Quebrando Todas as Regras (Global Heresy. 2002)

A chamada do filme dava total destaque a uma dupla inusitada, não apenas pela já caracterização dos personagens, mas também pela longa distância – idade e carreira – entre os dois atores. Um deles já carimbava meu passaporte para assistir: o genial Peter O’Toole. Antes de citar o nome da jovem, cito de uma outra atriz que também me motivou a assistir esse filme: o de Joan Plowright, a nossa inesquecível Sra. Wilson vizinha do Pimentinha. Nesse aqui ela também vive a esposa de um cara nada sociável. Vê-la atuando é sempre um presente; e eu aplauso com entusiasmo a quem dá espaço para os atores de mais idade. Numa atualidade onde se dá destaque aos bem mais jovens, “Quebrando Todas as Regras” mostra que há lugar para todos coabitarem com harmonia. Agora sim o outro nome da tal dupla: Alicia Silverstone. A eterna Patricinha de Beverly Hills.

Já no início, o filme me conquistou, e fui assim até o final. A estória coloca o casal Foxley (Peter O’Toole e Joan Plowright) tendo que conviver por um mês com uma banda de rock em seu castelo, e se passando por empregados. Por estarem à beira da ruína, o casal da folga aos empregados por não querer que ninguém saiba da real situação financeira em que se encontram. Numa de precisarem com urgência de uma grande soma em dinheiro, decidem alugar o castelo. Marinheiros de primeira viagem nessa empreitada, ao contratarem um mordomo e uma cozinheira, acabam caindo numa firma de picaretas; ficando sem os serviçais e sem a grana. Assim, sem tempo, como também sem o dinheiro da multa que pagariam caso cancelasse o aluguel do castelo, eles se vêem obrigados a se passarem por um casal de empregados, e em sua própria casa.

Mas as agruras vão além. Lord Foxley achava que tinha alugado para um grupo de executivos de uma multinacional. Dai pensa em desistir ao ver que seria um grupo de jovens, e integrantes de uma banda, que se hospedariam ali. E para desespero maior, eles vieram para ensaiarem para uma nova turnê. Mas Lady Foxley lembra da multa e diz que era hora de engolir o orgulho: cozinhando, limpando, arrumando, servindo…

E entre som alto, e o menor jeito com os afazeres domésticos, o casal e a turma jovem também tentam se afinarem. Nessa longa jornada também haverá uma misteriosa convidada aumentando o desconforto do Lord Foxley. Como também um espião a serviço da Gravadora. Ainda colocando um tempero a mais, Nat (Alicia Silverstone) que fora contratada como substituto do baixista que desaparecera, terá que provar que pode ficar em definitivo na banda Global Heresy.

Com uma trilha sonora bem legal, confusões, e onde alguns dos personagens reavaliam os próprios pensamentos, somos brindados com um bom filme. Eu me surpreendi. Assisti pela tv, numa de procurar algo para passar o tempo. E até voltaria a rever, se reprisarem.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Quebrando Todas as Regras (Global Heresy. 2002). Reino Unido, Canadá. Direção: Sidney J Furie.  +Elenco. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 106 minutos.

Gigantes de Aço (Real Steel. 2011). Os Vídeos Games tornando-se vida real…

Quando eu vi um teaser desse filme, me deixou no mínimo curiosa. Já que parecia ser, ou ter, uma mistura de “O Campeão”, de Franco Zeffirelli, com “Karatê Kid – A Hora da Verdade”, com Pat Morita, sendo que nesse caso seria o jovem a doutrinar o mais velho. Eu não curto lutas seja de qual categoria for – livre, boxe, ninja… -, mas tendo um personagem em fase de entrar na adolescência num tema como esse é um outro fator que me levar a querer ver o filme. Como se não bastasse, teria Hugh Jackman e a Kate de Lost, a atriz Evangeline Lilly, no elenco. Então, com o passaporte carimbado, era esperar “Gigantes de Aço” aportar em solo brasileiro. Assisti e…

