos em Deus um ser que tudo faz e que nos leva a paz divina. Mesmo ele tentando levar uma mensagem negativa e demoníaca não conseguirá êxito total na contaminação de uma geração.

O filme também trabalha um conceito classificatório que nunca podemos afirmar como algo concreto. No filme os bonzinhos têm cara de mal e os maus tem cara de bonzinhos, seres bonitos mostram que nem sempre o que é feito ou monstruoso é ruim e nem sempre o que se diz bonito é bom; mas vamos concordar que nem sempre a ordens dos fatores são exatamente está.

O filme visa trabalhar a ideia da mentira como algo sem problemas assim é afirmado por um personagem do filme: “uma mentirinha só não tem problemas”. Não vejo problemas com relação a está afirmativa, pois a nossa sociedade se constitui em meia a corrupção que não difere do conceito mentira.

A produção cinematográfica é arquitetada em meio a inúmeros efeitos especiais que prisma uma beleza encantadora, provocando polêmica e repulsão por grupos religiosos que em outros casos deveria olhar com mais atenção em problemas como: pedófila, violência, fome, terrorismo, corrupção, etc.

No concerne da análise notamos que o filme traz em sua totalidade uma visão radical de liberdade de conceitos construídos ao longo dos séculos. Promovendo uma ruptura até mesmo com Deus e com seu reino; colocando em voga uma polêmica que não só atinge as crianças, pois no fundo “todos” os seres humanos do planeta temem os conceitos demoníacos que foram concretizados ao longo da história da humanidade.