Porque de não gostando de esportes violentos, ter gostado desse filme que traz lutas:

Gigantes de Aço” traz uma certa evolução em lutas: de galos de brigas para robôs. Num tempo onde a luta entre humanos fora proibida, surgiram os robôs criados para esse fim. Verdadeiras máquinas programadas para matar. Fiquei pensando se a tal proibição viera como consequência da onda do politicamente correto. Não que isso faça parte da trama, seria mais para tentar definir o perfil do personagem de Hugh Jackman, o Charlie, como os dos demais que escolhem esse tipo de esporte.

Há bem pouco tempo que eu vi com outros olhos aqueles que escolhem lutar boxe, por exemplo. Sem o menor eufemismo: seriam pessoas que gostam de bater com muita violência, e que não se importam de sofrerem a mesma agressão. O meu preconceito quanto a isso mudou com um programa de tv. Numa região conturbada, carente até de recursos sociais, com o tráfico de drogas agenciando cada vez mais os menores, um morador mantinha com parcos recursos um pequeno Ginásio. Disse ele que cada jovem que ali ia lutar boxe, era um a menos a ser tornar um criminoso. Disse mais, que ele também fora um deles. A chance que ele teve, e o que o fez mudar de vida, decidiu dar aos jovens de agora. Era o que ele sabia fazer de melhor. Enquanto eles queimavam toda a adrenalina naquele ringue, estariam a salvos.

É de fato algo salutar da pessoa que tem em si um lado violento se conseguir canalizá-lo em algum esporte onde poderá descarregar toda a sua adrenalina. Ainda dentro de uma personalidade sem uma sociopatia, porque para essas outras caberia uma pescrição médica. Mas mesmo que seja algo cultural, nem todos possuem esse instinto violento. Um instinto de sobrevivência sim, atinge uma parcela bem maior, e por ele pode-se por em uso um revide violento. Agora tudo isso transparece o não uso do lado racional; ou que ele é quase inexistente. Mas enfim, se é nato ou não, se é por sair-se melhor em algo físico ou não… eu ainda não curto a violência.

Charlie foi uma cria de um ringue. Tivera como mestre o pai de Bailey (Evangeline Lilly). O Boxe era o seu único talento. Com a proibição de lutas homem-a-homem ele passou a comandar robôs quase sucatas. Mas sem muito discernimento, apostava mais do que poderia ganhar. Com isso, sua dívida aumentava e para uma turma que não deixava barato. O que prejudicava Bailey. Ela herdara o antigo Ginásio de Boxe do pai. Embora tenha se aperfeiçoado em comando e mecânica de robôs, com a sequência de derrotas dos seus robôs estava perto de perder o prédio. E meio que ficou esperando por um milagre cair do céu.

A sorte um dia pode mudar, mas o talento fica!

E o tal milagre veio com os dois outros personagens. Primeiro, com Max (Dakota Goyo). Que com a morte da mãe, a justiça procura pelo pai, no caso, Charlie. Obrigados a conviverem por um período, a princípio, os dois se estranham. Depois, como Max é um aficcionado por video-games e dessas lutas entre robôs, a relação entre os dois passa por um período de tolerância. Max após passar por um grande abalo emocional, conhece e se liga a uma sucata de um robô. Ele é Atom. Que com a evolução dos robôs, fora descartado. Max pede ajuda a Baley para colocá-lo operante e então levar o pai a acreditar que Atom poderá voltar a lutar novamente.

Um único ponto negativo, mas que não tirou o brilho do filme, fora com uma personagem feminina.

O da atriz Evangeline Lilly. Ela não fez feio, mas com o seu personagem não tinha como despontar. Já que o filme focou mesmo três personagens masculinos.

Enfim, a trama é previsível, mas ao mesmo tempo prende atenção, a ponto de quase no final ficar uma vontade de que demore mais. O que me fez pensar que se vier uma continuação, eu irei ver. Uma deixa para uma continuação aparece ainda no meio do filme numa cena com Max e Atom. Então, é mais que um pipoca, “Gigantes de Aço” é muito bom! De querer rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Gigantes de Aço (Real Steel. 2011). EUA. Diretor: Shawn Levy. +Elenco. Gênero: Ação, Esporte, Drama, Sci-Fi. Duração: 127 minutos.

O Guarda (The Guard. 2011)

Além de gostar muito de Comédias, o título desse me fez ficar com saudades de uma série de filmes onde o ator Louis de Funès interpretava um gendarme. É no mínimo curioso em ver os holofotes focando um cara da lei. Mas também tem Don Cheadle no elenco. Um ator que arrasa em Drama. Dai, quis vê-lo num papel cômico. E por último, o país de origem desse filme: Irlanda.

Começo então pelo Cinema desse povo insular europeu, que possuem um tipo de humor admirável. Se o tema é contravenção acobertada até pela sociedade local, eu lembro de “O Barato de Grace“. Eu não sei se o Diretor, que também assina o Roteiro, John Michael McDonagh, foi, ou é um também fã dos Monty Python. É que há um quê deles aqui. Até em mostrar personagens cultos, mesmo escrachando o modus operandi deles próprios. “O Guarda” transita entre a paródia e uma homenagem a filmes de mocinho versus bandido. Se posicionando contra o FBI, para logo em seguida mostrarem-se fãs da série CSI. Hilário essas cenas.

Embora os caras-da-lei também ajam como foras-da-lei, há um trio de bandidos bem inusitados. Na realidade eram quatro, um deles aparece morto logo no início do filme. Quanto ao trio, temos: o que se acha o poderoso chefão, o Francis (Liam Cunningham); o insatisfeito com a passividade da polícia local dando a eles plena liberdade de agirem, o Clive (Mark Strong); e o que faz questão de dizer que não é um psicopata, mas sim um sociopata, o Liam (David Wilmot). Esses trio, enquanto aguardam um grande carregamento de drogas, que chegará pelo mar, entre matar e corromper tiras, discutem Filosofia e Literatura. Ou melhor, que filólogo ou escritor cada um prefere. Se Schopenhauer, Nietzsche, Bertrand Russell… Ah! O Liam também é fã trompetista Chet Baker.

O personagem principal é o policial nada ortodoxo Sargento Gerry Boyle (Brendan Gleeson). Com ele também teremos o aprofundamento em como chegaram a essa cumplicidade quase explícita com um sistema já tão corrompido. Pode não ser a causa, mas pelo menos explica o fato. Gerry tenta lidar bem com o fato da mãe estar com pouco tempo de vida. Pois não entende como, se ela ainda se mostra cheia de vida. A atriz Fionnula Flanagan é quem faz a mãe de Gerry. Ao visitá-la, entre outros assuntos, gostam de conversar sobre escritores russos.

Em se tratando da Irlanda, não haveria de faltar o IRA. Ou, de quem facilita a chegada de armas até eles. Mas esse não é o motivo que levará um agente do FBI até lá, mas sim o tal carregamento de drogas. Wendell Everett (Don Cheadle) ficará que nem cego em tiroteio para conseguir o seu intento. Além de não perceber o quanto de liberdade tem os bandidos por ali, se sentirá perdido porque os habitantes não falam inglês. Numa de: ‘Se você quer ouvir alguém falar inglês, vá para Londres‘. É um escracho total com o FBI.

Gerry e Everett serão uma dupla para lá de dinâmica. E nesse ponto, é melhor deixar o modo politicamente correto desligado para se divertir com com o que Gerry diz, e a cara de Everett ao ouvir. Gerry não tem papas na língua. A grande questão é que certas falas podem sim magoar as pessoas, por conta do racismo. Mas o exagero aqui fica por conta dos esteriótipos até enfatizados pelo Cinema. Como também pelo filme debochar de muito mais coisas.

Assim, com um Roteiro enxuto e afiado, uma Direção que mostrou que veio pegar o seu lugar ao sol, com ótimas atuações, uma Trilha Sonora também perfeita, temos em “O Guarda” um ótimo filme. De querer rever. Nota 9,0.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Guarda (The Guard. 2011). Irlanda. Direção e Roteiro: John Michael McDonagh. Gênero: Comédia, Crime, Policial, Thriller. Duração: 96 minutos.

A outra Terra (Another Earth, 2011). Interregno Científico

Por Fabio Montarroios
Tive que esperar 14 anos para que pudesse assistir outro grande filme que trata da possibilidade da vida lá fora: desde Contato, de 1997, nada de muito interessante apareceu… Felizmente agora temos  A Outra Terra, de 2011.

No primeiro, Eleanor Arroway (Jodie Foster) era uma brilhante e incansável cientista que se dispunha a enfrentar tudo para avançar em suas pesquisas e provar que estava certa. No segundo, Rhoda Williams (Brit Marling), uma reles estudante, que talvez até viesse a se tornar ela também uma brilhante e incansável cientista, mas tendo sua vida interrompida por um terrível acidente, passa boa parte do filme tentando provar, especialmente para si mesma, que estava errada, isto é, continuava errada.

O problema é que este “si mesma” sai de cena e entra em cartaz um outro Eu. Sim, descobriram um outro planeta, idêntico a Terra, e todos ficam ainda mais estarrecidos quando descobrem que lá há um outro Eu de todos.

No decorrer do filme, quando Rhoda parte em busca de uma nova vida, a faxina é eleita a atividade para lhe ocupar as mãos e como metáfora: só que não adianta querer limpar a bagunça, tirar uma mancha difícil, ou fazer desaparecer a pichação, pois tudo precisará ser refeito, sempre. Afinal, as merdas do passado não se apagam com um simples pedido de desculpas – algo que Rhoda sequer consegue balbuciar quando está diante daquele que mais sofreu com a tragédia que ela mesma causou… O pior é que a partir disto se estabelece uma relação ainda igualmente conflitante, mas com o Outro.

Rhoda, então, escolhe mudar de rota (mesmo porque já tinha se desviado de um futuro melhor): trocar de planeta! Esta possibilidade aparece em seu horizonte em um daqueles concursos com frases criativas. O ganhador terá o direito a viajar ao planeta recém descoberto. Parece ser a chance de redenção de Rhoda – apesar de ter sido a fonte original de toda a sua desgraça. Enfim, ela quer partir para tentar evitar que o mesmo aconteça com seu outro Eu no outro planeta.

Um filme marcado pelo silêncio e pela angústia. Algo que certamente nos parecerá particularmente estranho, especialmente vendo jovens da idade de Rhoda, aqui na vida real do Brasil, fugindo as suas responsabilidades quando estes cometem crimes no trânsito. Destruir a vida das pessoas não deveria ser algo fácil de esquecer… E a solução parece ser possível só na ficção… Mas aqui, no Brasil, não…todos parecem possuir um outro Eu, aliás, varios, a quem recorrer e desviar dos problemas, como se nada tivesse acontecido…

Bem, infelizmente no cinema não há portais para atravessarmos e encurtar a espera: é preciso que alguém de talento coloque as mãos na massa. Mesmo havendo críticas negativas em relação a este filme, não se engane: a falta de sensibilidade e rótulos fáceis servem apenas para quebrar a sequência de grandes filmes que, de certa forma, se ligam. Sim, este filme tem ainda outro laço: Solyaris, de Andrei Tarkovskiy.

Por Fabio Montarroios.

A outra Terra (Another Earth. 2011). EUA. Direção: Mike Cahill. Roteiro: Brit Marling, Mike Cahill. Elenco: Brit Marling, William Mapother, Flint Beverage, Jordan Baker, Robin Taylor, Kumar Pallana. Gênero: Drama. Duração: 92 Minutos.

A Pele Que Habito. Obra-prima de Pedro Almodóvar!

Uau! Essa foi uma das exclamações proferidas durante e mais intensamente ao final do filme. Os créditos finais subindo, e eu ali em puro êxtase. Fora preciso meu sobrinho dizer um – Vamos!? -, para que eu voltasse a realidade de ter que sair do Cinema. Tinha presenciado uma Obra-prima! Pedro Almodóvar se superou! Ele assina a Direção e o Roteiro. De uma estória que veio como um presente de Thierry Jonquet, já que dera asas e um pouso perfeito para a loucura que permeiou toda a sua obra até então. “A Pele que Habito” veio como uma consagração a esse gênio. Bravo!

Depois, fui me perguntando em como contaria sobre esse filme: com ou sem spoiler. Algo que seria difícil resistir porque havia alguns pontos que eu gostaria de analisar com mais detalhes. Com isso, se você ainda não assistiu, pare por aqui. Nem é tanto pelos spoilers, mas sim porque irá perder esse mesmo contentamento que eu senti. É sensacional em ir seguindo todo o fio que brilhantemente Almodóvar deixou para nós. Esse é um filme para ver sem ter lido nem uma linha a mais do que a sinopse oficial. Também porque aquilo que irá saber durante o filme o levará a se questionar. Refletir como uma pessoa comum. Ou até como se tivesse com o poder de votar contra ou a favor em temas abordados nele. Um desses tema me levou a exteriorizar uma outra exclamação: “Boa!”. E dita pelo meu lado nada politicamente correto, mas assinado-embaixo pela totalidade mulher. Foi muito bem merecido! Fora uma ideia genial!

Por isso, e muito mais, Vá ver o filme, e depois volte para deixar a sua opinião. Porque a partir daqui terá spoiler. E para quem já viu o filme, vem comigo!

No centro do universo desse filme temos a Cirurgia Plástica. E será por ela que inicio as reflexões.

O que levaria alguém a decidir ser um Cirurgião Plástico? Sentir o poder de criar uma criatura? Independente de padrões de beleza para cada cultura, por vezes o resultado do seu trabalho traz uma nova pessoa à vida. Mesmo que sustente que o faz muito mais com o fim de regenerar uma sequela, ou até mesmo para fins estéticos, no fundo deve sentir-se como um Deus. E se temos um Criador, também se tem a Criatura. Em “A Pele que Habito” temos um período na vida em conjunto do Criador e sua obra mais que perfeita. Faltando um detalhe. Já que se esculpe um corpo por fora. E como ficaria o interior desse ser?

Antes de falar da criatura do filme, focarei no geral de quem procura por um cirurgião plástico. O faz, desde uma simples insatisfação por parte de seu próprio corpo, até um desejo meio mórbido de não ser o que se é. Vaidades em vários níveis. Sem contar nas que perderam a própria pele, literalmente, de modo acidental ou não. De qualquer maneira, uma parte consciente optou por isso. Mesmo que tenha um lado que não queira concretizar um sonho.

Antonio Banderas, numa atuação magistral, faz o cirurgião plástico Roberto Ledgard. Um homem angustiado por problemas pessoais, mas empenhado no lado profissional. Por não ter conseguido regenerar todo o corpo queimado da esposa, se dedica ainda mais em conseguir uma pele perfeita em laboratório. Achando já estar no caminho, tenta encontrar um jeito de introduzir sua pesquisa no campo acadêmico. Algo ainda legalmente proibido. Em sua mansão bem isolada, mantém uma clínica pequena, mas muito bem aparelhada, e subsidiada pelo Instituto de Biotecnologia. Ao receber um não do presidente dessa instituição, decide prosseguir às escondidas; e sem sua equipe.

Um lobo em pelo de cordeiro…

A determinação, a paciência e a capacidade que Roberto tem como médico e cientista, não é a mesma ao lidar com a própria filha. Norma (Blanca Suárez) se desestruturou com a morte da mãe. Roberto delegou à Psiquiatria todos os cuidados da filha. Essa separação o fez ficar quase um estranho para ela. Claro que cada um reage de um jeito próprio diante de uma violência sofrida. Mas talvez se ele tivesse mais carinho, tivesse mais presente na vida de Norma, ela não o teria visto como o vilão. Bem se faltou amor de pai antes, não faltou depois. Mesmo que tarde demais para ter a filha de volta, ele vai atrás do real vilão da vida da filha. Ele é Vicente (Jan Cornet), que mesmo ciente do que fez, se acha impune, acreditando que não deixara pistas. Mas à noite, nem todos os gatos são pardos…

A ciência avança, quando alguém rompe a barreira do que é ético. Mesmo tendo quem mantenha-se vigilante nessa linha divisória. O filme prima por trazer, ou melhor, por manter um tema como esse ainda em mesa de debate: clonagem de partes do corpo humano. Questionável? Sim. Necessário? Talvez. Fechar questão? Não. Até porque pesquisas concretizadas, trariam qualidade de vida a um paciente.

Dizem que a pressa é a inimiga da perfeição. E um cirurgião plástico age com muita paciência. Roberto, sem mais pressa, já que seu lado pessoal se desmoronou, cuida de uma nova interna em sua clínica: Vera (Elena Anaya). Nela, tem a chance de testar seu experimento: a tão sonhada pele. Vera é mantida reclusa. Além de Roberto, só tem contato com Marília (Marisa Paredes), a governanta da casa. Enquanto a cicatrização não some por completo, tem como proteção uma malha no corpo, e uma máscara na cabeça.

Insanidade! Teria um fator genético? Que vem à superfície como resultante de um grande trauma? Como classificar esse tipo de comportamento em alguém que tem a consciência do que está fazendo? Alguém que leva uma vida à margem da lei e dos bons costumes traz um sinal de que? E alguém que por uma obsessão recente decide dar asas a algo muito louco, mas que seria como num tiro só acertar dois alvos distintos?

Roberto sabe que está bem perto de alcançar seu intento, e então poder mostrá-lo ao mundo científico. Acontece que o passado bate a sua porta. Era Zeca (Roberto Álamo), o filho que Marília entregou ao mundo. Ele chega justamente durante uma ausência do dono da casa. Marília pressionada muito mais pela culpa – sua escolha-de-sofia fora entre essa criança e uma estabilidade financeira -, do que pela vontade de revê-lo, deixa Zeca entrar na casa. Ele viera pedir por um tipo de esconderijo, por estar sendo procurado pela polícia por roubo a um banco. Só que ele foi além desse crime: matou um vigia do tal banco. Dai, não estava para brincadeiras. Como também barbarizou na casa de Roberto.

Como puderam ver, a Maternidade também se fez presente nesse filme de Almodóvar. Uma relação conflitante entre mãe e filho. Entre um filho que trouxe ao mundo e um que o mundo lhe trouxera. Afinal, ser mãe não é só gerar um filho. Tem que criar também. A mãe de Vicente dava mais carinho a jovem que trabalhava em seu Atelier, que a ele. Meio que a protegendo de seu rebelde filho. Zeca passou a infância trabalhando para o tráfico numa favela no Brasil. Procurando a mãe mais por lhe impor uma proteção tardia do que por amor. E em ambas visitas, deixou seu comportamento animal aflorar. Essas mães já anteviram que seus ventres não geraram bons frutos? Que não valiam por um sacrifício a mais? Quando Roberto chegou, vendo o que viu, decide por um fim em um fantasma do passado.

E dai em diante seria vida que segue? Não. Enquanto tiver outros fantasmas assombrando, não se atinge uma oitava maior. Outros ciclos voltam para atormentar, com pesos maiores para outras rodadas da roda da vida.

Sem um happy end, nem poderia haver, onde minha interjeição final fora um “Putz!”, mas já eletrizada por ter visto um primor de filme, “A Pele Que Habito” veio para pontuar a carreira de Pedro Almodóvar. Que além da estória, de como foi contada, da Direção, da performance de todos os atores, quero destacar que a Trilha Sonora também foi muito bem escolhida. Há uma cena onde mais parecia um som de um bate-estaca. Na hora eu não gostei dela, mas depois já ciente de um outro detalhe, achei mais que perfeita. E então meio que tardio, proferi um “Bem feito!”.

Não deixem de ver esse primor de filme. Nota Máxima!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Pele Que Habito (La Piel que Habito. 2011). Espanha. Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Blanca Suárez, Eduard Fernández, José Luis Gómez, Bárbara Lennie, Susi Sánchez. Gênero: Suspense. Duração: 133 minutos. Baseado no livro de Thierry Jonquet. Trilha Sonora: Alberto Iglesias. Classificação: 16 anos.

Isolados (Long Weekend. 2008)

Diz um ditado que o mundo é pequeno e cheio de coincidências. De fato, e sou testemunha de duas ótimas do mundo cinematográfico tão irresistível que não comentar aqui seria maldade.

Cultivo um carinho especial pelo ator Jim Caviezel, e admiro os trabalhos do diretor Terrence Malick, duas figuras da sétima arte que recentemente me surpreenderam. Malick está nas telonas com seu maravilhoso “Árvore da Vida”, e Caviezel foi manchete dos jornais nesta semana, numa crítica relevantemente maldosa sob o título “Da Paixão à ressurreição pela via da TV”, diz que “Crucificado como o Jesus ensanguentado de Mel Gibson em “A Paixão de Cristo” o ator James Caviezel encara estréia do seriado “Person of interest”, novo projeto da grife J.J. Abrams (“LOST”), que tem escolhido mal seus projetos, que sua carreia está sucateada, e o ator que assinava Jim Caviezel desde a sua estréia , nos anos 1990, desistiu até de seu apelido, passando agora a usar profissionalmente seu nome de batismo James Caviezel.

“– A grande responsabilidade de um artista em relação à televisão é que, a cada novo episódio de uma série, você consegue se relacionar não apenas com o seu público de cinema, mas com os milhões de espectadores que não frequentam as salas exibidoras” disse Caviezel.

O primeiro filme com o ator Jim Caviezel que eu assisti foi o de guerra “Além da Linha Vermelha” dirigido pelo ótimo Terrence Frederick Malick, (que bela coincidência novamente!) (do mais novo e badalado trabalho que falei acima, “Árvore da Vida”) – no qual Caviezel interpretava um soldado americano enviado para substituir um pelotão já muito cansado, e lá ele conheceu um terror que nem imaginava, tendo uma atuação impecável deixando uma ótima impressão, e foi a partir daí que passei a admirá-lo pelo seu talento e brilhantismo, super metódico e completamente à vontade, buscando através da expressividade bastante convincente do seu olhar encontrar o do espectador… Como acontece… Às vezes se olha e não se vê, ou se vê e não se enxerga. Quando assisti a “A Paixão de Cristo” dirigido por Mel Gibson com Jim Caviezel interpretando o Filho de Deus, a minha certeza do excelente ator definitivamente se confirmou. Naquele instante pensei comigo que esse ator poderia até se aposentar, que não precisaria de nenhum outro trabalho para provar o quão bom profissional ele é. Mas Caviezel é jovem tem muita história pela frente para interpretar e dar esse prazer aos seus fãs por longa data ainda, nos divertindo e nos fazendo ir ao filme por sua causa, não acha? A vida segue e… de repente me deparei com ele que, para mim, andava sumido, em DVD em uma prateleira de locadora trazendo o próprio como protagonista de um filme, digamos, não tão grandioso como o que o consagrou, mas que vale a pena conferir.

Isolados (Long Weekend) é o título contando a história de um jovem casal que decide acampar em uma praia paradisíaca – a terra que o mundo esqueceu – a fim de tentar salvar seu casamento e aproveitar um feriado prolongado e também para surfar. O cachorro que não deveria ir, acaba sendo descoberto escondido no bagageiro para a alegria de Peter e indignação de Karla.

Vão de carro e combinaram com um casal de amigos para se encontrarem lá. Acontece que acabam se perdendo, e param em um posto à beira de estrada e pedem informações, em vão, não conseguem ajuda, e mesmo assim encontram um ótimo lugar para acampar e percebem que não estão sós: uma família teve a mesma idéia.

Nota-se que desde o início há algo de estranho no ar; coisas incomuns começam a acontecer. O casal é do tipo que não está nem aí aos bons hábitos e atitudes; bons costumes junto à sociedade, principalmente nesses tempos em que se ouve muito falar na questão ambiental, em cuidar, preservar, plantar parece não fazer parte do vocabulário dele. Essa preocupação inexiste.

O que era para dar certo, acabar sendo uma tragédia anunciada. Já ouviu gente gorando que a natureza é vingativa? O que o homem faz de errado a ela recebe de volta? Mas essa bizarrice é pura fantasia desmitificando que nem sempre Vox populi, vox Dei, simplesmente porque a natureza não faz mais que seguir o seu curso… o rio correndo em direção ao mar, os pássaros procuram os céus, os animais a mata, e as sementes a terra. No decorrer dos dias, coisas misteriosas começam a acontecer com Peter e Karla.

Na estrada, Peter, da janela do seu carro, lança seu toco de cigarro que acaba provocando um incêndio na floresta; ao chegar ao paraíso perdido, sem motivo algum, sem necessidade, ele começa a derrubar uma árvore; Karla encontra um ovo de águia e o quebra propositalmente. E a partir daí coisas muito bizarras começam a perturbá-los e os aterrorizar.

A impressão que fica ao espectador é que a natureza entende que está sendo destratada e dá o troco. Há outro ditado que diz que aqui se faz aqui se paga…

O filme é basicamente a desconstrução psicológica de ambos. Como sair dali? Procuram pela válvula de escape em vão… e a natureza ou a mão de algum ambientalista tentando reverter a situação não deixando que destruam ainda mais o maravilhoso cenário que a bela fotografia nos brinda: mar, montanha, mata, animais, céu… parece que só o homem está sobrando ali e ele não é bem-vindo.

O filme não é nenhuma obra de arte, mas vale a pena conferir pela instigante história e como forma de conscientização na tentativa de ouvir o que a natureza tem para nos dizer levantando sua bandeira branca como forma de alerta aos de boa vontade e desavisados como que gritando sem agonizar para se defender “- E aí, esqueceu a educação em casa?” São alguns pequenos detalhes que deixamos escapar entre os dedos…

Para quem é fã de Jim Caviezel, vale conferir!

Karenina Rostov

 *

Sinopse: Um jovem casal decide acampar em uma praia isolada durante um feriado prolongado como uma última tentativa para tentar salvar seu casamento. Peter (James Caviezel) e Karla (Claudia Karvan) pensando apenas neles mesmos não se preocupam em preservar o local, fogueira, churrascos, serra elétrica e até uma espingarda fazem parte da diversão. Vale tudo nesse feriado. Agora, esse casal vai enfrentar a fúria da natureza e conhecer o seu lado mais sombrio.

ISOLADOS
Título original: Long Weekend
Duração: 88 minutos (1 hora e 28 minutos)
Gênero: Drama / Terror
Direção: Jamie Blanks
Ano: 2008
País de origem: AUSTRÁLIA